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Uma casa portuguesa, com certeza

FátimaO sotôr não tem um currículo parlamentar. Muitos políticos criticaram-no justamente porque o senhor não tem essa passagem pelo Parlamento, não conhece os mecanismos, não conhece os meandros da Assembleia. O que é que o senhor mudaria se for Presidente da Assembleia da República? Vai mexer nos regimentos, por exemplo?

Nobre – […] Eu costumo dizer: eu se fui capaz de aprender e de estudar tratados de medicina, de cirurgia e de urologia, sou capaz de aprender o Regimento da Assembleia da República, e rapidamente. E, por outro lado, o Presidente da Assembleia da República tem um gabinete de aconselhamento, tem assessores de aconselhamento. O que eu faria é aproximar os cidadãos da Assembleia da República. A Assembleia da República é a casa da democracia portuguesa mas tem também de ser a casa da cidadania dos portugueses. […]

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Ou seja, por um lado, Nobre avisa que vai para o Parlamento estudar como é que essa caranguejola funciona, dando como prazo máximo para o processo estar concluído os anos que levou até se especializar em cirurgia e urologia. Por outro, ele nem precisará de perder tempo a marrar aquelas parvoíces porque terá um gabinete com uns tipos que são pagos para saber dessas coisas, podendo Nobre assim cumprir a sua vocação descansado – a qual consiste em ir para a rua e passar o dia a tentar convencer os transeuntes a entrarem na Assembleia da República; desde que façam a devida prova de serem cidadãos, bem entendido, que aquela é uma casa séria.

Vodka laranja – edição internacional

Numa bela tarde de Primavera, as borboletas vermelhas juntaram-se às borboletas laranjas e azuis para chumbar o PEC sem terem apresentado qualquer alternativa e sabendo das consequências catastróficas para a economia nacional de tal decisão. Por causa disso, o Governo deixou de ter condições para seguir a sua política, tendo sido obrigado a demitir-se. Por causa disso, o Estado está obrigado a aceitar as condições que o FMI vier a impor. Por causa disso, os países europeus irão participar na ajuda externa a Portugal. Por causa disso, na Finlândia o partido nacionalista de extrema-direita Perussuomalaiset (Verdadeiros Finlandeses) fez a sua campanha eleitoral tendo como bandeira principal a recusa da contribuição finlandesa para os cofres portugueses. Por causa disso, a extrema-direita finlandesa teve oito vezes mais votos do que em 2007, obtendo 19% dos votos e 39 assentos parlamentares.

Moral da história: o bater de asas dos comunas portugueses é tal forma regido pela teoria do caos que consegue provocar o crescimento triunfal dos reaças na longínqua Finlândia.

O Viegas é um bacano, o pior é o resto

Lourenço Ataíde Cordeiro (cuja existência desconhecia até ontem) diz que não sabe quem sou (embora omita que nunca o tentou saber) mas sabe que escrevo de uma secretaria de Estado qualquer (assim expondo os limites da sua imaginação). Não satisfeito, acrescenta que eu represento o PS (denunciando que nem me lê a mim nem está para se maçar à procura das opiniões do PS).

Ora, vou aproveitar a atenção para repetir o que disse, agora usando outras palavras: que Francisco José Viegas odeie Sócrates, ou o PS, ou o PS de Sócrates, isso não merece qualquer censura nem justificaria reparo, e que pretenda ser deputado, é de aplaudir e louvar; já que o PSD queira independentes com um perfil persecutório, tal como tem deixado fartamente publicado por escrito e enquanto comentador político televisivo, eis o erro da estratégia social-democrata.

(não, Lourenço, não espero que desta vez tenhas entendido, também não pedia tanto)

Cidadania da linhagem de Octávio Machado

Nobre atingiu aquele grau de alienação onde já nos desperta a misericórdia. A figura outrora incensada está agora reduzida a um farrapo, como se vê do princípio ao fim da entrevista. Mas tendo em conta que este populista vem de arrebanhar 600.000 votos, e que o PSD lhe ofereceu o cargo de vice-Presidente da República sem ter sentado o traseiro numa cadeira de deputado, há o imperativo de o denunciar até se ir embora ou se converter à democracia.

Veja-se esta declaração:

A página do Facebook, não sejamos ingénuos, eu sei bem que foi montado um ataque concertado, sectário, partidário, e foi a razão pela qual foi fechada […]

Estava uma jornalista à frente dele quando revelou ter sido alvo de um ataque partidário que o obrigou a abdicar de um dos seus canais de comunicação, logo aquele onde tinha anunciado a entrada nas listas do PSD. Também não consta que tenha saído do estúdio da RTP de helicóptero para se voltar a refugiar numa estrada do Sri Lanka após a entrevista. Pois ninguém da comunicação social – ninguém, senhores ouvintes! – quis saber qual o partido, ou partidos, responsável pelo dito ataque concertado e sectário.

