Cineterapia


Picnic_Joshua Logan

No meio da década de 50 fez-se um filme que alguns têm a sorte de amar. Não é o caso deste cromo, mas é o meu, e o de muitas alminhas boas como a minha. Convém lembrar que a década de 50 contém os melhores 12 anos da História do Ocidente (década de 50: 1949 a 1961, pelas minhas contas). Havia transportes rápidos e combustível quase dado, toda a gama de electrodomésticos, casas de dois andares com quintal e cão, Invernos invernosos, miúdas giras e honestas com algum peso a mais nas partes mais à mão, e ainda completa ausência de grafitos nas cidades e vilas. Pelo menos é isto que tenho visto em filmes americanos, e não acho que logo os americanos fossem gastar tanto dinheiro com actores careiros e película nada barata só para mentir ao pessoal. Portanto, acredito nestas cenas até filme em contrário.

Joshua Logan é um ser do teatro. Talvez por isso, ou talvez por se filiar na longa tradição cinéfila que começa em Homero, encosta a câmara ao coração das personagens. E os actores fazem bater forte esses músculos abrutalhados. Foi assim que Rosalind Russel terá sacado a melhor representação da sua carreira, tendo recusado concorrer ao Oscar de actriz secundária para assim nos conquistar desvairada admiração. Foi assim que Kim Novak passou pelo fio da navalha, equilibrando passividade exterior e ebulição interior como em raras ocasiões terá sido alcançado. Foi assim que William Holden errou ao aceitar o papel para que erradamente o convidaram — e só esse duplo erro conseguiu dar corpo à errância da personagem.

De repente, fugazmente, passa uma imagem gloriosa com dezenas de melancias; imagem cuja existência e conservação é uma credível justificação para a criação do Universo. Estamos num piquenique. E depois, lá para a noite, há uma dança onde se aprende a dançar. First, you’ve got to set the rhythm. Ele marca o ritmo. A menina não dança porque ainda não tem idade, só tempo. Mas a rapariga está na idade e no tempo. Entra no ritmo, descompassado. Surpresa. E nova surpresa. Estar no mesmo ritmo com alguém é surpreendente, mas muito mais surpreendente é estar na mesma falta de ritmo. Na mesma falta de ritmo. A mesma, o mesmo. Então, aproximam-se. Porque há para onde ir. Um centro, um vazio. Ele não tem nada a ganhar. Ela o que mais quer é perder. Luzeiros de papel. Aren’t they graceful?… You used to dance like that, Flo.

Flo, vem dançar.


3 thoughts on “Cineterapia”

  1. upi,
    recuso-me a elogiar o teu texto e não posso fazer outra coisa se comentar. Por isso fica aqui dito que não digo nada.
    Chatice.

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