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Apocalypse Now

Os decadentes, daquela direita decadente incapaz de ganhar eleições porque tem aversão à democracia, gostam de comparar os últimos anos da política nacional – uns começando a contagem a partir de Sócrates e outros de Guterres – com o período de Weimar; suas convulsões e radicalizações, as quais contextualizam a subida de Hitler ao poder. É apenas mais uma forma de abanarem as suas peidas catastrofistas e pedantes, não tem qualquer outro significado a referência. Mas podemos pedir-lhes de empréstimo a retórica e tentar descobrir um paralelo histórico para o que o Parlamento fez ao chumbar a actualização do PEC.

Ora, trata-se de encontrar algo espantosamente irresponsável e que, em simultâneo, exiba a dimensão irracional sem a qual não seríamos humanos. Para o exemplo ser perfeito terá igualmente de se constituir como um pináculo de hipocrisia e cinismo. Já estás a topar o que possa ser, né? Pois claro, a Liga de Cambrai. Lembremos as circunstâncias: o Império Otomano estava em acelerada expansão, tomando conta do Mediterrâneo e ameaçando conquistar a Europa, Constantinopla tinha caído em 1453 e Mehmed II chegou a invadir partes da península italiana em 1480, numa tentativa de anexar Roma. Seria de esperar que os europeus fizessem alguma coisa para se defenderem, até porque estavam também sem linhas comerciais para a Ásia. Este é o quadro político-económico onde surge a Liga de Cambrai, em 1508, uma iniciativa do Papa Júlio II que juntou o rei de França Luís XII, o imperador do Sacro Império Romano Germânico Maximiliano e Fernando II de Aragão sob o pretexto de irem combater o expansionismo turco. Só que em vez disso, e nunca tiveram outro objectivo, acordaram atacar Veneza e dividir entre si os territórios conquistados. Mafoma ameaçava substituir Jesus até ao Atlântico, mesmo assim os príncipes europeus preferiam ir ao pote que estava mais próximo. A ironia não acaba aqui. É que estes quatro aliados nunca conseguiram organizar-se militarmente, posto que cada um tinha a sua agenda política. Fiasco.

PCP, BE, PSD e CDS uniram-se para lançarem Portugal indefeso nas mãos dos jovens turcos que especulam nos mercados financeiros. Este particular tipo de loucura, como se constata, já vem de muito longe.

O circo desceu à cidade

Na situação actual do País, não é admissível que os partidos políticos fomentem um ambiente de crispação que inviabilize, após as eleições, os compromissos imprescindíveis com vista a encontrar uma solução de governo que assegure a estabilidade política, promova a credibilidade de Portugal no plano externo e tenha a capacidade para resolver os graves problemas nacionais.

Diz que é uma espécie de Presidente da República

“Depois de serem conhecidos estes desgraçados resultados da governação socialista, apetece dizer, porque é isso que se passa, que ainda está para nascer em Portugal um primeiro-ministro que tivesse enganado tanto os portugueses”, declarou Miguel Macedo aos jornalistas, no Parlamento.

Figura grada do PSD-FMI

“Este é um tempo em que nós precisamos de olhar o futuro com coesão, de forma unida, afastar divisões, afastar querelas menores, para em conjunto conseguirmos ultrapassar os graves problemas que temos à nossa frente”, disse Cavaco Silva, na Batalha.

Bipolaridade aguda

O que significa este apelo à aprendizagem do PS? “Sócrates é de facto parte do problema e não da solução”, disse ao i fonte da direcção laranja, “nunca um entendimento pós-eleitoral poderá incluir o primeiro-ministro”. Já o ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, é considerado por Passos Coelho um bom interlocutor, sabe o i, para encetar uma nova fase de relações entre os dois principais partidos. Porém, “não cabe ao PSD escolher o líder do Partido Socialista”, sustenta a mesma fonte.

Fontes de ódio à democracia

C.

