Merecemos este castigo, lá isso é verdade

Tivesse um Governo de Sócrates, ou tão-só do PS fosse quem fosse o primeiro-ministro, intentado acabar com os feriados de 5 de Outubro e de 1 de Dezembro, assistiríamos fatalmente a uma explosão de violência emocional desvairada que de imediato inundaria a comunicação social com túnicas rasgadas, juras de vingança, martírios públicos para defender a Nação. À esquerda, esse Governo seria visto como o braço armado do imperialismo mundial a esmagar a memória proletária e antifascista inscrita no 5 de Outubro. À direita, esse Governo seria visto como o punho de ferro dos internacionalistas maçónicos, comunistas e ateus, apagando a mais valiosa memória da independência nacional. Grupos de guerrilheiros comunas ocupariam a Praça do Município para lá dormirem, tomarem banho e aprovarem estatutos revolucionários enquanto a extrema-direita ficaria no sobe e desce da Avenida da Liberdade impedindo a circulação automóvel e perseguindo os estrangeiros, de preferência os mais torrados. Os patriotas de pacotilha que andaram nos últimos anos a dizer mal de tudo o que dissesse bem de Portugal, exactamente iguais no fel sejam de direita ou de esquerda, estão agora com o rabo enfiado entre as bambas pernas como inveterados hipócritas que são.

Tem supina razão a Fernanda ao pedir explicações aos seus concidadãos para o absurdo da manutenção em estatuto de igualdade dos feriados do Estado com os da Igreja dentro desse mesmo Estado. Que o Estado conceda privilégios à Igreja por via de acordo que um qualquer momento histórico justifique, será bondoso na sua abstracção. Que em 2012 se invoque esse acordo para moldar uma decisão política que apenas compete ao Estado e aos representantes eleitos, é sofisma. Com que causas, para que efeitos, cada um que tire as suas conclusões. O que não podemos é fingir que na asinina abolição dos feriados não está também em causa uma questão de regime.

A direita partidária tem sempre uma acusação pronta contra os socialistas onde estes aparecem como déspotas de um Estado tentacular, opressores dos exaltados indivíduos e suas privacidades. Contudo, têm vindo dessa mesma direita as experiências mais radicais de engenharia social, como aconteceu com o genial plano de um Governo de Cavaco para levar o povo a ficar a bronzear-se na praia até às 11 da noite e a mandar os filhos para a escola nas horas mais frias e escuras da madrugada. Tudo ao serviço do horário de trabalho da alta finança, o ecossistema destes senhores. Ou como acontece agora com a fúria para o desmantelamento e redução dos serviços sociais do Estado, pretendendo substituir a obrigação pública enquanto direito pelo assistencialismo privado como esmola.

Neste caso dos feriados, a retórica é toda ela moralista, fazendo parte da vilania de se considerar Portugal como um país de preguiçosos e esbanjadores a precisar de castigo, a precisar de trabalhar mais e de ganhar menos. A precisar de aprender a comportar-se. E quem melhor do que a gente séria para nos dar essas lições?

11 thoughts on “Merecemos este castigo, lá isso é verdade”

  1. Val,

    Lembro-me desses verões espectaculares em que se ficava na praia prai até ás 9h e se jantava ás 11h ainda com um resto de por do sol.

    Acho que foram 2 anos assim. Foi bom.

    Agora se a minha memória não me falha o génio que inventou isso foi o Guterres…não foi?

    Miguel

  2. Isto é um absurdo, mais um absurdo deste «governo». Depois de tirar o dinheiro dos fundos de pensões da Banca, coisa que nem o Salazar conseguiu…

  3. Eu quero ver é como no futuro eles vão pagar as pensões das quais agora sacaram e gastaram o dinheiro. Vai ser bonito ver estes estarolas, calhordas a arranjarem justificação para a falta do dinheiro para as pensões. Ainda vamos ser nós a pagá-las.

