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Por morrer um ditador não acaba a primavera

A morte de Khadafi às mãos de uma turba ululante pode não ter sido bonita nem justa, mas está longe de ser a excepção à regra, de configurar algum presságio em especial para o futuro do regime líbio, ou de servir de bitola para avaliar a justiça do desfecho da guerra civil. A violência e arbitrariedade são parte integrante do ADN das ditaduras, e é natural que estejam presentes no fim destas, em directa proporção com a brutalidade com que foram exercidas e da maneira como caíram. Muitos ditadores foram executados imediatamente após a queda do regime. Nos países em que isso ocorreu, alguns transitaram para a democracia, outros nem por isso. Depende muito mais de como está estruturada a sociedade, quais as instituições que a suportam, se funcionam ou não, do que a “cultura” que é “revelada” por um acto de vingança mais ou menos compreensível e pontual. Os Romenos e os Italianos vingaram-se dos seus ditadores com execuções sumárias, e hoje são democracias perfeitamente normais. Os Iraquianos e japoneses julgaram em tribunal e executaram os seus, e hoje ninguém imagina um Japão não-democrático, embora para o Iraque isso possa ainda acontecer. Não foi nenhum julgamento que teve influência no respectivo desfecho.

Se os Líbios exibissem o cadáver de Khadafi na praça central durante uns dias, como exemplo, imagino o clamor indignado na bem-pensante sociedade ocidental, e os gritos de “selvajaria” que se fariam ouvir, as alegações que seria “impossível” que um regime desses sustentasse uma democracia baseada no primado das leis. Foi, no entanto, o que os italianos fizeram com Mussolini. E a sociedade e democracia italianas estão bem, muito obrigado.

O futuro da Líbia vai depender de inúmeros factores. O assassinato do ditador à margem de um julgamento não é um deles.

 

Blogger’s Digest

Uma selecção das melhores opiniões da semana, traduzidas para português corrente.

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José Manuel Fernandes, Blasfémias
Tiago Mendes, Cachimbo de Magritte
Henrique Raposo, Clube das Republicas mortas
João Ferreira do Amaral, 31 da Armada
Rodrigo Moita de Deus, 31 da Armada
Et tu, Cavacus? masmasmasmas…como te atreves? Não eras dos nossos? Então se não és dos nossos, és dos deles, e passas a levar o mesmo tratamento. Por isso, toma: Ignorante! Incompetente! Devias ter mas é vergonha! Deitaste o país abaixo! Só estás a defender mas é o teu bolso, não é?

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Fernando Moreira de Sá, Forte Apache
A  Fernanda Câncio escreveu um texto sobre o amor. E a Sábado – não eu, que detesto essas cuscuvilhices – diz que é de certeza dedicado ao Sócrates (Esta parte não tem nada a ver com a tese do post, é só para lembrar que a Câncio foi namorada do Sócrates, embora – repito – eu deteste coscuvilhices e considere a vida privada sagrada. Por isso leva só dois parágrafos sobre o tema. Sou um tipo decente, como podem ver. Bom, adiante) Ora, este texto não acaba na glória do  casamento envelhecer juntos, e quem não segue essa via é uma pessoa fútil, egoísta, pulha, ou ainda pior, uma arrivista que descarta as pessoas quando já não servem. Não que esteja a dizer que a Fernanda Câncio seja tudo isso, longe de mim tal ideia. Deve ser ficção, de certeza.

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Paulo Marcelo, Cachimbo de Magritte
Se o aborto fosse legal nos anos 50, o Steve Jobs teria sido abortado e agora não havia iPhone. Porque nos países que permitem o aborto toda a gente o faz porque é giro e está na moda, e por isso já não existem crianças para adopção. Foram todas abortadas.

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José Manuel Fernandes. Blasfémias
Querido filho, vou cantar-te uma canção de embalar. É assim:

Com que voz chorarei meu triste fado / que em tão dura prisão me sepultou / que mor não seja a dor que me deixou / o tempo, de meu bem desenganado?
Mas chorar não se estima neste estado / onde suspirar nunca aproveitou / triste quero viver, pois se mudou / em tristeza a alegria do passado.

O quê, agora não consegues dormir? Descansa, o cavaleiro Victor Gaspar vai salvar-nos. Já viste o meu carro? Grande máquina, hã? O problema é que todos quiseram ter um também. Cambada de fúteis.

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Tavares Moreira, Quarta República
1. Há uns patetas a pedir crescimento económico.
2. Não há financiamento
3. Muito menos ideias para isso
4. Eu pelo menos não tenho nenhuma. Nada. Zero.
5. E o governo também não.
6. Logo, se nós não sabemos, ninguém sabe.
7. Pelo que a única alternativa é empobrecer.
8. É o que os mercados esperam e premeiam.
9. Sendo assim, quem pede crescimento económico é patético.

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Pedro Brás Teixeira, Cachimbo de Magritte
Espero que os gregos se lixem em breve, e em grande. Para os podermos usar como exemplo.

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Daniel Oliveira, Arrastão
Uma menina foi atropelada na China e ninguém a foi salvar. A culpa, quase de certeza, é do capitalismo.

Recessão eleitoralista

O Rodrigo Moita de Deus faz aqui uma pergunta pertinente. Ora, claro que este orçamento, com os seus cortes muito para além do necessário, não advém de nenhuma necessidade psicológica de ser odiado, ou de sadismo. É apenas frieza calculista.

