Uma (perigosa) conspiração de estúpidos

Vamos ser muito francos com o que o futuro nos reserva. Vai haver julgamentos políticos de antigos ministros, sob disfarce de “judiciais”? Vai. Vai haver uma acusação, ou várias sucessivas, contra José Sócrates? Vai. Vamos assistir ao julgamento deste, e a um nível de circo mediático maior que a Casa Pia? Vamos. Para quem tinha ainda dúvidas, creio que o triste espetáculo proporcionado no congresso do PSD se encarregou de as dissipar. O alvo ficou perfeitamente assinalado, assim como os objectivos: destruir o PS, sobretudo um PS que ousou, nos últimos anos, lutar contra interesses que se julgavam, e se julgam, acima de tudo e todos. Ou “independentes”, como gostam de se denominar. E, para isso, destruir José Sócrates e quem o acompanhou, mesmo agora, é essencial. Corroer a memória de uma governação que os ameaçou como nunca antes, para que não volte.

O que ouvi e li do congresso foi de uma violência creio que inédita na história da democracia pós-PREC. Pelo menos da minha democracia. É fácil ridicularizar todas as afirmações tontas, espantar-se com a total falta de ideias, indignar-se com o desprezo absoluto das regras de civismo e ética, ficar de boca aberta perante a hipocrisia de quem aplaude Jardim e, no discurso a seguir, ataca quem “levou o país à bancarrota”. É muito fácil fazer tudo isso. Menos fácil está a ser outra coisa: lidar com as consequências reais desta estratégia continuada de demonização de um partido, de uma governação, e sobretudo de um primeiro-ministro.

Agora, fui um dos que pensou que uma vez derrotado politicamente, com jogo sujo ou não, Sócrates iria lentamente desaparecer do espaço público, substituído pelos adversários do momento na contínua luta política, numa saudável regeneração. Até escrevi um post bem-humorado sobre a falta que este iria fazer a muita gente. Estava enganado, admito, redondamente enganado. Todos os governos juram que não deitarão as culpas para o anterior, e todos o fazem inevitavelmente, durante algum tempo. O governo de Passos não é excepção, tal como não foi o de Sócrates. Mas isto que estamos a assistir é um animal completamente diferente. É um esforço deliberado para não os deixar cair no esquecimento, para maximizar o efeito de culpabilização muito para além do habitual. E essa estratégia, aplicada sem limites, só conduz a um resultado: o julgamento e tentativa de prisão de antigos governantes por motivos políticos, e a aniquilação via judicial de um partido adversário.

O Valupi já tinha referido isso no seu magistral “Estudos Socráticos“, mas o motivo do ódio não me convence. O ódio ( ou, na linguagem populista rasca da gente séria, a “indignação”) é apenas uma ferramenta desta estratégia, a cortina de fumo para esconder motivos bastante mais prosaicos. No caso do PSD, trata-se de tentar direccionar toda a insatisfação para um bode expiatório, e reescrever a história da crise de modo a que toda a culpa recaia sobre este, para assim justificar o desastre que se não só se adivinha, mas já está a ser concretizado. Já que não há pão, nem vai haver, pois que haja circo e ímpios atirados aos leões.

Juntam-se a estes a magistratura, também com um motivo prosaico: defender os seus privilégios, poder, e a sua posição inatacável na sociedade, desafiados por Sócrates, de maneira a que não haja quem queira repetir a graça no futuro. Para isso, utilizar a regra clássica dos senhores feudais: fazer um exemplo do prevaricador e de quem o acompanhava. Se a imagem da justiça se degradar ainda mais é, como o afirmo há muito tempo, para o lado que dormem melhor. Se és inatacável, para que é que te vais preocupar com a imagem? O poder é que interessa.

A terceira lança é uma imprensa muito fragilizada, dominada por grupos económicos cuja lógica de existir sempre esteve ligada às benesses do poder, e cujo conceito de jornalismo é apenas de um braço armado numa estratégia maior. Seguem e promovem, naturalmente, a narrativa que lhes interessa no momento. Utilitarismo puro. Caso Passos desafiasse esses interesses, a secção laranja do DN desaparecia numa semana e o CM começava a interessar-se pelo passado empresarial dos membros do governo, como Relvas bem sabe.

Para completar a tempestade perfeita, junta-se por ultimo um líder do PS fraco, calado, sem personalidade, e que não tem nenhum tipo de vocação para o combate aberto. Um apaziguador em tempo de guerra, o nosso Chamberlain de trazer por casa responde aos ferozes ataques com tímidas posições não só confirmam a “vergonha” que pretendem colar ao PS, como deixa o terreno perfeitamente aberto a que todas as outras forças adversárias definam sozinhas o que foi a anterior governação, e pior, quem é o PS agora. “Acabem com os Socráticos”, berram-lhe, o que o deixa num dilema: defendo-os e fragilizo a minha posição, ou calo-me? Acho que sabemos a resposta.

E, desgraçadamente, acho que sabemos o que aí vem. Gente desesperada é perigosa, e na total falta de ideias e esperança, o desespero é tudo o que têm. Sócrates que se prepare, isto não vai ser bonito.

15 thoughts on “Uma (perigosa) conspiração de estúpidos”

  1. Parabens por esta lúcida e judiciosa análise à presente situação partidária. Cabe a todos nós, melitantes ou simpatizantes do PS, desmascarar esta manobra da Coligação de Direita, que de facto está a canalizar a “indignação” dos portugueses para um único bode expiatório: a governação de José Sócrates.

