Por morrer um ditador não acaba a primavera

A morte de Khadafi às mãos de uma turba ululante pode não ter sido bonita nem justa, mas está longe de ser a excepção à regra, de configurar algum presságio em especial para o futuro do regime líbio, ou de servir de bitola para avaliar a justiça do desfecho da guerra civil. A violência e arbitrariedade são parte integrante do ADN das ditaduras, e é natural que estejam presentes no fim destas, em directa proporção com a brutalidade com que foram exercidas e da maneira como caíram. Muitos ditadores foram executados imediatamente após a queda do regime. Nos países em que isso ocorreu, alguns transitaram para a democracia, outros nem por isso. Depende muito mais de como está estruturada a sociedade, quais as instituições que a suportam, se funcionam ou não, do que a “cultura” que é “revelada” por um acto de vingança mais ou menos compreensível e pontual. Os Romenos e os Italianos vingaram-se dos seus ditadores com execuções sumárias, e hoje são democracias perfeitamente normais. Os Iraquianos e japoneses julgaram em tribunal e executaram os seus, e hoje ninguém imagina um Japão não-democrático, embora para o Iraque isso possa ainda acontecer. Não foi nenhum julgamento que teve influência no respectivo desfecho.

Se os Líbios exibissem o cadáver de Khadafi na praça central durante uns dias, como exemplo, imagino o clamor indignado na bem-pensante sociedade ocidental, e os gritos de “selvajaria” que se fariam ouvir, as alegações que seria “impossível” que um regime desses sustentasse uma democracia baseada no primado das leis. Foi, no entanto, o que os italianos fizeram com Mussolini. E a sociedade e democracia italianas estão bem, muito obrigado.

O futuro da Líbia vai depender de inúmeros factores. O assassinato do ditador à margem de um julgamento não é um deles.

 

25 thoughts on “Por morrer um ditador não acaba a primavera”

  1. Caro Vega9000, cá estamos nós em lados opostos da barricada, o que é salutar. As democracias terem como apanágio a morte selvagem dos ditadores não as fortalecem, nem as enobrecem, antes pelo contrário.
    Geralmente a morte dos ditadores é manobrada de longe por gente que tem interesses em que ela aconteça pois se eles abrissem a boca ficar-se-íam a saber alguns pormenores que se calhar abanaria um pouco a sua solidez democrática.
    A naturalidade com que muitos de nós acham que a morte dos ditadores deve acontecer é aliás curiosa. Geralmente somos contra a pena de morte, mas se o assassinado não nos for simpático já não nos preocupamos muito, do mesmo modo que sendo amigos dos animais temos pena do cão atropelado mas até não nos causa grandes engulhos ver um predador ser abatido numa caçada.
    A morte de Khadafi foi um assassínio brutal como o são todos os assassínios e o seu assassino por mais desculpas que tenha, e se calhar até as tem, não tinha o direito de exercer justiça pelas próprias mãos.
    Não compreendermos isto é deixarmos apenas que a emoção se sobreponha à razão e isso não beneficia a democracia, nem os democratas.

  2. Cuidado, Vega. Por esse caminho ainda nos vais fazer olhar para os alemães de Hitler e compará-los com os alemães de Merkel. Saltas no tempo e esqueces que nos EUA dos anos sessenta ainda um preto não podia frequentar a escola de um branco ou viajar no mesmo autocarro. Vires agora comparar o que os italianos fizeram ao seu ditador de há 50 anos com os libios de Kadafi parece ser a forma que descobriste para justificar a barbárie dos nossos tempos que se querem diferentes. Como quem diz: esfolem, que depois da barbárie vem a democracia.
    Continua, que vais bem…

  3. A execução do ditador líbio foi precedida de actos bárbaros que desqualificam completamente quem os cometeu e os coloca ao mesmo nível do criminoso contra o qual combateram, se não abaixo. Não esperava que lhe organizassem um julgamento decente, já que não têm a menor ideia do que isso seja. Mas Gaddafi foi torturado cobardemente por dezenas de valentões de merda que depois de lhe partirem a cabeça utilizaram um pau para o sodomizarem. Foi registado em vídeos. É nojento e revoltante, trate-se de uma pessoa ou de um animal. A nova Líbia começa muito mal.