Numa esquerda em estado de choque, tenho visto dois tipos de explicações para este comportamento. A primeira, é que já sabem que existem mais despesas ocultas da responsabilidade do PSD, ou que a dívida da Madeira é muito maior do que sabemos, e estão já a preparar o terreno para lidar com essas despesas ao mesmo tempo que dão a entender que seriam ocultações do PS. É uma teoria válida, e que não descarto. A segunda, até mais habitual, explica isto com “ideologias” (a esquerda gosta muito de explicar tudo com ideologias). A ideia seria então “destruir” a economia e o país para poderem impor então a sua ideologia “neo-liberal”, cortar os direitos dos trabalhadores, acabar com o estado social, entregar tudo aos grandes interesses económicos, etc, etc.
Aqui, vão desculpar, mas não me façam rir. “Ideologias” nas mentes do PSD? Naqueles broncos que não fazem outra coisa do que aspirar a viver sob a protecção do estado e respectivos subsídios, de preferência encapotados? Só podem estar a brincar. O PSD de Passos falou muito de “liberalismo”, sem dúvida , mas sabemos perfeitamente que, como tudo o que diz, não passou de conversa para enganar tolos.

Para compreender a estratégia, creio que temos que descer a um nível mais básico da política: a manutenção do poder. O governo foi eleito em 2011, tem maioria absoluta e um presidente da mesma cor politica que tem mandato até 2016 , o que significa que só haverá novas eleições em 2015. Ou seja, trocado por miúdos, o orçamento que conta para a reeleição é o de 2014.
Sendo assim, e sabendo que o reajustamento da economia – que tem agora de ser feito desta maneira, uma vez que a direita forçou a vinda da troika – é um processo de muitos anos, havia dois caminhos: o “suave”, negociado por Sócrates, que procura reduzir a despesa tentando provocar menos estragos na economia (isto, claro, dentro da lógica sempre destrutiva da troika), mas que não daria margem para benesses durante um longo período, ou o segundo caminho, agora escolhido – fazer os cortes à bruta em dois anos apenas, marimbar-se para a economia e o sofrimento, ignorar equilíbrios delicados, aceitar a recessão, culpar e diabolizar o governo anterior, para com isto tentar ter margem de manobra para em 2014 poder repor alguma coisa e apresentar algum crescimento. Esta é a verdadeira “almofada” de Gaspar. Sabendo que após uma queda na economia muito superior à necessária ela voltará necessariamente a crescer, sobretudo se for entretanto implementado um programa de investimento europeu para a recuperação económica, permitindo ao PM recolher os louros e afirmar, como afirmará, que é a prova que o caminho foi duro mas estava correcto. Sem que ninguém se aperceba que é mais fácil subir de 10 do que tentar não baixar dos 20 e crescer a partir daí. É a lógica do negociador, levada ao limite – faço-os perder 50, para ficarem agradecidos quando devolver 20. Assim nem se lembram que perderam 30.
Para quem elogia a “coragem” de Passos, relembro que coragem a sério seria implementar medidas que procurassem salvaguardar o mais possível a economia e as pessoas, mas que durariam mais anos – até às eleições, provavelmente para além delas – e seriam sempre impopulares, pondo em risco a reeleição. Isto que se quer fazer não é coragem, é apenas calculismo.

Por isso, ideologia nenhuma, lamento. Sabemos perfeitamente, e a história confirma-o, que se Passos e o PSD  pudessem aumentar o défice até aos 10% apenas em benesses e auto-estradas era o que fariam. Mas não podem, porque estão sob supervisão e com o crédito cortado. O orçamento de 2012, e provavelmente o de 2013, não passa de puro cinismo e lógica de poder, indiferentes à sorte dos cidadãos. Exactamente o mesmo pensamento que levou ao chumbo do PEC IV.

Esta parece-me ser a estratégia. E, tenho pena de reconhecê-lo, com alguma sorte é bem provável que funcione.

Seguro, diz lá à malta

Se nós tivéssemos em Portugal um governo que não tivesse maioria absoluta no Parlamento, eu já teria dito, em nome do PS, que votaríamos a favor, fosse ele qual fosse, porque Portugal neste momento não poderia deixar de ter Orçamento e é do interesse nacional assim proceder.

António José Seguro, 8 de Outubro

Após a apresentação da proposta do OE2012, as hipóteses de votar contra já subiram para 0,0002%, ou estás à espera ainda de “ver se o Orçamento de Estado serve o país”? Vê lá bem, tu e o “colectivo“, estuda isso a fundo, faz mais uma reunião com o Cavaco ou com o Passos se não perceberes alguma coisa (não te esqueças de levar os jornalistas), se calhar o governo até tem razão e isto é tudo justificado pela irresponsabilidade do Sócrates, e o importante é o “interesse nacional”. Seja o orçamento qual seja, e ele aí está, apesar de nos enviar directamente para o fundo sem passar pela casa de partida.

PS: Não leves a mal o tom, não é desrespeitoso, é “afectuoso”. Percebes, não é?

