Açambarcamento de cérebros

 

No mundo inteiro, há apenas um punhado de pessoas que percebem o que é este gráfico aqui em cima, apesar de sermos todos afectados por ele. Este gráfico é o resultado de um algoritmo, um programa de computador desenhado para os mercados financeiros e lançado nos sistemas informáticos que os controlam. O que é que está a fazer e com que objectivo, apenas quem o lançou sabe dizer, todos os outros, mesmo os especialistas, não têm a certeza. Mas sabem que está a fazer várias operações de compra e venda por segundo, e como este há milhares a correr todos os dias nas bolsas e mercados mundiais. Desde 2005, pelo menos, que há uma espécie de corrida às armas no mundo financeiro para tornar estes programas mais rápidos e mais inteligentes, ao ponto de neste momento as operações serem tão rápidas que a própria distância entre computadores faz diferença. A velocidade da luz já não chega quando se medem as operações em nanosegundos.

No entanto, para que tal seja possível, as instituições financeiras precisam de talentos. Muitos e grandes talentos. Este tipo de instrumentos requerem algumas das mais brilhantes mentes matemáticas e analíticas que existem para os criarem e aperfeiçoarem. Este é um aspecto pouco discutido quando se fala do peso excessivo que hoje os bancos,  financeiras e hedge funds têm na economia. O facto de moverem enormes somas de dinheiro, e poderem por isso pagar salários muitíssimo acima da média, dá-lhes também uma vantagem injusta na atracção de talentos em comparação com outras industrias e instituições. Afinal, entre a investigação científica num instituto ou num centro de pesquisas e a construção de instrumentos financeiros complexos na banca de investimento ganhando 10 ou 20 vezes mais, não há verdadeiramente escolha. Por duas vezes o salário, muitos destes talentos pensarão realmente o que querem da vida. Por 10 vezes, a decisão é óbvia. E a perspectiva destes enormes ganhos funciona também nas escolhas académicas de muitos jovens universitários. Não sei quantos deixaram carreiras na física, astronomia, biologia e outras ciências para ingressarem no mundo financeiro, atraídos pelo irresistível poder do (muito) dinheiro, mas não é desprezível, e os resultados estão à vista: uma indústria financeira com instrumentos tão intrincados e complexos que ninguém, verdadeiramente, os compreende. Muito menos os regula eficazmente. Porque foram pensados e construídos por génios.

Este é apenas um aspecto, se calhar marginal, da ameaça que se tornou o sistema financeiro. Não devemos ser contra ele por princípio, como os comunistas e a esquerda pueril. Como alguém disse, e bem, os bancos são o óleo que permite que as engrenagens da economia de mercado funcionem sem atritos. São um orgão integral e essencial da nossa sociedade sem o qual esta não vive. Mas se o orgão cresce demasiado, assume demasiada importância e peso, consome demasiados recursos, e não só financeiros, asfixiando todos os outros, temos então que reconhecer uma coisa simples: estamos na presença de um tumor. E a imagem acima deixa de ser um gráfico, para passar a ser uma tomografia.

15 thoughts on “Açambarcamento de cérebros”

  1. A problemática dos sistemas automáticos de compra e venda de produtos financeiros é fascinante. Um caso onde se prova, mesmo que tal prova seja desnecessária, que a Humanidade cresce ao aplicar aos problemas novos, nunca antes conhecidos, soluções novas, nunca antes pensadas.

  2. Não quero saber pra nada da opinião da Penélope. “Os bancos são o óleo”? Sendo assim sou da esquerda, “pueril”, mas sem maldades. Há situações bem mais dramáticas que têm a ver com injecções mas não de dinheiros. Basta perguntar ao anonimo”, a Vítima do Deserto, a milhas de distância da refinaria mais próxima, e daí dos produtos derivados, como a vaselina por exemplo, no meio daqueles mercenários nateiros que não viam uma odalisca há muitos meses.

