A indústria da paisagem

Os portugueses não são estúpidos, precisam é que alguém lhes explique as coisas. Qualquer português emigrante é um estandarte da asserção anterior, juntamente com os sortudos empregados da Autoeuropa. Faltando quem explique, os nativos comportam-se como imbecis. É o caso com a paisagem. Ninguém nos anos 60 e 70 teve visão para proteger o Algarve da boçalidade dos patos-bravos. Nos anos 80 já estava tudo escavacado e as escavadoras começavam a virar-se para a Costa Alentejana. Ainda hoje, se deixados à solta, construtores e autarcas começam em Tróia a criar um novo Portimão e só param na pontinha de Sagres. Que filhos da puta. Mas que filhos da puta. Alteram ou desrespeitam os PDM, compram fiscais e amanuenses às sacadas para levantar tijolo onde quiserem e como quiserem para as suas casas e quintas, mais as da família, amigos e de quem lhes der uns trocos. E por nenhuma outra razão que não seja o dinheiro, constroem em cima do litoral marítimo e margens fluviais, envenenam santuários biológicos, destroem cenários prístinos, aviltam memórias de séculos, extinguem heranças ainda vivas da génese do povo e da cultura. A costa alterada depois dos anos 50, as urbes do interior a partir dos anos 70, e os edifícios da classe média desde sempre, são exercícios de fealdade. Portugal é feio porque é pobre, e é pobre porque não pensa.

Mas os locais de beleza natural abundam, claro, e outros poderiam ficar belos sem grande esforço ou custo. E abundam as pessoas que querem beleza, e que precisam dela com urgência e sempre. Porque é isso que a beleza faz, dá saúde e alegria. Tanto para crianças, como para criançolas, a paisagem é um assunto de coração, fazendo com que ele dure mais tempo e nos dê um tempo melhor.

Os portugueses não são estúpidos. Mas comportam-se como imbecis quando deixam que alguns pulhas façam 30 dinheiros com a destruição da paisagem. Ironicamente, é a paisagem — tanto a natural como a cultivada, se preservada e restituída à sua memória ancestral — que mais riqueza pode criar para indivíduos, populações e Estado. Há uma indústria da paisagem que consiste em a salvar e aumentar. Até quando durará a estupidez colectiva?

22 thoughts on “A indústria da paisagem”

  1. Não posso concordar mais com o comentário sobre a degradação das paisagens que li.
    Aproveito para dizer que o mesmo se passou em Lisboa (na zona da grande Lisboa) e em outras grandes cidades do País.
    As ribeiras que havia em Lisboa estão hoje todas entubadas e não vejo nenhuma preocupação com o que se tem passado nos arredores das grandes cidades (eu ainda me lembro como eram muitos desses locais).
    Porquê a ‘sanha’ de manter o Algarve e o Litoral Alentejano como se fosse ‘um jardim zoológico’ para mostrar aos nossos filhos?.
    O desenvolvimento pode, e deve ser, um equilíbrio entre as aspirações de desenvolvimento das populações dos locais (pois moram lá pessoas que têm aspirações como qualquer outro) e a necessária preservação dos recursos.
    Gostava de ver a mesma preocupação com o desenvolvimento desordenado das grandes cidades.

    Cumprimentos

    Rogério Fragoso

  2. upi,
    nem mais, quem gaga assim não é falo.
    concordo contigo sem brincadeiras ou ironias, pese embora não resistir ao trocadilho (compulsão pela qual me desculpo, envergonhado). falta-te, no entanto, a conclusão natural do teu raciocínio: na questão do ordenamento paisagístico não há moralidade porque comem todos.
    certo?

  3. Uma simples sugestão!. É este blog o “ASPIRINA B?!” porquê?!. Só o Valupi é que se vê. Mas que EGO!, chiça!. A sugestão seria: “VALUPI É”.

  4. z, já que andas a trabalhar no assunto, quando quiseres dar algumas migalhas aos pobres, estás à vontade.
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    Rogério Fragoso, muito bem lembrado. Também há paisagem na cidade, óbvio, tanto dentro como à volta dela. As cidades do futuro serão uma recuperação do que agora está perdido ou aviltado.
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    Rui, certíssimo. E, para mim, era mais bonito que houvesse moralidade. Acabaríamos por comer todos, também, mas comidinha da boa.
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    Verictas, juntamente com o Parafuso, já somos três a lamentar o mesmo.

  5. O problema é que a estupidez humana – tal como a paisagem – não tem limites. O problema maior não é a paisagem – é o povoamento…

  6. muito bem.
    ha’ um grupo de paisagistas a tentar convencer as autoridades (in)competentes de que ja’ que nao ha’ agricultura sustentavel, entao poder-se-ia fazer paisagem rural (entre outras, a ideia e’ construir “quadros” aproveitando restos de floresta para compor o ramalhete) como valia, aproveitando de caminho para fazer culturas que enriquec,am os solos. vamos la’ ver se apelando ao dinheirinho do turismo, que procura a vinha e a horta pelo pitoresco visto da janela (e que nao exige qualidade da uva nem despesas de produc,ao), se chega a algum lado. nao e’ ideal, mas seria melhor que nada. qual o valor da paisagem?, e’ a pergunta que se vai fazendo nesses meios.

  7. VALUPI,

    Depois de seguir os teus links vermelhos fiquei com a sensação que se os lesse todos iria de certeza provocar uma chegada prematura de ingleses à barra.

