Mão segura, precisa-se

“Nunca votarei de olhos fechados, serei implacável contra a corrupção”, aviso de Seguro à direção da bancada do PS

Fonte

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A declaração pressupõe que Seguro é testemunha de situações de cumplicidade ou complacência com a corrupção no seio do grupo parlamentar do PS. É a lógica do acto discursivo a ditá-lo, embora não se saiba exactamente de que tipologia de corrupção está a falar. Ora, fazer votos de implacabilidade na matéria é fácil, o difícil é combatê-la com algum mínimo de eficácia.

Se Seguro quer fazer desta bizantina causa uma das suas bandeiras para chegar a Secretário-Geral do PS, o que só o dignificaria, tem de recolher a lição evangélica: abandonar a porta larga das declarações ambíguas, retóricas ou disfuncionais e entrar pela porta estreita da definição pública do que seja a corrupção, para início de conversa, e do que é preciso fazer para a reduzir ou impedir.

É que combater a corrupção é combater um bocado entranhado em todos nós, sem excepção, pede-se o saber e o rigor de um cirurgião.

13 thoughts on “Mão segura, precisa-se”

  1. Valupi, parece-me que, em qualquer empreitada que valha a pena, as finalidades orientadoras são definidas num grau de generalização que não precisa dos pormenores dos objectivos que as hão-de materializar e, muito menos, das precisões dos procedimentos que, eventualmente, terão de ser definidos de um modo quase casuístico. A coerência não resulta dos instrumentos. A limitação dos meios resulta da ética (não vale tudo) e das regras do estado de direito (um valor a defender). Também não é de descurar a motivação que será tão mais forte quanto resultar da convicão de que é imperioso realizar o que se declara importante.
    À partida, e debulhando a declaração de algum eventual calculismo pessoal, não vejo que seja por aí que o gato vai às filhós. Que a corrupção é grave e não deve existir, acho que ninguém discorda. E, se nós só actuassemos sobre aspectos da vida sobre os quais existem definições precisas, resultantes de elaborado trabalho teórico, não fazíamos quase nada. Vamos actuar na saúde? Ora essa, e qual a definição de saúde? Vamos actuar na educação? Ora essa, e qual a definição de educação? Vamos actuar no desporto? Ora essa, e qual a definição de desporto? Ou seja: há âmbitos importantíssimos da nossa vida individual e colectiva cuja compreensão não se baseia numa definição precisa.

    Mas isto sou eu aqui a dizer, nesta manhã tormentosa, sempre com a certeza de que não estou segura de nada, de um modo definitivo.

    Bom dia.

  2. Não sei se estarei muito enganado, mas parece-me que J Seguro (pre-candidato à liderança PS) é o Passos Coelho do PS. O post de Valupi é na «mouche»: saberá, Seguro, do que está a falar? Espero bem que o PS não siga o caminho dos bonecos enfeitados, tontinhos ou simplesmente néscios que o PSD tem vindo a colocar na sua presidencia. Não se desacredite de vez a politica!

  3. Concordando com o Valupi, eu acho que, em Portugal, não havendo o reconhecimento público do direito a “lobbying”, muitas vezes se entende por corrupção o que noutros países mais realistas é mera pressão legítima de interesses. Há que distinguir. E começar por aí. Agora, conhece Seguro alguém em particular, um seu colega talvez, que se deixou corromper? Pois que o denuncie, sob pena de estar a pactuar!
    A sociedade e a economia são feitas de interesses contraditórios e não haverá nada de mal em cada um puxar a brasa à sua sardinha. Tem é que haver o reconhecimento de que assim é e a devida transparência e vigilância.

  4. Os populistas demagogos, e Detratores das Reformas, sempre se escudam no dúbio e na insinuação malévola.

    ACÁCIO LIMA

  5. Corrupção existe em todos os países. A diferença reside na transparência (transparency), na responsabilidade (accountability) e no controlo existentes. Coisas que existem em países de longa tradição democrática (protestantes e anglo-saxónicos) onde existem sociedades civis activas (cidadania). Num país de clientelas, como é Portugal, onde toda a gente protege toda a gente, a corrupção é endémica e, por isso, mais difícil de combater. Os partidos são o espelho da nação e a nação (na sua generalidade) não se recomenda. Não serão os líderes do PS (ou do PSD) que irão modificar este estado de coisas. Até porque, para se manterem no poder, vão continuar a apoiar as clientelas que os apoiam. Não perceber estas coisas simples é não perceber nada da essência do povo português.

  6. Grande Shark, não vai sobrar nada para se ver.
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    mdsol, os âmbitos da Saúde, da Educação e do Desporto, para seguir os exemplos dados, também carecem de definição, e cada partido trata de as apresentar e desenvolver nos respectivos programas e propostas. Cada partido, e cada liderança respectiva, tem o seu peculiar entendimento do que é e deve ser cada uma dessa áreas. Por maioria de razão, a temática da corrupção carece de estabelecimento conceptual da matéria em causa, precisamente por causa da inerente ambiguidade e toxicidade do tema. Caso contrário, falar de corrupção servirá apenas para efeitos retóricos, demagogos, populistas.

