Arquivo da Categoria: Valupi

Como se come bem no Palácio de Belém

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No último almoço com Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, neste domingo que passou, éramos apenas 5 convivas. Ele, eu e outros três. Calhou ficar a seu lado, mas costumo ficar de frente, prefiro. Começámos com Carpaccio de Atum Fresco Albardado com Coentros Regado com Vinagrete de Pimentos, o qual suscitou genuíno entusiasmo. Seguiu-se Peito de Pato Lacado com Mel Sobre Batata Gratinada com Queijo da Ilha, provocando polémica precisamente por causa do Queijo da Ilha. A paz aterrou sob a forma de Pastéis de Toucinho do Convento da Esperança. E foi por me ter recordado da conversa sobre o Queijo da Ilha com sabor a pato, e ainda com meio pastel na boca e perdigotos kamikaze prontos para levantar voo na direcção do pulôver amarelo do anfitrião, que me virei para ele e disse Olha lá, ó Cavaco, mas para que é que os jovens se hão-de interessar por política e por História de Portugal, e o camandro que para lá disseste na Assembleia, quando o seu Presidente vai à Madeira, leva bailinho dum merdas que só diz merda, e volta com o rabo entre as pernas? Ficou tudo a olhar para mim, atónitos, porque se davam conta de ter eu comido o último pastel. E foi então que Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, aparentemente imune à crise dos postres, me perguntou com oportuno sentido do meu estado, Cafezinho?

A tragédia de um homem ridículo

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Menezes não tem juízo e saiu do Conselho Nacional em lágrimas, há dias. Já tinha saído de um Congresso em lágrimas, há anos. O homem é um choramingas e consegue contagiar a assistência: a sua passagem pela presidência do PSD foi de ir às lágrimas, seis meses de cachinadas.

Menezes não acertou uma. É um feito extraordinário. Contraria a lei das probabilidades, impondo a evidência: é preciso ter talento, e ser-se altamente disciplinado, para conseguir falhar cada uma das inúmeras ocasiões de comunicação com o País. A miséria começou logo no confronto eleitoral com Marques Mendes, onde exibiu o vazio que transportava entre as orelhas. Daí para a frente, só piorou, piorou, piorou. No pináculo do caso BCP, Dezembro, já estava enterrado. Tinham passado três meses, 12 semanas, e faziam-se apostas para a data de saída. Nos três meses seguintes, o PSD iria entregar ao PCP a liderança da oposição; e de forma inimaginável: sendo conivente com a demagogia da rua, com a retórica da luta. Naquele que foi o período mais difícil para Sócrates em toda a legislatura, quiçá o mais instável para a Nação desde a morte de Sá Carneiro, e que não se voltará a repetir nos próximos 20 anos, o estouvado dirigente dava tiros no pé, no próprio partido e na cabeça. Mas pior ainda era possível, e Vasco Pulido Valente e Pacheco Pereira, de repente e em maluqueira, acordaram para a possibilidade do moribundo PSD acabar às mãos de um gaio Kevorkian.

Menezes não prova que o PSD bateu no fundo, ou que os políticos são uma corja desprezível. Bem pelo contrário. A rapidez com que se conseguiu expulsar este traste é um dos mais optimistas sinais de saúde política. É cada vez mais difícil vender banha da cobra, e cada vez mais insuportável testemunhar o ódio à comunidade que esguicha dos partidos que não alcançam ser mais do que clubes de interesses ou hospícios para esquizóides ideologias, eis a boa lição do esdrúxulo fenómeno que levou um retinto incompetente para a ribalta. Recuperando o narcísico lema, se hoje somos muitos, amanhã seremos milhões a deixar de ligar aos tribalismos partidários, às barricadas, e barracadas, do maniqueísmo esquerda-direita. Em vez dessa forma rudimentar, porque ainda animal, de fazer política, passaremos a querer a coragem e a inteligência. Venham elas de onde vierem, estejam onde estiverem, é nelas que iremos votar. E é com elas que vamos ficar um bocadinho mais responsáveis, um bocadinho mais humanos.