    Mas concordo contigo, os portugueses, de facto, não são nada burros. Tudo depende da paciência dos professores, que presumo não estarem incluídos no número dos “filhos da grandecíssima tal”. Mas não é exactamente isso que também se pode dizer de quase toda a gente neste desgraçado mundo, ingleses, franceses e americanos, e até de gente de tanga do arquipélago de Tonga?

    Óbvio também que essa “estupidez colectiva” não se estende aos tais profes que nos salvarão de sermos burros, senão estaríamos fritos.

    Essa é a opinião dum primo meu que vive no Canadá. Coitado, a aldeia mais próxima fica a 300 quilómetros. A minha é a de que há muita hipocrisia nesta política de preservar as paisagens litorais, com malinha ecológica à tiracolo, para impressionar cachucho de Sesimbra.

    Ainda ontem vi um filmeco na TV sobre a vida da Beatrix Potter. Quando os tubarões da consrução começaram a rondar as imediações da sua fazenda de “cenários prístinos”, na área dos lakes, não esteve com meias-medidas, comprou todas as fazendas à volta da sua. Quando morreu deixou tudo ao National Trust, bonito, prmordial e verde. Engraçado é que depois disso ainda se construiram muitos ghetos para proletários tuberculosos em Manchester e outras cidades. Mas lá está, este pormenor, por si só, não explica o facto de 90 por cento da terra em Inglaterra estar nas mãos de 10 por cento da população. E a maioria tem casa própria… imagina o tamanho dos latifúndios. Lovely countryside.

    Se quizeres saber dum charquinho em Portugal, onde ainda podes tirar água à cegonha e sentires rãs biológicas a mordiscarem-te os pés, fala comigo.

  8. Valupi, amanhã digo alguma coisa se me der a inspiração para além das paixonetas que ora me dão cabo da pituitária. Tu viste por certo umas coisas nos jornais, consegue-se defender localmente pois então

  9. susana, cada vez haverá maior interesse nesse tipo de economia rural que cruza agricultura, cultura e turismo. É por aí, a conversa do interior deserto e desertificante apenas revela o deserto de ideias nessas cabeças.
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    SUBSTANTIA, tens toda a razão. Podemos dizer do português o que dizemos dos outros todos. Mas há que o dizer, concordarás, sei. Quando quiseres discorrer sobre a hipocrisia da protecção do litoral ou se te der para revelar o paradeiro desse charco com rãs, já sabes que esta casa é também tua.
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    z, pois claro que se consegue.

  10. z,
    senta-te um cadinho, deixa-me desabafar.
    sabes, às vezes no Verão também ando com a pituitária toda doida, depois passa. acho que é do calor.
    pronto, já tá. Quando te quiseres levantar…

  11. Os portugueses não são completamente estúpidos, não, mas uma enorme percentagem deles tem muito mau gosto e outros tantos absoluta falta de civismo. Essas coisas não se ensinam tão facilmente como ler e escrever.

    O poder central também não é insensível ao tal dinheiro que corrompe autarcas. E os Institutos do património construído ou natural são organismos burocráticos sujeitos às mesmas pechas e a outras. Os partidos na oposição não cumprem esta missão, porque querem voltar ao poder. Bruxelas lá consegue meter o nariz em alguns assuntos, com utilidade.

    Só os indivíduos, os grupos de cidadãos e as associações podem fazer alguma coisa, na base da informação tempestiva, da acção judicial e da militância. Mas dá trabalho e chatices.

    Quem se oferece, por exemplo, para criar e manter um blog especializado de denúncia de atentados à natureza e à paisagem? Ou um blog de rating das autarquias destruidoras e dos autarcas patos bravos? Ninguém, pois não?

  12. nikita, tens muita razão, obviamente. Quanto aos blogs que denunciem os casos, eles existem. Também existem figuras públicas que o fazem. E, de certeza, não faltarão políticos militantes, dirigentes e até deputados que farão trabalho nessas áreas. O que falta? Faltas tu. E eu. E os outros. Falta muita gente, como sempre. Mas as coisas mudam, também como sempre.

  13. Para além do factor paisagem ( indústria da paisagem enjoa , ainda que comercio da paisagem me enjoe ainda mais ) , aqui o portuga ( lembra-se da reconquista do interior?) ainda não percebeu que em tempos houve descobrimentos , depois colónias , e ao mesmo tempo , pesca e transporte navio . Mas isso já era .Nem pesca podemos dizer que há. A litorilização do país , tráz algum beneficio agora? deve-se manter? Agora há Europa , e Europa é para dentro. TGV que una Guimarães e Braga e Vigo. Actividades e pessoas muito próximas da Espanha , para fomentar as trocas ( é a Europa) . Mar já era.. Já só serve para praia. Lazer , capisce?
    Trabalho é noutro lado que deve ser feito.
    Claro que se agradece que respeitem o meio ambiente. E a paisagem. Mas sem indústrias e comercios da paisagem pelo meio.
    Pode-se fazer uma empresa em granito , não pode? nem se dá por ela no meio do monte .É caro , mas paciência. Cliente paga , e se calhar , se lhe explicarem porque é mais caro , não se importa.
    Ok , estradas. Do mal o menos.

    E sobre aquela coisa do cérebro e da rata : o cérebro tem uma tão grande capacidade , que , practicamente, hoje, toda a gente tem um.

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