Toma lá a medalha do provincianismo e leva também a da estupidez que assim já são duas e tu precisas de muitas medalhas para te sentires bem


Ó Lopes, estive aqui a ver e, a modos que de repente, acho que não tenho de agradecer-te seja lá pelo que for. Nunca me emprestaste casa, carro ou mulher. Não fazes a menor ideia de quem eu sou. E até aposto que, calhando pedir-te uns trocos na rua, eras capaz de começar a correr com invejável passada para a tua idade.

Temos os capitães-de-mar-e-guerra mais chonés do Atlântico e oceanos adjacentes. O Ágoas queria menos maçãs e nenhumas mãozinhas marotas nas praias algarvias, o Moura queria mais pontos e belas medalhas nas algaraviadas pequineses. Estes velhos marinheiros continuam a gostar de perder o pé. Estranha coincidência entre a física teórica e a teoria do físico ocorreu na mente do presidente do Comité Olímpico Português: do lado da ciência, imaginam-se 11 dimensões no espaço-tempo; do lado da acidência, houve tempo e espaço para imaginar a conquista de 11 medalhas. O bom-senso, ou algum xarope tomado a horas, reduziu o peito para 5 medalhas e 64 pontos. Estávamos em Dezembro de 2007. Em princípios de Agosto de 2008 estabilizámos nas 4 medalhas e 60 pontos, a mielas com a versão 3-4 medalhas. Em finais de Agosto, já há a certeza de ser excelente resultado ter duas medalhas e uns pontitos. Lá mais para Setembro, ninguém arrisca fazer prognósticos quanto ao que seria uma boa prestação dos nossos bravos atletas no mês anterior, mas corre que o pior da crise do sub-olimpismo ainda está para vir.


A medalhomania é coisa para valer 15 milhões de euros. Uma palavra que está agora a escapar-me, mas que começa por ton e acaba com teira, explica a importância dada à conquista de medalhas em competições desportivas; sejam elas quais forem, medalhas e competições. Mas os políticos alinham, pudera, e os deslumbrados a quem se entregam mando e verbas acreditam que é a sua vez de também subir ao Olimpo e pôr as beiçolas na ambrósia. Vicente Moura deve ser uma excelente pessoa, habituada a dar ordens e vê-las cumpridas, um dínamo que põe tudo a mexer e faz o trabalho de 20 no lugar dele. Décadas de eficiência militar fizeram-no acreditar em infalíveis planos de conquista, mesmo se o território da peleja for a longínqua e imperial China. A sorte ou o mérito dos adversários não existem para um militar, só o rigor da preparação, a disciplina da execução, a entrega total na batalha. Portugal ia bater o recorde de medalhas, superar as mais ousadas expectativas. Por isso se falava em 4, mas a fezada era que pingassem 5, 6, 7

Que um soldado precise de medalhas para dar sentido à vida, aceita-se e até se recomenda. Mas ver civis a falar de medalhas ganhas por atletas como se fossem conquistas decisivas para a comunidade, como se os atletas não tivessem livremente optado por essa via de realização pessoal, como se esse caminho não lhes desse inúmeras recompensas materiais e/ou psíquicas, e como se, afinal, não fossem socialmente irrelevantes esses resultados desportivos, é assistir a uma forma de provincianismo. E a uma surpreendente estupidez. Em 1984 tive aquela que continua como a maior alegria que um espectáculo desportivo nacionalista me proporcionou, a vitória de Carlos Lopes na maratona olímpica. Fui dos poucos (na minha rua, pelo menos) que seguiu em directo a emissão madrugada adentro, e delirei de orgulho com a volta da vitória, a bandeira de Portugal na mão. Pois. Eu sei. Eu sei mesmo muito coisa do fenómeno, do ano, de mim. Mas eu também sei que se viesse a descobrir que o melhor da biografia do senhor Carlos Lopes era essa vitória — ou o conjunto de todas as suas vitórias, troféus e medalhas —, em simultâneo descobriria que a sua existência teria sido miserável.

Não há nada para agradecer a um atleta. Isso é risível e palonço. Preferia agradecer aos UHF, que me proporcionaram um engate em 1982 só porque o baterista aparecia numa capa com um frontispício dito, ao tempo, parecido com o meu. Porquê agradecer ao Obikwelu, por exemplo, como se fez em romaria pirosa perante o melodrama subsequente ao seu falhanço nos 100 metros? Branqueou-se o lado negro da sua desistência e da súbita lesão, porquê? Por insidioso desprezo e recalcado preconceito: por ele ser preto, estrangeiro e coitadinho das obras, e, mesmo com essas adversidades homéricas, ter conseguido ser dos melhores atletas profissionais na indústria do desporto-espectáculo, ter obtido a nacionalidade portuguesa e aparecer como tipo humilde e reverente nas declarações públicas. E assim se tratou um ser humano como atleta, reduzindo-o ao seu papel mediático, em vez de se tratar o atleta como ser humano, exigindo-lhe o respeito pelo compromisso. No caso, Obikwelu ou participava na prova seguinte ou explicava como tinha chegado aos Jogos com uma lesão já de longa data — e ainda arranjava uns segundos para revelar como é que esse quadro patológico era coerente com as suas alucinadas promessas já em Pequim.