    Dito isto, e tal como apontei acima, também aplaudo todo e qualquer político que tenha o mínimo contributo que seja para reduzir ou impedir a corrupção seja lá em que sector do Estado e da sociedade for. A razão não pode ser mais pessoal: eu perco com a corrupção, posto que ela me priva de recursos, mesmo que indirectamente ou a médio e longo prazo.
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    Mário, é uma comparação interessante, embora seja difícil ser tão patareco como o Passos.
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    Penélope, bem visto. No termo “corrupção” está a entrar tudo, ao ponto de recair sobre aqueles, sejam eles quem forem, que celebrem contratos com o Estado. Isto manifesta as nossas fragilidades e perversidades cívicas.
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    ACÁCIO LIMA, sábias palavras.
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    rui mota, nem mais. Mas, mesmo assim, há diferenças e há transformações.

  7. Caro Rui Mota,
    Começo pelo fim do seu comentário: “essência do povo português”? Importa-se de explicar…
    No século XIX, historiador alemão, competente, inventou uma categoria historiográfica, que faliu, completamente: “volksgeit”, ou espirito do povo, ou espirito da nação.
    Como quer que seja, tal coisa não existe.
    Agora, contrapor o Norte, protestante, ao Sul (você não o diz, mas dá a entender…) à bagunça portuguesa (tem acompanhado a Itália? e a Espanha aqui tão perto? os negócios dos dirigentes do PP, de Madrid e do Financeiro nacional?).
    E então as falências fraudulentas nos bancos na Irlanda? e nos bancos, alguns, da Inglaterra?
    E então a saida do senhor Gerhard Schröder de Chanceler da Alemanha para Presidente da Gazprom, o maior conglomerado russo de Gáz?
    E a saida do ministro dos Verdes do Governo germânico Joseph Martin “Joschka” Fischer, esquerdista, para, desde 2008, o Grupo Albright , um DC, empresa de consultoria, Washington liderada por Madeleine Albright . Em 2009, Fischer assumiu o cargo de conselheiro do gasoduto Nabucco projeto, no qual a empresa alemã RWE também está envolvida. De acordo com relatos dos jornais tem um “salário de seis dígitos”.
    Como se explica isto?
    E os escândalos, ocorridos o ano passado, de despesas pessoais (louças sanitárias, papel higiénico, corte de relva, obras de construção civil em casa própria, compra de moviliário…) feitas por parlamentares ingleses com dinheiros públicos?
    E as luvas astronómicas em negócios de Helicopteros recebidas por um politico belga, Presidente do PPE, Wilfried Martens?
    E os diamantes recebidos por Giscard Destaing das mãos do canibal Bokassa, há muitos anos atrás?
    A história da pulhice humana é longa e não deixa ninguém de fora.
    Não se martirize.
    A corrupção existe em Portugal, é real e tem actores concretos.

  8. Adenda:
    O politico belga em questão não é o que eu referi (democrata-cristão, flamengo), mas sim o socialista, flamengo, e que foi Secretário-Geral da OTAN, em 1994-1995, Willy Claes e que esteve envolvido no chamado escândalo “Agusta”, marca de helicopteros italianos.

  9. José Albergaria,
    Se leu bem o que escrevi, deve ter reparado que eu comecei por dizer que a “corrupção existe em todos os países”. Também deixo implícito, sim senhor, que nos países anglo-saxónicos e protestantes há mais ética, rigor e controlo por parte do estado e dos cidadãos, do que no sul da Europa. Por isso há processos e condenações nesses casos todos que mencionou, ao contrário de Portugal onde os infractores continuam a passear-se por aí. Não me martirizo. Não sou masoquista. É uma evidência. Vivi trinta anos num país do Norte Europeu e posso comparar. É só isso.

  10. Caro Rui Mota,
    Tem você toda a razão na réplica que dedicou ao meu comentário.
    Eu vivi, e trabalhei, quase dez anos na Bélgica e na Holanda.
    A falar, sem preocupação de “termos” razão, mas dando contributos para o tópico em debate, nos entendemos.
    Obrigado pela sua resposta e pelo tom.

  11. Em Poltugal não há colupção. Nunca houve e não vai havel. É pleciso imaginação para o clime da colupção, e a nossa Polícia judiciália não se mete com os novos patlões. Colupção entrou em desuso, só existe na cabeça de quem é lealmente colupto.

    Por acaso já savem quando é a inaugulação da estátua de Soclates? Há pombos chineses que quelem inaugurar com uma bluto contlibuto. Imaginem qual.

  12. concordo muito co primeiro comentario de Rui Mota. Corrupção há em todas partes, melhor dito, onde há um homem poder-se-ia dar a corrupção, embora distingo nas sociedades e no controlo que estas tenham ao respeito,e a filosofía da valoração do acervo do país en questão na valoração que nela se faz dos factos corruptos.
    É precisso ter quem sem possibilidade de lucrarse dum facto tenha o poder de controlo e vigilancia real daquele que si tem essa possibilidade. utopía?
    Estam os partidos interessados en potenciarem ese controlo público?. Acho que vivem muito do clientelismo político. Quatro anos para deijarem favores pagos , não deija tempo para olharem ao longe e as reformas profundas são adiadas.

    Acho haver diferenzas emtre o norte e o sul. A tradição católica é diferente nisto a protestante. O catolico coa confessão amte o padre , fica perdoado do seu pecado e pode volver pecar, e vai ir o ceo se amtes ficou perdoado em confessão. O protestante responde pessoalmente diante de Deus e a sua comunidade. Ainda que hoje seja esta sociedade como for, laica ou não, fica na atitude ética.

    Ainda que jose albergaria cite , ejemplos bem claros e ainda mais haverá, acho que a diferenza existe.

    Concordo no post de valupi en quanto falar de corrupção pela porta estreita da definição concreta e abandonar a ambiguedade retórica. Quem não quer rematar coa corrupção?

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