  4. Um politólego alemão afirmou, a propósito da presente crise, que a direita e o capitalismo vão sair vencedores e cavar-se-á um fosso ainda maior entre uma elite de ricos e os outros. E talvez dentro de dez anos uma esquerda que agora está sem ideias volte ao poder.
    A verdade é que o “povo” que vai comparecendo às eleições vota, por tudo quanto é país europeu, nas direitas mais radicais e liberais dos últimos trinta anos. Como somos o povo que vota ou fica em casa, “temos o que merecemos, como diz o Val.
    Isto é uma espécie de regresso ao feudalismo medieval, em que manda e dispõe da vida das pessoas quem detem a posse da terra , o poder militar e o poder judicial. As terras de outrora são o capital dos nossos dias e a multidâo dos vassalos e servos constituem a classe média e daí para baixo.
    E chegou o momento, e é este, em que os “senhores” não toleram mais ser governados pelos vassalos, a quem uma revolução para a liberdade, fraternidade e igualdade fez acreditar que o mundo mudara.
    A democracia vai perder mais uma vez, depois da primeira tentativa há dois mil e quinhentos anos?
    Pelo que está agora a acontecer, até parece que sim. Mas eu não acredito, e estes novos senhores feudais podem começar a contar os dias para o fim do seu reinado. A história não se repete.

  5. De acordo com tudo, excepto com essa dos comunas a tomarem banho na Praça do Município. Eles nem em casa tomam banho.

    A retórica do governo fez-me mudar de ideias sobre os feriados. Bastou-me ouvir aquele idiota chapado de “ministro da economia” para me convencer que não temos feriados a mais.

    De facto, até temos muito poucos.

    Temos feriados idiotas. O 10 de Junho, “dia da raça”, como já lhe chamou Cavaco – puta que o pariu a ele mais à raça. O dia do “corpo de Deus”, quando até os ateus sabem que Deus não tem corpo. O dia 8 de Dezembro, etc, etc.

    Proponho que se acabe com os feriados idiotas e se criem mais cinco ou seis (5 ou 6) feriados novos. Mas feriados a sério, com multa rigorosa ou mesmo prisão para quem trabalhar.

    Por exemplo, a data da lei de separação do Estado e da Igreja (de 1911), um dos momentos mais positivos e gloriosos da história de Portugal.

    O dia em que a Madeira se tornar independente deverá ser declarado feriado festivo, não da Madeira, mas de Portugal.

    O dia em que Salazar caiu da cadeira também há muito que deveria ter sido declarado feriado nacional.

    Deveriam ser festejados condignamente, com rigorosa paragem de laboração em todas as fábricas, lojas e repartições, o “Dia da dívida pública” e o “Dia da dívida externa”, em datas a combinar com a troika.

    Assim, sim.

  6. Eu cá acho que está muito coerente. O governo elegeu a igreja católica como seu parceiro social, coisa típica da direita fascizoide como esta. E depois, o que interessam valores como a “Independência” ou a “república”??? Get real. Só não desaparece o da “liberdade”(25/4), porque este governo não se aguenta até ao fim do ano.

  7. Miguel:

    “Se agora não fizéssemos a transição para a hora de Inverno, manter-se-ia um desfasamento de 1h37, mas teríamos os relógios alinhados com a restante Europa Central”, que se guia pelo meridiano de Berlim, adianta Rui Agostinho. Isso faria com que só amanhecesse por volta das 9h00 e que sol se pusesse uma hora mais tarde do que amanhã.

    Além disso, quando chegasse o Verão e fizéssemos o normal adiantamento da hora, ficaríamos ainda mais desfasados em relação à hora solar (2h37). “Só ficaria céu mesmo escuro à uma da manhã”, resume o director do Observatório. Portugal viveu essa experiência entre 1992 e 1996, durante o Governo de Cavaco Silva, mas acabou por voltar atrás devido a um turbilhão de protestos. O problema, invocaram na altura cientistas e médicos, era o facto de o desfasamento em relação à hora solar trocar as voltas ao nosso relógio biológico.

    Fonte

  8. a 5/10 ninguém liga a não ser meia dúzia de anticlericais que festejam algo que devia ser motivo de vergonha nacional, a 1ª republica.
    Já o 1/12 é mais estranho acabar. A maior parte da população é nacionalista, eu como sou sinceramente europeista, aliás até me agradaria o desenvolvimento de um diretorio mundial e o fortalecimento da ONU, pelo que substituia bem o 1/12 por um feriado “Dia da Europa”.
    Os feriados catolicos tem mais adesão popular que os civis, mesmo o de Corpo de Deus, eu seja a comemoração da Eucaristia, que é o que tem menos adesão (os catolicos vão percebendo que o dia certo para essa celebração é a 5ª feira santa), tem mais adesão que qualquer feriado civil.

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