Os medalhados pelo seu provincianismo e estupidez talvez nunca o venham a saber, mas a igualdade começa pela exigência de responsabilidade.

45 thoughts on “Toma lá a medalha do provincianismo e leva também a da estupidez que assim já são duas e tu precisas de muitas medalhas para te sentires bem”

  1. Não a sua obsessão pelo velocista e teria: clap, clap, clap, clap. Assim tem só clap, clap.

    De facto o Vicente Moura em meu entender esteve bem ontem, hoje borrou a pintura :(

  2. Depois da visão lisbonocentrista de ataque a uma das festas mais populares por todo o País que é a Senhora da Assunção (bastava consultar um guia de feiras, romarias e festas religiosas do mais básico para perceber o que milhões de portugueses fazem neste feriado), a melhor maneira mesmo de chamar comentários é atacar alguns dos portugueses que de facto tiveram êxito a nível internacional.
    Bem-haja, meu amigo.

  3. (andas muito maus-fígados Valupi, sempre a provocar catástrofes interpretativas, o que se passa? É por causa das medalhas do número de comentos?)

  4. Ainda por cima é um oportunista, a engatar as garinas à pala de equívocos e o camandro.
    Salafrário, este gabiru que nem lê o Borda D’Água para saber qual era a nossa senhora de 15 de Agosto. Hereje. Hereje e iletrado.
    A mim nunca enganou, pilantra.
    E chama comentários, numa relação altamente promíscua que lhe confere uma enorme vantagem competitiva sobre o resto da malta. Corrupto também.
    Invejoso, a escurecer a alvura do moço das obras só porque nunca acartou um balde de argamassa.

    E pronto, agora quero ver como é que se desunham para malharem no ceguinho.

  5. A mim interessa-me ver a coisa por outros aspectos: por exemplo a medalha do Carlos Lopes em 1984 é o resgate da morte do Francisco Lázaro em 1912. Escrevi um conto sobre isso intitulado «Uma trompete para Francisco Lázaro» num certo domingo á tarde de um Dezembro passado.

  6. Ibn, dizes bem, obsessão. Mas com a responsabilidade.

    Quanto ao velocista, é um bacano.
    __

    Vasco Pardal, e quantos milhões de portugueses andaram a celebrar a Nossa Senhora neste dia 15? E como? Aguardo o teu relatório.
    __

    Z, fazes bem em comemorar, agradecer, celebrar, festejar. E seja lá pelo que for, com ou sem medalhas ao barulho. Fazes bem em ser livre (e eu também).
    __

    shark, digamos que foi a garina a engatar-me (é sempre assim, li num livro).

    Essa do corrupto doeu. Eu sei que está à vista, mas, quando és tu a dizer, as pessoas acreditam. Se tivesses ficado na retranca, ainda dava para tentar disfarçar. Malandro.
    __

    jcfrancisco, bem visto.

  7. Só faltava o gabarolas do costume a vir dizer que escreveu um poema ou um conto ou um romance sobre o assunto. Sobre o maratonista Lázaro quem escreveu foi o José Luís Peixoto. Trata-se dum livro (Cemitério de Pianos) que já está traduzido em várias línguas, enquanto que o “conto” do senhor Francisco deve ter sido publicado em folheto de meia dúzia de exemplares.
    Só falta vir dizer que o Peixoto o plagiou ou que foi ele quem lhe ditou o romance.

