Why does the dog lick his balls?
Because he can.
(Dito popular norte-americano)
Passos Coelho não diz estas coisas por acaso, por descuido ou sequer por provocação. Por muito que haja quem se choque com a aparente insensibilidade e brutalidade delas, são afirmações que não só se enquadram como reforçam o bem mais valioso que este governo tem: o controle da narrativa.
E a narrativa é esta: Portugal foi à falência devido à irresponsabilidade gastadora do governo anterior e dos portugueses em geral. Todos se endividaram, todos gastaram o dinheiro que tinham e o que não tinham, todos viveram acima das suas possibilidades. Isso inclui-me a mim, e inclui-te certamente a ti. E ao teu vizinho, com o seu Audi a crédito. E aos teus amigos, com aquele apartamento que ainda hoje te perguntas “como é que eles puderam?”. E o teu colega de trabalho, o das férias nas Maldivas. E o teu patrão, à espera do contrato do estado via os seus “bons contactos”. Toda esta fúria gastadora a crédito personificada num homem: Sócrates. Aquele que por incúria, irresponsabilidade, compadrios e corrupção, abundantemente insinuados na imprensa, nos levou até aqui. Todos fomos, em resumo, fracos.
Esta narrativa é crua, simplista e populista ao extremo. É também poderosa, razão pela qual funciona lindamente e é hoje omnipresente na sociedade, mesmo entre os críticos do governo e, lamentavelmente, mesmo entre a oposição. Critica-se a dureza, sim, mas não os fundamentos da narrativa. Essa é aceite como boa e válida, razão pela qual qualquer tentativa de a contrariar é vista como um crime de lesa-pátria, um retorno à irresponsabilidade gastadora, uma coisa impensável e muito perigosa para quem o tentar sequer fazer. Só os “socráticos”, essa corja, ainda ousam opôr-se. Mas isso é gente deplorável que, como bem prova Seguro, interessa pôr para trás das costas e tentar esquecer. E a narrativa, com a ajuda preciosa do PS, fica completa. O círculo fecha-se.
E sendo assim, com a nossa profunda culpa – atenuada e desculpada com um bode expiatório – perfeitamente definida, entra em cena o governo das virtudes e dos homens sérios, o chefe de família severo que não descansará enquanto não nos meter na ordem, por muito que lhe custe ver-nos sofrer. Mas é para nosso bem. É o modelo “o meu pai era rígido mas fez de mim o homem que sou hoje”, sempre popular em todo o mundo.
Claro que há que fazer ajustes na história da carochinha, para manter a narrativa pura e sem brechas. Prometeram os maiores disparates e mentiram descaradamente na campanha? Não, os homens sérios não fazem isso, foram “surpreendidos” pelo estado a que isto tinha chegado e “obrigados” a medidas duras que lhes custam, custam tanto, mas são “indispensáveis”. (Quanto aos relatórios da UTAO, ninguém os lê, mais importante, ninguém os divulga, e mais importante ainda, ninguém os usa como base de desconstrução da narrativa. São por isso irrelevantes para o comum dos cidadãos, um epílogo de uma história passada). Ocuparam a máquina do estado como cães esfaimados? Não, todos os que lá estão têm credenciais impecáveis e provas dadas, são gente séria empenhada em salvar o país, e estar na política não é, agora, crime. Para além disso, são menos que os do anterior governo, como prometido. Os barões afiambraram-se aos lugares de luxo nas empresas que eles próprios privatizaram? É alguma “ingenuidade” de Passos, sem dúvida, mas vamos dar-lhe tempo. Uma semana, por exemplo, para que a imprensa se cale com o assunto. E pronto, passou. Ah, e o Vara. Quem não se lembra do Vara? Querem comparar?
E porque gente séria não admite que a sua idoneidade seja posta em causa, tipo Sócrates, tudo pode ser desmentido rapidamente e de maneira simples. “Não o preocupam as demissões na RDP?” – “Não”. E acabou, não se fala mais nisso, era o que faltava. Ainda hoje me admiro com a elegância simples com que o assunto morreu ali. “E as nomeações para a EDP?”. “Assuntos privados em que não nos metemos”. Questão morta. Narrativa intacta. “Vai ser preciso um segundo resgate?” Não (ou seja, sim), mas se vier será não por vontade do governo – como Sócrates – mas por condicionantes externas fora do nosso controlo. Nós fizemos tudo bem, está aí a troika para o provar e uma oposição “responsável” que discorda apenas pontualmente. E as condicionantes externas só existem, lembrem-se, porque houve antes de nós um governo de irresponsáveis, os que assinaram o memorando. “As medidas são minhas, mas o défice não é meu”. A narrativa, mais uma vez, provando-se a si mesma.
É esta lógica inatacada pela oposição de Seguro e de raízes cada vez mais fundas que permite que Passos possa dizer isto e muito mais. Parafraseando os americanos, não o faz por descuido. Fá-lo porque pode, para afirmar o poder decorrente da narrativa tão bem construída. E só o pode porque por muito que os portugueses se queixem, e queixam-se certamente, a austeridade e as medidas brutais são hoje aceites como consequências dos nossos excessos, das nossas fraquezas, e o melhor remédio é o brutal mas supostamente eficaz, e sobretudo “indispensável”, comandado por um tipo “determinado”. Não é, no entanto, para piegas.