Blogger’s Digest

Uma selecção das melhores opiniões da semana, traduzidas para português corrente. Edição especial OE2012

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Carlos Botelho, Cachimbo de Magritte
Pinho Cardão, Quarta República
Rui Crull Tabosa, Corta-Fitas
Vasco Campilho, Forte Apache
Fernando Moreira de Sá, Forte Apache
João Gonçalves, Portugal dos pequeninos
Luis M. Jorge, Vida breve
Nuno Gouveia, 31 da armada
Luis Naves, Forte Apache
Paulo Pinto Mascarenhas, ABC do PPM
Todos em coro agora: Sócrates! Sócrates! A culpa é do Sócrates. Ele é que faliu o país, ele é que chamou o FMI, ele é que é o responsável pelo orçamento de 2012. Quando é que o prendem?

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Rui a, Blasfémias
I love the smell of napalm in the morning.

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João Miranda, Blasfémias
The smell, you know that gasoline smell, the whole hill. Smelled like victory.

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Alexandre Homem Cristo, Cachimbo de Magritte
A malta que protesta contra o orçamento é a mesma que defendia as obras públicas que nos arruinaram, incluindo as que ainda não saíram do papel. E como todos sabem, as obras que ainda não sairam do papel foram as que  nos conduziram até aqui. Isso, as estradas de Cavaco, e os spas que Sócrates construiu para os miudos.

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Henrique Raposo, Expresso
Não gosto da ideia de se criminalizar a governação e a politica, como propõe Medina Carreira. Por isso, vou sugerir aqui uma maneira de fazê-lo de outra forma. Resume-se assim: Freeeport, Paulo Campos. Perceberam, ou é preciso um desenho?

O futuro é 404

Este blog tinha, à data deste texto, 6865 posts publicados. 6866 a contar com este. Esta produção só é possível por uma razão simples: tudo isto é fácil, gratuito e de existência passageira. Ao carregarem esta página, um disco rígido num servidor algures no mundo moveu-se ligeiramente, transmitiu a informação por fibra óptica, informação essa que passou por uns quantos routers até chegar ao processador que a traduziu para o ecrã que está à vossa frente. Com um custo que é, para efeitos práticos, zero. Não se paga nada para escrever, muito menos para ler, e o único custo associado é, ao que sei, a manutenção do blog que o Valupi assume – presumo que uma quantia irrisória (desconheço porque nunca me pediu um cêntimo).

Um dia, inevitavelmente, vai deixar de pagar, e o blog desaparece. Passará para o formato arquivo, numa primeira fase, e depois para o erro 404. E com ele, toda a produção – textos, comentários, polémicas – laboriosamente construí­da pelos seus vários autores ao longo de anos. O disco rígido escreve umas coisas por cima, e está feito. Esta é a essência da produção digital e online. Easy come, easy go, é assim e não há grande volta a dar.

É engraçado comparar com o que se passava há apenas uma ou duas dezenas de anos. Tudo o que era escrito vinha num suporte físico, sobretudo papel, cuja obtenção era bastante mais cara, a divulgação muito mais difícil, apenas ao alcance de alguns privilegiados, logo a produção muito menor. Tinha no entanto a vantagem da resiliência. O bloco de notas com uns poemas nunca publicados da tia-avó ficou esquecido na gaveta durante décadas, mas transmitiu-te a péssima poesia logo que o abriste, sem esforço. E como achaste graça, lá está no meio dos armários, pronto a passar para a próxima geração. Já o teu blog com poemas igualmente péssimos está, para todos os efeitos, publicado e aberto ao mundo, com milhares de milhões de leitores potenciais. Foste mais longe que a tua tia-avó, graças à tecnologia. Tirando que ninguém o lê, ninguém o vai preservar quando te fartares ou morreres, e ninguém o vai descobrir numa gaveta, porque quando desaparecer, é como se nunca tivesse existido. E o mesmo se passa com este, com os seus 1250 leitores diários. E com muitos outros, quase todos, desde blogs politicos a literários, passando pelas artes, pelos híbridos – como é que se preserva o f-world? – pelos pessoais, pelos diários,  reportagens, notas e relatos de autores conhecidos e desconhecidos. Nunca tivemos uma produção intelectual tão grande, e ao mesmo tempo tão efémera.

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Blogger’s Digest

Uma selecção das melhores opiniões da semana, traduzidas para português corrente.

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Ricardo Vicente, Forte Apache
A constituição, o regime, a republica, a monarquia, tudo isso é muito bonito, sim senhor. Mas comparado ao cheque-ensino, são coisas menores e sem interesse nenhum. O cheque-ensino é a bitola pela qual se mede a neutralidade do estado e a relevância da constituição. Isso é que devíamos comemorar.

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João Gonçalves, Portugal dos pequeninos
Houve uma menina que discursou no 5 de Outubro, mas só repetiu uma cassete sobre a Republica. Está enganada. Eu explico-lhe o que foi a Republica: meia dúzia de gatos pingados mal-intencionados que só fizeram porcaria. Deviam é ter ficado quietos, porque o verdadeiro republicano, como eu, só floresce no regime monárquico. Como se estava mesmo a ver, acabou tudo na ditadura de Salazar.  E isto do 25 de Abril vai pelo mesmo caminho. Vá por mim, menina, que eu percebo destas coisas.

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Henrique Raposo, Expresso
Já vos tinha dito que o Alberto João é o Sócrates, não tinha? Agora vou dizer o mesmo, mas por outras palavras, e aproveito para incluir o resto da esquerda e esta direcção do PS. Tudo para esconder o facto de Alberto João ser um dos mais importantes e destacados dirigentes do PSD. Observem maravilhados, por favor.