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Menezes não realizou La tragedia di un uomo ridicolo em 1981, ao contrário do que defenderam publicamente Marco António Costa e Ribau Esteves nos últimos dias, isso deve-se a Bernardo Bertolucci. Quando vi o filme, alguns anos depois, não percebi nada daquilo, feliz ignorante das temáticas em causa. Mas a minha adolescência guardou a cena em que Laura Morante tira a camisola vermelha e oferece ao celulóide a imagem das suas gloriosas mamas. Como somos todos, por igual, homens e mulheres, apreciadores de um bom par destas fascinantes glândulas, desde que na sua versão feminina, e sendo daquelas predilecções que não carecem de explicação, partilho o meu entusiasmo de outrora agora. O filme demora muito a carregar, e a cena é lá para o final. O que significa três coisas: um prémio para a paciência, a oportunidade de ver um filme que nos acrescenta e um aplauso para a China, esse império capitalista que nos disponibiliza a raridade cinéfila na Internet e por inteiro.

O meu 31

Rui Castro, um dos autores do 31 da Armada — blogue onde escreve Rodrigo Moita de Deus, que já por aqui passou — convidou-me para um poste. O resultado foi este.

O Rui desafiou um conjunto de personalidades seguindo o seu estrito critério de gosto na leitura, daí o convite. Começou a série com José Tolentino de Mendonça, seguindo-se Ana Cláudia Vicente, Pedro Correia, Filipe Nunes Vicente, Jacinto Lucas Pires, Pedro Picoito e Pedro Rolo Duarte, até agora. Perante o alto perfil desta lista, e tendo em conta que o Rui e eu trocámos os primeiros emails por causa do seu desafio, a minha surpresa, e estulta vaidade, não pára de aumentar.

Excelente iniciativa, num excelente blogue. Mas só para quem gosta da direita inteligente, atenção.

Amo-te, Chalana

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[Nota prévia: tenho mais de 25 anos como sócio do Sporting e as quotas em dia]

No jogo da Taça, em Alvalade, a câmara apanhou Chalana a festejar o segundo golo com movimentos labiais que me sugeriram a expressão Toma lá!, simultâneos com gesto castiço dos braços esticados junto ao corpo, mãos fechadas, na direcção do Shéu. Fiquei contente por ele, comovi-me com a sua juvenil alegria. Também eu celebrei com os lampiões a surpresa do 2-0 no meio da selva. E a coisa ameaçava o terceiro, a caminho do intervalo, o que teria sido, literalmente, espectacular.

Dias antes, jogo com a Académica, Chalana tinha estado na conferência de imprensa onde falou dos 3-0 como quem anuncia o desastre do Titanic aos familiares das vítimas, aos investidores arruinados e aos jornalistas incrédulos. E não era para menos: tal como com esse paquete de luxo, provando que a História se pode repetir duas vezes como tragédia, também o caríssimo Benfica tinha erros na estrutura, materiais de fraca qualidade e uma quantidade ridícula de botes de salvação. O afogamento era certo, marejava-se o coração da Nação Benfiquista.

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Fitna – II

O nosso amigo Carmo da Rosa pregou uma inteligente, e clássica, partida a propósito da publicação do vídeo Fitna. Os resultados estão à disposição dos interessados; e valem, para mim e principalmente, por esta evidência: o problema do terrorismo islamita, mais as melindrosas e desvairadas questões conexas, não se resolve com o silêncio das vítimas, muito menos com silenciamentos. O facto de ser uma ameaça potenciadora, ou geradora, de desequilíbrios psíquicos (vide exemplo nos comentários), e de posições confusas (vide exemplo nos comentários), e de contradições obscenas (vide exemplo nos comentários), mais urgente e meritório torna o diálogo com os apavorados, os medrosos e os preconceituosos. Até com os imbecis.