Fui buscar C. ao aeroporto. Uma e meia da tarde. Junto-me aos profissionais da espera. Somos uns cinco, seguramos nomes em papéis enquanto nos apoiamos nos suportes metálicos. Aqueles falam de não sei quê, esta fala para o hotel, combina qualquer coisa. Lá está a minha turista, de auscultadores e iPod. Leu o seu nome e acenou-me. C. vem de Espanha, onde está num curso rápido de castelhano. A caminho de casa, faço-lhe perguntas banais, faço conversa. Gosta de fado? Fado? O que é? Nunca ouviu?! Não… Não sei o que é…

Fui o escolhido para levar C. ao passeio turístico da praxe. Só está em Lisboa durante o fim-de-semana. Depois volta a Espanha, acaba o curso e regressa ao Brasil. Vou mostrar-lhe a Linha, Cascais e Sintra. É um passeio de poucas horas e acaba quando a luz do dia se for. Ao começar a subir a serra, ocorre-me que a música no rádio do carro pode não ser do agrado de C. Quer que eu mude de música? Não, tudo bem. De que tipo de música é que você gosta mais? Ah, eu gosto de tudo… sei lá… mas gosto mais de MPB e hip hop… é o que oiço mais, sim.

Passamos pelos locais a correr. Olha ali. Olha aqui. Aqui isto. Ali aquilo. E quase não saímos do carro. Frio. Muito. Muito vento. Vamos agora das Azenhas do Mar a caminho do Palácio da Pena. Atravessamos os instáveis micro-climas da região. De repente, C. interrompe a sua mudez contemplativa e pergunta-me se a cantora é portuguesa. Portuguesa?! Não!… Pois, é que não parecia portuguesa. Mas você não conhece esta canção? Não… E a voz, reconhece?… Espera… Bethânia? A canção na origem do incidente melodiplomático era Um jeito estúpido de te amar, só uma das mais famosas no repertório de uma das mais famosas vozes brasileiras de sempre e para sempre.

C. é uma carioca de gema. Tem vinte anos. Está a tirar o curso de Ciências Sociais. Pode especializar-se em antropologia, sociologia ou política. A antropologia deverá sair vencedora. Contou-me que gostava de ir para África. C. imagina-se a viver com uma tribo, a estudar a sua cultura.

Do teatro à farsa

O líder do PSD disse hoje que “a peça de teatro chegou ao fim” e pediu ao Governo para não “fingir mais” e deixar outros fazer o trabalho, caso não o queira fazer.

Antes de rasteirar o Governo

Se o Governo achar que, por qualquer razão, é preciso contrair um empréstimo especial para evitar incumprimento de Portugal no exterior, o Governo tem todas as condições para o poder fazer, e não é o PSD que vai pôr isso em causa. O PSD apoiará isso.

Depois de rasteirar o Governo

Democracia radical

É preferível ter um cidadão a dizer que os políticos são todos corruptos do que ter esse mesmo cidadão calado sem nunca ter verbalizado uma opinião política. É preferível ter uma multidão a ofender Sócrates, manipulados pelas campanhas de assassinato de carácter, do que ter essa mesma multidão alheada dos acontecimentos políticos. Havendo tempo e vontade nos partidos existentes ou a inventar, estes cidadãos poderiam ser educados. Serem educados não consistiria na tentativa de os levar a trocar uma opinião por outra qualquer considerada lógica ou moralmente correcta por algum prócere do regime, antes no processo de os dotar com os meios intelectuais que lhes permitissem fundamentar as suas opiniões autonomamente – dado que não o estão a conseguir fazer sem ajuda, daí as distorções emocionais e fragilidades cognitivas do vox populi ruidoso.

Um partido que tenha como ideal absoluto a democracia, não fará só proselitismo ideológico e programático, também aumentará a possibilidade de ser preterido através do esclarecimento alargado do eleitorado com vista a aumentar a amplitude e profundidade da sua escolha. Nesse acrescento de inteligência e liberdade, estaria a sua razão de ser. A sua realização.

Um partido assim, seria de uma radicalidade como nunca se viu: a cidadania apareceria como meta superior à conquista do Poder.

Idos de Março

Este é o tempo das grandes decisões, a hora em que o sentido de responsabilidade dos Portugueses, de cada português, irá ser posto à prova. Juntos, conseguiremos ultrapassar as adversidades do presente e dar aos nossos filhos um melhor futuro.

