Este artigo fala de um paradoxo alimentar que qualquer um pode comprovar por si. Mas a mesma, mesmíssima, lógica explica a corrupção generalizada, em todos os países e estratos sociais.
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Portugal à solta
O Brasil, internacionalmente pujante como nunca na sua História, elegeu uma mulher para o manter na prosperidade económica e desenvolvimento social. Por cá, temos gerontes caducos a concorrer à Presidência, tresandando a patriarquismo. E os partidos não são ambientes mais salubres no que respeita à presença de mulheres com autoridade política – coisa muito diferente da presença de mulheres junto da autoridade política.
Quem anda a tramar a afirmação política das portuguesas, os homens ou elas próprias?
Ser democrata é
Coisas que têm a sua verdade
Estupidamente simples
Sair do euro não se iria decidir por um Governo qualquer no auge de uma inaudita crise das políticas de financiamento da União Europeia no seu todo, nem que tivesse duas maiorias absolutas no Parlamento – sequer tal drástica decisão colheria favor dos eleitores, muito provavelmente. A rapidez das alterações no panorama dos mercados de financiamento cria problemas novos, onde a possibilidade de erro é elevadíssima e a necessidade de agir ainda maior. Logo, temos de alinhar com os países que nos têm enviado parte do seu dinheiro. Por azar, achamos que a receita não nos fará bem, mas ainda ninguém demonstrou qual é a alternativa.
Ser democrata é
Good food for good thought
Why is there so much bullshit? Of course it is impossible to be sure
that there is relatively more of it nowadays than at other times.
There is more communication of all kinds in our time than ever before,
but the proportion that is bullshit may not have increased. Without
assuming that the incidence of bullshit is actually greater now, I
will mention a few considerations that help to account for the fact
that it is currently so great.Bullshit is unavoidable whenever circumstances require someone to talk
without knowing what he is talking about. Thus the production of
bullshit is stimulated whenever a person’s obligations or
opportunities to speak about some topic are more excessive than his
knowledge of the facts that are relevant to that topic. This
discrepancy is common in public life, where people are frequently
impelled — whether by their own propensities or by the demands of
others — to speak extensively about matters of which they are to some
degree ignorant. Closely related instances arise from the widespread
conviction that it is the responsibility of a citizen in a democracy
to have opinions about everything, or at least everything that
pertains to the conduct of his country’s affairs. The lack of any
significant connection between a person’s opinions and his
apprehension of reality will be even more severe, needless to say, for
someone who believes it his responsibility, as a conscientious moral
agent, to evaluate events and conditions in all parts of the world.
Milagres de S. Caetano
Que as dificuldades económicas de Portugal, com décadas ou séculos de lastro estrutural e cultural, serão resolvidas pelo PSD em poucos anos interrompendo as obras públicas, acabando com serviços públicos e baixando os impostos das pequenas e médias empresas.
Que o PSD, ganhando as legislativas em Setembro, começaria logo a trabalhar para a crise grega de que só haveria conhecimento no mercado em Janeiro e consequências para Portugal em Maio.
Que os eleitores estão condenados a levar o PSD para o Governo nas próximas eleições mesmo sem conhecerem as suas propostas, como se o Poder lhes tivesse sido usurpado pelo PS e não existissem soluções alternativas para formar um Executivo sem sociais-democratas.
Que Sócrates, em simultâneo, tudo faz para se agarrar ao Poder e para fugir dele.
Perguntas simples
Não dá para fazer clones do Castro Almeida e encher o PSD com essas réplicas?
Lições do Vasquinho
Este jornal publicou a semana passada uma sondagem ao apoio que os nossos principais políticos têm no País. As sondagens valem o que valem. Mas não deixa de ser instrutivo verificar que o número de pessoas que hoje acredita em qualquer deles é sempre menor e, às vezes muito menor, do que o número de pessoas que não acredita. Falo em acreditar porque, se tirarmos o dr. Cunhal, os políticos portugueses quase não se distinguem uns dos outros e todos manifestam um honroso desejo de nos servir e fazer bem. A crescente hostilidade que lhes dedicamos só pode ser devida à crescente incredulidade com que os ouvimos. Se de facto ainda os ouvimos, coisa que me parece duvidosa.
Ao fim de quinze anos de regime, o que dantes com certo exagero se chamava «a classe política» talvez se tenha transformado numa genuína «classe», separada do País e em que o País não deposita a mais vaga confiança. Se isto sucedeu, foi inteiramente merecido. Existe uma palavra inglesa que descreve com exactidão o ruído indistinto e sem sentido, que os nossos políticos nos dirigem quando pretendem comunicar connosco. Essa palavra é cant. Segundo o dicionário de Oxford, cant significa: o calão ou linguagem secreta ou peculiar de uma seita, de uma classe ou de uma disciplina; uma linguagem insincera ou hipócrita; um conjunto predeterminado de palavras repetido mecanicamente; um estereótipo em moda; uma fraseologia vácua e pretensiosa, em especial se implicar falsa bondade ou fé.