E o Fitna? As centenas de milhões de crentes muçulmanos não pareceram muito preocupadas com as peculiaridades da política holandesa, e as manifestações foram raras e sem entusiasmo. A reacção mais violenta, e ironia das ironias, ainda é a de Kurt Westergaard, o qual protestou por aparecer o seu famoso boneco à má-fila, sem o terem sequer avisado. Para os distraídos, fica claro quais são os limites da liberdade de expressão: os direitos de autor. Qualquer outro limite, e excluindo a legislação aplicável, é inadmissível e deve ser denunciado como ofensa à Civilização.

Por cá, jornalistas e blogues preferiram ignorar a surpreendente peça de Geert Wilders. Não me pagam para explicar o fenómeno, mas como observador aponto para um aspecto notável do Fitna: em nenhum passo se promove a violência contra pessoas, etnias ou credos. Aliás, desconfio que o registo baralhou por completo os axónios a muito boa gente, contribuindo para explicar a mudez geral. O que fica da narrativa é uma comunhão com o sentimento de perplexidade perante a aberração de actos e intenções. A mensagem poderia — e deveria! — ter vindo de um crente islâmico, pois o mal faz vítimas entre todos os que procuram viver em paz.

Entretanto, um palonço saudita, de seu nome Raed Al Saeed, deu que falar com o vídeo Schism. O filme é completamente idiota, risível de tão tonto, mas assinala a possibilidade de diálogo com a nova geração de muçulmanos cosmopolitas. Basta que eles consigam entender que a religião cristã já foi derrotada faz tempo, muito tempo. O cristianismo não passou de um momento da cultura ocidental, o que veio a seguir é uma divindade muito mais poderosa: a liberdade.

O Fernando, o Jorge e o blogodrama

No dia 31 de Março, o Fernando anunciou a sua saída. Neste momento, em que publico, não há mais nenhum escrito dele, nem em comentário, nem em post. E a mim não chegaram emails, telefonemas, mensagens escritas, pombos-correio ou sinais de fumo com declarações a respeito, sequer meras pistas. Significa que ignoro as razões para a súbita partida, estando como outros que o interrogaram na caixa. Mas sei o seguinte: independentemente das hipóteses credíveis (uma delas, por vários apontada e com alta probabilidade, remete para aqui — mas pode não ter sido esta a causa, ou terem sido várias, esclareça quem souber), não se deve substituir a palavra de outrem. Se nada se quer explicar, pois que nada se tente adivinhar. Tenho, porém, algo a dizer na ocasião.

Foi a blogosfera que me fez conhecer pessoalmente o Fernando; nomeadamente, foi o BdE. Na minha primeira aspirina, celebro esse encontro. Em Janeiro de 2006, anuncio a sua entrada, por ter sido eu a sugerir o seu nome numa altura em que o Luis Rainha queria fazer crescer a equipa original. Seguiram-se dois anos de ainda mais estreito convívio, comigo sempre surpreendido com a sua generosidade temporal para com aqueles que passavam, ou montavam acampamento, nestas novas tertúlias que são os blogues. A sua presença chegou a ser decisiva para a continuidade do Aspirina B, após a saída de quase todas as vedetas, quando se esperava que o blogue tivesse um convencional fim. Nesse Verão de 2006, Fernando Venâncio e Jorge Carvalheira, principalmente, mantiveram o espaço activo e apelativo.

É esta a altura, especial, de deixar em preito a lembrança da viagem a uma cidade alentejana, no dia em que conheci de corpo presente o Fernando. Foi também o dia em que conheci a Susana para lá das suas palavras, naquele que foi um duplo blind date para cada um dos três. No regresso, o Fernando partilhava o seu amor pela Galiza, pelos galegos e por essa Língua nossa. Eu, ao volante, agradecia aos deuses da Internet pela graça daquele momento e daquele dia. Trago este episódio para ilustrar o que procuro nisto de comunicarmos através de um blogue: o encontro com a realidade, o aumento das possibilidades criadoras.