  8. pois amigo, comemorei sim, e ainda nem vi o hino. O gajo estava feliz, e eu também.

    ando a ficar preocupado com uma força centrípeta que pode tomar conta de ti, a espiral que em te queres superar a ti próprio na polémica, também és um atleta

  9. és desconcertante Valupi…

    provavelmente fazes de propósito.

    começaste bem, com o “el comandante” mas depois vais buscar o lopes, o francis, os medalhados e atafulhas-te nas próprias palavras. ao contrário de ti, penso que eles só pelo simples facto de terem sido medalhados, fizeram mais pelo país, que nós dois por exemplo. há um lado negro que gostas e exploras nestas histórias, devias escrever policiais.

    afinal parece que o “el comandante” já não se demite (aqueles lugares são como os do futebol, têm cola…), venham os apoios das federações. com 71 anos devia ter mais juizo e responsabilidade, mas como já está na segunda infância…

  10. pois também não gostei de ouvir o ‘comandante’, que na véspera tinha renunciado, a dizer que agora, se as federações pedissem muuiiiito, talvez reconsiderasse, vá levar…

    Valupi toma lá um presente:

    Os dois grandes sistemas antigos, epicurismo e estoicismo, tentaram designar nas coisas o que torna a linguagem possível , os Epicuristas elaboraram um modelo que era a declinação do átomo enquanto os Estóicos, ao contrário optaram pela conjugação dos acontecimentos

    Deleuze, Logique du Sens

  11. outro presente:

    valência=potência de atracção de um objecto

    Jacques Fontanille e Claude Zilberberg, Tensão e Significação

  12. Z, mas qual polémica? Quem me dera.

    Em relação à citação do Deleuze, é matéria fértil, sim senhor. A filosofia da linguagem têm aí muita ocasião de reflexão e inspiração.
    __

    luis eme, saber se eles pelas suas medalhas fizeram mais pelo País do que nós os dois é questão fascinante. Qual seria o método usado para a aferição?

    Agora, peço-te um favor. Diz-me qual é exactamente a parte, ou partes, em que me encontras atafulhado nas próprias palavras, explorando o lado negro e desconcertando o incauto leitor.
    __

    pvnam, larga o vinho.

  13. Pois, Valupi, em 1984 ainda eras um naxiiiionalista jovem, com ilusões, mas agora tás um velhaco do caraças. Com este azedume bem que podias ter uma coluna no jornal do josémanuelfernandes…

  14. Caro Valupi, não me bastava já a suprema emoção de ouvir a Portuguesa enquanto esvoaçava a nacional bandeira (esta parte da bandeira esvoaçante já sou eu a especular, estava em viagem de negócios, ouvi no rádio da limousine), não me bastava já esse frémito, eis senão quando o leio, e que leio eu? Pois leio que o meu caro teve também a sua fase adocicada, consubstanciada na visualização do Carlos Lopes a cruzar a meta em primeiro, adivinho-o a si, o único da sua rua, olhos pregados ao écran, as imagens ainda a preto e branco, duas e tal da manhã e nada, os maratonistas ainda não haviam entrado no estádio olímpico, o meu caro de bandeira nacional na mão, à espera do momento em que a agitaria em silêncio, para não acordar toda a gente, nacional bandeira numa mão, copo de Pisang Ambon com licor de groselha na outra.

    Isto sim, comove-me. Obrigado pela partilha, são estes momentos de intimismo, de olhos nos olhos, em que o identificamos como um nosso igual, que fazem com que tudo valha a pena.

  15. Dispendioso Comendador, confirmo todos os pormenores da descrição, à excepção do Pisang Ambon, ofensa agravada com o acrescento do licor de groselha.

  16. mas voltando à polémica: o teu título imagino que se dirige para além do ‘comandante’ a todos nós que exultámos com a medalha, não?

  17. Estava a falar dos que dão importância ao número e metal das medalhas (os provincianos) e dos que acham que se deve agradecer a um atleta por ele ser atleta (os estúpidos).

    Os que exultam com as medalhas estão safos. E fazem eles (nós) muito bem.

  18. tens razão, assim não há polémica

    por causa disto hoje vi tv, anda aí uma maré de assaltos a que se segue uma maré de securitização, mas é inevitável não?

  19. Não é inevitável, e espero que o Governo resista à pressão da oposição. Porque essas medidas assinalariam um desgoverno. No entanto, a segurança precisa de investimento em recursos humanos mais qualificados, materiais, condições financeiras e inteligência. Isso deveria aparecer com clareza nas promessas para 2009, pois é uma área onde também há necessidade de reformas.

  20. penso que é isso que ouvi equacionar, acho equilibrado

    com a tensão na Europa oriental a juntar ao Médio Oriente a crispação ‘electrostáctica’ promete, e vai haver vaga de emigrantes por ai fora

    como sabes tento ajudar ao alívio da tensão montando o arcó-íris para a Latina e África, com um cheirinho a cominhos, espero ir na onda, mas tenho que ficar mais ou menos descansado com cá

  21. depois ainda temos de falar desta polémica, o BCE subiu os juros e dólar valorizou, essa é que é, mantendo os dois por cento de referência. Eu sei que isto é ao contrário do que era suposto em termos lineares, mas faz sentido em termos circulares, com a subida dos juros o BCE arrefeceu a economia e a valorização do dinheiro reflecte a pujança económica.

    http://diariodigital.sapo.pt/dinheiro_digital/news.asp?id_news=103407

    Sei que temos este dissídio, não me move qualquer intenção de impôr a minha opinião, mas acho que tu, como muitos, caíste na armadilha de manipulação doxal: quem fez subir a inflacção foi o BCE com declarações sistemáticas nesse sentido (o pessoal ouve: a inflacção está a subir -> deixa cá aumentar os preços), para justificar uma subida dos juros, a bem dos bancos e a mal das pessoas em geral.

