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Credibilidades e injustiças

Ontem, ao contrário do que é felizmente habitual, cometi o erro de visitar o site do i. Não sendo um espectador particularmente atento dos nossos media, lembro-me que quando foi lançado era um jornal bonito, agradável e que tentava ser inteligente, o que muitas vezes conseguia. Passando por lá agora, o panorama é devastador. Não faço ideia, nem me interessa em especial, se o objectivo é ultrapassar o Correio da Manhã por baixo, numa espécie de jogada para nulos por falta de trunfos. Mas o nível é dos mais rasteiros que já tive o desprazer de ler. Basta ver esta peça, ou esta. Duas entre muitas (já nem falo disto), onde o insulto, a calúnia e a insinuação são usados de uma maneira que quer passar por natural, como se quisessem impor um novo normal em termos de reportagem. Resumindo, um esterco. Descontando, no entanto, todo o resto das notícias e reportagens que compôem o resto do site, que me parecem normais, até boas. Não volto é lá tão cedo, como é evidente.

Há uma afirmação que vejo esgrimida à laia de argumento quando se chama a atenção para algumas peças de tal maneira más que é impossível disfarçar que são encomendas de alguém, ou fruto de ódios particulares. Dizem-nos: “sim, até podes ter razão em algumas, mas 95% dos jornalistas são pessoas sérias e isentas que não se prestam a tais serviços”. Não tenho informações – já que não conheço nem o meio nem nenhum jornalista – para desmentir esse argumento, pelo que o aceito como verdadeiro e justo. E irrelevante. Uma edição de  jornal não é composta de 95% de jornalistas, é composta por 100. E os 5, mesmo em minoria clara, estragam o trabalho e a reputação dos outros, porque estes não têm associados às peças um indicador de credibilidade, e eu tenho mais do que fazer do que decorar-lhes os nomes e seguir-lhes as carreiras, para poder afirmar, como se vê tanto por aí, “ah, mas isso é uma peça do X, que odeia Y”, como se fosse justificação. Por isso, se vejo uma notícia falsa, enviesada, caluniadora, encomendada, lamento mas como leitor tenho que partir do pressuposto que todas as outras também o podem ser. E que o editor do jornal se está perfeitamente nas tintas para o que é verdade, ou então até faz parte dos 5. Que neste ponto não são 5. Para efeitos de reputação, no que me diz respeito, são potencialmente 100.

O que não quer dizer, obviamente, que os jornalistas não podem errar, e que uma redacção tem de ser constituída por anjos. Todos erramos, como é óbvio, e felizmente ninguém é perfeito. Mas acontece que um jornal, a meu ver, vive antes de tudo da credibilidade. Essa é a sua alma, a sua razão de existir – o facto de o que lá vem contado corresponder à verdade,  de não andarem propositadamente a enganar os leitores ou a induzi-los em erro, de não haver agendas ocultas. Podem contar-me mil histórias e relatos fantásticos, bem escritos, detalhados. Se quem me conta não tiver credibilidade, essa técnica e talento não passam de acessórios inúteis a adornar trabalhos de fantasia com propósitos dúbios. A credibilidade de um órgão de informação – e por inerência a credibilidade de todos os que lá trabalham – é o seu esqueleto, aquilo que suporta toda a estrutura. Enfraquece-se, nem que seja numa pequena parte, e tudo o resto é posto em causa, por melhor que seja.

Por isso, quando se tenta justificar que nada disto é muito relevante ou deva pôr em causa a reputação dos media, porque a vasta maioria são bons profissionais, faço a seguinte pergunta: ficavam num hotel onde o gerente vos garantisse que a vasta maioria dos quartos não tinham baratas? Ou chamavam ao sítio uma pocilga e nunca mais lá punham os pés? A meu ver, seja em tablóides ou em jornais ditos de referência – e sobretudo nestes – existe uma cultura de tolerância, e ás vezes encorajamento, para com percevejos que destroem toda a imagem do edifício que é um órgão de informação e de todos os que lá trabalham. É claro que nos hotéis de referência há sempre a hipótese, mesmo remota, de aparecer uma barata no quarto, tal como num jornal de referência. Como já escrevi acima, nada é perfeito, e aconteceu há uns anos no NYT, por exemplo. A diferença está em que no Hilton o gerente, pálido e a tremer, pediria mil vezes desculpas, trataria do assunto imediatamente, e garantiria-me que tudo seria feito para nunca mais sucedesse. Nos nossos jornais, sinceramente, tenho grandes dúvidas que sequer admitam a existência do insecto, e mesmo que sim a suposta reputação não poderia ser posta em causa com uma admissão dessas. Não há baratas neste nosso hotel, nunca, essa acusação é um insulto que nem merece resposta. O que me leva, como pessoa decente e senhor da minha carteira, a evitar tais pocilgas. As tais que, apesar de tudo, têm provavelmente a grande maioria dos quartos perfeitamente limpos.

