Pegar no facho

Freitas do Amaral não tem igual. Esta entrevista à RTP, hoje, é um documento histórico, político e antropológico que devia passar nas escolas. É a confirmação do seu trajecto de independente; ou, como explicou para quem tiver ouvidos, de centrista. Tudo se encaixa: a mesma coragem com que aceitou apoiar o PS, e fazer parte do seu Governo, foi o que o levou a opor-se à invasão do Iraque, e, para atalhar, a ser contra o totalitarismo planeado pelo PCP, alguns militares e outros grupelhos congéneres, logo após o 25 de Abril.

Freitas do Amaral, com o seu fácies, porte e maneirismos de arcebispo, era o político mais caricaturável à direita. Nas presidenciais de 1986, gozava-se com o seu sobretudo verde-queque e os sinais exteriores de betice. Quando discursava, o registo era de homilia. Tinha a imagem acabada de um reaças, em versão culta e católica. Depois desapareceu de cena, entraram os putos estarolas no CDS. Regressou em 1995 para assumir a presidência da Assembleia-Geral das Nações Unidas. Renasceu.

Freitas está melhor do que nunca. É uma memória viva da democracia. Um leal servidor da comunidade, um corajoso patriota. É sábio e sage. E talvez seja o único político independente em Portugal. Quem é que pega neste facho?

10 thoughts on “Pegar no facho”

  1. tu é que és independente Valupi, e gosto disso,

    o Freitas ainda anda com aquele olhar esgarguelado?

    olha lá acho que noutro dia não te respondi, disseste que o Louçã estava um merdas e eu não acho, está igual a ele próprio, às vezes sabe-me bem uma referência estável,

  2. Freitas conta (hoje no DN) que muitos amigos e até pessoas de família nunca mais lhe falaram desde que apoiou Sócrates e aceitou um cargo no seu governo. Este homem, que começou como fervoroso salazarista (Marcelo Caetano dixit) e, depois, foi líder democrata-cristão, corre o risco de se tornar num avançado, se não mesmo num revolucionário. Agora diz que quer ver projectos para erradicar a pobreza em Portugal antes de apoiar quem quer que seja nas próximas eleições. A passagem pela ONU fez-lhe bem, vê o mundo globalmente e não do umbigo português. Muito menos do umbigo do Bush.

    É um homem-surpresa. O candidato da direita de 1986 é hoje fan de Soares! A direita nunca lhe perdoará a traição, embora já tenha perdoado a Soares e, se calhar, a Cunhal. Curiosamente, o retrato de Freitas continua pendurado na parede da sede do Largo do Caldas. Até quando?

  3. ramalho, são muitos, é daí que vem a sua força.
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    Z, o olhar do Freitas é meio louco, de facto, o que vai bem com o seu carisma. Quanto ao Louçã, o problema é esse dado que referes: ele está igual. Mas Portugal está diferente, e isso não favorece o imobilismo de Louçã.
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    aviador, preferia que ele voltasse ao CDS.
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    Grunho, entende-se.
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    Nik, os conflitos com algumas pessoas da família também ele conta na entrevista. Este grau de exposição da vida privada, logo num assunto tão melindroso, vai ao arrepio de tudo o que temos visto na nossa classe política. É um grande momento de televisão, de rosto e voz, que fica para quem admirar a coragem.

    A brincadeira vídeo que trouxeste tem graça, mas não tanto como aquela que eu trouxe há uns dias. E o teu protesto tem muita graça. Será que te incomodas com o silêncio? Ó homem, se não há comentários, isso é um bom sinal – sinal de que as pessoas tem muito mais e melhor para fazer.

  4. ele tem um livro muito bom sobre a fundação de Portugal e a concatenação dos planos político, militar e jurídico. De como um dux se fez rex. Eu citei esse livro num trabalho de História mas lá vieram os historiadores a dizer que eu devia ter citado um historiador e não ele. Porra, quando acabarão estas mentalidades corporativas e mesquinhas?

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