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Da falta de anti-histamínicos

Não admira que ninguém da oposição queira falar desta entrevista a Jorge Miranda. Por três razões: nela aparece denunciada (i) a responsabilidade da oposição no boicote às reformas logo no Governo de maioria PS, (ii) a irresponsabilidade do chumbo do PEC que levou à entrada do FMI com o consequente colossal agravamento das medidas, (iii) o escandaloso escândalo, ou trágica tragédia, que Cavaco protagoniza como nunca se viu nem existia uma única pessoa nesta terra que julgasse possível ver, mesmo no pior pesadelo.

À esquerda e à direita, resta um resíduo de vergonha própria que impede o auto-enxovalho de caluniarem Jorge Miranda acusando-o de serviços ou preferências socialistas. Quando não arranja uma forma qualquer de assassinato de carácter, esta mísera oposição cala-se, enfarda e foge. Eis os pungentes efeitos da alergia ao pensamento.

Cineterapia

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Trouble in Paradise_Ernst Lubitsch

Esta é a melhor comédia do mundo. Uma das muitas melhores comédias do mundo, género poliamoroso como nenhum outro. É que as comédias não têm ciúmes, não fazem drama nem armam coboiadas por repartirem amantes. Riem-se à gargalhada do sentimento de posse, como piratas para quem todas as praias tivessem tesouros no areal.

Esta é a melhor comédia do mundo. E não envelheceu um dia, antes está hoje mais jovem do que há 20, 30, 40, 50 ou 60 anos. Contando uma história que reflecte os efeitos económicos e sociais da Grande Depressão, e caricaturando a alta sociedade e seus irresistíveis bandidos, fala-nos do que resiste imutável ao tempo: sexo e dinheiro. Sexo para obter dinheiro, dinheiro para obter sexo. A essência do capitalismo.

Esta é a melhor comédia do mundo. O seu efeito é igual ao do mais luxuoso champanhe, uma embriaguez sofisticada e de sofisticação. Porque não há maior sofisticação do que a da inteligência, nem embriaguez que se compare à sua fruição delicada e em abundância.

Esta é a melhor comédia do mundo. Um filme de gangsters. Uma teoria do amor.

Ditos de Abril

Olha, o Tocqueville é que é bué fixe…

Ouvido, de passagem, a uma universitária sentada numa escadaria às 15.57 de 15 de Abril de 2011

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De Tocqueville, e da democracia e do liberalismo no século XIX, há muito e do melhor para dizer. Mas este acaso, que me chegou aos ouvidos nesta tarde, leva-me para outro, com 173 anos:

Não te consigo transmitir, querido amigo, o desgosto que sinto quando vejo o modo como os homens públicos dos nossos dias negoceiam, de acordo com os pequenos interesses do momento, em coisas tão sérias e sagradas aos meus olhos como princípios… Eles assustam-me por vezes e fazem-me perguntar a mim próprio se apenas existem interesses neste mundo, e se aquilo que tomamos como sentimentos e ideias não passa, de facto, de interesses que agem e falam.

Carta a Beaumont, 22 de Abril de 1838
(trad. nossa)

A última golpada do Cavaquismo

O primeiro-ministro garantiu que “Portugal não negociou com ninguém as medidas”, embora tenha havido de facto contactos com Comissão e BCE, tal como muitos outros Estados-membros o fazem, pois “Portugal não está em condições de apresentar um PEC que não seja bem recebido” por estas duas instituições, cujo apoio é “absolutamente decisivo” para a sua credibilização.

Por outro lado, indicou que “compete ao Governo apresentar o PEC”, mas garantiu que o seu executivo está disponível para discutir medida a medida e que aceita mudanças se “aparecerem melhores”, com o mesmo impacto que permita atingir as metas.

“Estamos disponíveis para discutir medida a medida, não estamos disponíveis é para não cumprir os nossos objetivos”, declarou.