A Susana recebeu o pedido para que os nomes Fernando Venâncio e Jorge Carvalheira fossem retirados da lista dos autores activos. Isso selou o abandono do Fernando, a que se juntou o Jorge que saiu à francesa. Do Jorge só conheço os seus escritos, mas tendo sido igualmente uma honra ter estado na sua vizinhança literária e opinativa. A lista das Visitas antigas vai crescendo, e reúne um conjunto impressionante de históricos da blogosfera portuguesa à mistura com novatos. Alguns tornaram-se estrelinhas publicistas (ou já eram), outros animam blogues de referência, outros são intermitentes ou esquivos. Cada um se relacionou com o Aspirina B por razões diversas, em contextos díspares e despediu-se à sua maneira. Vários nada disseram, outros fizeram breves declarações, e ainda houve quem tivesse molhado o pão na sopa do dramalhão. Tudo de acordo com a banal diversidade da diversidade banal.

Os blogues são seres frágeis, tendem a ser efémeros como reflexo da sua novidade e das instabilidades psicológicas de que são espelho e especulação. Os blogues colectivos ainda mais, sujeitos a constante conflitualidade centrífuga, a que se acrescenta um peculiar regime proprietário — a quem pertence um blogue colectivo? como se tomam decisões?… Há quem utilize os blogues amiúde, ou por singular tentação, em experiências de melífluo narcisismo, como sejam essas da encenação da morte, do adeus. Outros passam por eles como por café em bairro estranho, sem apego nem saudade. No caso desta saída do Fernando e do Jorge, não se me afigura haver nada de errado, pelo contrário. Errado seria que cada um anulasse a sua liberdade. Assim, se porventura, ou por ventura, algo do que escrevi esteve na origem da saída do Fernando, tanto melhor. Os blogodramas que alimento têm sempre final feliz, mesmo quando acabam mal.

Apologia de Patrícia e Rafael

Princípios dos anos 80 numa Escola Secundária em Lisboa. O 8º D tem fama de turma terrível. Alguns repetentes parecem indomáveis, e alguém decidiu que vão ficar juntos. Um dos poucos professores do sexo masculino na turma é o setor de Matemática. Tem os cabelos no ar e cara de Einstein grosseiro. Quando se põe a escrevinhar no quadro, e ouve conversas, é de poucos avisos. Começa a resmungar vitupérios imperceptíveis e dispara pedaços de giz na direcção do ruido. Uma vez, enervou-se tanto que chegou a atirar o apagador à cabeça do José João, que nunca se cala, mas falhou. Noutro dia, mandou para o chão tudo o que estava em cima da sua mesa, incluindo o livro dos sumários, num grande gesto dramático. Teve o seu efeito, mesmo se improvável vir a saber qual. Vejo o setor de Matemática algumas vezes, no fim-de-semana, todo composto a ir comprar o jornal ou a tomar café, e gosto muito de lhe dizer boa-tarde. Mas não é sobre ele a história, é sobre a professora de Português. Acho que deve ser bonita, mas é tão mais velha do que eu que nem penso nisso. Acontece que nas suas aulas há grande animação. O José João, sempre o mais maluco, tira pintelhos e esfrega-os na boca do choninhas da frente. O Álvaro manda papéis de um lado para o outro da sala, e respondem-lhe. O Manel não pára de rir, não sei com quê. Outros sopram nas esferográficas sem carga, o que faz uns sons marados. De cada vez que a setora vira as costas no quadro, o barulho de fundo, constante, transforma-se em alarido, balbúrdia. A tribo sabe que tem a presa encurralada, por isso avança para o esquartejamento. Numa certa aula, as lutas de papéis ganham tal furor bélico que os rapazes deitam carteiras pelo chão a servir de barricadas. A setora sai da sala a chorar e não volta mais, nunca mais. Meses passados, vem outra, a qual nos fala com grande calma e simpatia. Mas, no seguimento da batalha, um grupo de valentes guerreiros é chamado ao Conselho Directivo. Eu sou um deles, não sei porquê, talvez por ser repetente. Vamos enfrentar o professor Vítor, o presidente, de quem se diz ser o animal mais feroz da escola. A pequena e atafulhada saleta de um barracão pré-fabricado vai-se enchendo com o bando dos 4, calhando ser o último a entrar. Ainda não tenho os dois pés dentro quando a porta é empurrada com pujança viril pelo iracundo e barbudo Vítor. Umas amostras da minha epiderme, zona do ombro, são agora posse de um pedaço de madeira da escola. Está dado o mote, segue-se meia-hora de ameaças, antevisão de expulsões e calamidades familiares, entremeadas pela repetição da frase que não esquecerei, Porque eu não tenho medo de ninguém, de ninguém!, locução expelida com estrondo superior ao que a porta fez ao encontrar a parede. Uma coisa fica rapidamente esclarecida: o professor Vítor não tem medo de muita gente, e nesse conjunto de números complexos incluí-se, inequivocamente, o grupo de 4 rapazes do 8º ano de escolaridade à sua frente. Isso pode ser atestado pelo tom de voz estridente, rosto crispado, postura corporal agitada e os regulares avanços na nossa direcção só para ficar olhos nos olhos, calado, esperando alguma coisa que não chega a nomear. Dizemos que sim, e que também, e pois. Fazemos protocolares promessas de eterno retorno ao comportamento ordeiro. Quando o super-homem acaba o responso, o qual tinha ido bem para além do mal, descobrimos que Deus pode estar morto mas nós, e até ver, não fomos destruídos. Estamos é mais fortes, e mais fortes ficamos de cada vez que contamos aos outros o confronto com o profe Vítor, só para exibir orgulhosas cicatrizes e medalhas. É assim, 13 e 14 anos e já dominamos o essencial da filosofia nietzshiana; quem disse que não se aprende nada na escola? Mas quando voltarmos das férias grandes é que vai ser bom: droga, violência e prostituição, cardápio para um 9º ano inesquecível e romântico.

