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Os ultras do laranjal

Os novos tempos que se aproximam, carregados por uma extrema austeridade, tiveram aqui um sério aviso que o Governo não deve ignorar.

E esse é um sinal a fixar: a última experiência, a socrática, não acabou bem. O fechar de olhos à crise que se instalava e nos destruía conduziu-nos à tragédia financeira e económica que agora se aproxima da crise social. E é aqui que tudo se torna mais complicado.

Editorial do DN

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Os editoriais do DN são invariáveis peças apologéticas do Governo, preocupados em servir conselhos e avisos variados aos esforçados Ministros e Secretários de Estado, sempre numa atitude colaboracionista para com o rumo escolhido. Chegam a dizer, e com todas as letras, que não há outro.

Pelo meio, como se pode ver no exemplo acima, oferecem abundantes juízos acerca de Sócrates. Neste fragmento, podemos desfrutar da posição oficial de um órgão de informação a respeito de um ciclo político passado. É-nos dito que os governantes anteriores não quiseram ver a crise e, por causa dessa sua escolha, são os responsáveis pela situação actual. O sentido do parágrafo, que o texto no seu todo não desmente, é o de culpar Sócrates pela presente austeridade e suas previsíveis convulsões sociais a caminho.

O que tem mais interesse neste banal episódio de violação do contrato de isenção com os leitores, posto que o DN não assume a sua linha política, está na fórmula usada, a qual é caluniosa. Quem escreveu o texto, provavelmente o Marcelino, não explicita os fundamentos, pressupostos, dados ou meros factos das conclusões que serve já mastigadas. Para começar, ou para terminar logo com a conversa, de que crise está a falar? Da crise de 2007, de 2008, de 2009, de 2010 ou de 2011? É que em cada um destes anos é possível desenhar um retrato da crise bem distinto dos restantes. Depois, qual a legitimidade para se dizer que o Governo “fechou os olhos”? A resposta a esta pergunta decorre da pergunta anterior, sem a qual não se pode saber qual a matéria em análise, quanto mais aferir a honestidade intelectual da acusação. Finalmente, que tipo de jornalismo é este, supostamente de referência, que apaga por completo das suas ilações as decisões tomadas desde Março de 2011 pelo Presidente da República, pela oposição pré-5 de Junho e pelo actual Governo, e isto já aceitando deixar de fora as eleições de 2009 e subsequente recusa da oposição para qualquer modelo de coligação que permitisse a tão desejada estabilidade política? Seria para rir, tamanho sectarismo, se não fosse para chorar, sectarismo tamanho.

O fanatismo dos que continuam agarrados a Sócrates como desculpa para o mal que fazem, e para o bem que deixam por fazer, não é um acaso. É uma furibunda necessidade, porque aquelas cabeças não dão para mais.

Venham mais 100 mil

O PCP organizou hoje uma manifestação em Lisboa, através da sua marca branca CGTP, que terá reunido 300 mil valentes, número da organização. Isso quer dizer que as manifestações em Portugal passam a seguir um modelo oficial em que apenas se contabilizam unidades correspondentes a 100 mil indivíduos. Foi esse o número publicitado para a manifestação contra a ministra-sinistra, duplicado na manifestação da Primavera rasca e agora triplicado na entronização do Arménio. A próxima manifestação, se quiser cantar de galo, terá de chegar aos 400 mil mamíferos – isto é, terá de o reclamar sem se rir. A luta do povo que se manifesta está reduzida ao consumismo de massas. As causas minoritárias, daquele tipo que apenas conseguiria juntar 99 mil cidadãos, ou mesmo 99 999 mil, são cada vez menos relevantes, num relação inversa com o crescimento demográfico dos últimos sucessos protestavivo-pedonais.

Atentemos no camarada Jerónimo a explicar o materialismo dialéctico destes espectáculos montados com gigantesca e minuciosa logística:

Questionado sobre se acha que o Governo vai prestar atenção a esta manifestação, Jerónimo respondeu: “Também os outros aparentemente não deram ouvidos e acabaram por ser derrotados, se estes não dão ouvidos a esta grande acção, naturalmente, mais tarde ou mais cedo, a vitória será deste povo que ocupa este Terreiro do Paço e não daqueles que querem fazer o país andar para trás”.

Jerónimo defendeu como alternativa à austeridade “um país de progresso, de crescimento económico, sem desemprego, que responda às novas gerações”.

