
Conhecido dirigente, de um partido nacional e socialista, saúda o desfile dos que vão combater na Guerra da Avaliação, prevista durar o ano todo.
Uma das características que melhor identificam o Governo Sócrates é a capacidade de negociação. Não temos memória de tal, e o Governo de Guterres foge à comparação dado que não negociava, cedia. A primeira grande exibição desta virtude – porque é de força que se trata – aconteceu com o processo de localização do novo aeroporto de Lisboa. A 11 de Abril de 2007, em entrevista na RTP, Sócrates dizia que a Ota era, indubitavelmente, a melhor localização: 30 anos de estudos, validação por diferentes Governos anteriores, recente consulta aos melhores consultores internacionais, urgência na construção do novo aeroporto, ausência de estudos quanto a outros locais, necessidade de dois ou três anos para ponderar uma alternativa. Deste rol de pressupostos, concluía o Primeiro-Ministro ser um erro parar o projecto Ota. 8 exactos meses depois, o Campo de Tiro de Alcochete era confirmado como o local para o novo aeroporto de Lisboa pelo mesmo governante. Que aconteceu? Política. Às claras e nos bastidores, a sociedade moveu-se, fez pressão e o Governo geriu a situação da melhor forma. Isso não quer dizer, porém, que a Ota fosse um erro. Quer é dizer que o Governo, mesmo de maioria absoluta, sabe negociar.
Quando se deixou cair Correia de Campos, estávamos no auge de um novo cenário em Portugal: a assustadora realidade das reformas. Não por acaso, não se fizerem reformas em 30 anos de democracia, antes se acumularam e aumentaram vícios e disfunções. É que reformar é a tarefa mais difícil para os políticos no poder, os quais devem sempre favores às forças da situação, os mesmos que temem perder na próxima eleição. Momentos de grave crise são propícios à reforma, como a História ilustra, onde guerras, desastres financeiros e catástrofes naturais podem diluir os factores de constrangimento, oposição e inércia. Em Portugal, a grave crise tinha sido protagonizada pela fuga de Barroso e pelo desastre de Santana. O regime tinha batido tão no fundo que se deu ao PS a sua primeira maioria absoluta, cenário que alguns só julgavam possível acontecer com Cavaco. Era fatal: se as reformas agora viessem, com elas teria de vir uma inusitada e imprevisível convulsão social.
Tentar mudar a mentalidade de uma qualquer organização é sempre a tarefa mais difícil para os seus dirigentes. No caso, o desafio não podia ser maior, e os comentadores de referência não acreditavam que o País fosse reformável, tivesse salvação. Pois este Governo revela uma e outra vez ter força e cultura política para aguentar o barco no meio da tormenta das reformas que já efectuou, pouco interessando contabilizar se foram muitas ou poucas. No caso do Ministro da Saúde, a sua presença esteve assegurada até às últimas, e foi preciso ver o PS também em pânico para que Campos fosse sacrificado. Assim que saiu, publicaram-se elogios que tinham ficado na gaveta enquanto os reaccionários e os néscios atacavam furiosamente. É a hipocrisia a reconhecer a bravura do Governo. Mas o que importa realçar é a lógica de Sócrates: dada a irracionalidade que os opositores da reforma na Saúde tinham promovido, intoxicando com mentiras e cenários alarmistas as populações ignorantes, parar foi a forma de negociar com uma sociedade cujo inconsciente ainda pertence a Salazar. Esse mesmo inconsciente que arrasta os professores contra a avaliação.