Sócrates reagindo ao anúncio da recusa do PEC pelo PSD, a 12 de Março

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As sucessivas declarações e informações que chegam ao espaço público – onde o SMS enviado aos deputados sociais-democratas, referido pelo Pacheco, é a smoking gun – materializam a hipótese de que Passos Coelho esteve a negociar o PEC na noite de 10 de Março, tendo aceitado viabilizá-lo caso recolhesse apoio europeu, mas alterou a sua posição em menos de 24 horas. Qual o factor que se meteu pelo meio? Do que conhecemos, foram as intervenções da Presidência, divulgando para a comunicação social, logo após a conferência de imprensa de Teixeira dos Santos, que não tinha existido uma apresentação prévia das medidas a Cavaco. A mensagem era clara: o Presidente da República denunciava algo de, supostamente, enorme gravidade na relação com o Executivo. Gravidade essa adensada pelo recente discurso da tomada de posse e seu teor de confronto aberto e violento contra o Governo. Horas mais tarde, Passos repetia a cifra de Cavaco no Parlamento: O PSD não aceita mais medidas de austeridade. Depois, marcou-se uma reunião entre Passos e Cavaco, da qual apenas saiu a confirmação da estratégia de chumbo do PEC. Por fim, ouvimos Cavaco dizer que não pôde fazer nada, a crise teria acontecido com demasiada rapidez e por culpa do Governo. E agora, após o Governo ter caído e o FMI ter entrado, ainda temos assistido incrédulos aos achincalhantes pedidos de Cavaco e Passos para se fazer um acordo intercalar de modo a permitir ao PSD, caso vença as eleições como acredita ser inevitável, negociar o principal da ajuda à sua maneira.

Veremos como vai a inexistente imprensa tratar este caso. Um caso que chega, e sobra, para tornar politicamente inaceitável a continuação de Cavaco em Belém.

25 de Abril sempre

Otelo Saraiva de Carvalho tem direito ao envelhecimento, à depressão e às asneiradas. Mas de tudo o que disse, o mais dissoluto foi isto:

Otelo Saraiva de Carvalho lembrou que o movimento dos capitães iniciou-se precisamente por “razões corporativistas”, nomeadamente quando “os militares de carreira viram-se de repente ultrapassados nas suas promoções por antigos milicianos que, através de um decreto-lei de um governo desesperado por não ter mais capitães para mandar para a guerra colonial, permite a entrada desses antigos milicianos”.

Não se trata propriamente de uma tese inovadora, tem muitos anos de gasto. O seu poder corrosivo, porém, está intacto – e na exacta medida em que é verosímil. É isto o cinismo, usar a lógica como instrumento de redução intelectual, perversão moral e deturpação antropológica.

Esteve bem, pois, Vasco Lourenço:

“Também está mais do que demonstrado que — e o Otelo tinha mais que a obrigação de já ter percebido isso — as motivações maiores, que já vinham de trás, eram motivações políticas, de desejo de uma sociedade livre, democrática e de uma sociedade que não oprimisse outros povos, impondo-lhes uma guerra”, afirmou.

Eis o 25 de Abril. Então, como agora e para sempre.

Parabéns Sócrates!

Sabemos bem que foste tu, com as mentiras que lançaste para encobrir o verdadeiro estado do futebol nacional e assim levar os adversários a cair na armadilha do excesso de confiança, quem nos trouxe para esta situação: o inédito de ter 3 equipas portuguesas nas meias-finais de uma competição europeia. Não admira que finlandeses, alemães e outros invejosos estejam tão ressabiados.

Dos mansos não reza a História

Relvas, na cara de Seguro, disse que o PSD não considera legítima a actual liderança do PS – caracterizando-a como não tendo palavra nem seriedade – e que gostaria de a ver mudada. Traduzindo: não se conseguiu assustar nem enganar Sócrates com as sucessivas pulhices lançadas logo desde 2004, o que causa sérios problemas aos sociais-democratas.

