Bute lá ajudar a oposição

Com a traição de Barroso, e a inanidade de Santana, o 25 de Abril consumou-se. Algo ali teve o seu desfecho, algo ali pode ter germinado. A Revolução não substituiu os paradigmas, apenas alterou os processos. O salazarismo foi um cometa gigante que se fragmentou em 10 milhões de pedaços. Criou-se a ilusão de ter desaparecido, mas o seu impacto na inteligência e na liberdade continuou; diminuindo aqui, impedindo ali, destruindo acolá. Partidos, empresariado, povo, cada camada social reproduziu, agora completamente ocultos, os constrangimentos e inércias que vigoraram ao longo de 48 anos: provincianismo, ignorância, mesquinhez, desconfiança e medo. Antes e acima de tudo, medo. Portugal é, há séculos, uma terra de cobardes.


Só por causa da dissolução da Assembleia, em dois mandatos igualmente medíocres, Sampaio é o mais importante Presidente da Terceira República até à data. O eleitorado confirmou a decisão, dando à incógnita Sócrates uma maioria absoluta vinda do mais fundo desespero. O problema deixou de ser o Governo, visto que pior do que Santana e Barroso não seria possível. O problema passou a ser a oposição, e nesta o futuro do PSD era a questão de maior gravidade e consequências. Marques Mendes começou por dar esperanças de ir salvar o partido e renovar a classe, afrontando duas flores do mal, Valentim e Isaltino. Parecia que sabia ao que ia, e que iria até à raiz, mas não. Rapidamente se conformou com o medo, e não deu mais sinal de amar a democracia. Foi bem substituído pela doença, que volta sempre mais forte quando o tratamento não se completa. Ao lado, Portas infectava o CDS com o seu narcisismo fatal, o PCP era um monumento ao autismo e o Bloco aparecia cada vez mais catatónico. Agora, depois da eleição de Manuela Ferreira Leite e imediata derrota perante a opinião pública, o grande debate a fazer devia ser o do estado da oposição.

Anomia e anemia. O salazarismo alimenta-se do abandono da política como experiência diária de responsabilidade individual pelo colectivo, é a cultura da cunha, essa corrupção primeira que transforma comunidades em agregados de malfeitores e que perpassa por todos os níveis do poder político e económico. O salazarismo é a fuga para o materialismo mais primário e imediato, cegando a inteligência para a ética e seu poder realizador, é a cupidez consumista, pançuda, arrotada. O salazarismo é uma a-política, a experiência social em que uma amnésia histórica se abate sobre a comunidade e todos se esquecem da sua identidade de cidadãos livres. Os pais não educam os filhos para a liberdade, na maior parte dos casos nem para o livre-arbítrio. Os professores não educam os estudantes para a sabedoria, na maior parte dos casos nem para a inteligência. E os políticos não educam os cidadãos para a participação política, na maior parte dos casos nem para a participação eleitoral. Era, e é, desta consciência que devia nascer uma nova oposição, capaz de pensar a mudança cultural e capaz de se comprometer com a mudança social.

Se neste País existir alguém, pessoa ou grupo, interessado em ser verdadeira oposição — aquela que acrescenta caminhos de crescimento e realização, não aquela que apenas tenta boicotar o Governo, desprezando o bem comum, como a actual —, indo para as eleições de 2009 com uma fortíssima proposta política que lhe irá garantir, inevitavelmente, uma quantidade relevante de votos, ou até a vitória, só tem um tema disponível para erguer como bandeira: Justiça. É a razão pela qual se inventou a palavra escândalo, a exuberante prova da permanência do salazarismo e da cobardia, isto de nenhum partido até agora ter proposto investir urgente e prioritariamente na Justiça, sendo ela a necessidade fundamental para o presente e futuro da comunidade. A nossa Justiça perverte a democracia, inibindo a economia e atrofiando a cidadania. Desde o cavaquismo (só porque antes foi a grande confusão e ninguém percebia as maroscas) que assistimos à impunidade da alta corrupção e à fatalidade da corrupção sistémica. E só muito recentemente, com João Cravinho, apareceu uma voz a dar luta à decadência que molda todos os indivíduos e instituições de formas implícitas e explícitas: vírgulas a valer chorudo dinheiro, leis feitas à medida do perdão de infractores, processos que se arrastam durante anos e com erros processuais escabrosos, inquéritos que nunca descobrem culpados, completa irresponsabilidade de cima a baixo da cadeia do poder pois nunca ninguém paga pelos prejuízos causados, polícias e magistrados em guerra aberta, juízes e políticos em conúbio público com negócios escuros, a sociedade civil indiferente à podridão que corrói os pilares da comunidade. O país do Jardim, do Pinto da Costa, da Somague, do Jacinto Leite Capelo Rego, da Casa Pia, e do que nem me vou dar à pachorra e desgosto de lembrar, está pronto a oferecer o seu voto a quem dirigir a política do betão para a construção de novos tribunais e prisões, mais as respectivas vias de acesso para chegar lá rapidinho.