Ou seja, os outros, os fascistas do PS, não se vergaram ao poder da rua, pelo que acabaram a morder o pó da estrada. O povo derrotou-os e meteu uns 100 mil vezes piores no seu lugar. Com o povo não se brinca, fica assim claro até para quem insiste em não querer ver nem ouvir. Isto quer dizer que, caso estes imitem aqueles, o povo voltará a derrotá-los com a facilidade com que passa uma tarde de sábado ao Sol. E, obviamente, colocará no poder uns aqueloutros 100 mil vezes piores do que os actuais.

Entretanto, o PCP tem um projecto político cheio de soluções para fazer de Portugal um país de progresso, de crescimento económico, sem desemprego e com respostas (ainda antes de conhecer as perguntas) para as novas gerações. Logo que arranjem um tempinho livre entre manifestações, farão chegar aos eleitores esses segredos tão bem guardados até hoje.

Bifes do Lomba

Pedro Lomba despachou um exercício sofístico que me fez recordar as dezenas de horas que passei de porta aberta a tentar salvar sucessivas vagas de Testemunhas de Jeová. Durante uns dois ou três anos, calhando estar em casa nos sábados à tarde, acudia pressuroso à campainha e esperava concentradíssimo que a dupla proselitista subisse. Depois, dava o meu melhor no único processo de evangelização que me interessava na circunstância: levar uma Testemunha de Jeová, uma qualquer, a reconhecer que a hermenêutica não é obra do Diabo; e isto apesar da caudalosa evidência que aponta nesse mefistofélico sentido, reconheço. Revelou-se tarefa inglória, sem surpresa nem pesar, cuja única regular consequência foi a substituição das equipas por outras ainda mais fanáticas. Até que me ostracizaram, anulando a reserva que já tinham feito em meu nome no paraíso terrestre que andam a vender em modo de space-sharing.

Lomba imitou a técnica clássica das Testemunhas de Jeová, a qual é um dos recursos principais de todos os fundamentalismos: a literalidade. Vai daí, pegou na palavra “piegas” e pensou: que outros termos podem ter a mesma interpretação literal, mesmo que, para quem não se deixa tomar por parvo, não tenham nem possam ter os mesmos significados? Apareceu-lhe “lamúria”. Este substantivo era ideal para o tipo de fundamentalismo político do Lomba, porque lhe permitia falar de Sampaio e de Sócrates. Com “piegas” apenas poderia falar de Passos, o que até seria uma originalidade a ser aplaudida tendo em conta que mais nenhum governante na História de Portugal terá usado o ternurento vocábulo no desempenho de actividades oficiais, mas com “lamúria” já dava para um saltinho a Paris e entrar na casa do seu ódio de estimação. Que fixe. Escrever a crónica, depois da epifania lexical, seria como limpar o rabinho aos bebés aflitos de tanto chorar pelo incómodo causado pela presença do cocó que Passos tinha largado nas suas sectárias fraldas. E foi enorme o alívio.

Ir buscar citações de Sampaio e de Sócrates para as apresentar como política, moral e semanticamente equivalentes às de um primeiro-ministro de um país onde a pobreza e a miséria aumentaram para níveis calamitosos por exclusiva opção desse mesmo primeiro-ministro, e estas adentro de um discurso difamante e reaccionário, só é cognitivamente possível quando se anulam intencionalmente os contextos. Esse estado de cegueira auto-infligida deu-me alguns momentos divertidos com as Testemunhas de Jeová, em particular quando me queriam convencer dos terríveis malefícios para a saúde das transfusões de sangue e dos sinais indesmentíveis de estarmos a poucos minutos do fim do mundo. A diversão não resultava da extraordinária perversão a que se chega nas leituras literais, porque há infindas tragédias individuais e colectivas que daí nascem. A diversão consistia no agradecimento calado que fazia àqueles seres por me estarem a permitir contemplar quão fácil é anularmos o princípio de realidade.

Lomba, uma das jovens estrelinhas intelectuais da direita decadente e persecutória, assina o texto com o selo da sua qualificação profissional: jurista. Isso que dizer que ele, muito melhor do que a enorme maioria da população que o cerca, sabe de ciência certa que o Direito é, numa sua dimensão essencial, a arte da interpretação. Ao despejar para o espaço público a debochada tentativa de reinterpretação do verbo passista à custa de um ex-Presidente da República e da maior vedeta do Correio da Manhã está a dar provas de uma fé na estupidez alheia que ultrapassa tudo o que já me veio bater à porta.