  3. uma solução para este “micro-trading”, alternativa à taxa tobin, seria simplesmente obrigar os investidores a manter na sua posse os diversos títulos por um período mínimo de tempo. alguns segundos que fossem seria o suficiente para arruinar esta loucura financeira, uma semana seria provávelmente suficiente para acabar com a especulação financeira. e, sacrilégio, lá teriam os investidores financeiros a ter que voltar a olhar para a economia…

  4. Totalmente irracional por muito matemático que seja. os efeitos no humano são desatrosos. Um sistema que suga tudo à sua volta e A SI PRÓPRIO, pode nascer de uma concepção tão genial quanto estúpida. Os crânios da informática (com os quais lido todos os dias) apenas são relevantes enquanto servirem esta lógica antropofágica e autofágica..

    Aqui vai por bonecos que toda a gente entende:
    http://www.youtube.com/watch?v=FVqnRPMZbE0

  5. Para quem não entender de logoritmos que prevêem comportamentos financeiros,
    há uma explicaçao para as criancinhas, coitadinhas:
    O QUE é O BCE?
    – O BCE é o banco central dos Estados da UE que pertencem à zona euro, como é o caso de Portugal.

    DONDE VEIO O DINHEIRO DO BCE?

    – O dinheiro do BCE, ou seja o capital social, é dinheiro de nós todos, cidadãos da UE, na proporção da riqueza de cada país. Assim, à Alemanha correspondeu 20% do total. Os 17 países da UE que aderiram ao euro entraram no conjunto com 70% do capital social e os restantes 10% dos 27 Estados da UE.

    E É MUITO, ESSE DINHEIRO?

    – O capital social era 5,8 mil milhões de euros, mas no fim do ano passado foi decidido fazer o 1.º aumento de capital desde que há cerca de 12 anos o BCE foi criado, em três fases. No fim de 2010, no fim de 2011 e no fim de 2012 até elevar a 10,6 mil milhões o capital do banco.

    ENTÃO, SE O BCE é O BANCO DESTES ESTADOS, PODE EMPRESTAR DINHEIRO A PORTUGAL, OU NÃO? COMO QUALQUER BANCO PODE EMPRESTAR DINHEIRO A UM OU OUTRO DOS SEUS ACIONISTAS…

    – Não, não pode.

    E POR QUÊ?!
    – Por quê? Porque… porque, bem… são as regras…

    ENTÃO, A QUEM PODE O BCE EMPRESTAR DINHEIRO?

    – Aos outros bancos, a bancos alemães, bancos franceses ou portugueses.

    AH PERCEBO, ENTÃO PORTUGAL, OU A ALEMANHA, QUANDO PRECISA DE DINHEIRO EMPRESTADO NÃO VAI AO BCE, VAI AOS OUTROS BANCOS QUE POR SUA VEZ VÃO AO BCE.

    – Pois é…

    MAS, PARA QUÊ COMPLICAR? NÃO ERA MELHOR PORTUGAL OU A GRÉCIA OU A ALEMANHA IREM DIRETAMENTE AO BCE?

    – Bom… sim… quer dizer… em certo sentido… mas assim os banqueiros não ganhavam nada nesse negócio!

    AGORA NÃO PERCEBI !!!…

    – Sim, os bancos precisam de ganhar alguma coisinha. O BCE de maio a dezembro de 2010 emprestou cerca de 72 mil milhões de euros a países do euro, a chamada dívida soberana, através de um conjunto de bancos, a 1%, e esse conjunto de bancos emprestaram ao Estado português e a outros Estados a 6 ou 7%.

    MAS ISSO ASSIM é UM “NEGÓCIO DA CHINA”! Só PARA IREM A BRUXELAS BUSCAR O DINHEIRO!

    – Não têm sequer de se deslocar a Bruxelas. A sede do BCE é na Alemanha, em Frankfurt. Neste exemplo, ganharam com o empréstimo a Portugal uns 3 ou 4 mil milhões de euros.