A dura vida dos patos

Sobem os impostos de maneira, enfim, “brutal”, para controlar uma situação económica em espiral depois do chumbo do PEC IV e cumprir com um programa punitivo que vai devastar a economia e a vida de muito boa gente. Os famosos cortes na despesa, a tal fórmula mágica que Sócrates não queria implementar por causa dos “amigos” e das “clientelas”, afinal não se conseguem, não é? E os que andaram anos a acreditar em conversetas infantis como “cortar as gorduras do estado”, “acabar com os institutos”, “não sacrificar a classe média”, e o governo de gente “honesta, competente e capaz” que tinha “tudo estudado” para governar com o FMI que “vinha pôr isto na ordem”, enquanto fingiam (mal) que isto era mais do que uma mera campanha para correr com o Sócrates e restaurar o satus quo de gente que estava cansada de estar de fora do poder e influência a que estavam habituados,  dizem-se agora desiludidos e desapontados uns meros dois meses depois da tomada de posse. Desculpem, retirando os spinners e propagandistas que se limitaram a fazer, e bem, o seu trabalho, isto inclui muita gente à direita que respeito e gosto de ler, independentemente de concordar ou não. Mas “desiludidos e desapontados”? Só se for com vocês próprios.

A era dos ciborgues

(Via Sullivan)

Como o intrigante documentário acima procura demonstrar, não deverá demorar muito tempo, talvez pouco mais que uma década, até a tecnologia prostética avançada começar a produzir membros artificiais superiores aos nossos. O estado da tecnologia e investigação, e os resultados, são surpreendentes já hoje. O que dará origem a fascinantes debates éticos sobre se será lícito, por exemplo, pedir a um médico que ampute pernas ou braços saudáveis para os substituir por máquinas mais eficientes, mais fortes ou mais rápidas. Em primeiro lugar, e estou a pôr-me a adivinhar, ao nível dos militares. Um dia, cada vez mais perto, teremos que discutir a outro nível uma velha questão: o que é um ser humano?

Mas essa questão, sem que tenhamos dado por ela, já existe hoje ao nível do cérebro. O que nos separa do mundo imaginado por William Gibson são apenas alguns detalhes. Estamos hoje rodeados de informação. Literalmente rodeados, já que são raros os sítios habitados que não estejam cobertos por redes digitais de telemóvel e de wi-fi, sendo apenas necessário um pequeno aparelho para lhes aceder, e com isso a quase todo o conhecimento humano. Estejas onde estiveres, tens acesso rápido a uma imensidão de dados – conhecimentos, notícias, trivialidades, imagens, mapas, videos, musica. Eu, pelo menos, já a trato como uma extensão natural do meu próprio cérebro. Não me lembro de alguma coisa, quem realizou este filme, quem escreveu aquele livro, e em que data? Click, click, click, está relembrada em segundos. Estou perdido numa estrada secundária no meio da serra? Não, não estou, o telemóvel e o Google sabem exactamente onde estou e como sair dali. O Valupi usa uma palavra que não conheço (o que acontece com frequência) ou uma referência grega (ainda mais frequente)? Click, click, clik, tenho as bases necessárias para pelo menos entender qual o sentido da frase, e ler mais se me interessar. E utilizar os meus recém-adquiridos conhecimentos para tentar comentar alguma coisa, participar numa discussão que me estaria vedada há uns meros anos atrás.  Enquanto o carro está no túnel de lavagem.