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Tiago Mota Saraiva, Aldeia dos macacos
Acho graça que o resto do mundo atribua um significado politico às acções do Mário Nogueira por tudo e por nada. As acções do Mário Nogueira só têm um significado politico quando o PCP diz que têm. Desta vez não disse, por isso não têm. Foi à Madeira porque lhe apeteceu.

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António Manuel Venda, Delito de Opinião
Redacção:
Eu fui estudar para Lisboa. Lisboa é uma cidade muito grande, confusa e um bocadinho assustadora, mas eu já sou grande e consegui não morrer à fome. Eu e os gatos. Em Lisboa vivem muitos socialistas, que se cruzaram comigo. Os socialistas são esquisitos, aparecem sem avisar, têm manias e são também assustadores. Um deles tinha bigode. Vê-se logo que são gente em que não se pode confiar. Eu não gostei nada de Lisboa e dos socialistas.

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Diogo Duarte Campos. Senatus
A patroa Merkel disse que o nosso país se estava a portar bem. E a Merkel, sendo estrangeira, nunca se engana. Logo, fica provado que as medidas da troika são boas e resultam, mesmo se os juros da dívida continuam lá em cima, sem se perceber porquê, e venha aí uma recessão. Felizmente, os mercados não querem saber de recessões, estão interessados na dívida e tamanho do estado. Os irresponsáveis dos socialistas é que insistiram em defender o país até à última, quando todos na direita ansiavam pelas medidas da troika, que são o remédio perfeito. E se são o remédio perfeito, então dá vontade de tomar mais ainda, para ser mais rápido e ficarmos mais saudáveis. Vão ver como resulta.

Açambarcamento de cérebros

 

No mundo inteiro, há apenas um punhado de pessoas que percebem o que é este gráfico aqui em cima, apesar de sermos todos afectados por ele. Este gráfico é o resultado de um algoritmo, um programa de computador desenhado para os mercados financeiros e lançado nos sistemas informáticos que os controlam. O que é que está a fazer e com que objectivo, apenas quem o lançou sabe dizer, todos os outros, mesmo os especialistas, não têm a certeza. Mas sabem que está a fazer várias operações de compra e venda por segundo, e como este há milhares a correr todos os dias nas bolsas e mercados mundiais. Desde 2005, pelo menos, que há uma espécie de corrida às armas no mundo financeiro para tornar estes programas mais rápidos e mais inteligentes, ao ponto de neste momento as operações serem tão rápidas que a própria distância entre computadores faz diferença. A velocidade da luz já não chega quando se medem as operações em nanosegundos.

No entanto, para que tal seja possível, as instituições financeiras precisam de talentos. Muitos e grandes talentos. Este tipo de instrumentos requerem algumas das mais brilhantes mentes matemáticas e analíticas que existem para os criarem e aperfeiçoarem. Este é um aspecto pouco discutido quando se fala do peso excessivo que hoje os bancos,  financeiras e hedge funds têm na economia. O facto de moverem enormes somas de dinheiro, e poderem por isso pagar salários muitíssimo acima da média, dá-lhes também uma vantagem injusta na atracção de talentos em comparação com outras industrias e instituições. Afinal, entre a investigação científica num instituto ou num centro de pesquisas e a construção de instrumentos financeiros complexos na banca de investimento ganhando 10 ou 20 vezes mais, não há verdadeiramente escolha. Por duas vezes o salário, muitos destes talentos pensarão realmente o que querem da vida. Por 10 vezes, a decisão é óbvia. E a perspectiva destes enormes ganhos funciona também nas escolhas académicas de muitos jovens universitários. Não sei quantos deixaram carreiras na física, astronomia, biologia e outras ciências para ingressarem no mundo financeiro, atraídos pelo irresistível poder do (muito) dinheiro, mas não é desprezível, e os resultados estão à vista: uma indústria financeira com instrumentos tão intrincados e complexos que ninguém, verdadeiramente, os compreende. Muito menos os regula eficazmente. Porque foram pensados e construídos por génios.

Este é apenas um aspecto, se calhar marginal, da ameaça que se tornou o sistema financeiro. Não devemos ser contra ele por princípio, como os comunistas e a esquerda pueril. Como alguém disse, e bem, os bancos são o óleo que permite que as engrenagens da economia de mercado funcionem sem atritos. São um orgão integral e essencial da nossa sociedade sem o qual esta não vive. Mas se o orgão cresce demasiado, assume demasiada importância e peso, consome demasiados recursos, e não só financeiros, asfixiando todos os outros, temos então que reconhecer uma coisa simples: estamos na presença de um tumor. E a imagem acima deixa de ser um gráfico, para passar a ser uma tomografia.

Por uma vez, concordo com ele

Carvalho da Silva elegeu ainda como alvo a «política desastrosa do Governo» do PSD e atacou o PS, ao considerar que «nenhuma força política que se afirma de Esquerda pode ter hesitações e admitir pactos ou entendimentos com políticas neoliberais ou neoconservadoras».

Fonte

Ora, tendo em conta que tanto o PCP como o BE não hesitaram em promover este entendimento com as forças neo-conservadoras, que resultou na implementação das maiores politicas neoliberais que há memória:

 

registo então, com espanto, que o líder da CGTP-IN, habitualmente conotada com os comunistas, considera que estes dois partidos não são de esquerda. Nada que já não se soubesse, mas este grito de revolta de Carvalho da Silva significa que se calhar algo de novo está a surgir no movimento sindical, não é? Jerónimo de Sousa que se cuide.

