Arquivo da Categoria: Vega9000

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Liberais e Marxistas têm bastante mais em comum do que se pensa:

Ressaca

Um post categoria all-of-the-above do Luis M. Jorge no Vida Breve coloca algumas hipóteses válidas para uma pergunta que vejo muito repetida, com espanto, por cada vez mais pessoas: o que se passa afinal com os Portugueses? Perante a destruição radical do nível de vida, onde está a revolta? Perante as óbvias e descaradas mentiras de quem já nem se preocupa muito em disfarçar, como é que não está tudo na rua, aos berros? Como é que as sondagens ainda dão o PSD/CDS na frente?

Afinal, por bastante menos, por medidas muito mais suaves tomadas pelo anterior governo, por promessas não cumpridas e objectivos não alcançados, por desditos e mudanças de direcção muito mais compreensíveis face à evolução internacional da crise, por tudo isso, houve uma agitação bastante maior nas ruas. E parece-me que será essa uma das chaves para compreender a actual passividade os cidadãos. Os portugueses não lutam porque já lutaram, e lutaram muito, muito recentemente. Greves em que os sindicatos berravam “recorde” sem que ninguém se risse, manifestações impressionantes de professores, de jovens precários, de enfermeiros, todo o mandato anterior foi marcado por uma enorme onda de contestação, nas ruas, nos jornais, nos cafés, nos locais de trabalho, nos blogues. Foi, para todos os efeitos, uma enorme demonstração de cidadania, no sentido das pessoas se envolverem no que percepcionavam serem os seus problemas. E no fim dessa luta, dessa autêntica festa contra um primeiro-ministro e um governo que eram, justa ou injustamente, a face de uma crise que nos assustava a todos, o que resultou de todo esse esforço foi isto:

 

Vão-me perdoar se compreendo, agora, um certo torpor, um baixar de braços e um abraçar da inevitabilidade. A escolha foi nossa, como sociedade. E a questão fulcral é esta: mesmo mentindo descaradamente, como fizeram, a direita apresentava uma alternativa baseada numa narrativa que conseguiram passar com sucesso. A das pessoas competentes contra os incompetentes, a dos “gastos supérfluos do estado” contra o “forróbodó” dos “projectos faraónicos” enquanto se iam cortando despesas, da culpa do governo por não se ter precavido contra uma crise financeira de consequências imprevisíveis. Não era verdade, como é mais do que evidente agora para quem tenha meio dedo de testa, mas a mensagem passou e os eleitores comeram-na. Havia outra maneira, uma alternativa. E agora, o que é que existe? Existe este:

 

A passividade existente, sinceramente, não me espanta muito. Sem ajuda, certas digestões levam o seu tempo.

Consulta de mapa

Factos: mesmo atirando com o país ao charco, como vão fazer com o entusiasmo dos cegos com um par de rollerblades, este governo é estável e dura até 2015. Não vai haver demissão, nem com o segundo, nem com o terceiro pacote de ajuda, porque quem atira com os cidadãos aos lobos simplesmente para conquistar o poder não vai concerteza abdicar dele só porque estamos a ser devorados. É para o lado que dormem melhor. E é sempre possível contar mais mentiras desde que se ponha uma cara séria e se tenha as pessoas certas nos lugares certos nos media. E eles põem, e têm.  Não vai haver dissolução, porque a criatura que empesta o Palácio de Belém é a exacta definição de uma múmia: por dentro dos dourados e pompa da instituição resta agora apenas um cadáver. Golpe de estado só no twitter. Não é de certeza por aí.