A elite do PSD no seu esplendor

No seu comentário habitual na TVI24, nesta quinta-feira, o ex-presidente do PSD defendeu que nas circunstâncias que o país vive seria um “mau sinal” não cortar a tolerância de ponto no Carnaval.

Mendes lembrou que os membros da Troika vão estar em Portugal na altura do Carnaval a fazer nova avaliação a Portugal e que seria incompreensível que quem empresta estivesse a trabalhar e que quem pede emprestado “estivesse na folia”.

Fonte

Fenómenos do entroncamento

Também como resultado da bancada do PSD ter sido liderada por tribunos de terceira extracção nesse longo período, mas principalmente por causa das suas naturezas e livre-arbítrio, Portas e Louçã tiveram o maior protagonismo pela oposição em todos os debates parlamentares com Sócrates nos 6 anos passados. Existia um clima relacional, que o então primeiro-ministro gostosamente alimentava com o seu temperamento sanguíneo, de competição entre gladiadores. As intervenções extravasavam no aparato emocional o âmbito das questões políticas avulsamente na berlinda e deixavam ver as correntes de testosterona em ebulição. Aqueles dois atacavam apaixonadamente aquele um como só se pode fazer quando se constrói o outro como inimigo.

E assim vimos que Portas e Louçã eram cópias perfeitas na transmissão das seguintes mensagens:

– Sócrates não tem legitimidade política por ser moralmente indigno.
– Não se deve chegar a qualquer tipo de acordo com o PS por causa de Sócrates.
– Qualquer consequência da interrupção da legislatura, mesmo que tal implique um resgate financeiro de emergência, é preferível à continuidade de Sócrates no poder.
– Derrubar Sócrates, e assim conseguir que ele se afaste da chefia do PS, é o único objectivo por que vale a pena lutar.

Conseguido esse objectivo, estamos perante uma situação em que Portas é membro de um Governo que tem agravado cruel e erradamente por via fiscal a vida de todos os portugueses, o exacto oposto do que o CDS prometeu aos eleitores, e Louçã tem um grupo parlamentar com um terço do tamanho anterior, vendo à sua volta a vida de todos os trabalhadores e pobres a piorar numa escala impensável seis meses atrás.

Estas contradições ainda são o menos nisto tudo, o fenómeno a registar está nos silêncios de ambos. Incapazes de assumirem qualquer responsabilidade por uma postura de terra queimada quando o País já estava no meio de uma tempestade internacional incomensurável, dão agora a patética imagem de não passarem de dois tontinhos entroncados um no outro.

A-guiar-bronco

Caso a cegada que Aguiar-Branco conseguiu arranjar na relação dos militares com o Estado tivesse sido obra de um qualquer governante socialista, o PSD estaria neste momento a pedir a demissão do Ministro da Defesa. Caso tivesse sido obra de um governante socialista, e esse socialista se chamasse Augusto Santos Silva, o PSD estaria agora a pedir a demissão do Ministro da Defesa e Aguiar-Branco estaria a exigir aos berros que Augusto Santos Silva fosse julgado em tribunal marcial por crimes de guerra.

Recordemos a habilidade do artista:

Se não sentem vocação, estão no sítio errado. Se não sentem, antes de protestar precisam de mudar de carreira. Sem drama, sem ressentimento. Deixem o que é militar aos militares, o que é das associações às associações, o que é da política à política.

Aguiar-Branco, para dizer a alguns militares que não deviam mijar fora do penico da esfera castrense, apontou ao seu mais íntimo sentimento de honra: a vocação. Aguiar-Branco, para estabelecer um limite às actividades das associações profissionais de militares, ofendeu pessoalmente os indivíduos que as compõem. Aguiar-Branco, para marcar uma posição de autoridade governativa, insultou toda a corporação militar.

Aguiar-Branco é um bronco.

Demolição económica, social e cultural

Passos Coelho disse esperar que “os portugueses entendam que não estamos em tempo de falar em tradições”. O chefe de Governo recordou que a “situação de emergência nacional” levou o Governo a eliminar quatro feriados. “Temos de lutar para vencer as dificuldades,” acrescentou. “O pais ganha muito com o fim da tolerância.”