E disse mais. Que, para além do voto dos militantes socialistas passar a ser irrelevante, o PSD pretende igualmente escolher o Secretário-geral, tendo já elaborado a lista dos nomes admissíveis: António Costa, Francisco Assis e José Seguro.

Miguel Relvas é secretário-geral do PSD e vai para a comunicação social, a 14 de Abril de 2011, dizer que os responsáveis governativos – que negoceiam com o FMI a saída do buraco para onde fomos todos empurrados por Passos Coelho e Cavaco – não são pessoas de bem. Inacreditável? Vindo de quem vem, não, nada. Inacreditável é a resposta e atitude de Seguro, que foi literalmente toureado e se deixou ficar.

Haja alguém que faça o favor de explicar ao Seguro que o PS não é um partido de mansos. E que as ofensas feitas aos nossos são feitas a nós. Quem pactua com a cobardia do assassinato de carácter como ataque político, sendo incapaz de um gesto na defesa da honra dos atingidos, talvez tenha falhado a vocação.

Já começa a estar cansado, diz ele

Como aqui se pode ouvir pela boca do próprio, Passos encontrou-se com Sócrates para ouvir as principais medidas do PEC, mas sem documento formal e sem pormenores – isto é, para falarem acerca de objectivos gerais e grandes metas. E ainda acrescentou uma outra informação, naquele que é um deslize que revela involuntariamente o que aconteceu:

[…] no mesmo dia em que o Primeiro-ministro declarava em público, na Assembleia da República, que o País não precisava de mais medidas de austeridade, na votação de uma moção de censura, nesse mesmo dia estava a ultimar uma negociação com medidas de austeridade novas para apresentar ao País passados dois dias […]

Portanto, conta-nos Passos, Sócrates estava a ultimar uma negociação no próprio dia em que se encontraram, o dia da votação da moção de censura. Seja qual for o sentido que se dê ao termo negociação, aquele relativo ao documento que se iria apresentar na cimeira europeia ou aquele que justificaria o encontro com o líder da oposição, fica a certeza absoluta – garantida por uma testemunha presencial de credibilidade a toda a prova – que o PEC não estava fechado a 10 de Março, quinta-feira. Na sexta-feira de manhã tínhamos a conferência de imprensa de Teixeira dos Santos, a declaração de que o PSD ia esperar pelos resultados da cimeira para se pronunciar acerca das medidas e a notícia de que Cavaco não tinha sido informado. À noite, Passos Coelho declarava não aceitar mais medidas de austeridade e acusava o Governo de ter agido unilateralmente.

Isto leva-nos para a duração do encontro, quatro horas. Admitindo que Passos terá chegado depois de jantar, por volta das dez, terá saído às duas da matina. Que grande seca levou, coitadinho, tendo de estar ali calado o tempo todo a ouvir a descrição das linhas gerais do PEC, apenas acenando que sim ou que não e levando ocasionalmente as mãos à cabeça em desespero e dor, mas nem sequer tendo direito aos pormenores. Não admira que ainda não tenha recuperado dessa noitada e ande cansado, como desabafou com os jornalistas.

Um partido de tarados

Quando ficou claro que o PSD estava irredutível na intenção de chumbar o PEC, com isso derrubando o Governo e fazendo explodir as últimas protecções contra a especulação dos mercados, Durão Barroso e Triché já tinham feito declarações de apoio ao plano e alertado da loucura que seria a sua recusa. Continuaram a fazer avisos até às últimas. Quando Passos Coelho derrubou o Governo e se congratulou por ir a eleições, foi pública e violentamente censurado por Merkel. A senhora chegou a dizer que pouco lhe importava pertencerem à mesma família política. Quando Cavaco pediu imaginação à Europa para aturar a irresponsabilidade lusitana que ele próprio tinha promovido com especial protagonismo, recebeu de Olli Rehn aquela que terá de ser a mais vexante desanda diplomática alguma vez dada a um Presidente da República Portuguesa em democracia.