Em relação à imprensa portuguesa, não surpreende o vazio deontológico, dado que ela não existe. Mas em relação a Fernando Nobre, avançámos bastante no conhecimento do que entende pelo termo cidadania, o seu conceito fetiche. É algo pleno de originalidade e já consagrado nos meios desportivos, pois radica no contributo de Octávio Machado para a gestão de conflitos no espaço público, a famigerada expressão Vocês sabem do que estou a falar. Funciona assim: os que sabem, sabem; os que não sabem, têm vergonha de perguntar. Daqui resulta uma pacificação imediata das contendas, visto que ninguém fica chateado nem se perde tempo a investigar do que se tratava afinal.

Se os deuses estiverem loucos, ainda veremos Nobre ser confrontado pelos deputados acerca do Regimento, e demais protocolos e minudências da Assembleia da República que ignora por completo, e a despachá-los com uma versão adaptada da fórmula octaviana: Se vocês sabem do que estou a falar, ajudem-me, por favor.

De facto, um homem invulgar

Passos é aquele líder da oposição que pensou ser necessário pedir a ajuda externa logo em Outubro mas que, não se sabe porquê ou a mando de quem, resolveu prolongar a agonia das contas públicas viabilizando o Orçamento só para, afinal, derrubar o Governo assim que este consegue um acordo na Europa que acabava com o espectro da ajuda externa e seus colossais prejuízos.

Seja qual for o ângulo de análise, estamos realmente perante um homem invulgar.

Da arte de bem castigar

O PS é neste momento o único partido que leva às costas a responsabilidade de garantir a qualidade da democracia e a viabilidade do regime – por razões antigas, umas, e recentes, outras. Umas, aquelas que resultam do papel histórico do PS na defesa e consolidação de uma sociedade livre e autónoma, ainda antes do 25 de Abril e até hoje. À sua volta, vemos os extremismos anti-regime do PCP e BE, o oportunismo do CDS e a decadência do PSD. Outras, aquelas que nascem da excepcionalidade de Sócrates, cuja liderança dotou o partido com a melhor inteligência estratégica disponível entre os quadros socialistas. À sua volta, vemos líderes sem projecto e sem carisma, incapazes sequer de compreender o eleitorado.

O congresso do PS, em Matosinhos, foi uma exibição disto mesmo: profissionalismo, inteligência e carisma. Resultado: partido unido a menos de dois meses das eleições. Venham elas, cumpra-se a democracia na festa do voto, foi a mensagem transmitida para o exterior e gravada em todos os que participaram. Imaginemos, como exercício pedagógico, que o congresso tinha mostrado um elenco significativo ou avassalador de vozes discordantes da actual estratégia, que Sócrates se tinha apresentado com discursos confusos ou cobardes, e que até a organização tinha falhado no básico, dos meios audiovisuais às bandeirinhas. Que diriam os que recorreram à noja desmiolada das comparações com Hitler, IURD e Coreia do Norte? Louvariam a abertura democrática e derramariam ternura por cima da modéstia amadora do evento? Ou entrariam desvairada e freneticamente em modo de carnificina, declarando a morte política de Sócrates e a iminente derrocada eleitoral para números abaixo dos dois dígitos?

Há mais de 3 anos que, diariamente, há quem anuncie que Sócrates está acabado, que o PS se vai render às chantagens. Para estes infelizes, a liberdade e força dos militantes socialistas torna-se assim num doloroso, humilhante, castigo.

Será verdade?

Pelo José Albergaria, Passos Coelho: prova não superada, fiquei a saber de algo que me escapou na imprensa e cuja fonte continuo a desconhecer: na reunião com o Governo para preparar a negociação com o FMI, a 13 de Abril, Passos sentou-se, entregou as 27 perguntas farsolas e terá ameaçado sair logo a seguir, tendo Catroga de o chamar à razão para que tal não acontecesse. A reunião demorou 20 minutos.

Se isto é verdade, este gajo ainda está pior do que eu pensava.

Vodka laranja

PCP e BE aliaram-se ao PSD para chamarem o FMI, agora vão barricar-se e disparar contra a invasão imperialista até às eleições e nos anos seguintes.

Conclusão: também os nossos revolucionários estavam a desesperar pela ajuda externa dos capitalistas.

Freitas do Amaral ataca o Aspirina B*

“O doente tinha uma pneumonia e precisava de antibióticos e a análise que o Governo fez foi que o doente tinha uma gripe e só precisava de aspirinas. Foi dando umas aspirinas de três em três meses, mas não serviu para nada”, disse ainda Freitas do Amaral à RTP, acrescentando que, “a partir de certo momento, José Sócrates começou a viver num mundo irreal”.