  4. O novo Egipto também começou mal.
    Um egípcio terá utilizado o seu perfil no Facebook para tecer comentários, alegadamente negativos, sobre o Islão, o profeta Maomé e os seus crentes. A justiça egípcia condenou-o a três anos de prisão com trabalhos forçados.

  5. «Muammar Khadafi morto é um monumento às balas quando tão bem empregues, elas que tantas vezes matam inocentes e ceifam, na flor da vida, os mais humildes dos humildes, levando-os ao Além tão fora do tempo. Um monumento a balas úteis e nem é pelo sangue recente nas mãos desse cão, mas pelo conjunto de malfeitorias, crimes e abusos de que foi responsável ao longo de décadas, astuto prostituto da hipocrisia ocidental que o manteve vivo e próspero por tanto tempo na medida em que lhe calhassem migalhas de prosperidade. Acham-se muito humanistas e civilizados todos quantos afirmam ter sido preferível um espectáculo sem sangue, sem eufórica loucura no processo de o linchar, sonho de que o monstro fosse capturado e julgado segundo a justiça mediática e mediatizada do mundo, com os seus imperativos comerciais para abichar milhões a partir do sensacionalismo mais torpe. Azar. Tal como Ceausescu e Mussolini, a Líbia resolveu o seu problema de outra forma. E não consta que a Roménia fosse menos Roménia ou a Itália menos Itália por terem morto os seus tiranos e vibrado com essas mortes. Uma aberração incapaz de misericórdia e imune a todas as formas de compaixão tem na morte a única solução que assiste aos cães raivosos que não se detêm nem sequer diante de crianças. Cãodafi estava para além de quaisquer códigos e quaisquer as leis redigidas para seres humanos com um mínimo vestígio de humanidade. Os media ocidentais não estão autorizados a emitir pudibundices gemebundas nem a ousar declarar desprezível e desumana a morte de um criminoso desprezível, desumano e devastador, entre os piores da História. Pesa-me muito mais o calibre dos líderes que bajularam Khadafi, extensamente cientes, através dos serviços secretos, da espessa insânia e da grossa culpa do espécime. Pesa-me mais os que, como Blair e Sócrates, o masturbaram recentemente. Em certos traços, talvez não se distingam dele.»

    Isto foi escrito no PALA…. REX de sábado.

    Estão a pensar convidá-lo para co-autor??
    Passem bem.

  6. Vega, concordo quando dizes dizes que não é isto que vai impedir a democracia na Líbia, mas o que se passou com a execução de Khadafi, de facto, só tem um nome: selvajaria.
    E o facto de nós ocidentais também termos uma História repleta de selvajarias não nos deve impedir de gritar contra as selvajarias dos outros, e das nossas, já agora. Acabei de ler um comentário no DN onde alguém defendia que devia acontecer aos governantes dos últimos quinze anos em Portugal o mesmo que aconteceu ao ditador líbio. Mais selvajaria.
    Tenho pena que as crianças líbias fiquem com estas imagens para recordar o dia do fim da ditadura no seu País, que tenham de comparar com o que aconteceu em Itália, como lembras, e não com o que aconteceu, por exemplo, em Portugal a 25 de Abril de 74, numa altura em que Khadafi já levava uns anos de ditador.

  7. Ainda espero ver uma investigação séria ao que se passou antes e depois dos últimos 15 anos na nossa democracia. Estou farto de ouvir que todos os males de Portugal começaram exactamente há 15 anos, depois de 10 anos, sugere-se, de paraíso luso da governação de Cavaco. Agora até se propõe dar tratamento de criminosos aos governantes deste período tenebroso da nossa democracia: últimos 15 anos.