Por isso, tendo em conta estes factos, algumas realidades políticas igualmente duras: não adianta a ninguém estar neste momento a gastar muitos cartuchos, porque é demasiado cedo. Parece uma eternidade para quem vê o presente negro e o futuro inexistente, mas politicamente ainda agora começou. Seguro sabe isso, por isso se entretém a tentar blindar o seu poder interno em vez de fazer oposição, as centrais sindicais sabem isso, daí as manifestações generalistas e apagadas apenas para manutenção e testes da máquina, o António Costa e restantes pretendentes sabem isso também, por isso não fazem para já nenhuma jogada visível. O António José que atravesse o deserto. A oposição mais vocal está entregue a Louçã, não só porque é o que Louçã faz, mas também porque limpar a imagem do BE vai levar bastante tempo e quanto mais cedo se começar melhor. Resumindo, só lá para meados de 2013 é que se vai ver alguma agitação, algum brandir de armas, algumas vozes mais fortes, em preparação de 2014, o ano decisivo da contestação. O jogo político é, neste momento, longo.

Entretanto, estamos entregues a nós mesmos.

Mais igual que os outros

O secretário-geral do PS, António José Seguro, anunciou, esta quinta-feira, o fim da disciplina de voto no grupo parlamentar socialista, muito embora estas regras se mantenham em matérias de governabilidade.

«Tudo o que tenha a ver com Orçamento de Estado, moções de censura ou confiança ou aquilo que são as nossas promessas eleitorais naturalmente que aí tem de haver disciplina de voto», afirmou Seguro na sua primeira reunião com os deputados do PS após ter sido eleito líder do partido.

Julho de 2011

 

“Sou um defensor de que a regra de votos no interior dos grupos parlamentares seja o da liberdade de voto e não o da disciplina de voto”, defendeu o deputado do PS.
Para Seguro, “a disciplina de voto deve existir exclusivamente para as questões da governabilidade e para o contrato eleitoral”, aplicando-se no resto a liberdade de voto para os deputados.
“Há muitas pessoas que se escondem na disciplina para, muitas das vezes, não terem que optar e nós vivemos num momento da vida política nacional em que todos devemos optar”, sublinhou.

Novembro de 2011

 

Mas a anunciada unanimidade nas alterações à lei do financiamento dos partidos transformou-se num consenso com evidentes sinais de divisão no PS, PSD e CDS.
Apesar das reservas, feitas em surdina por vários deputados, na hora da votação o único a levantar-se contra a lei foi o socialista António José Seguro, que rompeu a disciplina de voto da maioria.

Abril de 2009

 

O chumbo da maioria do PS aos projectos de criminalização do enriquecimento ilícito apresentados pelo PSD e pelo PCP foi seguido de uma declaração de voto do socialista António José Seguro, que também votou contra os projectos para cumprir a disciplina partidária.

Abril de 2009

 

PS e PSD chumbaram ontem, na Assembleia da República, os projectos de PCP, Bloco de Esquerda e CDS para realizar um referendo ao Tratado de Lisboa. Um chumbo com direito a dissidências notórias nas duas maiores bancadas da AR. Entre os socialistas, Manuel Alegre e António José Seguro furaram a disciplina de voto – apesar de terem informado Alberto Martins antecipadamente, que anuiu -, acompanhados por mais quatro deputados.

De todos, António José Seguro foi quem levou a sua posição mais longe, ao votar ao lado dos projectos de referendo apresentados na AR e que PS e PSD chumbaram, ao passo que Manuel Alegre, Pedro Nuno Santos (líder da JS), Teresa Portugal, Júlia Caré e Manuel Mota abstiveram-se, tendo anunciado declarações de voto. Seguro, que começa a ser visto como o rosto mais visível da alternativa interna a José Sócrates, garantiu que votou “de consciência tranquila, o mais importante nesta vida”.

Fevereiro de 2008

Ética na economia

Imagine this. You have a brilliant idea for how to reverse the effects of aging in female infertility, a wonderful combination of drugs that you have been developing in your lab with your graduate students, and that will open the possibility of motherhood to hundreds of thousands of women who waited just too long to conceive. You have done your Math, your Chemistry, you have developed the model explaining why your idea works. You have tested it in mice. You have tested it in pigs. You got 90% success. You have very little doubt that it works in humans too. If only you could test it… Now imagine that this is 1925, there are no Institutional Review Boards, no Ethics committees to go through, no clinical protocols.