E para começar a ter ideias, pois elas não se têm visto na oposição, nada melhor do que voltar a pegar no Público de 3 de Julho e ler o artigo do Nuno Garoupa ou, em alternativa, ler a sua versão de 17 de Fevereiro. Depois, é marcar um lanche com ele, levar uma resma de papel, canetas Futura de cores diferentes, e desenhar um programa para a governação da malta. O nome do candidato a uma das pastas ministeriais já aqui está chapado em cima; então, só falta quem se chegue à frente para se candidatar a primeiro-ministro de um Governo que, finalmente, imponha a Lei na Justiça e a justiça nas leis. Tu?

27 thoughts on “Bute lá ajudar a oposição”

  1. eu?, pá, não tenho tempo… e tu? por tudo o que tenho lido, era bem capaz de te dar a maioria absoluta dos meus votos.
    muito bom. «cupidez consumista, pançuda, arrotada», que miminho lindo.

  2. é um gosto ler-te meu irmão, espero que a tua inteligência e voz ecoem por ai fora reverberando no éter, como me sinto gostosamente ultrapassado, libertado também

    o exemplo mais fácil de seguir está aí à mão, chama-se Zapatero, e ainda hoje no Público vi-o a dar uma beijoca a uma guapa, alçada a terceira figura do governo. Nem podíamos pedir melhor inspiração de proximidade, mas não, ferrugem à vista no conluio de banqueiros

    um bom antídoto é o azeite, óleo sagrado desde sempre na Grécia, desde unguento à iluminação, símbolo da paz dos romanos, signo do Mediterrâneo nas palavras de Orlando Ribeiro

  3. Valupi,

    Gostei muito do teu grito “Acordem, Cidadãos!”, mas Garoupa disse em Fevereiro:

    “Esta é a melhor equipa que o Ministério da Justiça teve desde o 25 de Abril”

    e isso parece não concordar com a tua opinião àcerca do estado geral da Justiça, 34 anos depois. A menos que eu não tenha entendido, também pode ser. Ou será pargo de Sesimbra?

  4. Eu era rapaz para isso, Valupi, não desfazendo. Ainda ontem no Clube de Golfe se falava nisso, que temos que mudar as coisas, e tal. Depois do Old Bushmills e antes do Montecristo, falámos e até discutimos o nome da coisa e tudo. Um dia destes sou rapaz para avançar. Sou sim…

  5. Val, sabes qual é o programa do Berlusconi para a Justiça (que andava atrás dele)?

    Não sabes? Atão arregala os olhos: um corte de 40% no orçamento! Não se via isto desde que o imperador Hailé Selassié tomou decisão idêntica na Etiópia dos anos 70.

    Berluscão vai entreter com o protesto os magistrados “de extrema esquerda” até 2010, depois faz marcha atrás, dá-lhes razão (dá-lhes o dinheiro) e eles ainda lhe agradecem. Entretanto toda a gente esqueceu a bandalheira e a corrupção que é o Regime político italiano, até à medula.

    Porra, eu gosto da Itália e dos italianos, mas saiem-se com cada anormal!

  6. A única coisa que acho graça na Europa política de hoje é Zapatero y sus muchachas, e ainda gosto dos gajos lá de cima dos fiordes e terras planas adjacentes.

