Um texto escrito nas vésperas da golpada que nos arruinou


Parece que as coisas se perspectivam mais ou menos assim, para alguns dirigentes do PSD: Portugal é forçado a pedir apoio maciço externo, reconhecendo de uma vez por todas que as taxas de juro da divida pública são incomportáveis. Imediatamente o Presidente da República convoca eleições, que o PS vai perder e o PSD vai ganhar, quem sabe até com maioria absoluta. Haverá lugares para “boys” e “girls” que estão fora do poder há anos. E o principal problema de Portugal, isto é, o facto de termos um governo liderado por José Sócrates, ficará resolvido. Vamos todos à nossa vida renovados, com o sol a brilhar e os horizontes largos. A cereja em cima do bolo será que o PSD poderá enquanto governo responsabilizar o PS, a Angela Merkel, a Comissão Europeia, ou o Jean-Claude Trichet, à vez, por tudo o que de medidas de austeridade tiverem que ser tomadas durante toda a legislatura.

Infelizmente, esta atitude tão “blasé” do PSD em relação à inevitabilidade da ajuda externa é contrária aos interesses do País. A ideia de que uma intervenção externa igual à da Grécia e Irlanda pode ser benéfica para Portugal já foi desconstruída várias vezes. Desde logo, pelo que está a acontecer naqueles dois países: desde que solicitaram ajuda as taxas de juro associadas às suas dívidas públicas não desceram. Pelo contrário. Actualmente os mercados estão interessados em testar a solidez do euro. O que está em causa é a própria sobrevivência da moeda única.

Se houver ajuda externa nos mesmos moldes que na Grécia e na Irlanda, haverá sérios efeitos económicos, como tão bem explicou Pedro Santos Guerreiro no editorial de quarta-feira deste jornal. A começar pela fuga de capitais que afectará os bancos, mas não só. Haverá também gravíssimos efeitos políticos, que atingirão não apenas o PS mas toda a classe política com responsabilidades governativas desde a entrada de Portugal na UE. A crise de soberania política que se abaterá sobre nós fará alicerces em cima de um fosso crescente que existe e tem vindo a agravar-se desde 2003 entre políticos e cidadãos. Por isso, esta ânsia do PSD em derrubar Sócrates, ao ponto de abrir os braços a uma ajuda externa maciça é um bocadinho como aqueles que apoiaram a guerra no Iraque porque serviu para tirar o Saddam do poder.

Ao longo dos últimos meses, José Sócrates e Teixeira dos Santos têm feito bem em resistir às supostas evidências de necessidade de recurso à ajuda externa invocadas por um coro de operadores económicos, muitas vezes anónimos, e agora pelo PSD. Sócrates será teimoso, mas a sua resistência tem objectivos políticos reais. Porque enquanto Portugal tem resistido, a conjuntura e a forma de auxílio a Portugal tem-se tornado ligeiramente mais favorável.

De facto, essa resistência já deu frutos. Quais? Bem, tem servido para que a Europa – e sobretudo a Alemanha – dêem passos no sentido de assumirem esta crise como uma crise do euro, e não uma crise dos “gastadores do Sul”. Temos de assumir as nossas responsabilidades no que respeita ao défice orçamental, mas não somos responsáveis pela vontade que alguns operadores de mercado têm de testar a solidez da moeda europeia. No momento que escrevo, Sócrates e Merkel reúnem para decidir se vai ou não haver uma possibilidade de acesso a uma linha de crédito europeia, sem necessidade de recurso a ajudas maciças, desde que o País se comprometa com objectivos de redução de défice e de reformas. Seria um bom compromisso.

Visto desta perspectiva, o PSD não deveria fazer mais do que colocar-se responsavelmente na oposição, tal como sugere Pacheco Pereira numa entrevista desta semana honrando os seus compromissos tanto orçamentais como do PEC I e PEC II. E apoiando patrioticamente os esforços do Governo em negociar na UE um acordo que impeça que Portugal sirva como mero “firewall” de Espanha, essa sim o verdadeiro teste à solidez do euro. Neste momento, tempo é dinheiro e mais do que isso. Tempo é soberania.

Marina Costa Lobo, 3 de Março de 2011

8 thoughts on “Um texto escrito nas vésperas da golpada que nos arruinou”

  1. A vontade de ir ao pote foi mais forte e a sede de vingança de Cavaco passou por cima do interesse do país que jurou servir com lealdade.
    Traição do PSD CDS PCP BE e prejúrio do Presidente Cavaco, que agoa tenta descolar deste miserável governo, quando já toda a gente vê o abismo para onde nos conduziu. E ele, o presidente economista, saberá bem mais do que o comum dos cidadãos.
    Ignorando este jogo de “empurra responsabilidades”, hoje, o pateta do José Seguro veio declarar, ingénuamente, que não fica bem desentendimentos entre Belém e S.Bento.
    Isto é burrice a mais. ó Isabel, dê um murro na bancada da Assembleia, já que não pode ser uma cachaçada no teu Secretário Geral!

  2. Valupi e Mário,
    Tudo certo, foi tudo tão mau e no baixo sentido de não sentir o país, com especiais, fundamentais e prioritárias culpas de cavaco, que a crise desenvolvida desde então, crise financeira e política permanente e insuportável, tal com Sócrates previu, veio desembocar na criação de um secretário geral do PS, um tipo que ficará na história como ” o metades”
    Se o psd corta dois subsídios ele corta metade.
    Se o psd corta dois feriados ele quer cortar metade.
    Se ppc o convida para mais um segredo a dois, ele conta metade.
    Se se lhe perguntam se tem saudades do passado ele responde que só tem saudades do futuro: outra forma de metade.
    Se atacam o PS pela governação anterior só responde pelo futuro: logo o Ps não tem passado.
    Se o sonso cavaco está desentendido com tolo passos diz que não pode ser: o mesmo que dizer um deles, metade, deve meter-se de acordo.
    Neste caso até se parece mais com um qualquer assessor porta vós de ppc do que chefe da oposição. Um desastre completo.

    E digo eu que com tal macaco de imitação quem não tem futuro é o PS.

  3. Pois é, por um lado fico contente de ver que ainda há(via) quem pensasse que a política é feita de valores entre os quais a soberania nacional em primeiro lugar. Hoje considero isso tudo uma triste ingenuidade, não há valores em cima da mesa a não ser o da sobrevivência quanto mais gorda melhor, tudo o resto é mercadoria, e a ilusão de que assim não era é apenas isso, uma ilusão, nesta época.

  4. Pois é Val,
    mas textos desses não anda a imprensa a divulgar em grandes parangonas, prefere falar de robalos, dos cafés frequentados pelo Sócrates, ou na famosa luz que alguns já dizem já ter visto no fundo do túne, esquecendo talvez que é apenas o reflexo do céu na pequena poça de água que está no fundo do poço para onde nos atiraram…

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