O primeiro-ministro garantiu que “Portugal não negociou com ninguém as medidas”, embora tenha havido de facto contactos com Comissão e BCE, tal como muitos outros Estados-membros o fazem, pois “Portugal não está em condições de apresentar um PEC que não seja bem recebido” por estas duas instituições, cujo apoio é “absolutamente decisivo” para a sua credibilização.
Por outro lado, indicou que “compete ao Governo apresentar o PEC”, mas garantiu que o seu executivo está disponível para discutir medida a medida e que aceita mudanças se “aparecerem melhores”, com o mesmo impacto que permita atingir as metas.
“Estamos disponíveis para discutir medida a medida, não estamos disponíveis é para não cumprir os nossos objetivos”, declarou.
Sócrates reagindo ao anúncio da recusa do PEC pelo PSD, a 12 de Março
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As sucessivas declarações e informações que chegam ao espaço público – onde o SMS enviado aos deputados sociais-democratas, referido pelo Pacheco, é a smoking gun – materializam a hipótese de que Passos Coelho esteve a negociar o PEC na noite de 10 de Março, tendo aceitado viabilizá-lo caso recolhesse apoio europeu, mas alterou a sua posição em menos de 24 horas. Qual o factor que se meteu pelo meio? Do que conhecemos, foram as intervenções da Presidência, divulgando para a comunicação social, logo após a conferência de imprensa de Teixeira dos Santos, que não tinha existido uma apresentação prévia das medidas a Cavaco. A mensagem era clara: o Presidente da República denunciava algo de, supostamente, enorme gravidade na relação com o Executivo. Gravidade essa adensada pelo recente discurso da tomada de posse e seu teor de confronto aberto e violento contra o Governo. Horas mais tarde, Passos repetia a cifra de Cavaco no Parlamento: O PSD não aceita mais medidas de austeridade. Depois, marcou-se uma reunião entre Passos e Cavaco, da qual apenas saiu a confirmação da estratégia de chumbo do PEC. Por fim, ouvimos Cavaco dizer que não pôde fazer nada, a crise teria acontecido com demasiada rapidez e por culpa do Governo. E agora, após o Governo ter caído e o FMI ter entrado, ainda temos assistido incrédulos aos achincalhantes pedidos de Cavaco e Passos para se fazer um acordo intercalar de modo a permitir ao PSD, caso vença as eleições como acredita ser inevitável, negociar o principal da ajuda à sua maneira.
Veremos como vai a inexistente imprensa tratar este caso. Um caso que chega, e sobra, para tornar politicamente inaceitável a continuação de Cavaco em Belém.