Fonte

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Freitas do Amaral é um dos meus heróis do regime democrático. E o que mais admiro nele é a sua independência, a qual tantos incómodos, calúnias e desgostos lhe deu desde que saiu do CDS. Neste momento, últimos 2 anos, meteu na cabeça que Sócrates devia ser afastado do Poder e tem trabalhado para isso. O modo como o faz, porém, é sectário e fulanizado, roçando o difamante para Sócrates e para o PS, o que anula a pertinência – até a mera razoabilidade – de algumas das suas intervenções.

Isso leva-nos para o apoio, dito incondicional, que Freitas deu a Cavaco nestas eleições presidenciais. O qual aconteceu depois de nada termos ouvido da sua boca acerca da Inventona de Belém, o que é absolutamente espantoso tendo em conta que não se inibiu de tomar posição no caso Face Oculta, aí para insinuar favorecimento do Procurador-Geral da República a Sócrates. Saltemos para o discurso de vitória de Cavaco e comentário de Freitas a respeito, onde o desvalorizou por completo, dizendo que não se devia dar importância às palavras ditas naquela circunstância, até porque o que contaria mesmo seria o discurso da tomada de posse. Explicou que, por tradição, é nessa ocasião que os grandes estadistas assumem o papel unificador que se espera de um Presidente da República. Pois saiu um comício que valia por uma moção de censura, partindo em dois o Parlamento e o País, e Freitas voltou a ficar calado. Nesta entrevista, referindo-se ao episódio, deixa um comentário que é pura e simplesmente absurdo, se não for vexante, mais valendo que tivesse continuado calado.

Sou um dos portugueses que não podia ter maior curiosidade para conhecer as aspirinas com que Freitas do Amaral trataria do estado infecto e putrefacto em que se encontra o Cavaquismo.

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* Adivinhaste, é uma ironia.

Impressionar no emprego, seduzir em festas, brilhar nos jantares

Expensive wine and cheap plonk taste the same to most people
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Scientists Ignore Cultural Barriers to Find the Cause of a Rare Disease
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Moms killing kids not nearly as rare as we think
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Stress Wrecks Intestinal Bacteria, Could Keep Immune System on Idle
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Focus on Ideal Body Shape Can Boost Women’s Body Satisfaction – For A While
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Compassion, Not Sanctions, Is Best Response to Workplace Anger
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Bruised and Betrayed: Women and Domestic Violence
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Parents’ ‘Um’s’ and ‘Uh’s’ Help Toddlers Learn New Words
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Satisfied People Are More Likely to Vote

Sinistro

O PSD só terá programa lá para meados de Maio, revelou ontem quem já olhou para o fundo da alma de Passos Coelho. É o mesmo que dizer que o programa talvez nem chegue a ser apresentado antes das eleições, pois nestas coisas das obras em casa há sempre atrasos de semanas ou meses, ainda mais quando as fundações estão corroídas pelo caruncho. Resultado: dirigentes e arraia-miúda repetem um só e o mesmo estribilho – Sócrates/Governo/PS foi quem nos trouxe até aqui.

Temos de começar por reconhecer que o argumento é logicamente imbatível, como qualquer outra enunciação do óbvio. Mas depois somos convidados a descobrir que os desesperados que se agarram a ele, como se fosse o último pedaço de madeira flutuante após o naufrágio, sentem-se muito satisfeitos com a segurança que oferece. Na sua redundância, acreditam que a suposta revelação chega para que o povo fique devidamente instruído a respeito do solitário nexo de causalidade entre os males da situação e os governantes do momento. Crises internacionais sistémicas, países com problemas similares, chumbos de PEC e derrubes de Governo, tudo aconteceu única e exclusivamente por obra e desgraça de Sócrates/Governo/PS – dizem-nos para o nosso bem.

Pois bem. É como se um automóvel pobretanas cheio de mazelas estivesse numa longa viagem, sabendo que só conseguiria chegar ao destino se fizesse regulares paragens em certas garagens para reparações e abastecimento. Quando estava mesmo a chegar a uma delas, faltando-lhe apenas 100 metros para lá entrar, é abalroado por um camião conduzido por um bêbado. O carro deixa de ter conserto possível, vai para os salvados. Nisto chega o PSD, autoridade em acidentes de percurso, e trata logo de mandar embora o camionista com uma pancadinha nas costas e um piscar de olhos maroto. Virando-se para os passageiros da viatura abalroada, pergunta:

Então, vamos lá a saber como isto aconteceu. Quem veio a conduzir até aqui?

Como se pode errar tanto?