    ISSO É UM VERDADEIRO ROUBO… COM ESSE DINHEIRO ESCUSAVA-SE ATÉ DE CORTAR NAS PENSÕES, NO SUBSÍDIO DE DESEMPREGO, OU DE NOS TIRAREM PARTE DO 13º MÊS…

    – As pessoas têm de perceber que os bancos têm de ganhar bem, senão como é que podiam pagar os dividendos aos acionistas e aqueles ordenados aos administradores que são gente muito especializada?…

    MAS QUEM É QUE MANDA NO BCE E PERMITE UM ESCÂNDALO DESTES?

    – Mandam os governos dos países da zona euro. A Alemanha em primeiro lugar, que é o país mais rico, a França, Portugal e os outros países…

    ENTÃO, OS GOVERNOS DÃO O NOSSO DINHEIRO AO BCE PARA ELES EMPRESTAREM AOS BANCOS A 1%, PARA DEPOIS ESTES EMPRESTAREM A 5 E A 7% AOS GOVERNOS QUE SÃO DONOS DO BCE?

    – Bom, não é bem assim. Como a Alemanha é rica e pode pagar bem as dívidas, os bancos levam só uns 3%. A nós, ou à Grécia, ou à Irlanda, que estamos de corda na garganta e a quem é mais arriscado emprestar, é que levam juros a 6%, a 7%, ou a mais…

    ENTÃO NÓS SOMOS OS DONOS DO DINHEIRO E NÃO PODEMOS PEDIR AO NOSSO PRÓPRIO BANCO?!…

    – Nós, qual nós?! Um país, Portugal, ou a Alemanha, não é só composto por gente vulgar como nós. Não se queira comparar um borra-botas qualquer, que ganha 400 ou 600 euros por mês, ou um calaceiro que anda para aí desempregado, com um grande acionista que recebe 5 ou 10 milhões em dividendos por ano, ou com um administrador duma grande empresa, ou de um banco, que ganham, com os prémios a que têm direito, uns 50, 100, ou 200 mil euros por mês!… Não se queiram comparar…

    MAS, E OS NOSSOS GOVERNOS ACEITAM UMA COISA DESSAS?

    – Os nossos Governos… Por um lado, são, na maior parte, amigos dos banqueiros, ou estão à espera dos seus favores, de um empregozito razoável quando lhes faltarem os votos…

    MAS ENTÃO ELES NÃO ESTÃO LÁ ELEITOS POR NÓS?

    – Em certo sentido, sim, é claro, mas depois… quem tem a massa é quem manda. É o que se vê nesta atual crise mundial, a maior de há um século para cá.
    Essa coisa a que chamam sistema financeiro transformou o mundo da finança num casino mundial, como nem os casinos nunca tinham visto, nem suspeitavam, e levou os EUA e a Europa à beira da ruína. É claro, essas pessoas importantes levaram o dinheiro para casa e deixaram a gente como nós, que tinha metido o dinheiro nos bancos e nos fundos, a ver navios… Os governos, então, nos EUA e na Europa, para evitar a ruína dos bancos tiveram de repor o dinheiro.

    E ONDE O FORAM BUSCAR?

    – Onde havia de ser!? Aos impostos, aos ordenados, às pensões. De onde havia de vir o dinheiro do Estado?…

    MAS METERAM OS RESPONSÁVEIS NA CADEIA?

    – Na cadeia? Que disparate! Então, se eles é que fizeram a coisa, engenharias financeiras sofisticadíssimas, só eles é que sabem aplicar o remédio, só eles é que podem arrumar a casa. É claro que alguns mais comprometidos, como Raymond Mc’Daniel, que era o presidente da Moody’s, uma dessas agências de rating que classificaram a credibilidade de Portugal para pagar a dívida como lixo e atiraram com o país ao tapete, foram… passados à reforma. Como Mc’Daniel é uma pessoa importante, levou uma indemnização de 10 milhões de dólares, a que tinha direito.

    E ENTÃO COMO É? COMEMOS E CALAMOS?

