Cidadania da linhagem de Octávio Machado

Nobre atingiu aquele grau de alienação onde já nos desperta a misericórdia. A figura outrora incensada está agora reduzida a um farrapo, como se vê do princípio ao fim da entrevista. Mas tendo em conta que este populista vem de arrebanhar 600.000 votos, e que o PSD lhe ofereceu o cargo de vice-Presidente da República sem ter sentado o traseiro numa cadeira de deputado, há o imperativo de o denunciar até se ir embora ou se converter à democracia.

Veja-se esta declaração:

A página do Facebook, não sejamos ingénuos, eu sei bem que foi montado um ataque concertado, sectário, partidário, e foi a razão pela qual foi fechada […]

Estava uma jornalista à frente dele quando revelou ter sido alvo de um ataque partidário que o obrigou a abdicar de um dos seus canais de comunicação, logo aquele onde tinha anunciado a entrada nas listas do PSD. Também não consta que tenha saído do estúdio da RTP de helicóptero para se voltar a refugiar numa estrada do Sri Lanka após a entrevista. Pois ninguém da comunicação social – ninguém, senhores ouvintes! – quis saber qual o partido, ou partidos, responsável pelo dito ataque concertado e sectário.

Em relação à imprensa portuguesa, não surpreende o vazio deontológico, dado que ela não existe. Mas em relação a Fernando Nobre, avançámos bastante no conhecimento do que entende pelo termo cidadania, o seu conceito fetiche. É algo pleno de originalidade e já consagrado nos meios desportivos, pois radica no contributo de Octávio Machado para a gestão de conflitos no espaço público, a famigerada expressão Vocês sabem do que estou a falar. Funciona assim: os que sabem, sabem; os que não sabem, têm vergonha de perguntar. Daqui resulta uma pacificação imediata das contendas, visto que ninguém fica chateado nem se perde tempo a investigar do que se tratava afinal.

Se os deuses estiverem loucos, ainda veremos Nobre ser confrontado pelos deputados acerca do Regimento, e demais protocolos e minudências da Assembleia da República que ignora por completo, e a despachá-los com uma versão adaptada da fórmula octaviana: Se vocês sabem do que estou a falar, ajudem-me, por favor.

8 thoughts on “Cidadania da linhagem de Octávio Machado”

  1. No inicio da entrevista Fernando Nobre diz que ficou tão espantado com a proposta de Passos Coelho para no minuto seguinte afirmar que não estava à espera de tal resposta. Para haver uma resposta tem de haver uma pergunta! Aqui, Fátima Campos, não usou a argúcia que os entrevistadores têm de ter nestas situações, a não ser, como levam as perguntas determinadas, esta não coubesse no tempo predeterminado.
    Depois diz que Passos Coelho teve um arrojo para com ele – no meu entender – só há arrojo para os fracos e deficitários, para os audazes e competentes existe a confiança e total apoio. Ou quando lemos notícias a dizer fulano foi salvo pelo arrojo de um desconhecido que o salvou de morrer afogado, se houve arrojo, é porque a vítima não possuía dotes para se desenrascar!
    Diz Nobre – os portugueses sabem que só falo verdade. A verdade para uns pode não ser para outros. Já vi mentirosos compulsivos a jurar por tudo e por nada que é verdade.
    Depois nos órgãos de comunicação social devia de ser obrigatório a declaração de interesses. Não compreendo porque nestas entrevistas tem de ser Fátima Campos ou Judite de Sousa -quando estava na RTP – e não outras entrevistadoras. Todos sabemos o que os liga. Judite de Sousa é esposa de um destacado membro do PSD e Fátima Campos irmã de um deputado desse mesmo partido.
    Quando são figuras do PS não põem entrevistadores da mesma área. Ontem no JN Mário Comtumélias dizia que com a renovação na RTP já cheira a liberdade. Não faz um apanhado por todos os órgãos de comunicação social para sentir o tal cheiro a liberdade. Veja-se o que se passa na SIC e na TVI. Ontem tive a curiosidade de ver os cronistas no CM e é de espantar o naipe de comentadores. Aqui Mário Contumélias não diz nada. Vou expor a lista deles, haverá uns três ou quatro conotados com o PS:
    Octávio Ribeiro, Eduardo Dâmaso, Armando E. Pereira, Manuel Catarino, Miguel A. Ganhão, António Ribeiro Ferreira, João Vaz, F. Moita Flores, Fernanda Palma, José Medeiros Ferreira, Leonor Pinhão, Rui Rangel, F. Falcão-Machado , Loureiro dos Santos, Paula Teixeira da Cruz, Francisco José Viegas, José Mateus, António Sousa Homem, Joana Amaral Dias, Pac., D. Carlos Azevedo, Domingos Amaral, Magalhães e Silva, António Nogueira Leite, Constança Cunha e Sá, João Pereira Coutinho, Francisco Penim, João Miguel Tavares, José Manageiro, Carlos Anjos, António Martins, Paulo Rodrigues, João Palma, Paulo Querido, José Eduardo Moniz, Tiago Rebelo, Carlos Garcia, Ângelo Correia, Humerto Coelho, André Pipa, Silva Ribeiro, João Querido Manha, Eduardo Cabrita, Paulo Pinto Mascarenhas, Alexandre Pais, Marques Mendes, Pedro S. Guerreiro, César Nogueira, Manuela Moura Guedes e Orlando Afonso.
    É por estas e outras que não compro jornais, não vejo notícias nas TVs a não ser na TPA e canais espanhóis. É de tal forma enjoativo que parecem as carpideiras, estas eram pagas para carpir, estes são pagos para falar pela voz do dono. Prevejo que não vamos morrer da doença mas, sim da cura.

  2. Para melhor tentar entender a perplexidade que está a causar, mesmo em quem votou nele convictamente (como eu), sugiro ao Cidadão Fernando Nobre que se ponha no lugar de um vulgar colaborador da A. M. I. a quem dissessem que o seu Presidente ia saír para Deputado e quem vinha agora substituí-lo era, por exemplo, o José Eduardo dos Santos (coisa que a mim me faria, imediatamente, deixar de ser amigo da A. M. I.!). Com este singelo exemplo espero, sinceramente, que fique tudo mais claro na cabeça do Dr. Fernando Nobre.

  3. Durante a campanha para as Presidenciais também anunciou que estava a ser alvo de ameaças, o que o levou a afirmar, meio tresloucado, que só um tiro na cabeça o impediria de chegar a Belém. Já nessa altura ninguém quis aprofundar a coisa, nem houve, que eu saiba, sequer uma queixa às autoridades. Mania da perseguição…

  4. ora, guida, pergunto eu: uma pessoa que padece desse mal tem condições para ocupar um cargo tão importante na hierarquia do Estado, como o de presidente da AR?
    Estou mesmo a vê-lo em toda a sua parcialidade e paranóia lá pelo parlamento. Prevejo cenas como aquelas de alguns parlamentos do 3º mundo, com tudo à estalada…ou aos tiros imaginários.

  5. edie, na cabeça do Passos, sim, tem condições.
    Tens razão, se algum dia se sentar naquela cadeira (o que espero nunca venha a acontecer), o Parlamento nunca mais será o mesmo. :)

  6. …sim, algumas inversões de papeis. Por exemplo, alguns deputados terão de chamar a atenção do sr. presidente para se moderar por respeito à assembleia.

  7. Bem há tiros e tiros… Na poesia há os tiros do Almada contra o Dantas: «morra o Dantas, morra, pim!». Há o sentido figurado.

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