Tenho a sorte de ser amigo da Filipa Palha. E Portugal tem a sorte de ela ser nossa amiga. Porque esta portuense criou a Encontrar+se, associação dedicada ao desenvolvimento, implementação, avaliação e investigação da reabilitação psicossocial das pessoas com doença mental grave. Artur Santos Silva e Miguel Veiga, dois homens que dispensam apresentação, conferem solidez e prestígio institucional à iniciativa. Iniciativa que começou com uma espectacular campanha contra o estigma: UPA. Sem qualquer apoio do Governo, do Ministério da Saúde ou do Conselho Nacional de Saúde Mental, a Filipa conseguiu reunir este grupo de anónimas esperanças em começo de carreira: Zé Pedro Reis (o qual concebeu o projecto musical), Paula Homem, Pedro Tenreiro, Nuno Rafael, Mariza, Xutos, Sérgio Godinho, Rodrigo Leão, Clã, Mão Morta, Camané, Rui Reininho, Xana, Boss A.C., Paulo Gonzo, Cool Hipnoise, Jorge Palma, Dead Combo, J. P. Simões, Balla, Tiago Bettencourt e J. Mário Branco. Ainda não chega? Então, espreita a Comissão de Honra. Desde 2007 que há músicos e profissionais de comunicação (de agência de publicidade a agência de meios, passando por produtoras de vídeo) a entregar — gratuitamente — o seu tempo e talento para a campanha ter peças gráficas, filmes, espaço mediático e canções originais. Vou repetir: canções originais, cujas letras versam sobre a problemática da doença mental. Sim. Do caralho.
Discutir a importância da saúde mental e da reabilitação do paciente com patologia grave é daqueles tópicos que melindram por os julgarmos evidentes ao ponto de não justificarem gasto calórico na conversa. Afinal, esgravatando na ramagem quotidiana, constata-se que é ao contrário: existe estigma, existe abandono, existe violência sobre os doentes e dos doentes sobre a família, vizinhos e estranhos. Visto pelo lado económico e familiar, e fazendo as contas aos milhares de indivíduos afectados em Portugal, é uma calamidade não conseguir reduzir o seu período de inactividade profissional ou social, nuns casos, ou não os conseguir recuperar para a autonomia, em muitos outros casos. Perde-se dinheiro, perde-se saúde, perdem-se vidas mantendo a inércia defendida pelos inertes. Chega de perder mais tempo.
Em Portugal há outras Filipa Palha, com outros nomes, género, idade, competências, percurso, esperanças. Mas com a mesma coragem e alegria. É com elas que vamos partir para os novos descobrimentos: encontrar o caminho legítimo para a independência, fintar o Adamastor que nos afunda num medo colectivo.