    Se eu estiver errado diz, não me importo nada de corrigir posições, quando me convencem. Também não tem pressa, andamos nisto há meses.

  22. upi, homem!
    «os deslumbrados a quem se entregam mando e verbas acreditam que é a sua vez de pôr as beiçolas na ambrósia» é muito, mas mesmo muito bom. Vou ler o resto.

    as beiçolas na ambrósia?! ora que tu..

  23. val,
    pronto, li tudo, duas vezes umas partes, uma última geral. Julgando ter entendido, subscrevo e quase aplaudo a essênciobjectivo da prosa, a saber: «Temos os capitães-de-mar-e-guerra mais chonés do Atlântico e oceanos adjacentes.» «A medalhomania é coisa para valer 15 milhões de euros.» e considerações adjacentes. Simsanhora, gostei da maior parte, estou contigo na paloncice da medalha civil e no caricato (e dispendioso) do folclore habitual. Embora considere que o outro lado desta medalha existe e é incontornável: o ‘Desporto’ tem que existir e com ele os seus rituais, que têm um sentido importante e uma razão de ser não menos. Se a carga de opinião se desse por dada no parágrafo do «(…) em simultâneo descobriria que a sua existência teria sido miserável.», mais a sentença final, claro, teria sido muito aceitável, muito bom, muitas palminhas. Ou seja, digo eu que aquele parágrafo que embala no «Não há nada para agradecer a um atleta» e vai até Pequim sempre a bicar o Obikwelu talvez pudesse não estar, não ser, não dizer, mas pronto, não faz mal, deixa lá.
    Será por teres cara de baterista rock que tanto rufas no pobre Francis, pergunto-me repetida e insistentemente desde que soube que também engatavas.

  24. Z, então a inflação não subiu por causa do petróleo, dos alimentos e de outras matérias-primas? Então não foi a política draconiana do BCE a conter danos maiores? Tens de me explicar melhor o teu raciocínio.
    __

    Rui, estragas-me com mimos. Porém, tenho de te fazer pequenas correcções à prosa. Primeira, e fundamental, não engatei, fui engatado. Sem os UHF, não teria música para aquela conquista a valer medalha de platina. Segunda, e já sem qualquer importância, não se trata de querer mal ao santificado Chico, mas sim de o tentar respeitar como pessoa.

  25. valupi,
    bom, a ser assim estou em crer que a justiça sairia melhor servida se lhe faltasses mais ao respeito, mas isto cada um é como cada evidentemente, ora pois claro.

  26. então Valupi, vamos lá,

    Como pressuposto penso que concordarás comigo: nós, cidadãos comuns, não economistas, temos que saber discutir economia, que nos diz respeito a todos. Em segundo lugar não tenho medo de errar, aprendi com o Bento de Jesus Caraça que ele não tinha medo do erro, porque podia sempre corrigi-lo.

    Quanto à questão propriamenre dita, o que seria expectável é que o BCE aumentando as taxas de juro e portanto a remuneração dos depósitos em euros tornasse o euro mais atractivo, logo maior procura, logo sobe o preço do euro, logo o euro valorizaria face ao dólar que manteve a taxa de juro inalterada.

    Realmente passou-se o contrário, o dólar valorizou face ao euro, e significativamente, de então para cá, em 10 pontos. O que é bom, porque reequilibra as balanças de pagamentos e desonera o petróleo que estava a ser usado como sorvedouro, e portanto pode baixar a inflação.

    Mas eu creio que isso aconteceu porque com a subida dos juros o BCE arrefeceu a economia europeia, baixou a confiança e a expectativa, porque se abateu sobre as pessoas em geral.

    Realmente quem ganha a batalha euro/dólar é o barbas do Fed, com taxas de juro reais negativas.

    (felizmente o assunto foi teorizado aqui no Aspirina, fica à tua guarda)

    ——–

    Mas portanto, concordarás que a implicação:

    aumenta juro -> aumenta procura da moeda -> aumenta preço da moeda

    foi negada neste processo, ou não?