(…)

As you deploy your experiment among those women, you observe that not only it fails to produce the results you expected, but it also accelerates the process of aging: within 9 months, those 40-something women suddenly look like they are 60 years old. You scratch your head, and go back to the drawing board trying to understand where your beautiful model went wrong. You don’t feel bad for those women, after all they were willful volunteers;

(…)

Now imagine this. You have a brilliant idea for how to generate value in economic markets, a clever combination of bets on future values that you have been developing in your lab with your graduate students, and that will open the possibility of riches to a whole breed of entrepreneurial financiers, as well as to entire economies by trickle-down effects. You have done your Math, you have developed a model that explains why your idea works. You have simulated it using powerful computers. You got 90% success. You have very little doubt that it works in real economies too. If only you could test it. Well, it’s 1995, there are no Institutional Review Boards for Economics, no Ethics committees to go through

Aqui

Uma (perigosa) conspiração de estúpidos

Vamos ser muito francos com o que o futuro nos reserva. Vai haver julgamentos políticos de antigos ministros, sob disfarce de “judiciais”? Vai. Vai haver uma acusação, ou várias sucessivas, contra José Sócrates? Vai. Vamos assistir ao julgamento deste, e a um nível de circo mediático maior que a Casa Pia? Vamos. Para quem tinha ainda dúvidas, creio que o triste espetáculo proporcionado no congresso do PSD se encarregou de as dissipar. O alvo ficou perfeitamente assinalado, assim como os objectivos: destruir o PS, sobretudo um PS que ousou, nos últimos anos, lutar contra interesses que se julgavam, e se julgam, acima de tudo e todos. Ou “independentes”, como gostam de se denominar. E, para isso, destruir José Sócrates e quem o acompanhou, mesmo agora, é essencial. Corroer a memória de uma governação que os ameaçou como nunca antes, para que não volte.

O que ouvi e li do congresso foi de uma violência creio que inédita na história da democracia pós-PREC. Pelo menos da minha democracia. É fácil ridicularizar todas as afirmações tontas, espantar-se com a total falta de ideias, indignar-se com o desprezo absoluto das regras de civismo e ética, ficar de boca aberta perante a hipocrisia de quem aplaude Jardim e, no discurso a seguir, ataca quem “levou o país à bancarrota”. É muito fácil fazer tudo isso. Menos fácil está a ser outra coisa: lidar com as consequências reais desta estratégia continuada de demonização de um partido, de uma governação, e sobretudo de um primeiro-ministro.

Agora, fui um dos que pensou que uma vez derrotado politicamente, com jogo sujo ou não, Sócrates iria lentamente desaparecer do espaço público, substituído pelos adversários do momento na contínua luta política, numa saudável regeneração. Até escrevi um post bem-humorado sobre a falta que este iria fazer a muita gente. Estava enganado, admito, redondamente enganado. Todos os governos juram que não deitarão as culpas para o anterior, e todos o fazem inevitavelmente, durante algum tempo. O governo de Passos não é excepção, tal como não foi o de Sócrates. Mas isto que estamos a assistir é um animal completamente diferente. É um esforço deliberado para não os deixar cair no esquecimento, para maximizar o efeito de culpabilização muito para além do habitual. E essa estratégia, aplicada sem limites, só conduz a um resultado: o julgamento e tentativa de prisão de antigos governantes por motivos políticos, e a aniquilação via judicial de um partido adversário.

O Valupi já tinha referido isso no seu magistral “Estudos Socráticos“, mas o motivo do ódio não me convence. O ódio ( ou, na linguagem populista rasca da gente séria, a “indignação”) é apenas uma ferramenta desta estratégia, a cortina de fumo para esconder motivos bastante mais prosaicos. No caso do PSD, trata-se de tentar direccionar toda a insatisfação para um bode expiatório, e reescrever a história da crise de modo a que toda a culpa recaia sobre este, para assim justificar o desastre que se não só se adivinha, mas já está a ser concretizado. Já que não há pão, nem vai haver, pois que haja circo e ímpios atirados aos leões.