    Portanto Nik tou a ficar assim meio_ibérico, pá. De facto isto para o lado de cá dos Pirinéus é uma coisa só, imagino que seja a jangada de pedra de que falava o saramago que não li. E ainda há o Casillas. Depois pode-se faxer um arco-íris por cima do Atlantico até chegar à América Latina, aquele x é dedicado aos galegos

  7. z, o iberismo acaba sempre por voltar à tona várias vezes em cada geração, e ainda bem. Não para copiar regimes ou governos, isso acho totalmente errado. Mas como reconhecimento óbvio das nossas profundas afinidades hispânicas e da nossa perfeita unidade geográfica. É tão óbvio, que nada esmagará nunca esse sentimento.

    Dito isto, a história de Portugal não foi um erro. Foi a afirmação do nosso ser próprio, do nosso atlantismo e da nossa atracção pelo desconhecido. Além disso, servimos de modelo para que as nacionalidades espanholas lutassem pela sua autonomia e cultura próprias.

    Silenciosamente, a união ibérica fez-se e continua a fazer-se. Com as fronteiras abertas e a moeda europeia, as nossas economias estão a fundir-se a grande velocidade. O espanhol passou a ensinar-se nas nossas escolas, medida pela qual uma sec de Estado da Educação socialista foi há anos condecorada pelo rei espanhol. Só este facto já diz muito da nova mentalidade que existe em Portugal relativamente a Espanha. Nem um salazarista protestou. Se calhar, estavam distraídos com Olivença e nem deram conta…

  8. posso ficar com a pasta da economia? ou da educação. ou da saúde. ou da defesa, não interessa. era só por 15 dias ou 3 semanas e depois era demitido e ia para a administração da Caixa ou da Galp. Pode ser?

    Dava-me um jeito do caraças pá.

  9. Está bem enunciado, Nik. Confesso que mudei a minha posição sobe o assunto, podem-me acusar de volúvel à vontade, gosto do mar,

    mas a enunciação política do mosaico fica para depois, Aragão, Castela, Leão, Navarra… Há coisas que nem sei,

    ainda havia o reino de Valência e tinha o conselho da água, por causa das laranjeiras, Valentia, valentia, sempre gostei de gajos valentes

    estou a ler uma biografia em franciú do Carlos V (I de Espanha), não sei como eles conseguiam fazer tanta coisa naqueles tempos e com aquelas comunicações, mas a parte que me interessa mais é quando e como ele renuncia e ainda não cheguei lá

  10. (Comé cum gajo consegue digerir uma biografia dum rei espanhol escrita em francês às 13h da madrugada?
    Ò Z, prostro-me a teus pés. A essa hora nem a biografia do Zezé Camarinha conseguia arrebitá-lo. Arrebitá-lo, o tubarão…)

  11. o que é shark? Eu só leio isso à noite, agora fiz sesta mas é porque estou com um golpe de sol de mistura com uma apaixonadela tramada que me arrebita o golfinho sim, e ainda por cima a todas as horas

  12. é sim meu lindo, eu sou anacoreta pagão debochado e não posso, mas amando-te já um beijoka; e agora vou xonar outra vez que estou a arder

  13. mas olha lá: agora que já desardi, lembrei-me que tu és a favor da subida da taxa de juro pá – portanto temos um diferendo irredutível, já não voto em ti

  14. Tenho mais perfil de assessor, Val. Ainda por cima dou nela e inalo, não sou elegível para cargos onde não se pode fumar nos aviões…

  15. a todas as horas é só quando estou esquentador, o que é o caso

    espero que passe – massada de atum e frango de fricassé para distrair. Eu para assessor esotérico (uma dimensão fluorescente da política) também dá, mas não uso gravata

    também não usas cuecas no Verão como eu, às tantas

    agora vou ao cluve bídeo

  16. sharky,
    foi mais que abraçar, sharky, atraquei-me a ela na esperança de ser salvo, mas a coisa está preta… recebi a resposta celeste, em telegrama cantado: ‘temos pena, temos pena’, esganiçou à minha porta um anjinho de calça de ganga, aposto que sem cueca por baixo. E eu? Ora, resignei-me que querias tu que fizesse?
    Moral da história: lá nos encontraremos no inferno (mais o resto dos aspirínicos, não tenho dúvidas)…

  17. :))))))))

    mas é já a caminho do xonex que o tm não para

    aposto que isto é dos astros mas amanhã já vou saber disso

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