Os factos são melhor saboreados à luz destas palavras:

Manuela Ferreira Leite recusa-se a comentar propostas concretas apresentas pelo Governo no programa de estabilidade e crescimento (PEC IV), e diz que o principal problema do documento não são as medidas, mas a falta de credibilidade do executivo.

No dia em que o PSD lançou o País na bancarrota sem ter apresentado uma alternativa nem defendido os interesses nacionais

Então, como é que chegaram aqui?

Aqui, a esta estrambólica cena em que o maior partido da oposição, antecipado vencedor de qualquer eleição que lhe apareça pela frente e excêntrico inventor de estrambólicos presidentes da Assembleia da República, subitamente se vê isolado, desorientado e em implosão? A resposta tem um singelo nome: Sócrates.

Sócrates é o tipo de líder que o PSD daria tudo para ter. Encaixa na mitologia guerreira do baronato social-democrata como Aquiles na Ilíada. Como não o tem, o desejo transmuta-se fatalmente em ódio. À sempiterna conflitualidade do jogo político, junta-se um fenómeno que extravasa o campo ideológico ou programático e se consome em incontrolada pulsão destrutiva. Para a medíocre elite social-democrata, o confronto com Sócrates é por algo mais do que a ocupação do Poder – trata-se de uma luta desesperada pela auto-estima individual e a dignidade do clã. A simples existência daquele ser que os derrota sem piedade é insuportável, pesadelo agravado por eles não terem ninguém que lhe faça frente. Vai daí, se não o podem vencer, nem a ele se podem juntar, resta só a fuga para o exorcismo. Veja-se este magnífico exemplo, onde o esforço do gozo acaba por caricaturar e expor os opressivos limites racionais do gozador, mas uma peça que poderia ocupar com vantagem o espaço onde foram e são despejadas milhões de palavras, todas reduzíveis a uma infantilóide oração: Sócrates é mentiroso. A monomania, já com quatro ininterruptos anos de bacanal, vai aos poucos liquefazendo o cérebro a estas infelizes vítimas da sua própria impotência.

Pois bem, comecem já a armazenar conservas na despensa para o longo cerco. É que Sócrates, mesmo que saia do palco em 2011 seja lá por que razão, tem pelo menos mais 10 anos garantidos à sua espera na vida política (caso não se mude a Constituição para o evitar): quando quiser, chegará a Presidente da República. Nessa altura, alguns portugueses ainda estarão aqui. Exactamente os mesmos que daqui não conseguem sair.

Os loucos tomaram conta do asilo

Questionado se as críticas que têm sido feitas não poderão vir a ser prejudiciais ao PSD, o empresário refutou qualquer efeito negativo, classificando-as mesmo como “excelentes”.

“As críticas vêm sobretudo de pessoas que ficaram preocupadas, aborrecidas, tristes, pelo facto do doutor Fernando Nobre aparecer nas listas do PSD, o que significa que teve um efeito político imediato em todas as áreas da esquerda”, afirmou o antigo ministro, que é bastante próximo do líder social-democrata, Pedro Passos Coelho.

Desta forma, acrescentou, “as críticas feitas são proporcionais à importância” da presença de Fernando Nobre nas listas do PSD, ou seja, “são positivas”.

Ângelo Correia

Do que falamos quando falamos da decadência do PSD?

Disto, a bancarrota do intelecto:

O líder da bancada social-democrata, Miguel Macedo, considerou, esta segunda-feira, que as reações à escolha de Fernando Nobre para candidato a deputado e a presidente da Assembleia da República pelo PSD mostram que esta foi «acertada».

«Acho que foi uma escolha acertada, porque, se não tivesse sido tão acertada como foi, porventura não teríamos tido as reações que tivemos até agora», declarou Miguel Macedo, em resposta aos jornalistas, no Parlamento.

A comunicação social perguntou-lhe ainda se, no seu entender, Fernando Nobre tem perfil para ser presidente da Assembleia da República, mas Miguel Macedo escusou-se a prestar mais declarações sobre este assunto.

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