Juntam-se a estes a magistratura, também com um motivo prosaico: defender os seus privilégios, poder, e a sua posição inatacável na sociedade, desafiados por Sócrates, de maneira a que não haja quem queira repetir a graça no futuro. Para isso, utilizar a regra clássica dos senhores feudais: fazer um exemplo do prevaricador e de quem o acompanhava. Se a imagem da justiça se degradar ainda mais é, como o afirmo há muito tempo, para o lado que dormem melhor. Se és inatacável, para que é que te vais preocupar com a imagem? O poder é que interessa.

A terceira lança é uma imprensa muito fragilizada, dominada por grupos económicos cuja lógica de existir sempre esteve ligada às benesses do poder, e cujo conceito de jornalismo é apenas de um braço armado numa estratégia maior. Seguem e promovem, naturalmente, a narrativa que lhes interessa no momento. Utilitarismo puro. Caso Passos desafiasse esses interesses, a secção laranja do DN desaparecia numa semana e o CM começava a interessar-se pelo passado empresarial dos membros do governo, como Relvas bem sabe.

Para completar a tempestade perfeita, junta-se por ultimo um líder do PS fraco, calado, sem personalidade, e que não tem nenhum tipo de vocação para o combate aberto. Um apaziguador em tempo de guerra, o nosso Chamberlain de trazer por casa responde aos ferozes ataques com tímidas posições não só confirmam a “vergonha” que pretendem colar ao PS, como deixa o terreno perfeitamente aberto a que todas as outras forças adversárias definam sozinhas o que foi a anterior governação, e pior, quem é o PS agora. “Acabem com os Socráticos”, berram-lhe, o que o deixa num dilema: defendo-os e fragilizo a minha posição, ou calo-me? Acho que sabemos a resposta.

E, desgraçadamente, acho que sabemos o que aí vem. Gente desesperada é perigosa, e na total falta de ideias e esperança, o desespero é tudo o que têm. Sócrates que se prepare, isto não vai ser bonito.

Algum dia havia de concordar com um texto do Corta-fitas

e concordo com este. Os livreiros e editores estão-me a dever largas horas perdidas a chafurdar, por falta de uma expressão mais adequada, nas secções infantis até encontrar alguma coisa que valha a pena ler aos miúdos, nem sempre com sucesso. O que me vale são os escritores e ilustradores estrangeiros. Portugueses, contam-se pelos dedos de uma mão. E com dedos amputados. Para um suposto país de escritores e poetas, não está mal. Por isso, alguns conselhos não-solicitados:

– os miúdos não são estúpidos. Ou pelo menos não tanto como tu. Esta é a regra de ouro.

– a tua amiga ilustradora/pintora/artista é uma merda. Se os desenhos podiam estar expostos numa galeria qualquer em S. João do Estoril, não servem nem para papel de embrulho, quanto mais para um livro infantil. Segunda regra de ouro.

– És suposto contar uma história. Conta-a, se a tiveres, e deixa-te de literatices baratas. História, enredo, lembras-te do que é?

– Longas descrições pseudo-poéticas com folhas douradas e ventos gélidos da fada do inverno fazem-nos adormecer. Ou pedir outro livro. Avança com a porra da história e deixa-te de coisas. Isto, claro, partindo do pressuposto que tens uma história e não estás a engonhar para encher páginas.

– Sim, é perfeitamente possível que eu seja um imbecil ignorante. Mas adivinha lá quem é que compra o livro?

