Questionado sobre o que levou o Governo a decidir eliminar igual número de feriados civis e religiosos, e tendo em conta que estes últimos são e continuarão a ser em maior número, o ministro da Economia respondeu: «O Governo aceitou a condição que a própria Igreja [Católica] nos disse».
«Para a Igreja [Católica] era muito importante haver simetria, e nós concordámos que fazia sentido haver simetria [na eliminação] de feriados civis e religiosos», acrescentou Álvaro Santos Pereira.
Os dois feriados religiosos a eliminar «serão definidos pela Comissão Paritária da Igreja, que depois transmitirá exactamente essa decisão, no âmbito da Concordata», adiantou o ministro da Economia.
Quanto à escolha do 5 de Outubro e do 1.º de Dezembro, o ministro argumentou: «Se analisarmos o calendário dos feriados civis, se não quisermos alterar o 25 de Abril e o 1.º de Maio, que nunca foi nossa intenção, só poderíamos alterar o 10 de Junho – e o 10 de Junho é um dia de Portugal, das comunidades portuguesas e é um dia que tem de ser reforçado no nosso entender».
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Esta ideia de ser muito importante para a Igreja Católica haver simetria numa matéria quantitativa e qualitativamente assimétrica, onde o Estado concede o favor de celebrar oficialmente datas que só fazem sentido para os católicos (e destes, só para os praticantes), não foi explicada, muito menos debatida, em lado algum. Aposto que nem sequer o Álvaro discutiu o assunto fosse com quem fosse, tendo despachado a coisa com o mesmo desprezo utilizado nas calinadas desmioladas acerca do “reforço” do 10 de Junho. A imagem de um Estado onde a secularidade se exibe assim subsidiária da religião ficará como mais um doce do ministro pasteleiro.
Mas não é o Álvaro que nos interessa, nem o Governo fraudulento a que pertence. Porque chegará o dia da sua avaliação pelo Soberano. O que nos interessa é a oposição. A comatosa apatia que os dirigentes comunistas, bloquistas e socialistas exibem nesta matéria da identidade nacional tem uma causa comum: são todos cúmplices do boicote ao esforço para livrar Portugal da ruína que um empréstimo de emergência acarretaria. Andaram a brincar aos políticos que derrubam políticos à custa da racionalidade que protegia os cidadãos.
Maneiras que deu nisto, este marasmo onde os antigos compinchas das coligações negativas voltam a ficar irmanados no propósito de espezinharem as memórias do sonho republicano e da coragem patriota.