A abertura do PSD à sociedade civil e seus fantasiados independentes resultou num tiro na cabeça, Nobre, e em duas galinhas que ameaçam fugir desasadas com os votos no bico, Carlos Abreu Amorim e Francisco José Viegas. De Nobre, já tudo foi dito e tudo o mais haverá para dizer até às eleições e dias seguintes. Destas duas aves de arribação, está tudo por contar.

Embora partam de motivações diferentes, o Carlos de uma arrogância pacóvia e tribunícia e o Francisco de uma procura de vendetta embrulhada em snobismo dandy, acabam por se imitar na cegueira sectária. Esta estratégia retórica, em tempos normais, alimenta as legiões de agentes políticos medíocres que são lançados nas assembleias e comunicação social para ocupar espaço e boicotar a racionalidade nas discussões. Todavia, estes são tempos dupla ou triplamente anormais, pois à crise do País junta-se a crise do PSD e a crise de Passos Coelho.

Sectarismo, como se viu espectacularmente nas eleições de 2009, era precisamente aquilo que o PSD devia evitar a qualquer custo. Desde que Passos ocupou o palacete da Lapa que os sinais dados pelo eleitorado indicavam-lhe a óbvia direcção: fica caladinho, com juizinho e apresenta serviço. As sondagens premiaram invariavelmente as decisões sociais-democratas que viabilizaram e favoreceram a governabilidade, penalizando tudo o resto, desde as ideias manhosas e foleiras às loucuras de chumbar o PEC e derrubar o Governo, passando pelas trapalhadas dos recuos esbaforidos após lançarem ideológicos balões de ensaio.

Abreu Amorim e José Viegas não conhecem, nem pretendem perder uma caloria a tentar conhecer, o eleitorado que decide eleições – o vasto e profundo centro. Esse eleitorado está farto de cassetes, sejam de esquerda ou direita. As suas escolhas são pragmáticas e comunitárias, o que explica o extraordinário feito da resistência de Sócrates e do PS no meio do caos internacional com tão graves consequências nacionais. E o PSD não tem ninguém capaz de estabelecer diálogo com estes cidadãos, os quais mereciam muito melhor do que mais dois egos politicamente bacocos, iracundos e soberbos.

Como se pode errar tanto?

Tolerância zero para os zerinhos

A página não tinha de estar aberta a todos os insultos. Houve vários lóbis que se concentraram em ataques pessoais ao meu carácter.

Nobre

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Depois de ter reduzido a um monte de escombros o pardieiro do PSD, Nobre avança para o genocídio dos seus próprios apoiantes, diabolizados como lóbis infames. A História está cheia destes megalómanos, cuja vida de pública misericórdia era o meio de alimentar o tremendo ogre de vaidade que só foi engordando com o passar dos anos. Quando desmascarados, são capazes de destruir tudo à volta deles para salvarem o seu narcisismo.

Este episódio tem um aspecto da maior utilidade: mostra-nos o perigo dos populistas e torna evidente como é tão necessário que os democratas mostrem tolerância zero para as suas pulsões.

Marcelino pan y vino

Por estes dias, José Sócrates é o homem de Estado que calou a reunião secreta que Pedro Passos Coelho divulgou face à insistência de Judite Sousa. O primeiro-ministro respeitou a palavra dada e o compromisso que estabeleceu nas horas de cimeira com o presidente do PSD em São Bento em busca do acordo de que o País precisava e no qual Cavaco Silva deveria ter empenhado a sua prometida magistratura activa. Significa isto que, afinal, o Governo procurou o entendimento, e o sms que Pacheco Pereira revelou (na Quadratura do Círculo) ter sido enviado a todos os deputados é também uma peça importante desse período.

O problema está em que tudo isso é passado e Portugal precisa de presente e sobretudo de ter futuro. E precisava de partidos que não fossem autistas e de políticos que soubessem colocar o País acima das eleições e dar resposta às preocupações da maioria dos cidadãos. Pelos vistos, isso é demais para eles.

João Marcelino

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Não, Marcelino. Nada disto é passado. Tudo isto é o que molda o presente e o que vai estar em causa no futuro próximo, já a 5 de Junho. Por isso deves pôr a mão na consciência e deixar-te destas merdas. Estas merdas de venderes uma salgalhada onde todos os agentes políticos se equivaleriam eticamente. E não é assim, pois não? Tu próprio o descreves, já só falta assumi-lo.

Se o Governo, afinal, procurou o entendimento, como afirmas recorrendo à módica objectividade, as conclusões de tal inferência são decisivas para a escolha eleitoral. Não só o PSD provocou por demência uma crise política que arruinou irreversivelmente o País, como também CDS, BE e PCP foram cúmplices dessa jogada suicida.

Não é preciso esperar por um milagre para saber o que uma imprensa civicamente responsável deve fazer perante os factos.