Vasco Pulido Valente, in O Independente, 29 de Setembro de 1989
O barómetro e o termómetro
O Barómetro de Outubro da Marktest para o Diário Económico e TSF obteve os seus dados entre 19 e 24 de Outubro. Resultados: PSD sobe 4 pontos percentuais para os 42%, PS cai de 36% para 25%, Bloco de Esquerda com 10% (mais 3,3 pontos percentuais), CDU com 8,3% (mais 2,3 pontos) e CDS com 8,1% (mais 1,4 pontos).
Esta sondagem apanha dois acontecimentos cruciais no exacto momento em que influenciam a sociedade: primeiro, o anúncio das medidas do Orçamento; depois, o início das negociações entre PSD e Governo para a viabilização do mesmo. Por um lado, temos o choque sofrido pelos funcionários públicos, parte substancial do eleitorado socialista. Por outro, temos o alívio de ver o PSD comprometido com a governabilidade, colhendo o favor da classe média. Esta dinâmica explica a enorme, e imediata, erosão do PS no Barómetro. Estranhíssimo, paradoxal, seria que tal não se registasse.
Coisas que se descobrem
Discussões de primeira necessidade
Faz sentido: se o PSD vai negociar, é para obter uma qualquer vitória. E faz sentido: se o Governo pretende cumprir com os seus compromissos europeus, não pode admitir qualquer derrota. Negociar nestas condições, onde a austeridade já proposta penaliza sempre o Governo e o PS, só se justifica com um milagre no lado da receita. Catroga não o tinha na manga – talvez porque essa solução seja impossível, talvez porque o estado caótico da direcção do PSD tenha levado a novo desvario, agora para dar razão aos que pediram a abstenção sem negociação. [Luís Novaes Tito, meu colega de Companhia, fez um retrato muito melhor do que o meu]
António Costa, nesta Quadratura e ao minuto 39/40, defende um modelo que resolva o problema da governabilidade precária causada pela extrema dificuldade em obter alianças parlamentares à esquerda ou por eventuais vazios à direita. A solução é, simultaneamente, conservadora e ousada, e tão mais ousada quanto conservadora e vice-versa: garantir condições de viabilização de Governos minoritários através de um pacto de aprovação do Programa e Orçamento pelo maior partido da oposição, o que calhar em cada eleição. É uma sugestão que dá para alimentar discussões de primeira necessidade.
Paulo Bento, o Platão de Sócrates
O seleccionador nacional de futebol, Paulo Bento, sublinhou nesta terça-feira numa aula no ISPA – Instituto Universitário sobre “Treino de Liderança e Desenvolvimento de Equipas” – que “um líder deve ser o último a desmotivar”.
Não largues o vinho
Why Intelligent People Drink More Alcohol
More intelligent people are more likely to binge drink and get drunk
Fratricidas e lunáticos
A crise do Orçamento favoreceu Cavaco e a sua recandidatura. O fenómeno é inevitável e acabou com os laivos de esperança que Alegre pudesse ter de sequer chegar à 2ª volta. Acresce a pobreza estratégica da sua candidatura, incapaz de aproveitar o tempo disponível para construir um discurso sobre o qual apeteça ter opinião. Alegre é irrelevante, quando não é penoso. Os seus apoiantes também o sabem, por isso só têm um argumento a seu favor: ele não se chama Cavaco. Logo, quem não votar Alegre é cúmplice de Cavaco, insistem para assustar as crianças.
Sócrates repete com Alegre o mesmíssimo erro cometido com Soares em 2006, em ambas as situações levando o partido a apoiar candidatos presidenciais ostensivamente incapazes para a função. Mas trata-se de um erro que ele não podia evitar, embora o tenha de suportar – é a prova de que o PS é grande, muito grande, grande demais para um único homem. Muitos foram os que alinharam com o plano de Louçã para ter um cavalo de Tróia dentro do PS, alguém que minasse por dentro a autoridade de Sócrates. Alegre fê-lo exemplarmente de 2007 a 2009, altura em que conseguiu ter massa crítica interna para impor a sua candidatura ao PS. A desorientação actual do projecto é o corolário irónico do cinismo dos seus mentores.
A estouvada ambição de um poeta politicamente néscio, velha glória de trovas e ventos passados, incapaz de resistir à fantasia régia e recusando enfrentar os seus limites cognitivos, teve uma consequência terrível: impediu boas, óptimas, candidaturas à esquerda. A melhor de todas, para mim, seria a de Maria de Belém Roseira, mas a senhora jamais ousaria beliscar o sonâmbulo seu amigo e companheiro de jornada. O PS, evidentemente, tem muitos outros nomes que seriam capazes de congregar o centro e reduzir Cavaco à sua perversidade, incluindo independentes. Todos eles ficaram abafados pela nossa esquerda imbecil, a qual continua fratricida e lunática.