Isto faz de mim possivelmente uma fraude, no sentido em que passo por mais culto do que realmente sou sem ajuda externa. Sem a prótese electrónica que o meu cérebro utiliza cada vez com mais frequência, mais naturalmente. Mas entendo a internet como o meu disco rígido pessoal, a minha colecção de neurónios exteriores, sempre presentes desde que haja bateria. O resto, o que entendo por inteligência, é capacidade de processamento de toda essa informação numa linha de pensamento coerente, e mesmo aí temos exemplos quase ilimitados de gente muito acima do nosso nível que todos os dias demonstram online como se faz. Cultos já todos podemos ser sem grande esforço, quase instantaneamente. Sábios é apenas uma questão de aprendizagem. Cada vez mais rápida com ajuda de máquinas, como um bom ciborgue.

Plano de confiança

Cortar nas despesas do estado, ou seja, pôr o estado a injectar muito menos dinheiro na economia. Aumentar os impostos para reduzir o défice, retirando ainda mais dinheiro da economia. No fundo, tanto o estado como os cidadãos gastam menos, ou seja, compram menos produtos às empresas, que produzem menos e precisam de menos gente. No final, se tudo correr bem, teremos um estado menos endividado – as famosas “contas públicas em ordem” – à custa de uma enorme recessão e desemprego galopantes que essas medidas provocam, mas pronto a crescer devido à “confiança” que as tais contas públicas controladas provocam. Os mercados e agentes económicos olharão para nós e pensarão: “Estes tipos não só não crescem como estão em recessão, não há dinheiro a circular na economia, não investem por falta de fundos, têm um quinto da população de desemprego, mas têm um défice controlado graças a impostos altíssimos. Toca a baixar os juros e a emprestar, que isto é certinho.

Este é o plano, não é? Não me parece grande coisa.

Ilustres origens

É natural também que muitos de V. Exas. tivessem curiosidade em conhecer o Ministro das Finanças… Aqui está e é, como vêem, uma bem modesta pessoa. Tem uma saúde precária e nunca está doente; tem uma capacidade limitada de trabalho e trabalha sem descanso.

Porquê este milagre? Porque muito boas almas de Portugal oram, anseiam por que continue neste lugar.

Represento nele determinado princípio: represento uma politica de verdade e de sinceridade, contraposta a uma politica de mentira e de segredo.

Advoguei sempre que se fizesse a política da verdade, dizendo-se claramente ao povo a situação do País, para o habituar à ideia dos sacrifícios que haviam um dia de ser feitos, e tanto mais pesado quanto mais tardios.

Advoguei sempre a politica do simples bom senso contra a dos grandiosos planos, tão grandiosos e tão vastos que toda a energia se gastava em admirá-los, faltando-nos as forças para a sua execução.

Advoguei sempre uma politica de administração, tão clara e tão simples como a pode fazer qualquer boa dona de casa – política comezinha e modesta que consiste em se gastar bem o que se possui e não se despender mais do que os próprios recursos.

(…)

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Como baixar salários e ser aplaudido por isso

Se dúvidas houvesse sobre o Processo de Liberalização em Curso, eis o pré-aviso do fim do 13º e 14º mês. Não vão ser obviamente cortados assim a frio, que ninguém está para tumultos e isto é governo de gente séria, honesta e transparente. Vai ser um processo subtil, bem descrito aqui pela pena de Bagão Felix. Funciona assim: para “facilitar a gestão de tesouraria” das empresas, o subsídio de férias e Natal passam a ser pagos todos os meses. Ninguém perde dinheiro, os empresários passam a pagar os subsídios a prestações, e os trabalhadores recebem um pouco mais todos os meses, passando a ser sua responsabilidade poupá-lo. Coisa que, como quem se desunha para esticar o salário até ao fim do mês sabe, é bastante fácil e nada dado a tentações.

Isto acaba, de forma indolor e provavelmente com alguns aplausos,  com a ideia bastante enraízada de receber salários a dobrar duas vezes por ano. Uma vez a ideia aceite e posta em prática, esses items passam a estar “incluídos” nos salários existentes e, estando aqui a beleza da coisa, nos salários dos novos contratos, salários esses que naturalmente, por força do mercado, da crise e da competitividade, baixarão para os valores anteriores, ou próximos. Passam é a ser com “subsídios incluídos”, até um dia se resolver acabar com essa “relíquia”. Exceptuando, claro está, o salário mínimo que desta forma “sobe”, dando por outro lado uma boa desculpa para estar uns anos sem o actualizar. Porque como nos diz o bom Bagão, “O SMN de 485 € pago em 14 mensalidades é o mesmo que 566 € por 12 meses“. Aqui está o aumento do salário mínimo muito para além dos 500 Euros exigidos. Quem é amigo, quem é? Não me digam que ainda o vão querer subir mais?