    – Isso já não é comigo, eu só estou a explicar…

  6. Este comentário da Edie merece destaque, e quando sou eu a dizer que merece destaque é porque merece mesmo destaque. Aproveita, Valupi, enquanto os visados estão de costas distraídos em actividades sabáticas de não cobrar juros nem recolher impostos.

  7. Edie,
    não quero saber pra nada da opinião do Kalimata-mos ;)
    Já tinha noção deste esquema, mas não o saberia ( ou não teria paciência para) explicar tão simples e eloquentemente).
    Se não te importares, vou usar este texto para enviar a uns idiotas, ok?

  8. Incrível, pois eu bem me parecia que andava aí um(a) Vicky ao barulho. Pois olha patetta como sou mandei de borla as minhas fórmulas para a ajudar a segurar a barra pois tenho muito carinho pelo povo português, incluindo no sentido histórico, e faço o que consigo. Agora vou pintar paisagens.

  9. Bom texto, o HFQ (high frequency trading) já chegou a tal ponto que os “bancos” tentam que as mesas de trading estejam fisicamente situadas perto das bolsas e instalam servidores dentro das próprias bolsas para ganharem mais um nanosegundo na transmissao das ordens!
    Acho que no início começaram-se a usar maquinas para executar as ordens mais básicas dos chamados “market-makers”, os operadores que tinham a função de criar mercado para determinadas acções, oferecendo compra e venda a quem quisesse comprar e vender. Com o passar dos anos os preços a que se deviam fazer estas operações iam sempre obedecendo a regras de mercado facilmente transformáveis em fórmulas, então em vez de ser uma pessoa a repetir todos os dias a mesma fórmula, passa a ser uma máquina. E a pessoa pode-se então dedicar a identificar oportunidades mais de fazer dinheiro comprando e vendendo. Passa-se mais um tempo e o trader começa a identificar uma série de “imperfeições” nos preços que são recorrentes e que obedecem a características que se podem também programar na máquina, para se poderem identificar cada vez mais imperfeições e meter cada vez mais ordens a rapar uns cêntimos cada vez maiores. E é aqui que começa a verdadeira corrida.
    Quando aquelas casas de investimento descobrem que se dividirem cada segundo do dia em 1 milhão de pequenas partes, podem identificar tanto mais imperfeições como melhores formas de executar as estratégias de compra e venda que fazem habitualmente durante um mesmo dia, começou a compensar desenvolver cada vez maneiras mais sofisticadas de chegar primeiro ou algoritmos mais complexos.
    O problema é que nenhum regulador consegue certificar-se que os algoritmos não estão de alguma forma a manipular o valor de uma acção em tantos milhões de pequenas ordens sem ter acesso ao próprio algoritmo. E entretanto vai tudo acontecendo sem regulação apropriada e vão-se fazendo os lucros que se podem, sejam eles legítimos ou não. Seja com taxas que tornem as operações caríssimas ou com simples regulação que impeça as manipulações, a coisa não é muito complicada de regular por uma autoridade de mercado, mas como vai sendo cada vez mais comum o árbitro também aqui está comprado.

    É uma temática fascinante, com muito mais para dissecar, mas no fundo para o comum dos mortais só é mais um instrumento como o qual alguns podem, se os deixarem, fazer batota no casino em que se transformaram os mercados bolsistas. E nesta perspectiva é uma pena não se falar mais do tema, para cada vez mais investidores abandonarem o casino e se dedicarem à economia real, que é o que faz falta.
    No limite, num mercado em que uma acção esteja a caír e haja expectativa de que caia mais, uma máquina pode ir vendendo neste segundo e comprando 3 segundos mais tarde por menos dinheiro para “rapar” essa diferença enquanto com isso vai exponenciando o movimento de quda da acção até ela valer zero… mas se a empresa não estiver na bolsa não tem que se preocupar muito com isso.
    Quando um dia não houver mais tolos para enganar ou já estiverem todos sem um tusto, atinge-se a famosa “auto-regulação”.

    Desculpem o cepticismo, mas faço meu o lamento do autor pelo desperdício de tanto cérebro nestas porcarias.

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