    ——–

    Já sobre os efeitos globais, olha tomara que tenhas razão e que a situação reequilibre sem precipitar guerras, mas isto está a acontecer ao mesmo tempo que polariza tempestade na Europa oriental

  27. o Badiou, em 1990, fala de uma coisa interessante: vivemos sob a ditadura do número, que foi algo que o capitalismo importou do socialismo de Estado

  28. Z, a economia diz respeito a todos, e diz respeito também a cada um no sentido em que se relaciona com o todo da cada um (aliás, ver Aristóteles a respeito, quando faz depender a realização pessoal de certas condições económicas), saber isso é decisivo.

    Na relação do euro com o dólar, creio que a responsabilidade está do lado do dólar. As subidas do juro pelo BCE foram só para lidar com a pressão inflacionista na União Europeia. As anteriores crises petrolíferas deixaram essa lição: tentar controlar, a todo o custo, a deriva inflacionista.

  29. Valupi, fica para continuar a polémica,

    o barbas do Fed herdou o legado de Greenspan, o subprime e a bolha especulativa na bolsa, perante o descalabro baixou o preço do dinheiro por forma a que seja mais atractivo tê-lo em circulação do que imobilizado, e assim chegue mais facilmente aos mais necessitados

    o BCE manteve os 4%

    o resultado foi uma valorização desproporcionada do euro, em particular face ao dólar, o euro ultrapassou a barreira dos $1,5 pela primeira vez – bom para os aforradores mas mau para a maioria das pessoas

    os aforradores converteram depósitos em dólares em depósitos em euros, mais remunerativos

    o excesso de dólares largado em circulação induziu um sorvedouro no preço do petróleo, cotado em dólares, e noutras matérias como o milho de que os EUA são dos principais exportadores

    o surto de inflação recente está correlacionado com a valorização do euro/dólar, é só fazer a série de valores

    cá para mim isto teria sido atenuado ou evitado se o BCE tivesse descido os juros no início do ano

    no entanto, como não se pode fazer prova positiva do que não aconteceu, fica em conjectura abdutiva, e continuamos no próximo episódio,

  30. Mas caso o BCE baixasse o juro, aumentaria a inflação na Europa. Ora, é este o periclitante equilíbrio que justifica a política do BCE. Lembra-te que a economia não é uma ciência exacta, mas humana.

  31. pois Valupi, esse é o raciocínio clássico, e aquele que as pessoas estão à espera, mas isto está tudo pervertido pelos efeitos indirectos que provocam circularidade.

    insisto que estou a conversar com um amigo, e não a querer medalha alguma, só queria que abrisses na tua mente a possibilidade de antever que podemos estar a ser enganados pelo discurso clássico, hoje no Público vem um artigo de economia a dizer que a Europa corre o risco de entrar em recessão técnica

    o que eu sei é que aumentaram os juros e recebi logo três cartas com créditos pré-aprovados, uma delas até diz: quer que embrulhe?

    e eu a resistir

    resisto melhor aos créditos que aos homens

    —-

    PS: não fiques com ciúmes que não vale a pena, mas o artigo do Rui Tavares hoje no Público está magnífico, se eu pudesse metia aqui

  32. Z, vai ser muito difícil não ter ciúmes, mas tentarei. Quanto à economia, tens 1000% de razão: conversa de amigos, sem medalhas. Mas, creio que também tu terás de admitir que a economia é mais um campo de interpretações do que de cálculo. Por exemplo, o caso do Alan Greenspan é paradigmático: de bestial passou a besta. Tudo porque a economia não se compadece com simplificações, e acontece também aquilo que qualquer investidor veterano sabe de ginjeira: os melhores são apenas os que têm mais sorte.

  33. pois Valupi, por isso é tão bom conversar com um amigo, abrem-se sempre portas e janelas e o futuro é de todos

    «economia é mais um campo de interpretações», concordo inteiramente

    (não tenhas ciúmes pá que eu gosto muito de ti, ando cá todos os dias, e até tenho ali uma citação do Nieztche para botar, mas só amanhã. Agora eu também gosto do Rui, e já sabias isso desde aquela coisa dos judeus. Voltei a ler O Último Cabalista… do Zimmler à conta disso. Impressionante como um panorama de seca e de fome, de crise, e de peste, fez com que uma ‘fagulha’ – uma boca de um gajo que disse numa igreja: em vez de acenderem velas peçam chuva – incendiou a barbárie)

  34. Fazes muito bem em ser leitor (amigo!) do Rui Tavares. E faz ele muito bem em pensar, falar e escrever para a comunidade. Mas eu também faço bem em discordar dele quando me acontece discordar. E é só isto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.