Diz que é uma espécie de Presidente da República

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Em qual das eleições passadas é que não passámos por um tempo de grandes decisões, onde o sentido de responsabilidade dos portugueses, e de cada português, não tenha sido posto à prova? Em qual das outras eleições passadas é que não esteve em causa ultrapassar as adversidades do presente e dar aos nossos filhos um destino melhor? Assim de repente, só me lembro de uma: as últimas presidenciais. Para as restantes, estes clichés encaixam mais perfeitamente do que um bloco de calcário na pirâmide de Gizé.

Quando o eleitorado escolheu o PS para Governar, em Setembro de 2009, ainda não havia Grécia, especuladores internacionais, desnorte europeu e FMI no horizonte. Não foi para esse cenário que algum dos partidos elaborou o seu programa, por isso todos se igualam na desadequação dos mandatos eleitorais recebidos então face à sucessão de acontecimentos a partir de Janeiro de 2010. Que era suposto ter acontecido no contexto pré-crise das dívidas soberanas e perante a recusa da oposição em colaborar com o PS? Uma de três alternativas, e só três: ou o PS governava em minoria, ou o Presidente declarava querer um Governo de salvação nacional ou se repetiam as eleições. Como é para lá de óbvio, não faria sentido, naquela situação nacional e internacional, estar a impedir o PS de governar em minoria. Assim, o Presidente legitimou essa solução. Quer isto dizer: tudo o que o Executivo foi fazendo na gestão da crise da dívida, incluindo os variados ajustes às decisões dos seus pares europeus que foram sempre exigindo mais austeridade, teve o aval do Presidente. Caso não o tivesse recebido, teríamos tido eleições logo que o Presidente considerasse estar o interesse nacional a ser desrespeitado. O Presidente continuou a legitimar o Governo até ao dia da votação para as presidenciais, apesar de conhecer plena e directamente qualquer dos meandros da governação e das contas públicas. Nessa mesma noite em que celebrou a vitória, e ao arrepio do que as suas promessas eleitorais assumiram, declarou que estava na altura de afastar o PS da governação.

Cavaco, o mais nefando agente político dos últimos 30 anos, nunca iludiu os portugueses nem lhes escondeu a verdade [sick]. Foi por isso que permitiu a Sócrates chegar a Março de 2011, dado não haver razões que justificassem a sua substituição ou relegitimação em votos. E não fosse esta crise que derrubou o Governo ter-se desenrolado a uma velocidade que ele já não consegue acompanhar, continuaria a deixar os portugueses sem ilusões e face a face com a luminosa verdade: Cavaco pretendia correr com Sócrates mesmo sem ter qualquer razão válida para o fazer.

Organizem-se, cambada de imbecis

Uma das melhores alterações que podiam acontecer na política nacional era a concretização da desejada – por um número de eleitores que talvez seja expressivo, pedem-se estudos – coligação entre o BE e o PCP (estou a recorrer ao critério alfabético para ordenar a sequência, calma, mas também podia ser pelo último resultado eleitoral). Se estes dois partidos conseguissem acordar num projecto comum, quer concorressem coligados ou separados, algo de novo talvez aparecesse no regime pós-25 de Novembro: as pazes da esquerda fanática com a democracia.

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O farsola*

Eu nunca estive no Governo. Portanto, qualquer português hoje percebe que, se a verdade da situação portuguesa é menos agradável do que desejaríamos, não foi por o PSD ter faltado em apoio a este Governo. Eu direi até que o PSD esperou demasiado tempo e deu demasiadas oportunidades ao Governo para que ele cumprisse com uma política económica que estivesse ao nível daquilo que eram as necessidades do país. Mas isso acabou.

Passos Coelho

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Pela boca do seu presidente, ficámos a saber que o PSD foi irresponsável quando esperou demasiado tempo para derrubar um Governo que não servia os interesses do País, tendo-se finalmente decidido a fazer o que entretanto tinha deixado de ter sentido ser feito, por causa dos sucessivos apoios dados ao Governo, logo na pior altura imaginável para os interesses desse mesmo país e da Europa.