E assim se acaba com este disparate de subsídios “reveladores de uma lógica de consumo sazonalizado“. Como há uns dias me dizia um amigo, pequeno empresário, “então um tipo fica sem a funcionária e ainda tem de lhe pagar? Era o que faltava”.

Quanto a ir efectivamente de férias, ou a oferecer presentes de Natal, é simples: poupas religiosamente, todos os meses, uma parte dos teus 566 euros, ou dos teus 1166 euros, se fores um dos afortunados da “geração mil euros”. E rezas para que resistas à tentação quando chegar o “acerto” da EDP, ou outro acidente do género. Se não conseguires, problema teu. E a praia, de qualquer maneira, é para reformados estrangeiros.

Leituras na encruzilhada

De Edward Hugh, um dos economistas que mais gosto, vem esta análise sobre a quase inevitabilidade de partir o Euro – e a Europa – em dois, um para países nórdicos, liderados pela Alemanha, e outro para países mediterrâneos, liderados pela França. Creio que é uma hipótese a ser levada muito a sério.

Junte-se este grande artigo de Michael Lewis na Vanity Fair sobre a Alemanha, a mentalidade alemã e como a sua banca foi completamente enganada por Wall Street na crise de 2008. É longo, mas vale muito a pena para compreender a encruzilhada em que o motor da Europa se encontra.

 

Prevenção de violência

É compreensível que haja uma revolta latente na sociedade, e que esta se possa tornar violenta. Afinal, os trabalhadores, os jovens, os precários, os desempregados, os estudantes, os professores, os funcionários públicos, boa parte da classe média, toda uma imensa massa de gente que vê um futuro cada vez mais negro e sem esperança, todos eles foram traídos por gente sem escrúpulos que mentiu, enganou, e se serviu deles, da sua boa-fé, e da boa-fé do sistema democrático, para avançar as suas agendas submissas ao grande capital, aos banqueiros, ao FMI, aos grandes empresários exploradores, ao capitalismo liberal e selvagem, ao assistêncialismo degradante.

Quando se promete uma vida melhor e se trai essa promessa de maneira tão descarada, entregando as riquezas da maioria a uma minoria de poderosos de sempre, e depois se tem a suprema lata de vir clamar que nos defendem, que é para nosso bem, é natural que o ressentimento e a revolta  se acumulem e possam acabar por explodir de maneira violenta e imprevisível. É por essa razão, e para evitar vítimas e destruição de propriedade, que o governo tem de estar muito atento a eventuais ataques às sedes do PCP e do BE. Afinal, mesmo os piores oportunistas têm direito a serem protegidos da revolta do povo, por muito justa que seja.

As batalhas do Euro

Esta notícia é o exacto oposto desta opinião, e de outras parecidas. Os alemães e os franceses não vão deixar cair o Euro nem a UE, pelo menos não estes dois, a decisão de ajudar a Espanha e Itália através do BCE é de uma coragem assinalável – mesmo que não tivessem outra hipótese – e desmente quem acusava esta geração de responsáveis politicos de “falta de visão europeia”. O problema, a meu ver,  é se os respectivos eleitores não têm o mesmo entusiasmo e acabam por correr com eles, ou o que acontece quando os mercados atacarem França. Isto é uma guerra financeira à escala global, e não há certezas, excepto que nada ficará como antes.

Álvaro ao sol

Está a tornar-se notório que este governo tem dois ministros que vale a pena seguir com atenção – Victor Gaspar e Nuno Crato – porque mesmo discordando das orientações nota-se que sabem minimamente o que querem fazer, embora não saibam bem como lá chegar (algo mais evidente no caso de Crato, que espero que aprenda depressa que o ME é um campo minado cujo objectivo é fazer ministros ficarem sem pernas para andar). Têm o mérito  de requererem inteligência e alguma profundidade nas críticas e avaliações. Há outros dois que pelo que se percebe são tão fraquinhos, mas tão fraquinhos, que a simples galhofa serve. O caso mais evidente é Assunção Cristas, que revelou a sua total e completa impreparação para cargos desta responsabilidade não pelo inconsequente episódio das gravatas, mas por ter achado necessário publicar o mesmo em DR, onde ficará para gozo eterno. E Paulo Portas, que evidentemente se acha merecedor de umas prolongadas férias à volta do mundo, já que conseguiu ser aliviado de toda e qualquer responsabilidade que interesse.

