Fernanda Câncio é uma jornalista de prestígio já estabelecido (o PSD que o diga), e uma personalidade com crescente carisma público. O nascimento do jugular estará ligado, em parte, ao seu cleopátrico nariz propenso a atrair mostarda. E o espirro, dito alérgico, deu origem a um novo blogue muito bem composto. Ora, estas circunstâncias não a protegem contra a imbecilidade, como este seu texto faz questão de lembrar. O caso explica-se em poucas linhas, porque nasce de poucos raciocínios.
O primeiro parágrafo situa-nos na África mais miserável, onde uma jovem foi morta por decisão de autoridades religiosas islâmicas. O segundo parágrafo transforma o caso individual num símbolo de todas as vítimas da violência exercida em nome de certas ideias de Bem. E o terceiro parágrafo faz uma surpreendente e atarantada confusão entre escrituras sagradas e práticas religiosas. Termina referindo o Deuteronómio como prova de culpa dos católicos. Estamos, pois, perante um exercício de escrita expressionista, o qual se qualifica como imbecilidade pela sua completa falta de lógica.
Como foi dito na caixa de comentários, estabelecer uma relação causal directa entre palavras e actos obriga, então, a reconhecer nos actos de bondade, e de sacrifício, a influência da mesma fonte de todas as palavras que uma qualquer religião venere. Esta é a primeira contradição, pois quem ataca os textos das religiões não aceita que eles possam ser validados pela acção dos crentes. Quem age pela fé terá ainda, e sempre, de se conformar ao edifício axiológico dos críticos para não ser atacado. Mas assim que faça algo oposto, ou meramente diferente (abstinência sexual, por exemplo), vai levar com o carimbo da censura e da maledicência. Os ateus não toleram exibições públicas das equipas concorrentes, só um dos credos pode ter direito à cidadania.
A segunda contradição, e a mais grave, é a que resulta de não se ter formação em ciências socias (ou, a ter, ela não ter gasto). Isso permite a deformação inverosímil, repetida pela autora nos comentários, de relacionar passagens do Deuteronómio com a experiência de fé dos católicos. Esta é uma situação que desperta a tentação do achincalhamento, tamanha a estupidez, mas até para efeitos de economia é preferível ficar por uma só palavra: historicidade. Este conceito remete para o concreto do devir histórico, afastando as abstracções reducionistas e ideológicas. No caso do livro convocado, estamos perante um texto que – no mínimo dos mínimos! – é fulcral para se conhecerem dimensões etnográficas, históricas e antropológicas de povos que viveram há 3, 4 e 5 mil anos; e ainda mais longínquos, pois tudo na ciência é correlacionável e cumulativo. Este mesmo texto tem valor sagrado para os católicos, todavia em grau muito inferior ao da sua importância no judaísmo. Mas o que é obrigatório afirmar é a sua ineficácia jurídica e social. As leis, regras e preceitos descritos no Deuteronómio não resistiram ao tempo na sua valência literal. Porém, permaneceram como fonte de inspiração no contexto maior da hermenêutica e exegese bíblicas, as quais alimentam constante e renovadamente a teologia. Se quiséssemos limpar a Bíblia do que nos parece desajustado segundo a moral e compreensão de cada um, e no tempo e local que for o seu, quem decidiria o quê? E que restaria? Isto, como é óbvio, constrange ter de ser explicado.
Fernanda Câncio, afinal, também está Bem-intencionada. É esse o seu inferno.