Sextas-feiras sombrias

14% é o nível mais recente de desemprego que se conhece. É um número que nos parece brutal, embora na realidade não o seja. Porque é intermédio. Porque sabemos perfeitamente que que algures no futuro, algum responsável político o vai brandir num debate no parlamento, triunfante , com o argumento “já conseguimos reduzir o desemprego para 14%, o que prova que estamos no bom caminho”. Não são os 14% que me interessam. Interessa-me um outro número. E esse número é 12. Não doze por cento, mas doze pessoas. As doze que, uma de cada vez,  entraram no gabinete na ultima Sexta-feira, e saíram pouco depois sabendo que fariam em breve parte dessa percentagem. Pequena, quase invisível, mas parte.

Todos eles já o sabiam, claro, não houve surpresas ou choque. A empresa já tinha anunciado a redução, e antes disso toda a gente já tinha adivinhado a diminuição de encomendas. Era apenas uma questão de tempo.  E eles sabiam, esses doze, que na condição de temporários seriam os primeiros a sair. O que tornou a minha tarefa um pouco mais expedita. Resumida, essencialmente, a um  “entra, senta-te” logo seguido de um curto “já sabes, não é?” – “Sei”, passando então à tarefa prática de explicar as condições oferecidas, ao modo como se iria processar a coisa – “recebes uma carta, depois…” – e o acesso ao fundo de desemprego, para quem tinha direito. Nem todos tinham. Não valia a pena massacrá-los com discursos ensaiados sobre “condições de mercado”, percentagens ou números de encomendas, e muito menos o “temos muita pena de ter de te deixar ir, fazias um bom trabalho”. Apesar de esta última ser rigorosamente verdade. Faziam, os temporários normalmente esforçam-se mais que os outros, compensando largamente em vontade o que lhes falta em experiência, e temos realmente muita pena. Mas é o que é, a economia não perdoa. Eu sei, e eles também sabem.

Esta Sexta-feira foi, então, o momento em que qualquer réstia de esperança foi deitada por terra. E existia mesmo, essa vaga esperança, porque quando as reduções foram anunciadas não foram logo referidos nomes. E uma meia-dúzia deles realmente ficaram, num universo de muita gente. Há sempre um “pode ser que seja eu”, perfeitamente patente nas perguntas ansiosas, quase diárias, sobre “quando é que  nos diziam”, e “já sabe alguma coisa?”. Saber sabia, quase desde o início, e o cuidado foi extremo em evitar qualquer expressão, qualquer atitude que pudesse ser interpretada como um sinal de esperança. Que no caso daqueles doze, os doze pelos quais sou responsável, era inexistente.

E por isso, após a breve passagem pelo gabinete, regressaram ao trabalho, desiludidos mas conformados. Era oficial, pelo menos, e não havia mais ilusões. Ainda empregados, muito em breve estatísticas. Dos milhares e milhares que estão neste momento nas mesmas condições por esse país fora, estes doze foram os que me coube a mim olhar nos olhos e, um por um, despedir. Boa merda de Sexta.

O pai severo

Why does the dog lick his balls?
Because he can.

(Dito popular norte-americano)

 

Passos Coelho não diz estas coisas por acaso, por descuido ou sequer por provocação. Por muito que haja quem se choque com a aparente insensibilidade e brutalidade delas, são afirmações que não só se enquadram como reforçam o bem mais valioso que este governo tem: o controle da narrativa.

E a narrativa é esta: Portugal foi à falência devido à irresponsabilidade gastadora do governo anterior e dos portugueses em geral. Todos se endividaram, todos gastaram o dinheiro que tinham e o que não tinham, todos viveram acima das suas possibilidades. Isso inclui-me a mim, e inclui-te certamente a ti. E ao teu vizinho, com o seu Audi a crédito. E aos teus amigos, com aquele apartamento que ainda hoje te perguntas “como é que eles puderam?”. E o teu colega de trabalho, o das férias nas Maldivas. E o teu patrão, à espera do contrato do estado via os seus “bons contactos”. Toda esta fúria gastadora a crédito personificada num homem: Sócrates. Aquele que por incúria, irresponsabilidade, compadrios e corrupção, abundantemente insinuados na imprensa, nos levou até aqui. Todos fomos, em resumo, fracos.