Blogger’s digest

Uma selecção das melhores opiniões da semana, traduzidas para português corrente.

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Rui Crull Tabosa, Corta-Fitas

O PS, que se especializou em dar cabo das finanças num periodo de grande crescimento e prosperidade mundial, que insistia em fazer e inaugurar obras, coisa que a direita não faz – ou quando faz é com sandes de paio e Tri-Naranjus – ainda não alinhou completamente na narrativa promovida pela direita de diabolização de Sócrates, o Belzebu corrupto. Isto não é aceitável. E é incompreensível e perigoso que não cedam imediatamente a quaisquer exigências da Alemanha sem argumentar e protestar, em vez de baixar a bolinha com um sorriso nos lábios e estender a mão, como nós na direita fazemos deliciados, insistindo em vez disso em opor-se a fazer uma jura que de agora em diante vamos portar-nos bem. Um tipo inofensivo e simpático como Seguro não devia prestar-se a estes números.

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Nuno Gouveia, Cachimbo de Magritte

Até que enfim que acabaram com a porcaria do Magalhães, não têm nada que andar a dar computadores a miúdos. Só querem é jogos os sacanas dos putos, eu sei porque tenho uns sobrinhos que não faziam nada com ele, por isso era assim no país todo, sobretudo os mais pobres.

E de qualquer maneira, só serviu para dar umas massas à JP Sá Couto, não é verdade? Nem sequer quiseram ir comprar ao estrangeiro ou à China. Como se fosse possível uma empresa nacional ter hipóteses nessa área. Apoiar a tecnologia nacional…pois sim…apoiar amigos com negócios escuros, essa é que é essa.  Toda a gente sabe, por isso é que aqui o digo, embora por indirectas, não vá alguém pedir-me para fundamentar a acusação. E ainda por cima aquilo dava boa imagem ao Sócrates e toda a gente se ia lembrar sempre dele, e isso é que não pode ser.

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Bagão Felix, Correio da Manhã

Estou muito aborrecido com a carapuça que o senhor Cardeal me obrigou a enfiar. Como pode verificar pelo meu cartão, somos até sócios do mesmo clube, o dos puros, e não é justo acusar-me de ser corrupto. Foi isso que quis dizer, não foi? É que não estou nada a ver que pudesse ser outra coisa.

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jfd, Forte Apache

O Zorrinho e o Seguro criticaram o Pedro por um disparate que ele disse, e ainda não perceberam que o que conta é o que o Relvas diz. Eu fiquei, tipo, duuuuh. E depois fizeram umas cenas muita maradas lá no parlamento. Que palhaços. LOL. :P

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João Gonçalves, Portugal dos Pequeninos

O Sr. Presidente Cavaco Silva deu-nos a honra de uma magnífica entrevista, onde esteve muito bem como é habitual, e demonstrou que quem manda é ele. Disse, por exemplo, que não tinha sido apanhado em excesso de velocidade, porque se limitou a carregar num pedal, no estrito cumprimento dos seus poderes como motorista, sendo que o motor é que fez as rodas girar mais depressa. O que qualquer um que não seja mentecapto percebe ser a verdade.

Já o Zorrinho veio dizer que o discurso do PR e do governo é o mesmo. Mas se ele é que manda, queria o quê? Independência e isenção? Não ouviram as instruções do Sr. Presidente Cavaco Silva que agora é para ser como ele manda? Estão à espera de…?

O portador da tocha

Há já um consenso bastante alargado, até na direita, que o ministro Álvaro é a peça mais fraca deste governo. Embora haja outros candidatos, tenho que concordar pela importância crucial do seu ministério. O que não concordo é que seja tratado como uma anomalia, uma má escolha. O Álvaro não tem obviamente a mínima ideia do que quer fazer, da realidade do país em que vive, já para não falar da Europa e do resto do mundo. Por isso, atira cá para fora com todas as ideias que lhe ocorrem, ideias essas claramente fruto de uma mente que deixou de reconhecer o país algures nos anos 80. São de uma banalidade atroz, não têm o mínimo de pensamento estratégico, de inovação, de originalidade, repetem chavões de jornal regional, são muitas vezes ofensivas – já todos percebemos o que é que esta personagem pensa dos portugueses e das suas capacidades. E creio que se podem tirar duas conclusões: primeiro, que ele próprio já se apercebeu que isto é nitidamente areia de mais para tão fraca camioneta. Segundo, mesmo tendo essa consciência, não desiste e prefere tentar a fuga para a frente, aumentar o nível de bullshit uns valentes pontos, convencido como está que somos todos um bando de estúpidos que comem qualquer coisa desde que seja dita “com convicção” e que os planos soem a grandiosos. Daí as expressões “aventura”, “marca Portugal” e “revolução”.

Portanto, incompetência, aventureirismo, banalidade, bullshit, falta de ideias na exacta proporção de “convicções firmes”, grandes promessas a esconder um ainda maior vazio de qualquer coisa que sequer cheire a estratégia, a óbvia satisfação de “mamã, sou ministro”, um ar simpático com um sorriso pronto para as câmaras. Eis o Álvaro. Como símbolo deste governo e de tudo o que representa, é realmente perfeito.