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Nokiafolia

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O que se passa na Finlândia tem suscitado a admiração de muitos, e por excelentes razões. Desde o sucesso económico à qualidade da educação, do gosto das vodkas ao gostinho das saunas, passando pela Nokia, actual ex-líbris do país com metade da nossa população. O mais recente escândalo político e social na Finlândia vem, precisamente, do apego ao telemóvel. Ilkka Kanerva deixa hoje de ser o ministro dos Negócios Estrangeiros por se ter revelado na imprensa que enviou 200 SMS para Johanna Tukiainen, uma dançarina erótica. O teor das mensagens abrange tópicos variados, como sejam as temáticas relativas à roupa interior, aos apalpões e à menage com a mana de nome fadista, Julia.

Na imagem vemos Johanna à esquerda e Julia à direita, ambas em roupa interior e mostrando a matéria apalpável. Também se exibe um perturbador copo com sumo de laranja (?), já a menos de meio. E deste inusitado quadro ressalta uma importante lição: quando os problemas de indisciplina com telemóveis atingem o próprio Governo finlandês, talvez seja melhor relativizarmos a perturbação emocional de uma adolescente portuguesa.

-1=+10=100

A redução do IVA em 1% serviu para cada um ver nela o que lhe apetecesse. E podemos recolher dois ensinamentos:

A economia é uma ciência que deve mais à psicologia do que à matemática.

A economia, como o desejo sexual, começa na cabeça. O que leva a um corolário: a economia, como o desejo sexual, pede cabeças arejadas.

A redução de 1% poderá ser insignificante para alguns políticos e industriais, mesmo para o consumidor, mas para o cidadão é uma boa notícia. Aumenta em 10% a sua confiança. E se há coisinha onde todos estarão de acordo é no valor da confiança, seja para a economia, a política ou o sexo: 100%.

Fitna

O filme Fitna, de Geert Wilders, deve ser visto. O seu registo amador, enquanto peça de comunicação, está dirigido ao contexto social e político da Holanda. Por aí, ignoro a sua relevância, impacto e eventuais consequências. Mas sei da necessidade em falar do terror islamita. Precisamos que sejam os próprios crentes islâmicos a espalhar a sua voz e sanidade mental. O objectivo principal é o de os crentes se comprometerem com os valores tradicionais que suscitem laços humanitários, passando a ajudar as vítimas dos manipuladores islamitas e a desmontar os estratagemas religiosos que sejam fonte de destruição e injustiça.