Mais desmiolado do que isto, tanto o aparvalhado partido como o seu atarantado presidente, não é possível. É que nem o Luís Filipe Menezes seria tão farsola.

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* Direitos de autor para Miguel Portas

Amicus Gil, sed magis amica sapientia

José Gil tem direito ao sofrimento. Nesta entrevista, volta a mostrar-se fragilizado e perdido. Para descrever as ocorrências da política nacional, oferta uma explicação que o expõe a ele, não à realidade supostamente reflectida: o psicologismo das relações de casal. A matriz da conjugalidade, no seu glorioso simplismo, será o que enforma a dinâmica partidária, diz-nos o estimado professor.

Os afectos são a dimensão mais importante na política, mais importante do que a economia. E como supremo exemplo desta nobelizável ideia, José Gil despeja o seu ódio contra Sócrates. Ele quer o PS sem esse tirano à frente, pois a sociedade está toda asfixiada pela sua presença. Ai Jesus se volta a ganhar eleições, será o fim da pouca liberdade que resta. O professor pode não ter medo de existir, mas a existência aparece-lhe agora envolta no manto da catástrofe.

Por três vezes José Gil quantificou o número de indivíduos na manifestação de 12 de Março, a qual, numa afectuosa estimativa, reuniu entre 300 mil a ignotas centenas de milhares de pessoas. O seu exaltado gosto pela ficção deve ser tido especialmente em conta quando precisarmos de confundir este emocionado professor com um filósofo.

Iniciação ao estudo da Cultura Clássica

Almocei ao lado de três universitários. 20 anos. Falavam de política. Um deles dizia que gostava do Sócrates. Por uma razão qualquer que já esqueci. Outro dizia que não gostava do Passos Coelho, por uma razão qualquer que nem fixei. Os três estavam de acordo em que uma carreira política de topo implica ficar sujeito aos mais baixos ataques, parecendo-lhes absurdo que alguém aceitasse tal funesto destino.

Este diálogo remete, por contraposição, para aquelas ocasiões em que Sócrates declara sentir-se honrado com a possibilidade de servir o País, particularmente em tempos tão gravosos e desafiantes. Os cínicos, fatalmente broncos, não entendem a linguagem da honra, por isso rebolam-se na indiferença ou no escárnio quando ouvem esses testemunhos.

Se o exercício da governação numa democracia é penosamente desgastante e provavelmente ingrato, a gestão das crises exige capacidades que poucos terão. Se perguntássemos a todos os portugueses maiores de 18 anos pelo seu interesse em fazer parte do Governo, a resposta seria baixíssima face ao total da população. E desses que se afoitassem, a maior parte desistiria assim que percebesse no que se estava a meter. Finalmente, raros seriam os que aguentariam a constante pressão e a dificuldade nas decisões.

Muito mal estaríamos se apenas Sócrates tivesse talento para chefiar um Governo em terríveis apuros, mas muito mal estamos ao não admitir que precisamos daquilo que ele já provou ter numa abundância sem rival conhecido até agora.

Menos moralismo, mais judo

A Revista da Ordem dos Médicos de Março inclui dois textos de crítica aos disparates do improvável William H. Clode – cortesia da Shyznogud. Um deles é da Ana Matos Pires, já anteriormente publicado.

Ora, estamos perante um exemplo da indubitável vantagem de se ter permitido um erro. O erro é a publicação na dita revista de um texto de péssima literatura. E a vantagem consiste na resposta que gerou, os dois protestos indignados que foram publicado no local do crime. Esta lógica pode aplicar-se a muitos outros meios, canais e situações em que alguns sentem a tentação de impedir os erros a todo o custo, o que os leva a apelar à censura ou à limitação da liberdade de expressão, quando o que nos faz falta é a correcção do erro e/ou o castigo do seu autor.

Nesta episódio, os homossexuais saíram dignificados em consequência da ridicularização do ataque a que foram sujeitos numa prosa maluca. E não se trata de supor que eles precisavam desta história para alguma coisa, trata-se é de reconhecer que qualquer cidadão precisa do exemplo dado pela intervenção da Ana e do João Ribeiro.