E depois há o Álvaro, o génio de Vancouver.

Aqui a galhofa já entra na fase de humor negro, daquele que utilizamos quando o motor do avião começa a arder. Já é outra coisa, bem mais séria. Porque os seus conhecimentos académicos sobre economia são evidentes, ninguém põe isso em causa. E tem uns livros escritos. O que é espantoso é que use essa suposta munição intelectual para tantos tiros de pólvora seca, tanta banalidade, tão medíocre que roça o insulto. Aliás, é mesmo insultuoso. Aqui temos alguém que alegadamente seguia de perto a economia portuguesa, que tem extensos conhecimentos em “desenvolvimento económico”, e que chamado ao seu país para aplicar esses conhecimentos, o que tem a propor é a “Florida da Europa”, num programa que ameaça designar de “Reforma ao sol”.

Florida da Europa? Reforma ao sol? A sério?  Atrair estrangeiros nos anos dourados? Mas porque é que nunca ninguém se lembrou dessa? Ninguém repito, absolutamente ninguém. Essa é a grande ideia de desenvolvimento para o futuro? Porque até agora não ouvi outra, tirando a revelação que temos que apostar na exportação, outra das coisas que ninguém fazia ideia. Mas falando em exportação, alguém lhe ouviu, até agora, alguma coisa relacionada com ciência e tecnologia? Eu também não. Investigação e desenvolvimento? Não. Energias alternativas? Nada. Carro eléctrico? Zero. Cluster de aviação, aproveitando a vinda da Embraer, conseguida pelo anterior governo? Silêncio. Até tenho medo que alguém pergunte ao ministro o que é que devemos exportar, porque ainda se sai com a industria conserveira, ou sapatos baratos, ou outra do mesmo calibre e actualidade. Resultou nos anos 50, não foi?

Ou seja, para resumir, as ideias do ministro académico para o “desenvolvimento económico” são: marketing inútil (“marca Portugal”, agora é que ninguém nos pára) a juntar ao mercado imobiliário e restauração (“Reforma ao sol”). A estratégia dos três Tês – Tangas, Trolhas e Turismo – para servir os cidadãos estrangeiros que colhem os frutos das suas economias avançadas . E é isto, pelos vistos, que o académico do Canadá acha que é o nosso futuro. Para usar as suas palavras, tão inteligente e inovador que nem parece feito em Portugal.

Descobertas acidentais

Gostava de vos relatar uma experiência que me aconteceu. Deixei recentemente cair uma moeda de um euro no fogo, e quando a fui buscar – porque os tipos da EMEL estavam à coca, e era a única – reparei que, para além de se ter mantido fria, apareceram umas curiosas inscrições no bordo.

 

 

Após aturada pesquisa, determinei que eram em Hermiónico, linguagem muito antiga, do tempo das runas. Traduzido para Inglês contemporâneo, dá sensivelmente o seguinte:

One currency to rule them all, One currency to find them,
One currency to bring them all and in the darkness bind them
In the Land of Mordor where the Shadows lie.

Não sou dado a teorias da conspiração, mas acho isto curioso. Se algum jornalista quiser perguntar ao Jean-Claude Trichet, agradecia. Ou ao Victor Gaspar. Ele trabalhou no BCE, portanto deve saber.

Aquelas máquinas

Pouco mais de um mês depois da tomada de posse, vemos finalmente qual era afinal o verdadeiro programa de governo. É simples, claro, e sempre esteve à vista de todos: fazer tudo, mas tudo aquilo que acusavam Sócrates nestes últimos anos. Tomar de assalto todas as estruturas do estado? Check. Aumentar brutalmente os impostos? Check. Negócios escuros e muito mal explicados com figuras ligadas ao partido? Check. Trapalhadas na educação? Check. Ordem para fechar centros de saúde? Check. Abusar dos poderes do estado para fins políticos? Check. Politicas calamitosas para a economia? Check. Ataque à classe média? Check. Usar o MNE para passeatas sem resultados ao nível da captação de investimento? Check. Deferência absoluta com os poderosos da UE? Check. Medidas apenas destinadas a propaganda barata, a.k.a. “exemplos”? Check. Governar para as manchetes de jornal, uso intensivo do spin e mentiras,  relações estranhas com os patrões dos media? Check, check e mais check.