  8. Teófilo M, não estamos do lado oposto da barricada, uma vez que não faço o apanágio da morte de ditadores. Prefiro, como quase toda a gente, vê-los em tribunal e de seguida na prisão. Simplesmente muitas vezes isso não acontece, por variadas razões – e uma guerra civil é uma razão bastante forte – sem que isso signifique o que quer que seja quanto ao futuro, ou aos valores da sociedade em questão, ou à moralidade dos vencedores. É possível que a Líbia percorra agora os caminhos da democracia, ou caia numa teocracia tipo Irão. Mas não é o assassínio do ditador que dará alguma indicação quanto a isso, como muitos, esquecendo-se da nossa própria história recente, querem fazer crer.
    Os líbios provaram apenas que são tão selvagens como nós também somos capazes de ser. Julgá-los por isso é um double-standard que não gosto.
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    Mário, a ideia era mesmo comparar ambos os casos. Se me quiseres explicar qual a diferença entre uma multidão a espezinhar o cadáver de Mussolini e as imagens de Kadhaffi, sou todo ouvidos. Foi na geração do meu avô, não foi propriamente na idade média. Tendo em conta ainda que o corpo do ditador líbio, que eu saiba, não esteve pendurado numa praça, pelo que os líbios se calhar são um pouco mais decentes que os italianos. Será isso?
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    Julio, não esperavas um julgamento decente porquê? Estou curioso.
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    Arame farpado, como deves imaginar, e com o meu tempo limitado, não sou leitor assíduo de muitos blogues, incluindo esse. A diferença, se reparares bem, é que não vês aqui o apanágio da violência e morte do ditador. Limito-me a constatar que não é essa mesma morte que impede que a Líbia siga pelo caminho da democracia e civilização.
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    guida, uma guerra significa quase sempre selvajaria, sobretudo uma guerra civil. E podemos, e devemos, gritar contra este tipo de barbáries. Não podemos, nem devemos, é assumir que as sociedades onde ocorrem são necessariamente bárbaras, ou que “começam mal”. São coisas diferentes. Começam tão mal como muitos de nós começamos, aqui há muito pouco tempo.

  9. “Limito-me a constatar que não é essa mesma morte que impede que a Líbia siga pelo caminho da democracia e civilização.”

    De acordo. Li o seu texto uma segunda vez a adquiriu contornos diferentes, porventura os mais correctos, de facto, e ainda bem, muito diversos dos do Rex.

  10. Até era capaz de subscrever o teu texto… não fora o caso de andar com a Líbia sob a mira cerrada.

    Esta execução de Kadhafi não foi 1 acto isolado, um momento de PONTUAL selvajaria. Acrescento: o Kadhafi até teve muita SORTE! Os ditos Santos-Rebeldes foram Advertidos seriamente para não deixarem MARCAS de tortura Visíveis no seu Corpo! De resto … estavam livres para o que lhes o que a imaginação lhes ditasse a criatividade maligna …

    Deixo o link do meu blog onde podem encontrar uns Vídeos q seleccionei do LONGO ACERVO que documenta esta Práxis de linchamento Y execuções dos rebeldes Líbios Y QUE TODOS OS MEDIA OCULTARAM … Não.Não … Vê os Vídeos ( Vê Y CONTA quantas pessoas os viram … ) … Vai vendo muito mais … Y dps reformula a ilação que desta “Revolução” se Pode retirar … Isto é INÉDITO!!!

    http://f-se.blogspot.com/2011/10/f-se-libia-nao-foi-liberada-libia-foi.html

    PS.: Os Canais de Youtube onde estes videos estavam alojados foram sistematicamente FECHADOS … Enfim … a Outro lado desta Guerra. o Bloqueio MEDIA!

  11. Vega, concordo contigo. Só não concordo com o penúltimo parágrafo do post, até porque, actualmente, não há necessidade de pendurar os ditadores numa praça para que todos o vejam, agora basta ter um telemóvel para filmar a coisa e a praça atinge a dimensão do Mundo inteiro. Depois, enfim, o que não falta são gritos para todos os gostos.

  12. Vega, não espero julgamentos decentes feitos por selvagens, como bem se depreendia do que eu disse. Nota: Saddam foi preso por americanos, não por iraquianos, por isso viveu até ao julgamento.

    Mas quando dizes que “Os líbios provaram apenas que SÃO tão selvagens como NÓS também SOMOS CAPAZES de ser” parece-me que estás a delirar com febre muito alta.

    Baseias-te em quê? No modo como os revolucionários portugueses de 1974 trataram o Caetano, o Tomás e os próprios assassinos da PIDE?

    Baseias-te em quê, santo deus?

  13. De Puta Madre, a Hillary Clinton disse aos rebeldes “para não deixarem Marcas Visíveis dos seus actos de Tortura; mas, sem dúvida, que, tirando este detalhe, estavam livres de fazer com o Coronel Kadhafi o que bem lhes aprouvessem”? “Nato Rebels”? Valas comuns com ossos de camelos?
    Poupa-me a propaganda barata.
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    guida, bem visto.
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    Júlio, o regime português caiu praticamente sem resistência. Tivesse havido tiros, combates e morte generalizada de civis, e suspeito que outro galo cantaria.

