As sucessivas desgraças políticas que chegam à liderança do PSD, desde que Barroso traiu o seu compromisso ético com Portugal, são uma penosa ilustração da decadência da direita nacional. As raízes estão na longa duração do Cavaquismo, no envelhecimento da geração dos fundadores do PSD e CDS sem renovação capaz e nos aparelhos de poder financeiro que substituíram a necessidade de lutar intelectual, ideológica e civicamente. A riqueza estava à distância de uma rede social, mas nada democrata, nessa enorme sociedade lusa de negócios do Cavaquistão, alimentada a fardos de dinheiro vindos da Europa para esta secção avançada do continente africano. Os filhos da direita abastada, de fortuna antiga ou recente, desistiram da luta política antes mesmo de a começarem. Havia muito mais e melhor para fazer com tantos privilégios e benesses: desportos, estudos, viagens, paixões, vida de corte. Não queriam misturas com os viciados da intriga, os arrivistas acabados de chegar e o povinho que cheira mal, inevitabilidades da actividade partidária.
Mesmo assim, não deixa de causar alguma surpresa ver Passos Coelho, que tinha juventude para ter outro juízo, a ultrapassar os máximos de estupidez registados pelos seus imediatos antecessores. Para além de não perceber nada do que se passa sociologicamente à sua volta, em particular as sondagens que o premeiam sempre que ajuda à governabilidade, de se ter metido num desmiolado beco sem saída com a revisão da Constituição e de ter levado o País para um escabroso e irresponsável processo de viabilização do Orçamento, agora saí-se com a repetição em voz alta do que Pacheco e Manela anda a vociferar entre dentes desde que lhes passou pelos olhinhos o episódio islandês: meter políticos em tribunal por causa das contas públicas. Ou seja, meter Sócrates no chilindró seja lá pelo que for, que é só do que se trata com estas alimárias. As implicações dessa aberração, caso fosse para levar a sério, teriam como consequência que só as Testemunhas de Jeová e os anarquistas ficassem interessados em ir para o Governo.
Passos faz tudo, tudinho, para oferecer ao PS ocasiões de tiro ao boneco. Mentes dadas à paranóia já devem estar em acelerado cálculo conspirativo.