Conhecendo-nos

Uma das consequências da crise europeia é a grande atenção que agora prestamos, embora pelas piores razões, a tudo o que se passa nos restantes países. As eleições alemãs e as dificuldades de Merkel, as mudanças na Dinamarca, as exigências finlandesas, a os receios indignados holandeses e indignação receosa, mais ou menos xenófoba, dos austríacos, os esforços espanhois, o circo italiano, o desespero grego, a queda do governo da Estónia e as suas consequências. É uma atenção provocada pelo medo, pelos receios do que nos possa acontecer no futuro, pela consciência de que as acções dos outros têm um efeito directo na nossa vida a curto prazo. Tem sido marcado pela desconfiança, pelo exacerbar dos piores traços dos outros e pela exaltação dos nossos, pela crítica constante a roçar a intolerância. Mas acima de tudo isso, está um facto indesmentível: estamos a prestar muito mais atenção a quem está ao nosso lado, a conhecer-lhes os traços de personalidade, os defeitos e qualidades, as esperanças e receios, a vida e os líderes políticos, e a comparar com os nossos. Até há pouco tempo atrás, cada um de nós estava ocupado a gozar a prosperidade no seu canto, indiferente ao que se passava no resto da União. Hoje, as notícias dos outros são regularmente atiradas para as primeiras páginas dos media, ao lado das nossas tricas, em vez da secção “internacional”.

A construção de uma Europa de povos mais unida pelo conhecimento mútuo pode sofrer revezes, sem dúvida, mas ficará muito a dever a esta época que vivemos.

Semanada

Blogger´s Digest, em português corrente:

Helena Matos, Blasfémias

Passos disse que a situação da Madeira era uma chatice, provando que é um grande estadista. Se fosse o Sócrates, havia de defender o Jardim chamando nomes feios à mãe do jornalista e enfiando-lhe o microfone num sítio que eu cá sei. Eu, se fosse como o Sócrates, era o que faria.

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Henrique Raposo, Expresso

Alberto João é igual a Sócrates. Aliás, Alberto João é o próprio Sócrates disfarçado. Ainda bem que o Passos Coelho fez um ar muito aborrecido com o Alberto João e nem sequer lá vai, porque lançar umas críticas sobre o Alberto João é de homem, aposto que o tipo já nem dorme. E assim tramou o Seguro, que tem agora de se demarcar de Alberto João. Digo, de Sócrates. Vai dar ao mesmo, até são do mesmo partido, é só tirar um D.

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João Afonso Machado, Corta-Fitas

O Alberto João Jardim foi feio, sim senhor. Mas não tão feio como o Sócrates, que só queria meter ao bolso. Desde que não o queiram meter ao bolso, está tudo bem, podem-me ir ao bolso sem avisar desde que sirva para fazer obra, e o empreiteiro não seja a Mota-Engil. Porque se for, estão a meter ao bolso, ao contrário da Madeira, onde ao menos não meteram. Grande obra, já viram? Assim até dá gosto!

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Daniel Oliveira, Arrastão

Não adianta enfiar o Alberto João na prisão, porque somos todos culpados. Aliás, vocês é que são, eu sempre disse que era um trafulha. Por isso agora não serve de nada andar com processos-crime, a não ser que ele tenha cometido um crime, e aí tem mesmo de ser. Mas entendam que se tiver cometido um crime, só o fez porque os madeirenses o puseram lá. Se não o tivessem feito, não podia. Logo, somos todos, digo, vocês, digo, os madeirenses são todos culpados de terem exercido a democracia com dolo, e o melhor é metê-los todos na prisão para não repetirem a graça. Nós no BE gostamos muito da democracia. Sabe a frango.

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Paulo Pinto Mascarenhas, Correio da Manhã

Disseram-me que era para escrever que o Jardim é igual ao Sócrates. Mas ninguém me enviou instruções detalhadas. Por isso, fica assim como está, curto e grosso: Jardim é igual ao Sócrates. Queriam mais, tinham que me ter explicado. Devagarinho, de preferência.

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Tavares Moreira, Quarta Republica

Não percebo porque é que a situação na Madeira é notícia de abertura, quando devia estar escondida bem no interior, o que é que aquilo tem de especial? Ah, deve ser porque os media estavam todos comprados pelo Sócrates, alguns de tal maneira que até se atreveram a apoiá-lo. Ou a não malhar nele, o que vai dar ao mesmo. Por isso, depois de se andar a martelar meses a fio o país com “esqueletos no armário” e “desvios colossais”, vêm agora com o desplante de destacar o buraco da Madeira? Era só dos outros, DOS OUTROS, não perceberam, cambada de cínicos e vendidos? Ai, que saudades da Dra. Manuela. Bom, vou pôr o post por pontos, para parecer sério e fundamentado. Que chatice, isto da Madeira.

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José Manuel Fernandes, Blasfémias

Vou escrever sobre a dívida da Madeira. Começo por uns museus nos Açores, para dar a entender que lá também deve haver uns jeitosos. Depois, discorro longamente sobre politicas de investimento público, Keynes, e tal, somos todos iguais, isto é tudo a mesma merda, este país não tem saída, e omito que o problema foi a ocultação da dívida. No final, já ninguém se lembra. Sou um génio. Não sou?