  14. Vega, estás a defender o indefensável, recorrendo a sofismas. Só não consigo imaginar é porquê.

    “Tivesse havido tiros… e morte generalizada de civis ”

    A factos contrapões conjecturas e cenários fictícios.

    Porque é que não houve realmente aqui tiros e morte de civis? Porque é que não mataram um pide, quando eles, quando ficaram encurralados na sede, mataram três pessoas na rua?

    E por que raio é que seria equivalente o que REALMENTE aconteceu na Líbia e o que tu SUSPEITAS que nós seríamos CAPAZES de fazer, “tivesse havido tiros” etc?

    Essa tua atitude relativizadora e desculpabilizante é indesculpável, insólita e intrigante.

  15. A “descoberta” do Kadhafi como ditador é extremamente recente, o que só prova a eficácia das lavagens ao cérebro quando conduzidas com profissionalismo. Até ao início da “revolução” líbia, o Kadhafi era o “terrorista”, o “apoiante de terroristas”, o “financiador de terroristas” e pouco mais. Mesmo quando a Líbia chefiou o Comité de Direitos Humanos da ONU, as referências irónicas que tal facto merecia tinham subjacente a incongruência que era um país chefiado por um “terrorista” dirigir fosse o que fosse que tivesse a ver com direitos humanos. Os paladinos da ocidental civilização não tinham ainda reparado, pobres ceguinhos, que “ditador” era o qualificativo adequado.
    A “reformatação” recente do Kadhafi como “ditador” teve a ver com a necessidade conjuntural de aproveitamento da “janela de oportunidade” proporcionada pelo levantamento em Benghazi. A “civilização ocidental” e suas matilhas humanitárias reformularam e adaptaram rapidamente o discurso ao dos “revolucionários” líbios e o qualificativo pegou a nível mundial com tremenda eficácia e rapidez. É a prova provada do profissionalismo das mãozinhas controleiras que usam o jornalismo acéfalo e mercenário como simples gabinetes de comunicação das centrais humanitário-bombistas (bombas inteligentes, é claro!), tratando-nos a todos como atrasados mentais. É lamentável que muitos que o não são acabem por se portar como tal, mas como desculpa têm o tremendismo avassalador da propaganda. É o método “Schock and Awe” aplicado aos media, que tão boas provas de eficácia tem dado.
    Só isto explica que, em relação ao Kadhafi e à Líbia, tanta gente decente, inteligente e minimamente bem informada enverede por discursos como o do Vega9000 e outros companheiros de blogue. Não é por isso que vou deixar de vos apreciar, mas talvez não fosse má ideia reflectirem uns minutos sobre os motivos que levam tantos dos que vos apreciam, e não apenas eu, a dizer o que hoje se pode ler na caixa de comentários.
    Para memória futura, não estou a dizer que o Kadhafi não fosse realmente um ditador, tal como também não digo que o fosse. Não duvido que o seu aparelho repressivo prendesse arbitrariamente, torturasse e matasse, mas os democráticos donos de Guantánamo fazem a mesma coisa, directamente ou em outsorcing. Aliás, algum desse outsorcing foi encomendado precisamente aos diligentes serviços kadhafistas, como é público, sem que isso tenha incomodado ninguém. E, sendo o facto conhecido do mundo inteiro desde a queda de Tripoli, continuo à espera (muitíssimo bem sentado, claro!) do inevitável sobressalto humanitário ocidental, com a igualmente inevitável guia de marcha de quem fez a encomenda para o Tribunal Penal Internacional.
    Mas parece-me, dizia eu, que ditador é outra coisa: é um Saddam Hussein, um Adolf Hitler, um Somoza, um Kim Il-sung ou o seu filhote. O regime líbio tinha características muito próprias, que não se encaixam na definição. Explorou tribalismos, dividiu para reinar, jogou com diferenças entre Tripolitana e Cirenaica e acabou por ser vítima dos seus próprios jogos, mas, insisto, ditador é outra coisa. Houve um levantamento armado contra o seu poder, queriam que o homem respondesse com o quê: flores? O azar dele foi não ter um aparelho repressivo a sério, como os que as verdadeiras ditaduras têm. Os cipaios do costume, como o Ban Ki-moon da ONU, o Rasmussem da NATO e outros, bem podem conseguir o prodígio de usar 30 vezes a expressão “innocent civilians” em cada dez frases que bolçam das bocarras de lacaios, mas o que eu vi desde o início, o que toda a gente viu, foi bandos de criaturas armadas até aos dentes, em centenas de carrinhas de caixa aberta, constantemente enchendo de chumbo qualquer nuvem, pardalito ou gaivota que tivesse o azar de lhes voar por cima, enquanto gritavam que no dia seguinte estavam em Tripoli a “matar o cão” à dentada, inch’Allah!
    O que se passou nos últimos meses deixa-me uma certeza: os bandos de saqueadores e criminosos de todo o tipo que o mundo inteiro viu, E CONTINUA A VER, em acção na Líbia são muito, mas mesmo muito, piores do que o Kadhafi e todo o seu aparelho repressivo. O descaramento com que o “chefe” do Conselho Nacional de Transição mente, por exemplo, sobre a morte do Kadhafi, apresentando três ou quatro versões por dia (já deve ir numas vinte ou trinta) chega a ser insultuoso. O homenzinho está-se autenticamente a cagar para quem o ouve, a última versão que lhe ouvi ontem era que o Kadhafi tinha sido morto pelos seus próprios apoiantes porque tinham medo que ele os denunciasse! E arrepia-me que todos estes energúmenos, do topo até à base, se sintam de tal forma inimputáveis e imunes a qualquer castigo que continuem a praticar as barbaridades mais infames à vista de toda a gente (mesmo excluindo tudo o que fizeram ao Kadhafi e filhos), matando e fotografando, torturando e fotografando, saqueando e fotografando, gabando-se alarvemente perante qualquer idiota com uma televisão “ocidental” ao ombro, cientes como estão de que o mundo inteiro (ou pelo menos o mundo que manda) os traz nas palminhas e fará vista grossa a tudo!