Entretanto, para começar, temos de conseguir falar entre nós. O trauma do 11 de Setembro, acrescido com os ataques em Londres e Madrid, levou-nos para um silêncio patológico. É um silêncio que corresponde, somente, a um estado de desorientação de quem se sabe vítima de uma ameaça que não compreende nem tem como evitar. Mas a ausência da nossa palavra, da nossa Razão, não é boa, antes vai alimentando a loucura por ser entendida como derrota. Então, esta obra de um bizarro político holandês, que para alguns já está condenado à morte, é muito bem-vinda; pois serve — já que foi publicada, não por ser a melhor ou a que cada um faria se alguma coisa fizesse — para discutir o que está em causa num nível de crescente confiança e segurança: a confiança e segurança da nossa acção como seres humanos seculares e humanistas. Nesse civilizacional estatuto, temos muito para defender dos ataques islamitas, e muito para dizer aos nossos amigos islâmicos.

A avaliação dos professores já começou

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Na foto, professor mostra conhecer bem a História de França

Desde o ajuntamento dos 100 mil indignados, para o carnavalesco passeio em direcção ao Tejo, que a avaliação da classe docente está em curso. Não se trata de atacar, sim de reconhecer: estes são os professores que temos. Mas, estes, quem? Números, sindicatos, associações e Governo não são fontes de informação fidedigna. Os encarregados de educação também não, testemunhas demasiado ausentes e deformadas. Restam os alunos — e os próprios professores, pois claro. As cenas contempladas nas entrevistas e declarações, ao longo do rebuliço, chegam para conclusão empírica: os professores em Portugal são iguais aos restantes habitantes de diferente profissão e mesma entidade recolectora de impostos. Mas reconhecer-se a harmonia e nivelamento sociológico desta corporação, onde convivem heróis, santos e donas-de-escola, não é necessariamente uma boa notícia. Afinal, dava jeito que fossem um bocadinho à frente de um país com séculos de atraso, e em tantos domínios. Ou que pairassem um bocadinho acima de um povo tão carente de instrução e ensino, talvez mesmo de educação. Um bocadinho, um niquinho, já chegava.

Só que não. Quem vai na vanguarda cultural, social e tecnológica são os alunos, e são estes que saltam por cima do marasmo segundo as eternas leis da renovação geracional. Havendo telemóveis que captam imagens, tendo acesso à Internet e crescendo com redes digitais de socialização, os alunos fazem o que se espera deles: aprendem no mais curto espaço de tempo a utilizar com máxima eficácia os recursos. Inevitavelmente, terão de filmar o seu quotidiano e de o publicar, pois é esse o sentido, é essa a descoberta e a liberdade, do tempo que vivem. E o mais importante nem está a acontecer no plano tecnológico, esse apenas o imediatamente tangível. As escolas, os professores e, portanto, os pais, não fazem a menor ideia do que as crianças vão aprendendo nos currículos secretos: rua, meios de comunicação, espírito da época. Os alunos são seres ainda mais lógicos e previsíveis do que os adultos, apesar do que os maus professores pensam e dizem, e a coisa é universalmente simples: um jovem quer deixar de ser jovem, tudo fazendo para o conseguir, a começar pelos disparates e desafios às autoridades. Quem não entende estes processos e dinâmicas, não devia ter licença para entrar numa escola e tentar (ou fingir) transmitir fosse o que fosse a quem fosse.

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Mais uma ironia socrática

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Se é óbvio que Sócrates é o chefe que o PSD adoraria ter, situação em que seria endeusado pelos mesmos que não lhe largam as canelas há dois anos, não menos óbvia deveria ser a solução para a crise social-democrata: ter o chefe que o PS adorasse ter.

Se existe esse ser, é neste momento um ilustre desconhecido.