Fonte

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Passos veio do fim-de-semana acossado com as críticas à decisão de não dar o feriado de Carnaval, tendo optado por contra-atacar em registo de fuga para frente. Ia ser uma segunda-feira em cheio, a qual começou com a abolição das tradições e viria a terminar com a denúncia dos portugueses serem velhos, preguiçosos e queixinhas. A ligar a parvoeira estava um nome nunca referido: António Capucho.

Capucho é o mais poderoso dos barões cavaquistas e aquele que faz as críticas mais contundentes a Passos. Foi assim com a recusa para integrar as listas do PSD nas últimas eleições legislativas, foi assim aquando da escolha de Nobre para candidato à Presidência da Assembleia da República e voltou a ser assim neste disparate carnavalesco. Capucho é a voz dos rancores de Cavaco. Nem seria de estranhar que tivesse vindo dele o recente e surpreendente ataque a Vítor Gaspar, o qual foi dito provir de um cavaquista anónimo mas íntimo de Cavaco ao mais alto nível. Exactamente o perfil da personagem.

Pois o nosso agente em Massamá escolheu Odivelas para terminar um dia de recados para Belém: o vosso tempo acabou, comigo não vai ficar pedra sobre pedra. Como prova do poder que julga ter nas mãos, disse o que quis e não quis dos portugueses só para mostrar que, se 10 milhões podiam comer e calar, não seriam meia dúzia, ou dúzia e meia, de passarões caducos a impedir a marcha triunfal daqueles que conseguiram expulsar Sócrates e trazer os senhores do dinheiro para pôr esta malandragem toda na ordem.

Life boils down to a series of choices

Os anúncios do Super Bowl deste ano foram, regra geral, uma bela merda, e mesmo os melhorzinhos não conseguiram fugir à banalidade. Ocasião para recuperar um dos melhores trabalhos de 2011. Uma obra de arte que apetece ver vezes sem conta, porque a sua dinâmica de envolvimento racional e afectivo é inesgotável. E que tem esta beleza de copy no remate:

All choices lead you somewhere. Bold choices take you where you’re supposed to be.

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Nota: se a tua máquina aguentar, vê em HD e ecrã total.

Passos vai curar-nos da preguiça

Miguel Relvas é uma das personalidades mais degradantes e hostis na política nacional de todos os tempos, suando raiva por cada um dos seus tóxicos poros e nada fazendo para a esconder. Relvas é o par siamês de Passos Coelho, muito mais do que um braço-direito. Passos não poderia repetir a versão Mr. Hyde em público sob pena de perder toda e qualquer eleição, por isso apresenta-se numa caricatura de Dr. Jekyll para consumo mediático e eleitoral, na qual surge a tratar os cidadãos como se fossem crianças desamparadas e a tentar agradar aos poderosos de modo subserviente. Porém, há alturas em que o esforçado Jekyll deixa transparecer o desbagrado Hyde que o anima, e o veneno e as cenas tristes irrompem de jorro. Recorde-se este episódio, onde cresce para cima de uma mulher que lhe estava a mandar bocas sem qualquer importância. É notório o gosto pela prepotência e o feroz desprezo pelos fracos.

É do mesmo quadro mental que vêm as seguintes barbaridades:

Para Passos Coelho, “hoje, mais do que nunca”, é preciso “enfatizar a relevância” de os portugueses serem “totalmente exigentes e nada complacentes com a facilidade”, apelando à “transformação de velhas estruturas e velhos comportamentos muito preguiçosos ou, às vezes, demasiado autocentrados”, por outros “descomplexados, mais abertos, mais competitivos”.

“Devemos persistir, ser exigentes, não sermos piegas e ter pena dos alunos, coitadinhos, que sofrem tanto para aprender”, ilustrou, considerando que só com “persistência”, “exigência” e “intransigência” o país terá “credibilidade”.

“Se queremos que nos olhem com respeito temos de nos olhar com respeito”, insistiu, criticando ainda discursos que consideram que há “demasiada austeridade”, que as medidas adoptadas para corrigir os défices do país são “muito difíceis” e, portanto, é melhor “andar para trás” e voltar “a gastar o dinheiro” que o país não tem, até porque “o FMI e a UE hão-de emprestar mais dinheiro, que remédio”, já que Portugal faz parte da zona euro.