Esta narrativa é crua, simplista e populista ao extremo. É também poderosa, razão pela qual  funciona lindamente e é hoje omnipresente na sociedade, mesmo entre os críticos do governo e, lamentavelmente, mesmo entre a oposição. Critica-se a dureza, sim, mas não os fundamentos da narrativa. Essa é aceite como boa e válida, razão pela qual qualquer tentativa de a contrariar é vista como um crime de lesa-pátria, um retorno à irresponsabilidade gastadora, uma coisa impensável e muito perigosa para quem o tentar sequer fazer. Só os “socráticos”, essa corja, ainda ousam opôr-se. Mas isso é gente deplorável que, como bem prova Seguro, interessa pôr para trás das costas e tentar esquecer. E a narrativa, com a ajuda preciosa do PS, fica completa. O círculo fecha-se.

E sendo assim, com a nossa profunda culpa – atenuada e desculpada com um bode expiatório – perfeitamente definida, entra em cena o governo das virtudes e dos homens sérios, o chefe de família severo que não descansará enquanto não nos meter na ordem, por muito que lhe custe ver-nos sofrer. Mas é para nosso bem. É o modelo “o meu pai era rígido mas fez de mim o homem que sou hoje”, sempre popular em todo o mundo.

Claro que há que fazer ajustes na história da carochinha, para manter a narrativa pura e sem brechas. Prometeram os maiores disparates e mentiram descaradamente na campanha? Não, os homens sérios não fazem isso, foram “surpreendidos” pelo estado a que isto tinha chegado e “obrigados” a medidas duras que lhes custam, custam tanto, mas são “indispensáveis”. (Quanto aos relatórios da UTAO, ninguém os lê, mais importante, ninguém os divulga, e mais importante ainda, ninguém os usa como base de desconstrução da narrativa. São por isso irrelevantes para o comum dos cidadãos, um epílogo de uma história passada). Ocuparam a máquina do estado como cães esfaimados? Não, todos os que lá estão têm credenciais impecáveis e provas dadas, são gente séria empenhada em salvar o país, e estar na política não é, agora, crime. Para além disso, são menos que os do anterior governo, como prometido. Os barões afiambraram-se aos lugares de luxo nas empresas que eles próprios privatizaram? É alguma “ingenuidade” de Passos, sem dúvida, mas vamos dar-lhe tempo. Uma semana, por exemplo, para que a imprensa se cale com o assunto. E pronto, passou. Ah, e o Vara. Quem não se lembra do Vara? Querem comparar?

E porque gente séria não admite que a sua idoneidade seja posta em causa, tipo Sócrates, tudo pode ser desmentido rapidamente e de maneira simples. “Não o preocupam as demissões na RDP?” – “Não”. E acabou, não se fala mais nisso, era o que faltava. Ainda hoje me admiro com a elegância simples com que o assunto morreu ali. “E as nomeações para a EDP?”. “Assuntos privados em que não nos metemos”. Questão morta. Narrativa intacta. “Vai ser preciso um segundo resgate?” Não (ou seja, sim), mas se vier será não por vontade do governo – como Sócrates – mas por condicionantes externas fora do nosso controlo. Nós fizemos tudo bem, está aí a troika para o provar e uma oposição “responsável” que discorda apenas pontualmente. E as condicionantes externas só existem, lembrem-se, porque houve antes de nós um governo de irresponsáveis, os que assinaram o memorando. “As medidas são minhas, mas o défice não é meu”. A narrativa, mais uma vez, provando-se a si mesma.