Perdeu-se um bom lavrador, ganhou-se um péssimo presidente

 

Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando para o pasto que começava a ficar verdejante. (…)
A poda é pouco sensível na anoneira, não é essencial”, explicou Leopoldo Vasconcelos Moniz, perante o olhar curioso de Cavaco Silva, que confessou fazer sempre a poda das anonas que tem no Algarve. “Mas, este ano vou experimentar e não vou podar algumas”, adiantou o chefe de Estado.
Setembro 2011

Na mesma altura, Firmino Cordeiro convidou o Presidente da República para membro honorário da AJAP, convite que Cavaco Silva aceitou e agradeceu com simpatia e satisfação: “Não é despropositado, porque também tenho alguma coisa de agricultor e prezo-me de ter uma das melhores laranjas do Algarve a que, ultimamente, juntei também uma pequena produção de anonas”
Junho 2011 (PDF)

A Cereja faz bem a tudo, até para os calos. (…) Isto trás-me ao meu tempo da juventude, em que eu gastava o dinheiro todo que tinha para o almoço a comprar cerejas, e depois ficava sem almoço. Porque no Algarve não existem cerejas,  mas expunham isto com este aspecto e era uma tentação. Eu chegava aqui, e comia a cereja.
Junho 2011

Cavaco Silva aproveitou ainda para confessar que ele próprio é considerado “o agricultor da família”, porque mantém “apenas para deleite pessoal” a produção de laranjas, anonas, abacates e outras frutas nas terras que herdou dos pais no Algarve.
Antes, numa passagem junto ao mercado da fruta das Caldas da Rainha, o candidato tinha também já falado sobre as suas preferências em termos de produtos hortícolas: “sou um consumidor em grande de couves”, disse a uma vendedora.
Janeiro 2011

“Fiquei surpreendido por ver como as vacas avançavam uma a uma e se encostavam ao robot, sentindo-se deliciadas enquanto este realizava a ordenha”, afirmou Cavaco Silva, numa referência a um robot inovador existente na exploração que visitou.
Outubro 2008

Paradoxos irmãos

A crise grega coloca um paradoxo bastante interessante, para mim pelo menos. Está mais que visto que a continuar com o plano delineado pela UE e o FMI, o único resultado será a bancarrota e a saída do Euro, e possivelmente da UE. Não há maneira de dar a volta a isto: a economia grega caiu mais de 5% apenas este ano e a recessão não tem fim à vista, enquanto o peso da dívida e respectivos juros se tornam por isso mesmo insustentáveis. A austeridade imposta está a destruir completamente a economia, o que quase todos concordam não ser a maneira ideal de conseguir honrar os seus compromissos.

Mas vendo as coisas pelo outro lado, a alternativa seria qual? A famosa “solidariedade europeia”, ou seja, os restantes países da Europa com capacidade, sobretudo nórdicos, iriam sustentar um país que mentiu, abusou e se aproveitou da credibilidade dada pelas contas certas dos restantes para se endividar de uma maneira totalmente irresponsável, apenas para satisfazer as várias corporações e sindicatos nacionais? Os gregos, para resumir, usaram o acesso ao crédito barato para se comprarem uns aos outros, revelaram-se totalmente incapazes de cobrar impostos, têm uma economia pouco competitiva, pouco preparada, e um sector publico pesado e ineficiente. Em Corinto, por exemplo, as finanças locais cobraram apenas 18.000 Euros de IVA. Em seis meses. Dá 3.000 Euros/mês numa zona de casinos e empresas. O Pingo Doce do meu bairro deve pagar mais do que isso por dia. Por isso, solidariedade europeia ou não, é preciso primeiro reconhecer que a Grécia, como está, é a própria definição de “choldra ingovernável”. Conceder crédito para quê, exactamente?

A questão no entanto, para desespero dos alemães e franceses, é que a Grécia está no Euro, os seus bancos são responsáveis por grande parte da dívida (já que estamos a falar em irresponsabilidade) e a situação criada ameaça todos os outros países da zona Euro. Os tais que estão a maldizer o dia em que aceitaram os gregos na moeda única. Não só as suas finanças estão sobre pressão, mas também o crescimento, numa espiral infernal que neste ponto, se alimenta a si própria de dúvidas, suspeitas, rumores e breves períodos de pânico. A continuar neste caminho, estamos apenas a uma falência bancária de distância da crise financeira catastrófica a que se seguirá uma segunda grande depressão.

Há, portanto, que resolver o problema grego. Continuar a lerParadoxos irmãos

Como limpar a política com uma assinatura

Mais vale confessar já as minhas intenções: eu ando nisto de comentar política na esperança de entrar no sistema, ganhar muito dinheiro, abocanhar fundos públicos para mim e para os meus, promover familiares e amigos, traficar influências, ajustar directamente a quem me oferecer mais, e no geral amealhar um bom pé-de-meia que me permita, na reforma (pelo menos três, de preferência, e antes dos 50), viver uma vida confortável à vossa custa. É por isso que tenho de apresentar o meu mais veemente protesto pelo novo código de ética proposto pelo Secretário-geral do PS. Se me obriga a assinar tal documento, todos estes planos meticulosamente pensados vão imediatamente por água abaixo. Porque posso ser um trafulha corrupto, mas levo os meus compromissos de honra muito a sério.