  16. Júlio, factos fictícios nenhuns, apenas senso-comum. O que permitiu uma revolução pacifica por cá não foi nenhuma especial civilidade nossa, foi o facto de o antigo regime não ter tido forças, ou vontade, para resistir de maneira violenta, salvo uma ou outra excepção pontual, como a PIDE. E mesmo assim, uns tiros e três mortos no contexto de uma revolução não são nada comparados com uma guerra civil tipo Líbia. Se Marcelo Caetano não se tivesse rendido, jurasse combater até à morte, e autorizasse os helicópteros e caças da força aérea a disparar sobre civis nas ruas, achas mesmo que no final teria ido calmamente para o exílio, ou sequer presente a tribunal? Estás a sonhar. Quanto a actos de selvajaria dos combatentes, podes ir buscar exemplos à nossa própria guerra colonial, se quiseres. E estamos a falar de um exército profissional e treinado. No caso dos líbios, falamos de combatentes ocasionais sem treino formal. Agora, se já é difícil impedir actos de barbárie em exércitos altamente profissionalizados – já nem falo do nosso, os EUA servem muito bem – em exércitos de guerrilheiros inexperientes é tarefa quase impossível. As guerras são selvagens por natureza, não é isso que faz os Líbios mais ou menos selvagens que nós, e aí discordamos profundamente. Mete meia dúzia de miúdos imberbes do Cacém – ou de Cascais, tanto faz – a combater uma guerra civil daquele género, e vais ver os resultados. A experiência de Stanford, diz-te alguma coisa?
    ___
    Joaquim Camacho, “ditador” e “terrorista” não são mutuamente exclusivos. Quanto à lavagem ao cérebro e à propaganda “profissional” que nos afecta a todos, é melhor começar pelo princípio: qual a motivação que o “ocidente” teria para afastar Kadhafi?

  17. Camacho,

    Sei que não aprecias muito as minhas opiniões , mas não é que gostei imenso deste teu comentário? É. As voltas que o mundo dá. Vamos lá ver se o Valupi desce das alturas, ou o Vega se decide a usar elevador e um deles dá a proeminência devida ao teu escrito.
    ——
    Também bebo um copo à resistência posta por vários comentadores ao post sem interesse do Vega. Mas não à Guida que concorda com 95 por cento das coisas que o astronauta nos conta, provando assim que o movimento de libertação das mulheres só tem dado bons resultados do pescoço para baixo.

    E onde, rapaziada, estão as provas de Gadafi ter sido um terrorista? Aqui é que está o buzzillis.

  18. Memorias de Eric Margolis:

    “What’s going on, what’s happening,” a wounded, dazed Muammar Gadaffi reportedly asked just before he was murdered in Sirte, Libya.