As declarações, para além de primárias, cínicas e fanáticas, são ostensivamente provocatórias. Este homem é Primeiro-Ministro de um Governo que vive em processo de auto-profecia a respeito de tumultos sociais que permitam confirmar que os portugueses são esses gastadores irresponsáveis que chegaram a 5 de Junho de 2011 a precisar de castigo e chicote. Ele vai esticando a corda na esperança de que rompa por algum lado, pois anseia por preencher com destruição de propriedade e polícia nas ruas a crença alucinada.

Vai ser decisivo para o futuro de Portugal, ou tão-só para o destino cívico de cada um de nós, descobrir após mais uma exibição da decadência intelectual de Passos Coelho quais serão aqueles que alinharão com este desmiolado, aqueles que ficarão calados por íntimo acordo ou fatal cobardia e aqueles que terão algo a dizer, e algo a fazer, apesar da sua endémica preguiça.

Impressionar sem República, brilhar sem Independência, seduzir sem Carnaval

Mom’s Love Good for Child’s Brain
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Television ‘misrepresents’ young people and older women
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Powering Pacemakers With Heartbeat Vibrations
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Facebook Is Not Such a Good Thing for Those With Low Self-Esteem, Study Finds
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A Minefield in Earth Orbit: How Space Debris Is Spinning Out of Control [Interactive]
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Testosterone Makes Us Less Cooperative and More Egocentric
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Sex Role Stereotyping and Prejudices in Children Explored
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Friends Help Us To Negate Negativity
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Continuar a lerImpressionar sem República, brilhar sem Independência, seduzir sem Carnaval

A SEDES faz muita falta, tem é de ir ainda mais longe

A ida de Campos e Cunha para o CCB levou-me a dar um saltinho à SEDES para ver como param as modas nesse afamado caga-sentenças do laranjal, poiso certo dos colossos intelectuais que dão pelo nome de Medina Carreira, João Duque, Mira Amaral, Henrique Neto, João Salgueiro e o próprio novíssimo director-consultivo do CCB, entre outros. Na secção Tomadas de Posição, a mais actual e a mais política das áreas temáticas expostas, encontramos a última datada de 18 de Maio de 2011, lançada em cima das eleições legislativas. De lá para cá, nicles batatóides, a SEDES ainda não tomou uma qualquer posição a respeito da situação política – talvez por não lhes ocorrer nada para dizer, há fases dessas, ou por considerarem que tudo está a correr às mil maravilhas, sabe-se lá. Mas esse dia chegará, certamente, e muito nos irá ensinar.

Por exemplo, eis um pedacito do que estes paradigmas da honestidade intelectual escreveram nas vésperas de um acto eleitoral:

O País sofre diariamente os maus exemplos que chegam de cima e nenhuma sociedade pode resistir por muito tempo ao impacto negativo dos comportamentos desviantes da ética da verdade e da responsabilidade. A pedagogia do bom governo não é apenas um factor de credibilidade das instituições democráticas, mas uma bitola permanente para o comportamento dos cidadãos. O exemplo é sempre um factor superior do funcionamento das sociedades democráticas mais avançadas e não pode ser menosprezado.

É difícil discordar, mesmo sem compreender patavina do parágrafo. A expressão ética da verdade e da responsabilidade fica bem em qualquer texto, em qualquer entrevista, em qualquer almoçarada. E mesmo para mudar um pneu a meio da noite e a chover, se à vista desarmada não parece de grande ajuda, seguramente que é uma expressão que não atrapalha o processo e até pode servir de alento na ocasião. Por isso, sim. Portanto, pois. Toca de alertar a malta para esse perigo que ameaça a sociedade. E venham os exemplos. Os exemplos exemplares. Aqueles exemplos que só homens (não há mulheres a botar faladura na SEDES, pois continua a ser preciso que alguém esteja a preparar o jantar enquanto decorrem as sessões de laboriosa reflexão) veramente exemplares estão em condições de dar ou, não tendo tempo para tal, em condições de validar através dos seus exemplares juízos a respeito.

Que irá a SEDES dizer, então, deste actual Governo que prometeu o branco e aplica o preto, que diz aos portugueses para emigrar e aos militares para desertar, que repete ser necessário empobrecer tudo e todos à excepção dos seus amiguinhos e que castiga o povo com a arrogância dos brutos e a soberba dos celerados? De que modo esta postura fanática se enquadra na ética da verdade e da responsabilidade que a SEDES generosamente tinha vertido com tanto afinco até às últimas eleições para educação das massas e salvação da Pátria?