É esta lógica inatacada pela oposição de Seguro e de raízes cada vez mais fundas que permite que Passos possa dizer isto e muito mais. Parafraseando os americanos, não o faz por descuido. Fá-lo porque pode, para afirmar o poder decorrente da narrativa tão bem construída. E só o pode porque por muito que os portugueses se queixem, e queixam-se certamente, a austeridade e as medidas brutais são hoje aceites como consequências dos nossos excessos, das nossas fraquezas, e o melhor remédio é o brutal mas supostamente eficaz, e sobretudo “indispensável”, comandado por um tipo “determinado”. Não é, no entanto, para piegas.

Pequeno guião para dois actores

John: então, já estás a crescer?
Pedro: reformas estruturais, competitividade, produtividade, reduzir o défice, retomar a confiança, reduzir o peso do estado da economia, austeridade, vontade férrea, leis laborais, privatizar, liberalizar, libertar, cortar, compromissos, concertação, honestidade, consenso, descolar, esforço, muito esforço, sacrifícios, caramba, sacrifícios, os que forem necessários.
John: a tua vida familiar não me interessa. já estás a crescer ou não?
Pedro: bom, não. antes pelo contrário.
John: pois.

O elogio de @czorrinho

Nem tudo são desastres no soporífero consulado de Seguro. Uma das poucas vantagens de ter um líder apagado é que notamos melhor quem está à sua volta, pessoas que normalmente viveriam na sombra de um líder carismático sem se notabilizarem para o exterior, mas que têm nestes periodos a sua oportunidade de exibirem algum brilho. É o caso de Carlos Zorrinho. A sua escolha para líder parlamentar, para quem como eu não está dentro das lógicas internas do PS, é algo misteriosa. Não lhe noto nenhuns dotes oratórios especiais, não aparenta a combatividade necessária para o lugar, as suas críticas ao governo, presidente e adversários políticos são, devido à praga do politicamente correcto e “sereno”, de uma inconsequência atroz, e a gestão do grupo parlamentar do PS fica, enfim, um pouco abaixo do nível de José Mourinho. Ou de Paulo Bento. Ou de Carlos Queiroz. E depois há, ahem, isto:

Finalmente temos um acordo. Um mau acordo. Um acordo que garante um empobrecimento consentido do País mas um acordo necessário. Viva portanto o acordo.

Perceberam? Eu também não. Talvez perceba quando parar de rir.

Convido-vos no entanto a descobrir outra faceta. Esqueçam as entrevistas aos media, as colunas de opinião no Correio da Manhã ( a sério, não havia outro? ), ignorem tudo isso e dêem um salto ao twitter, onde o nosso homem na liderança da bancada é um comentador entusiasta de futebol, onde apresenta e defende as iniciativas do PS, divulga notícias, comenta programas e politica, e se envolve em frequentes polémicas com os restantes frequentadores do mais famoso espaço de insta-bitaites. E, mais importante, onde apanha forte e feio sem nunca se escusar a responder. Há políticos, muitos, para quem as redes sociais são apenas outro meio de divulgar sound-bites e propaganda. Não é, definitivamente, o caso de @czorrinho. Nota-se ali um genuíno gosto em interagir com os restantes cidadãos e procurar as suas opiniões, em utilizar a sua recém-adquirida notoriedade não para ego pessoal mas para defender as suas ideias e procurar, através desta interacção, aperfeiçoá-las. Mesmo que, como no caso do vendaval à volta do projecto-lei 118 (#pl118 no twitter) ou da PMA, esteja a defender o indefensável. Mas defende-o o melhor que sabe, directamente aos cidadãos que o questionam, criticam, algumas vezes hostilizam. E independentemente da opinião que se tenha da performance politica de Carlos Zorrinho, isto revela, para mim pelo menos, que tem aquilo que é essencial, que constitui a base: um intenso respeito pelos seus eleitores e pelo lugar privilegiado que estes lhe confiaram, e uma vontade genuína de o demonstrar na prática. Há muitos aspectos onde o cidadão preocupado pode e deve exigir mais, muito mais, de Carlos Zorrinho. Neste, no entanto, está perfeito.