    The “Brother Leader” had once asked me something similar. A year after the US sought to assassinate him by dropping a 2,000lb bomb on his bedroom in Tripoli’s Baba al-Azizya barracks, Gadaffi took me by the hand, guided me out of his trademark Bedouin tent and walked me around the ruins of his private quarters. He showed me the bed on which his two-year old adopted daughter had been killed by the US laser-guided bomb.

    With a plaintive look, he asked me, “Why, Mr. Eric, why are the western powers trying to kill me?” I was stunned. Gadaffi appeared to be sincere. Could he not understand why he had become a hate figure and target number one. A leader Ronald Reagan called, “the mad dog of the Middle East.”

    The answer, I told him, was punishment: first, for shaming his brother Arab leaders into raising the price of oil to a fair trade value. Second, his naïve, unquestioning support for all sorts of violent “anti-colonial” movements: among them, the IRA, Basque ETA, killer Abu Nidal, Philippine Muslim rebels, Nelson Mandela’s ANC. Any group that called itself “anti-colonial” or “liberationist” and got to Tripoli came away with bags of dollars and Gadaffi’s support”.

  19. Vega9000, se não estamos em lados opostos, o que me agrada, estamos em lugares diferentes.
    Certamente que não será o assassínio de Khadafi, promovido a ditador por quem pode (antes era terrorista, já tinha sido apelidado de libertador e era parceiro comercial de uns tantos que agora se viraram contra ele), que levará a Líbia a infletir para uma democracia, uma teocracia ou outra -ia qualquer ou mesmo uma nova ditadura.
    Os líbios não são selvagens, são apenas pessoas como tu e eu e também por lá andarão assassinos, ladrões, oportunistas, mercenários e detentores de outras artes capazes de fazerem o pior com o ar mais seráfico deste mundo.
    Nós, numa guerra enquadrada por militares de direita, também fizemos as nossas matanças, só que não eramos profissionais, eramos apenas voluntários à força e por um demasido longo período de tempo. Não tínhamos por hábito disparar contra tudo que mexia, antes pelo contrário, dormíamos com as pretinhas para produzir mulatos, dávamos cigarros e comida aos pretinhos, tínhamos lavadeiras negras e mulatas a quem pagávamos salários acima do normal, enfim, não sendo nenhuns santos andávamos bastante longe dos carniceiros da Líbia e de outros locais pouco afamados.
    Interessante é ouvir falar no ditador Khadafi e esquecer o ditador sírio ou não nos recordarmos das iniciativas do monarca democrata que governa a Arábia Saudita, o pacifista que se senta em Israel ou o brilhante democrata do Cairo.
    Também não me lembro do assassinato do Pinochet, nem da sua execução, bem como da que ocorreu com Estaline (esse grande democrata aliado de ingleses, franceses e americanos), da do Ongania e dos seus correligionários da Junta Militar Argentina para já não falar no Kim Jong-il filho do idolatrado Kim Il-sung.
    Esta dicotomia de olhares dos países ditos democráticos, dá-me um certo asco.
    Quando os interesses geoestratégicos e comerciais o mandam, matam-se os ditadores, quando não é isso que acontece deixam-se morrer os povos.
    Não haja dúvida… esta democracia é mesmo muito estranha.

  20. KALATI MATANUS, não vês que tu e o NAS, são intelectualmente superiores ao resto dos leitores deste blog????

    Poes aqui um post em inglês e esperas o quê? que alguem comente?

