O Procurador do Zé Manel

O Público tem um Provedor, e este tem um blogue. Curiosamente, é um blogue onde os leitores não se pronunciam, apesar da sua missão blogosférica: este espaço tem ainda como função primordial recolher e divulgar comentários dos cidadãos, procurando estimular o debate e a discussão em torno da qualidade do jornalismo praticado pelo PÚBLICO. A manifestação da generosidade, contudo, não chega para generosas manifestações dos leitores. A maior parte das caixas de comentários são embaixadas do vácuo cósmico. Nem os assuntos mais escabrosos convocam vivalma. Ocasião para uma resposta rápida e entusiasmada, pensei na minha ingenuidade. E lá fui desflorar uma dessas caixas desoladas, deixando este pedido. Até agora, nicles batatóides.

Mas vamos ao que interessa:

Se um alto agente do Estado invoca o seu relacionamento com um accionista de um jornal (embora não saibamos com que intenção), podemos considerar estar-se perante uma pressão ilegítima, à luz da Constituição. Pelo menos, essa dúvida persiste.

Dou como certo que o Provedor tinha presente, ao escrever este passo, aqueloutro do outro:

Permito-me ainda sublinhar a falta de frontalidade com que a insinuação é transmitida, reconhecendo o seu autor tratar-se de “uma interpretação subliminar“, deixando, assim, a pairar uma suspeita indefinida, agravada pelo facto de se tratar de uma conversa entre duas pessoas, impossível de reproduzir ou de provar documentalmente o que foi dito.

É inegável: o Provedor está conscientemente a tomar partido pela versão subliminar. Porquê? Estará na posse de informação que não foi publicada, a qual validará a suspeita? Ou será um caso de simpatia/antipatia? Tendo em conta que o Provedor se apressa a corrigir o leitor – Ao contrário do que afirma o leitor, o telefonema foi do primeiro-ministro para JMF (embora sugerido por JMF, «insistentemente» segundo o PM). –, não citando a carta de Sócrates – A conversa telefónica referida pelo Senhor director do Público – única que tive com ele – não foi de minha iniciativa, foi antes insistentemente pedida por ele, como ele próprio reconheceu no depoimento em causa. –, é lícito concluir que não estamos perante tratamento igual das fontes. Tudo o que venha de Sócrates é, para o Provedor, algo que não chega como testemunho fiável.

E então é isto, e nada menos do que isto: até ao dia 13 de Outubro de 2008, provavelmente ultrapassando essa data, o Provedor do Leitor ao serviço do Público admite que Sócrates pode ter exercido uma pressão ilegítima sobre um órgão de comunicação social, à luz das informações que possui. Acontece que Sócrates afirmou por escrito o que por escrito afirmou. E acontece que o Zé Manel não se lembra do que disse, nem do que ouviu, nem onde estava a papelada. Nem lhe ocorreu que era porreiro para o seu carácter ter desmentido o Expresso no dia em que saiu a acusação. Nem que podia ter evitado entalar o Provedor com as suas declarações inacreditáveis, as quais foram engolidas sem mastigar. Se isto é assim, e é mesmo assim, temos que o Provedor do Público acumula com o cargo de Procurador do Zé Manel.

17 thoughts on “O Procurador do Zé Manel”

  1. Não me surpreende o comportamento do “provedor” em causa, personagem com um largo historial.

    Aliás, este título de provedor é uma farsa, desavergonhadamente praticada entre nós desde que certas grandes empresas de serviços públicos, como a PT, o introduziram na sua mecânica de relações públicas, tentando passar a imagem de que o provedor estava ao serviço dos utentes e não às ordens da gerência.

  2. Eu tinha uma ideia muito diferente do Joaquim Vieira! O que é que lhe terá acontecido para ter comportamentos tão enviesados? Sabe o bem informado Valupi esclarecer este humilde leitor?

    Já agora porque será que J.Manuel Fernandes tanto queria almoçar com Sócrates!!? Por que é que Sócrates rejeitou sempre esse convite?

  3. Joaquim Vieira está naquela função a fazer tirocínio para director sucessor de JMF, que ouço dizer estará de partida em 2009. Estão a pôr o gajo à prova: se não tratar de defender competentemente as asneiras do jornal, rejeitam-no.

  4. Nik, também pensei nessa hipótese, o Vieira como próximo, e muito próximo, director. Faria todo o sentido.
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    Seven Dub, tens de ir ao blogue do homem e fazer-lhe essas perguntas. Como ele lá escreve, o blogue existe para poder conversar com os leitores.

  5. O JMF só sai, se sair, depois das eleições. Até lá tem muito trabalho pela frente, a fazer mais do mesmo que tem feito até aqui. Se calhar, até a fazer muito mais do que até aqui, já que não vai conseguir conter-se durante as campanhas eleitorais de 2009.

  6. Caro Valupi,

    Para este peditório não dou.

    É mau de mais ver o JMF aos “papéis” com música do provedor, “ERC” e companhia limitada.

    Está meio mundo a viver de esmolas. Carácter é mais raro que diamante.

    Meu caro, vamos reabilitar o Alves dos Reis, benfeitor da Pátria e digno mestre da arte de como salvar um sistema falido.

    Alguém faz melhor?