Bons princípios

Há uma esquerda que, quando necessário, sacrifica alguns princípios em nome dos cidadãos, e da sustentabilidade e viabilidade dos sistemas que lhe trazem bem-estar e garantias de justiça e progresso. Há outra que não hesita em sacrificar os cidadãos em nome dos princípios. Em comum, têm os actos. Uma demonstra o que vale por acções concretas. Outra demonstra-o através de textos e ideais, e quando se põe a difícil escolha entre estes e os interesses concretos daqueles que dizem defender, escolhem os primeiros. Só uma delas é digna da qualificação de verdadeira esquerda. A outra não passa de teorias, citações de livros e intelectualismos para pessoas facilmente impressionáveis. Ou seja, não passa de pose. Gostam de parecer de esquerda. Mas não são.

Discursos seguros

O discurso de abertura de António José Seguro teve todos os ingredientes de um bom discurso. Tinha que ser, aliás. Seguro sabe que a partir de sexta, acabou-se o conforto do partido, das caras conhecidas, das distritais, dos gabinetes e dos amigos. A partir de sexta, está exposto às luzes implacáveis da ribalta, de onde só sairá em glória ou desgraça. Não há meio termo. E Seguro cumpriu, ninguém o pode negar : foi um discurso inteligente, astuto, bem pensado, definidor das linhas gerais de uma estratégia politica, com um rumo para o Partido Socialista e, muito importante, críticas certeiras ao actual governo. Seria, em tempos de normalidade, um excelente discurso feito por um líder com boas qualidades.

O problema é que não vivemos tempos normais. Muito longe disso. E por isso esta estratégia, e este discurso, são claramente insuficientes para o momento que o país atravessa, e como Seguro em breve descobrirá, para o que vem aí. Foi um daqueles casos em que, para mim, o todo foi bastante menor que a soma das partes. A falta de urgência foi gritante, a falta de indignação para com a golpada – porque não há outro termo – que permitiu a subida da direita ao poder através da falência forçada do país, essa falta de indignação foi gritante. Acabou por ser o que mais me impressionou, essa aceitação, quase subserviente, às circunstâncias politicas que vivemos e de como aqui chegámos. Isto já para não falar na falta de carisma, que se tornava mais evidente a cada berro visivelmente estudado, e para ser sincero, um discurso demasiado longo mais revelador de falta de ideias claras, definidas e fortes do que de profundidade de pensamento. Mais de uma hora? Eu sei que o António José Seguro está contente por ser finalmente Califa em vez do Califa, mas caramba, via-se claramente que já ninguém o podia ouvir, e as ideias importantes, fortes e carismáticas transmitem-se em 20 minutos. E já agora: quem é que teve a magnífica ideia de relembrar a todos os socialistas, já para não falar dos restantes cidadãos, que ainda faltam mais de 1700 dias para se poder correr com este governo? Como grito de reunir as tropas, como fonte de energia e inspiração para o duro trabalho da oposição, era difícil fazer pior. Não há pressa, foi isso que se quis dizer? Isto já para não falar da banalidade absoluta de “as pessoas estão primeiro”, um slogan de instituição bancária, com o mesmo nível de sinceridade e imaginação destas. Foi mesmo o melhor que se lembraram, ou estava em saldo na Young & Rubicam?

E uma ultima coisa que me ficou na memória: eu sei que se calhar parecia bonito andar a exibir o apoio das velhas glórias fundadoras do PS, mas o que o gesto realmente transmite é uma tremenda insegurança, uma necessidade de atestado de qualidade para militante ver, e mais grave ainda, cola a imagem a tempos passados e a batalhas que já lá vão. Ser líder significa estar lá em cima sozinho, caso ainda não tenha percebido, pelo que mais vale ser o seu próprio homem, sem necessidade de se andar  a colar ao brilho dos outros. E, sinceramente,  já não estamos nos anos 80, embora a recuperação do antigo logotipo queira se calhar indicar umas tremendas saudades desse tempo. Já fui feliz aqui, não é?

Percebe-se portanto a estratégia de Seguro para ser primeiro-ministro: exactamente a mesma que o levou a secretário-geral. Trabalho de formiguinha paciente durante anos a fio, sem se expôr demasiado, sem entrar em grandes polémicas ou batalhas, evitar o desgaste prematuro, para depois esperar que o adversário caia de podre e aparecer como o salvador. De preferência o único. Pode ser que seja a estratégia correcta, que sei eu disto? Afinal, temos um governo com maioria absoluta que será protegido até ultimas consequências pelo Presidente da Republica, pelo menos enquanto o conseguir controlar. Mas temo bem que, como habitual, os acontecimentos se precipitem e apanhem Seguro totalmente desprevenido. Como a crise na União Europeia está prestes a entrar em velocidade Warp, creio que em breve descobriremos.

Como nota final sobre o que é realmente um grande discurso, revelador de um pensamento avançado, combativo, moderno, combativo, límpido, combativo, mobilizador, combativo, e com a crucial  – repito, crucial – desmontagem da narrativa dos partidos de direita (já referi a combatividade?),  fiquem com o Francisco Assis. Grande homem, grande pensador, grande orador. Subscrevo por inteiro, sem tirar nem pôr, tudo o que ele diz, de uma ponta à outra. É um dos melhores discursos que lhe tenho ouvido. Se alguma crítica lhe tenho a fazer, é só a necessidade de treinar e controlar aquela linguagem corporal e a velocidade do discurso. É que parece, aqui entre nós, que está sempre aflito para ir à casa de banho. E isso distrai um bocadinho.