  21. Vega, eu sei que “ditador” e “terrorista” não são mutuamente exclusivos e nunca disse tal coisa. A minha perplexidade é outra: por que carga de água é que o civilizadíssimo ocidente humanitário-bombista, que sempre chamou ditador ao Saddam Hussein ou ao Kim Jong-il, por exemplo, nunca (ou raramente) se lembrou de chamar a mesma coisa ao Kadhafi, ou pelo menos de aí pôr o acento tónico, quando toda a lógica do conturbado relacionamento líbio-ocidental, ao longo de décadas, apontaria para que o mínimo indício lhes servisse imediatamente de pretexto para acrescentar mais um nome feio ao currículo da execrada criatura? Se o qualificativo sempre esteve disponível no cardápio, que porra de milagre fez com que, nas ocidentais praias, só se lembrassem dele quando começaram a ouvir os líbios de Benghazi utilizá-lo, salvo erro a partir de Fevereiro deste ano?
    Perguntas-me «qual a motivação que o “ocidente” teria para afastar Kadhafi». Elementar, meu caro Vega: pôr na Líbia um “conselho de administração” mais dócil e maleável, que permita um aumento da fatia ocidental nos lucros do petróleo e gás líbios e facilite o fluxo dos ditos, arredando aquelas incómodas e desactualizadas extravagâncias que têm a ver com a soberania dos povos! Aliás, atrevo-me a prognosticar pelo menos dois (e não apenas um) “conselhos de administração”, pois o mais provável é aquilo entrar num processo de desmembramento, com Tripolitana para um lado e Cirenaica para outro. À laia de bónus, temos o castigo do “herege” que encheu a pança de gozo durante décadas, gozando à tripa-forra o império e os imperiozinhos sem que o conseguissem travar. Pois chegou finalmente o dia do castigo, não era sem tempo, aleluia, haja Deus, Inch’Allah, Allahu Akbar! E que sirva de exemplo a potenciais refilões, a paga pode vir tarde, mas é fatal como o destino!
    Depois, temos a “reconstrução” do país, ciclópica tarefa “humanitária” em que centenas ou milhares de generosas empresas ocidentais irão gastar coiro e cabelo, sem pedir nada em troca, como é seu apanágio! Ele é a construção civil, as infra-estruturas de fornecimento de serviços básicos (água, electricidade, gás, telefone, esgotos, etc.), a rede viária e de transportes, tudo muito humanitária e colateralmente reduzido a pó. E temos ainda a renovação das infra-estruturas de produção e transporte de petróleo e gás, o reequipamento do exército, marinha, força aérea e forças de segurança, um oceano de oportunidades… bué de humanitárias!
    A campanha de “reclassificação” do Kadhafi utilizou exactamente a mesma metodologia que, neste nosso jardim à beira de uma ETAR plantado, todos vimos ser usada contra o Sócrates: uma combinação de tácticas e estratégia que mistura Sun Tzu, Clausewitz, Guderian e Goebbels, actualizada por americanos no “Schock and Awe” e implacavelmente aplicada na acção militar e nos media, sem dó nem piedade. No aspecto mediático, é o massacre concentrado no mesmo ponto da “muralha”, até abrir um buraco que permita a instalação de uma testa-de-ponte, acompanhado de bombardeamentos de saturação que não deixam uma amiba ou uma paramécia incólume. Vimo-lo no desmembramento da Jugoslávia, na secessão do Kosovo, na treta das armas de destruição maciça do Iraque, com tentativa de reedição actual em relação ao Irão e seu imaginário programa nuclear militar.
    Sabendo nós que, mesmo que o Irão conseguisse adquirir o know-how suficiente para fabricar uma bomba nuclear, aquilo não é coisa que se faça em série, numa qualquer cadeia de montagem, e admitindo que os ayhatollahs lançavam uma sobre Israel, o que é que acontecia imediatamente a seguir? Mais uma vez elementar, meu caro Vega: uma boa parte do generoso arsenal nuclear israelita de pelo menos 200 bombas reduzia o Irão a pó enquanto o Diabo dá metade de um peido! E mesmo se Israel, pequenino e “frágil” como é, de acordo com a propaganda que há décadas nos massacra os ouvidos (tadinhos deles), ficasse momentaneamente incapacitado, os EUA se encarregariam de transformar a Pérsia num gigantesco lago Titicaca. Este é um trocadalho do carilho que só dá em português, claro. “Caca” igual a “merda”, Titicaca equivale a transformar aquilo em merda na coisa da tia, pardon my french! Ora quem é que acredita que os ayatollahs não sabem isto perfeitamente? Por que carga de água iriam empregar recursos gigantescos e gastar milhões numa aventura que sabem de antemão ser um passo de gigante a caminho da aniquilação total? A resposta é: POR NADA DESTE MUNDO! Mas toda a gente finge que acredita e a propaganda continua, sem dar tréguas, a tocar a mesma sinfonia da aldrabice, fazendo de todos nós parvos, a caminho do próximo desastre!
    Foi isso que fizeram connosco em relação à Líbia e ao Kadhafi e saber que a técnica vai continuar a ser usada, sempre que der jeito aos poderes fácticos do planeta, é uma coisa que me chateia!

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