  2. Não há que ter medo, suscitá-lo é o objectivo destes estúpidos. Há que ir-lhes às trombas (no sentido figurativo, evidentemente). Eu sei que não se vislumbram forças dispostas a isso, mas não nos podemos desculpar com tal facto. Afinal o país não é só composto de magistrados, jornalistas e seus patrões e medíocres em geral. Já muitas vozes se ouvem, se lêem não só na internet (não menosprezar), mas também na própria comunicação social mainstream( o Expresso, apesar de tudo, tem espetado cada uma…).Embora já quase tudo tenha sido entregue de bandeja, não temos de entregar a dignidade, por conta do medo (ai, Sócrates, com todos os teus defeitos, fazes tanta falta, por outro lado saiste da pocilga, olha, ainda bem). Mas a pocilga, a avaliar pela mobilização das “tropas” sente muito a tua falta, derivado da grave situação que o país atravessa, é necessa´rio urgentemente queimar um bode expiatório. Esta tradição é tão portuguesa, merda.

  3. Vocês são mesmo uma anedota. Durante anos bradam aos céus de cada vez que ocorre uma violação da presunção de inocência, jurando que o que conta é o desfecho judicial, que culpas, so provadas em juizo, etc e tal.

    Mas logo que se deparam com uma noticia sobre um processo potencialmente incomodo – ainda que neste caso anunciado de maneira mais do que esquisita, não digo que não – ja não ha respeito pela justiça que valha, o aparelho judicial esta podre de alto a baixo e confiar na justiça passou a ser um acto de traição torpe.

    O que vejo, tenho muita pena, é falta total de confiança, não so no aparelho judicial, mas no proprio processo juridico. Falta de confiança que soa, peço perdão, exactamente como a falta de sentido ético e civico denunciada no post.

    Um processo visa estabelecer se houve ou não violação da lei e em que medida. Em principio, se houve, todos ganham com a condenação, a começar pelo proprio condenado. Se não houve, ou se não ficou provado que tivesse havido, o tribunal absolve e também fica tudo a ganhar.

    Onde é que esta o problema ?

    A presunção de inocência, o respeito pela justiça e a confiança nos tribunais servem apenas quando da jeito ao tio Alfredo, é isso ? A justiça e o direito, tudo bem, mas com a condição de serem administrados exclusivamente sob as directivas do padrinho ?

    Vocês cansam-me é o que é…

    Boas

  4. também te achei cansado…dorme e vais ver que confundiste processo jurídico – que não se pode chamar a esta “coisa” – tu próprio admites – e com processo político. “Lá está este a confundir género humano com manel germano”

  5. Cara Edie,

    “Vamos ser muito francos com o que o futuro nos reserva. Vai haver julgamentos políticos de antigos ministros, sob disfarce de “judiciais””.

    Esta frase supõe uma absoluta desconfiança no processo judicial e na autoridade judiciaria. O que é que a justifica, ao certo ? Vocês pensam mesmo que um juiz pode facilmente, so para fazer um favor aos amigalhaços do sindicato, proceder desta forma ?

    O que v. estão a dizer é que eles são “todos podres”, precisamente o argumento a que recorrem os adversarios de Socrates quando dizem “o homem é um criminoso e so não foi ainda condenado porque a justiça deste pais é corrupta”.

    Tenham juizo !

  6. Se o Passos entrar na do TGV para as mercadorias tem de ser corrido, já!

    Nós não temos mercadorias porra nenhuma para despachar em grande velocidade.

    O azeite e a cortiça pode ir a passo lento

  7. O problema, João Viegas, é que o uso de justiça para fins políticos é uma acto totalitário e fascista. Lembra-se dos tribunais plenários?
    O problema, João Viegas, é que a queixinha do proto sindicato só visa aqueles políticos que lhes retiraram o subsidio de renda e as férias grandes, ficando de fora todos os anteriores governantes, os que se portaram devidamente sem se atreverem a mexer no vespeiro.
    A anedota, João Viegas, é que haja quem presuma que todos os demais são parvos.

  8. Concordo com o “perigosa”, concordo muito com o “conspiração”, mas concordo ainda mais com o “estúpidos”.

    Por agora, não vou alongar-me. Resta-me esperar serenamente que os ventos da História façam, como sempre, o seu papel e remetam estes estúpidos perigosos para o mesmo lugar em que foram para sempre encafuados os estúpidos, ainda mais perigosos, que gozaram com o Chamberlain e o Daladier em Munique.

    Resta saber, para a metáfora ficar completa, quem será o Churchill desta história (seguramente, não quem à primeira vista se poderia pensar), até onde e quando será necessário expandir o sofrimento e a devastação neste País para fazer triunfar a Resistência e, finalmente, onde terá que se despejar a bomba atómica, sem dó nem piedade (na ICAR?), para não deixar pedra sobre pedra, nem sequer um grão de terra onde possa voltar a medrar a semente deste conglomerado infamante.

    Estão a espetar canas no touro entorpecido, mas quando ele acordar e se erguer é que vamos ver como as forças profundas da História marram e estropiam…

  9. O farto destas merdas e o cão raivoso são uma única e a mesma pessoa (identificar-se em perfil de blogger, como Júlio de Matos), pelos vistos deixaram a porta do loony bin aberta :-).

    Os blogs são, Cão Raivoso: CUIDADO! e «BARDAMERDA, MAIS OS FASCISTAS!» (Pinheiro de Azevedo em directo para a RTP 1, Out./1975).

    O primeiro tem 4 posts do autor e zero aderentes.

    O segundo tem um aderente (que pode aliás ser uma terceira fachada para o sobredito júlio de matos) e 12 posts, todos também do autor.

    Estamos esclarecidos!

    Vá pastar!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.