  7. upi, saudoso val,
    passam os dias e tu sempre na mesma, como o Richard Harris no English Bob de ‘Imperdoável’.
    Continuas a dizer mal da Rainha de Inglaterra, portanto?

  8. Valupi,

    POr que é que em vez de andares aqui a desperdiçar um inegável talento com notícias dum namoro tempestuoso entre um primeiro ministro e um director de jornal dum país do rabo da Europa com muita necessidade ganhar juízo não vais dar uma voltinha ao Wall Street Journal para engrossares o teu dossier com coisas interessantes. Até te deixo aqui o link para não teres esse trabalho:

    http://www.marketwatch.com/news/story/14-reasons-main-street-loses/story.aspx?guid={F63EC448-D9C1-4138-AC18-97BF0FE68EE3}&dist=TNMostRead

  9. eu detesto aquela coisa de bater no burro caído, mas enfim ainda não está no chão e aí garanto que não bato eu. É claro que o JMF terá de ir embora depois da defesa exaltada que fez da invasão do Iraque, uma coisa tramada e uma tristeza imensa, mas enfim os políticos não ligam a tristezas só a resultados, o problema é que o resultado é a crise financeira que está, a outra face da moeda da mesma lógica de embuste, para financiar a guerra, contra umas armas de destruição maciça inexistentes, mas serviu para segurar o petróleo cotado em dólares – o dólar.

    meu caro: Artur Virgílio Alves Reis, o ‘de’ é metonímico, conheço bem a história namoriskei com uma neta dele.

  10. Desculpa lá, ó Jonas,

    As cabronas escondem isso quando a freguesia começa a ser muita. Deslizes. Mas resumo-to: era um articulsita americano a usar o púlpito blogosférico dessa austera geradora de notícias financeiras que nos Estados Unidos tanto faz votar no teu amigo Obama como no aviador reformado e que o país está, essencialmente, na merda. Como aliás estamos no nosso Lusório, na Germânia, na Britânia, na Francónia e na Eurónia. Há uns amuos, parecem discussões democráticas para encontrar a verdade como essas que relatas, mas é tudo nhaca.

  11. E esta é de socialistas a divulgarem a “profecia” de Biden, o amigo do teu favorito Barrack Obama, à volta de cenários de dificuldades e-ou guerras de fazer tremer qualquer eleitor, comparando o futuro presidente, (pois está no papinho como previsto) a John F Kennedy. Com os políticos de hoje, a História não se repete, planeia-se, prevê-se, com aviso público aos interessados para que depois não se finjam surpreendidos.

    http://www.wsws.org/articles/2008/oct2008/bidn-o22.shtml

  12. Jeronimo, iremos ver, então. Também pode acontecer que a administração do jornal não dê importância aos conflitos e tenha outros critérios de avaliação.
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    ramalho santos, é tal e qual como dizes: carácter é mais raro do que diamante.
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    Rui, é um dos meus filmes favoritos, o Imperdoável. Ensina que os pistoleiros mais perigosos não são os mais rápidos, mas sim os que demoram o seu tempo a apontar.
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    Z, pois não está caído, pois não. Mas é burro.
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    CHICO, fui lá à tasca que recomendaste. Já levam mais de 1000 comentários, é à americana. Mas entendi a cena: a democracia é uma tanga, reina a plutocracia. A crise financeira foi provocada pelos banqueiros, as torres caíram porque a CIA planeou o 11 de Setembro, o Elvis e o Hitler estão vivos e partilham um T1 no Cacém.

  13. Valupi,

    Andas muito influenciado pelos ideólogos e filósofos da Beira Baixa. Tens que começar a ler umas coisas de gente bem informada, especialmente da variedade mosaica, a mais interessante e com conhecimento de causa, como se sabe. E a CIA, meu senhor, está completamente inocente, não planeou nada, limitou-se a fornecedor alguns computadores, software, fusíveis, tinta e pincéis.

    E “banqueiros” é palavra que não define nada em moeda corrente, são os nomes deles que interessam. De facto há mais banqueiros em Londres ou Nova Iorque do que há bombeiros em POrtugal. E lamento ter de informar-te que o Elvis morreu e o Hitler morreu ainda melhor, portanto tudo boatinho, apesar de haver muita gente, cada vez mais, diz-se, que acredita que o fantasma do Adolfo anda por aí com uma enorme lista com nomes e apelidos dos democratas que o ajudaram a subir ao poleiro.

  14. Não, não confundi nada, meu caro. Tu é que gostas de ser muito rígido e precioso e por isso achas que um gajo para ser banqueiro é preciso ser dono dum banco, mesmo quando sabes que há casos em que um “bancário” pode levar um banco à falência. No Portugal sem vaidades até um membro de conselho de administração de banco é capaz de se considerar “bancário” e arregaçar as mangas antes de assinar o papel – com a mesma modéstia que leva um coronel ou general a considerar-se “soldado”.

    Mas nos países que dominam o carcanhol internacional, aos “bancários” dá-se-lhes nomes específicos como bank clerks, etc, para os manter na linha. Os 10 por cento do topo que se dedicam ao hobby de fazer dinheiro com tanta intensidade e desvelo como o maior accionista ou dono do banco, a esses chamo eu de banqueiros, e eles não se queixam, todos inchados.

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