Rameira de Alfama
Esta foto está na hipnótica Galeria de Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian, que já tive ocasião de louvar há quase dois anos. Não tem outra informação para além da referência a Alfama.
Quem foi esta mulher? Doméstica, varina, operária, santa? Não interessa para nada sabê-lo. A pergunta é outra: que vemos nesta imagem? Uma rameira. Melhor: a rameira modelo de todas as rameiras possíveis. A rameira cantada pelo Marceneiro. A rameira que terá abraçado Camões nas tabernas quinhentistas de Ocidente e Oriente. A rameira adolescente, ou púbere, no tempo em que a adolescência ainda não tinha sido inventada.
As rameiras não são putas. São fados.
Sapere aude
O discurso político partidário, na sua necessidade e vacuidade, será aquilo que nós quisermos. Depende do eleitorado, das audiências ou do mercado; porque somos nós que o legitimamos, por actos e omissões. Se alguém se queixa da crispação e das falhas disto e daquilo neste e naqueles, será bronco, estará a engonhar ou a tirar algum prazer da lamúria. E não há qualquer segredo, valendo para a política como para o amor: se queres que alguém mude, começa por mudar primeiro.
Algo que já está em profunda transformação, embora ainda nos primeiros rolamentos do que virá a ser uma bola de neve, é o nosso conhecimento, e habitação, do século XX português. Nele se encontram reunidas e amalgamadas as matrizes do somos hoje. São as sucessivas decadências: da Monarquia, da I República, do Estado Novo, da Revolução, da Democracia, e ainda do Catolicismo, das Elites, do Povo e da Cultura. Estas decadências não são morais, embora tenham também fatal expressão moral, antes históricas e antropológicas. Resultam da procura de soluções novas para problemas novos, por isso se abandonam exosqueletos que impedem o movimento e o crescimento.
Regra très simples
Marcelo justificou o polémico anúncio oficioso da recandidatura de Cavaco misturando os pés pelas mãos. Por um lado, pintou-o de furo jornalístico, no que fica como a mais extraordinária manifestação de desprezo pela inteligência da audiência desde 1817, ano da descoberta do selénio. Por outro, deixou uma explicação, à prova de estúpidos, para o insólito que protagonizou: a sua manobra faria parte da pressão sobre Passos para que o Orçamento fosse aprovado o mais rapidamente possível, resolvendo o assunto a tempo de Cavaco colher todos os louros pelo acordo.
A ser verdade, fica a questão de saber em que café discreto da Av. de Roma terá reunido com a sua fonte. Para encontrar esse local temos de começar por reunir os elementos que Marcelo, nesta última homilia, disponibiliza como factos indiscutíveis:
– Que a fonte era fidedigna.
– Que Marcelo põe e dispõe do Júlio Magalhães, estando à-vontade para lhe passar informações que depois vai comentar como se fossem notícias da TVI, embora tenha desta vez optado por não incomodar o jornalista, o que gerou o pseudo-problema.
– Que anda nisto há 40 anos, tendo começado antes do 25 de Abril.
Agora, só temos de multiplicar a fonte fidedigna pela invenção de notícias e dividir por 40. Resultado? O encontro teve lugar na pastelaria Dâmaso.
La dolce vita

Sempre fui grande amigo dos salgados, não dos doces. E sou fanático do picante, da pimenta, dos pimentos, do alho, da cebola, do alho, dos pimentos, da pimenta e do picante. Está claro? Tanto que só recentemente comecei a ingerir chocolates em níveis mínimos para não ser afastado do convívio com o sexo feminino. Não me lembro de ter saudades de gelados ou de me desviar 15 centímetros do meu caminho para ir na sua direcção. Jamais tocava em compotas, geleias, marmelada, inimigas da integridade palatal. Uma bola de Berlim com creme parecia-me uma ofensa à moral pública, um duchesse autêntica pornografia.
Pois bem, things change. Hoje como bolos e doces, os mais grotescos. Como numa missão exploradora, não regressando à enorme maioria deles. Como só para poder dizer que já comi. Trata-se de um don-juanismo pasteleiro, mais gnose do que pulsão. Nessa senda fui parar à compota de limão no capitel deste poste, estacionada na secção gourmet do Continente. Depois de semana e meia em pousio na despensa, passou directamente para as papilas gustativas ao ritmo de uma colherada a cada 4,7 segundos. Ter feito uma pausa de 2 minutos a meio do frasco não irá afectar a auto-estima do fabricante, estou em crer. E depois do êxtase místico fundador, sabia-me profeta de uma nova religião: Zira Cadaval. Seguiram-se novas revelações, cada vez mais altas e luminosas.
A história desta marca é também um exemplo de empreendedorismo forçado. Em Portugal, este espírito ainda é uma excepção, infelizmente.