Olhando para trás, percebe-se que estávamos todos enganados: não eram acusações nem campanhas negras. Eram promessas eleitorais, e estão a ser rigorosamente cumpridas. É difícil ser mais eficiente.

Caminhos tortos

A reacção da UE à crise das dívidas soberanas pode ser exasperante, mas não é totalmente desprovida de lógica. Por muita retórica ou entusiasmo europeísta que haja, a “Europa” não é um país, nem sequer uma cultura. É uma colecção de povos, e respectivos países, com tanta história e raízes em comum que os aproximam como velhas histórias  e raízes em comum que os afastam, mas cujo casamento é puramente por interesse estratégico. Poderá mais tarde resultar em amor, como é tão comum neste tipo de uniões, mas ainda não estamos no ponto onde alguém se considere “Europeu” antes de “Português”, ou “Holandês”, e ainda terão que passar muitas gerações antes que isso aconteça. É neste caldo de cultura, interesses e desconfiança mútua que navegam os políticos europeus, sobretudo nos países nórdicos mais desenvolvidos. Os cidadãos desses países, mesmo acreditando no projecto europeu, não vêem propriamente os nossos problemas como deles, e ressentem serem chamados a sacrificar-se para os resolver, tendo em conta que um eleitor alemão, aqui, não manda nada. Embora seja chamado a pagar a “nossa” crise.

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Novo acordo ortográfico

É curioso ver as alterações de linguagem na blogosfera de direita, e não só,  agora que chegou finalmente a sua vez de ir ao pote. Para simplificar, aqui fica um breve dicionário, para quem não seja jornalista ou a quem não tenha chegado o memorando:

Onde se escrevia Deverá escrever-se
Boys Assessores
Propagandista Profissional de comunicação
Nomeações Convites
Sofreguidão Aceite com muita honra
Gamela do estado Serviço público
Incompetencia Benefício da dúvida
Lambe-botas Rendido à visão de Passos Coelho
Familiar de Curriculum impressionante / provas dadas
Páraquedista Voz independente
Crise nacional
Crise da zona Euro
Crise (agravar da) Estado em que encontrámos o país
Abrantes Gente para quem a antiga grafia ainda se aplica
Jornalista de coragem Assalariado do patrão com interesses ocultos
Dessassombrado Ressabiado
Crítico Aquele que esperava ser convidado
Ilegalidades Delírios risíveis
Projectos megalómanos Investimentos geradores de emprego (a partir de 2012)

Como todos os acordos anteriores, este é meramente temporário e passível de revisão assim que as condições mudarem, prevendo-se o retorno à velha grafia assim que o Partido Socialista regressar ao poder.

Breves conclusões da cimeira

Os alemães e os franceses provaram que a UE e o Euro são para levar muito a sério, o “independente” BCE pode ladrar o que quiser, mas dá a pata quando o dono manda, e mais nada. Estamos definitivamente a caminho de uma federação, e se as coisas derem para o torto, como podem perfeitamente dar, vamos todos abaixo. Mas por agora respiramos. O Papandreou, como bom socialista,  salvou o seu país e deve ser corrido em breve. O Pedro Passos Coelho é um filho da mãe com sorte, e tem governo para quatro anos, ou até começar a recuperação e o Cavaco quiser disputar os louros, o que chegar primeiro. As grandes obras e investimentos públicos com fundos da UE – para a criação de emprego e recuperação da economia – devem ser lançados para o ano e serão valentemente elogiados pela direita, para quem o betão é o equivalente da cocaína. O BE morreu ontem. O António José Seguro também, mas ninguém dará pela diferença.

A face dos mercados

Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates, o maior Hedge Fund do mundo, gere perto de 100 mil milhões de dólares, tem como clientes principalmente fundos de pensões e instituições governamentais, e especializa-se em mercados monetários e dívidas soberanas. O ano passado, ganhou entre 2 a 3 mil milhões de dólares de remuneração, e pensa na economia como uma gigantesca máquina a ser dominada, que funciona de acordo com as leis de Darwin. Alguns chamam-lhe o “líder de um culto”. Para quem pensa que “os mercados” são uma espécie de entidade etérea, quase mítica e incompreensível, aconselho este excelente artigo de fundo da New Yorker. É longo, mas permite conhecer melhor o pensamento de quem exerce, efectivamente, esse imenso poder.