Carolina Michaëlis e a Questão Coimbrã

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Eis o mais recente teste à disposição do português para detectar se um outro português é imbecil, lunático ou, simplesmente, falho de bom senso e bom gosto: basta pedir ou detectar opinião quanto à notícia de uma bulha entre professora e aluna, a qual foi registada em vídeo para proveito comunitário. Se vier relação com o Ministério da Educação, o Estatuto do Aluno ou a Maria de Lurdes, estaremos perante um retinto imbecil. Se o discurso aparecer em forma de lamento pela decadência do ensino, da moral, da autoridade e da família, estaremos face a um lunático. Se surgirem tiradas reflexivas sobre o que deva ser a educação e a escola, estaremos frente a carências variadas, algumas simpáticas.

Aquilo que se vê é uma situação de incapacidade profissional, tão-só, e nem importando diagnosticar a causa. Ora, há incapazes em todo o santo lado. Os piores nem são os que estão nas Escolas Secundárias, pois os seus defeitos ficam diluídos na mediania do professorado. Grave é falhar profissionalmente na Justiça, Saúde, Administração Pública, Polícias e Forças Armadas. Seria estupendo reunir vídeos de médicos a errarem diagnósticos por desleixo, juízes a decidir com base em preconceitos moralistas, polícias violentos porque brutos e impunes, autarcas a deixarem que se destrua paisagem natural a troco de um Mercedes ou coisa ainda mais reles. Neste raríssimo caso de documentação pura de conduta docente, temos uma senhora que não sabe lidar nem com alunos, nem com adolescentes, nem com raparigas, nem com cidadãos na posse de telemóvel próprio. É muita incompetência junta, mas só tem um responsável: o adulto na sala.

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Sapere Aude

Onde se prova que os preconceitos mais animalescos não resistem a uma básica investigação. Temática bem actual para a sociologia nacional.

Já que a palavra bullying (que rogo se traduza, sem pestanejar, por bulha) entra na moda, não a deixemos apenas na escola.

Afinal, também há chavalas com cabeça.

Os pretos que se armam em pretos têm um futuro negro.

A emoção artificial e o Second Life, uma ligação naturalmente inteligente. E isso de termos as emoções a nu. Ou a quererem entrar no tribunal.

A Internet, essa maluca das revoluções.

Instrumentos para apanhar políticos dados ao spin.

Quem tem medo da educação sexual?

O cristianismo celta existe, pois claro que existe.

Os alunos não precisam de melhores professores, precisam é de lições de capitalismo.

Embora a presente oposição em Portugal não contribua para a validação desta tese, ela é válida.

Millennials, já ouviste falar? Somos nós.

Ver a distância

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O interesse que a morte acrescenta à vida de Maria Gabriela Llansol cruza-se com o interesse em promover o programa Câmara Clara, da autoria de Paula Moura Pinheiro. Vai para 2 anos que esta revista, este magazine, proporciona encontros audiovisuais com os desprezados televisivos da cultura portuguesa, precisamente aqueles que a criam, alimentam e protegem. No caso do programa deste 16 de Março, temos a suave e apetitosa presença de Pedro Tamen e João Barrento. Dos dois, é Barrento quem mais valoriza a ocasião. Por um lado, faz em segundos uma iniciação à obra e figura de Llansol só possível a quem for especialista e amigo. Por outro lado, este intelectual tem ainda maior importância na oralidade do que aquela exibida na escrita, pois aqui é complexo e lento e ali é directo e entusiasmante — sim, num fundo e alto sentido, a essência da cultura é o entusiasmo/ἐνθουσιασμός.

E a Paula? Tem o mérito de gostar do que faz. O amor é fonte de inteligência, como se sabia noutros tempos.

A josémanuelfernandização do Expresso

Com o título de capa “Dei mil contos a Pacheco Pereira”, numa chamada para a entrevista a Abel Pinheiro, uma figura que poderia ser metida num frasco com álcool e estudada em cursos anti-corrupção, o semanário de Balsemão, dirigido por essa fraca figura que é Henrique Monteiro, alimenta a filha-de-putice que vai marcando a imprensa em 2008. Não temos jornais de referência, é o que isto significa.