Em Fevereiro de 2008, a SEDES saiu a terreiro para denunciar um siciliano “difuso mal-estar” que estaria a pôr em causa a coesão nacional. E pudemos até ler esta profecia:

O mal-estar e a degradação da confiança, a espiral descendente em que o regime parece ter mergulhado, têm como consequência inevitável o seu bloqueamento. E se essa espiral descendente continuar, emergirá, mais cedo ou mais tarde, uma crise social de contornos difíceis de prever.

Só foi pena que o poderio intelectual da SEDES, e a sua “ética da responsabilidade” que chega a fazer inveja à do Criador, não tivesse complementado o aviso com esta pequena informação: o voto em Cavaco e o voto em Passos Coelho seriam os meios mais rápidos para chegar à temida crise social de contornos difíceis de prever. Na próxima Tomada de Posição, é favor incluir esse tipo de pormenores para termos ainda mais razões para ficarmos agradecidos aos magníficos pensadores que se sacrificam por nossa causa em salas de reunião, quiçá também em restaurantes e bares de hotel, onde a SEDES marca a sua preclara presença.

Assino por baixo

Não partilho do coro de protestos pelo saneamento político de António Mega Ferreira. Cumpriu até ao fim o seu mandato e foi substituído. Foi uma nomeação política? Pois foi como terá sido a de Mega Ferreira. É da competência do poder político fazer essas nomeações. Mas o que me causa pena é ver que o PS, pela educadíssima e pausada voz do seu líder, em vez de fazer oposição política à concretização de uma ideologia retrógrada, conservadora, de desmantelamento das funções dos estado, mais precisamente as da saúde, educação e segurança social, de alienação de sectores chave para a soberania, de não acautelamento da liberdade e da independência da informação, do autoritarismo fiscal, etc., tenha escolhido esta bravata de Graça Moura para fingir que é oposição.

Sofia Loureiro dos Santos

Ainda não és leitor do maradona?

Se é esse o teu triste caso, tens algumas desculpas, dado que a sua produção escrita tem acompanhado a evolução do nosso PIB. Mas já nada poderás invocar para te furtares ao contacto com este efémero documento, o qual explica (perdão, estabelece, define, institui, consagra, hã… e sou proprietário de mais vocabulário do género que aqui poderia gastar mas tenho de ir já almoçar) várias coisas e coisas várias, terminando quase quase quase com uma citação de Régio.

Serás tu um dos que andou a viver como se não fosse pobre?

Numa entrevista ao semanário Sol, que será hoje publicada e a que a Lusa teve acesso, o primeiro-ministro nega que o empobrecimento seja a receita aplicada por este Governo.

“Pobres já nós estamos. Há é pessoas que ainda não se deram conta disso e continuaram a viver como se não fossem pobres. Viveram não daquilo que tinham mas daquilo que lhes emprestaram”, refere Pedro Passos Coelho.

Fonte

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Ora, então, deixa cá ver. Estamos pobres. Logo, não podemos empobrecer, porque para empobrecer é indispensável não estar pobre. Trata-se de uma dedução infalível. Donde, este Governo não está apostado no empobrecimento, apesar do que o próprio Primeiro-Ministro já disse com todas as letras e em múltiplas ocasiões. Naturalmente, terão sido afirmações nascidas da sua pobreza de espírito, pelo que estão de acordo com o postulado inicial. Que se passa, pois? Passa-se que há para aí uns distraídos que por distracção têm-se distraído a fingir que não estamos pobres. E como é que esses foliões conseguiram fugir da paupérima realidade? Através de empréstimos. Tão simples quanto isto, e tão ou mais viciante do que uma droga dura, daquelas em pó. Portanto, não fossem os malignos empréstimos e essas tais pessoas – que até poderão ser à volta de 20 ou 100 indivíduos, não se avançou um número – teriam sido obrigadas a viver como pobres que são, e que somos, e, consequentemente, não se andaria agora a dizer que o Governo quer aplicar a receita do empobrecimento.

Não querendo este Governo que empobreçamos por evidente impossibilidade lógica, que quer este Governo afinal? Acabar com os empréstimos, a fonte de todos os males. Em coerência, em nome da sua verdade, Passos Coelho deveria agora proibir a actividade bancária, mesmo que isso causasse algumas dores de privação às tais pessoas (mil? menos? mais?) que continuaram a viver como se não fossem pobres, as desgraçadas.