Cantar a tesão

Quem, até agora, melhor cantou a tesão na poesia portuguesa foi Florbela Espanca. O que faz todo o santo sentido.


SE TU VIESSES VER-ME…

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

13 thoughts on “Cantar a tesão”

  1. Valupi, deixa-me dizer-te que às vezes fazes umas escadalosas combinações de palavras. Gosta de misturar o vernáculo de taberna ( cf. dito do Shark) e clássicos.

  2. claudia, estás escandalizada com que palavras?
    __

    dina, é pena? Talvez não… Pensa no que seria um mundo todo sincronizado… seria assustador…

  3. Tens razão. Vou tentar de novo:

    Essa hora dos mágicos cansaços é mesmo uma hora cá dentro.

    Gosto quando o tic tac faz sorrir outro tic tac mesmo quando não estamos na mesma hora.

  4. só tu meu lindo, para me lembrar o amar perdidamente, em que me perco e encontro tantas vezes

    mas eu é pau feito

    amanhã já estou sózinho outra vez e venho cá conversar, ando bem disposto mas numa confusão, a casa parece que vai ser vendida breve, amigos à mistura, amores que nem conheço, mordidas na almofada, e 5 textos para escrever para um museu

  5. val,
    que bem lembrada, caro amigo, essa nossa diva lúbrica, que cantou a tesão com a competência que poucos poetas tiveram na língua portuguesa. Ofereceste dois belíssimos exemplos, permite-me que acrescente mais um, para mim dos poemas mais sensuais de Florbela. Chama-se ‘Nervos d’oiro’, contém ‘toda a Arte suprema dos seus versos’ e reza assim:

    Meus nervos, guizos de oiro a tilintar
    Cantam-me n’alma a estranha sinfonia
    Da volúpia, da mágoa e da alegria,
    Que me faz rir e que me faz chorar!

    Em meu corpo fremente, sem cessar,
    Agito os guizos de oiro da folia!
    A Quimera, a Loucura, a Fantasia,
    Num rubro turbilhão sinto-As passar!

    O coração, numa imperial oferta.
    Ergo-o ao alto! E, sobre a minha mão,
    É uma rosa de púrpura, entreaberta!

    E em mim, dentro de mim, vibram dispersos,
    Meus nervos de oiro, esplêndidos, que são
    Toda a Arte suprema dos meus versos!

    (in Charneca em flor)

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