Estamos exactamente onde e como eles queriam

A campanha eleitoral de Cavaco para a sua reeleição desenhou um perfil adequado ao momento do País, aos concorrentes no páreo e à imagem de um Presidente da República que tinha lidado em registo bicéfalo com um Governo de maioria PS, seguido de um Governo de minoria PS. Das inúmeras citações passíveis de recolha para ilustrar a correcta e vencedora estratégia, estas afirmações no lançamento do seu manifesto eleitoral são um dos melhores resumos:

Não é com meras palavras, criticando tudo e todos, nem com radicalismos extremistas, que ultrapassaremos a crise em que o País está mergulhado.

[…]

Comigo, sabem com o que podem contar. Tenho experiência e conhecimento da realidade e do rumo que Portugal deve seguir para vencer as dificuldades com que está confrontado. Através de uma magistratura activa, irei fazer o que sempre fiz ao longo de uma vida de trabalho: estudar com rigor os assuntos de Estado, actuar com moderação e prudência, defender com firmeza o interesse nacional, intervir publicamente com contenção nas palavras e com dignidade nos gestos.

Há um valor essencial nos tempos de incerteza que vivemos. Muitos Portugueses receiam o futuro, angustiam-se com o que o amanhã lhes trará. Daí a importância extrema de um valor seguro: a confiança.

É fundamental que os agentes económicos e sociais confiem nos poderes públicos, é fundamental que os outros países, os investidores e os mercados confiem na credibilidade de Portugal, é fundamental que os Portugueses confiem nas suas instituições e nos seus dirigentes políticos.

A minha candidatura é a candidatura da confiança. Os Portugueses conhecem-me, sabem como exerço as funções de Presidente da República, com sentido de Estado e dignidade. Sabem que actuo com absoluta isenção e imparcialidade no tratamento das diversas forças partidárias e que faço uma leitura correcta e adequada dos poderes presidenciais. De mim, não haverá reacções imprevisíveis, que criem instabilidade e incerteza. Sou um candidato em quem os Portugueses podem confiar.

[…]

Se acaso os Portugueses me honrarem com a sua escolha, irei ser um Presidente activo e dinâmico, mas realista e prudente.

[…]

Um Presidente da República tem de ser um elemento de segurança e de confiança, sobretudo num tempo como aquele em que vivemos, e em que, mais do que nunca, temos de nos manter unidos. O Presidente é a última reserva da República para que os Portugueses olham em momentos de crise.

Cavaco falava para uma comunidade alarmada com o prolongamento, e adensamento, da crise das dívidas soberanas e o discurso moralista que sobre elas a Europa e a direita nacional faziam. Ninguém sabia o que ia acontecer nos mercados, reinava a maior confusão tantos nos políticos como nos publicistas, mas sabia-se que toda a oposição, a quase totalidade da comunicação social e o Presidente da República consideravam o Governo de Sócrates como o único culpado pelas dificuldades de financiamento e pelos desequilíbrios no défice resultantes da resposta europeia à crise mundial de 2008 e 2009. Como se fosse pouco, de Belém, da oposição e da imprensa chegavam constantemente ataques contra a credibilidade e a honra dos governantes, estando o Executivo sempre na iminência de ser derrubado pelas mais oportunistas das razões e incapaz de impedir as coligações negativas no Parlamento. Finalmente, Cavaco posicionava-se face a Alegre, pintado como inexperiente e extremista, e prometia à direita passar ao ataque contra Sócrates, a tal “magistratura activa”, embora garantindo que tal mudança de atitude não viria a comprometer qualquer dos mais altos valores da sua responsabilidade constitucional. Em suma, Cavaco declarava-se o salvador da Pátria, a última linha de defesa contra o caos e a única fonte de dignidade no edifício político da República.

Assim que começaram os debates televisivos, vimos um Cavaco nervoso e incapaz de esconder a sua alucinada soberba. A melhor prestação foi conseguida com Alegre, a quem deu baile. Por inexplicável impunidade, foi poupado a ter de assumir responsabilidades por qualquer dos casos onde não teria defesa possível: BPN, Açores, escutas. Tal não evitou a explosão de violência no discurso de vitória, uma situação que não se julgava possível de acontecer dias, horas, antes. Alguns, como Freitas do Amaral, chegaram a desculpá-lo dizendo que o discurso que importava não era aquele, ainda a quente, mas o da tomada de posse. Aí, sim, teríamos um Presidente da República a unir os portugueses, como eles tanto necessitavam que acontecesse neste período tão difícil do País.

E lá veio o 9 de Março. Tudo o que aconteceu na Assembleia da República nesse dia foi a exacta antítese das suas promessas eleitorais. Em vez de um apelo à concórdia social, um sinal de paz política, um voto de confiança nos representantes eleitos, assistimos banzos a um comício eleitoral onde se exigiu a queda do Governo e a revolta nas ruas. Em vez de uma manifestação de coesão nacional para o postal mediático, o mundo ficou a saber que o próprio Presidente da República de um país já fragilizado interna e externamente tinha querido imitar Nero incendiando o que ainda se mantinha de pé na cidade. Em vez de ser parte da solução, Cavaco quis provar que era capaz de provocar problemas ainda maiores. E provocou, pois de imediato conspirou para que se boicotasse o acordo que o Governo tinha conseguido na Europa e que se consubstanciava no PEC IV. Sócrates iria cair nem que o País tivesse de se arruinar por completo com o empréstimo de urgência.

Passos Coelho e Portas, poucos meses depois, imitaram Cavaco. Na campanha eleitoral, mentiram com quantos dentes, dedos, cabelos e átomos tinham. Assim que tomaram o poder, fizeram exactamente o contrário do que tinham prometido. Não espanta, pois, que estes senhores estejam irmanados na utilização da verdade como bandeira para esconder as suas reais intenções e denegrirem os adversários com tácticas populistas. Daqui resulta uma evidência que separa as águas no lodaçal do presente condicionamento político por causa do pedido de ajuda externo e seus compromissos: a evidência de ser Cavaco um dos principais responsáveis pela existência deste actual Governo e suas políticas e práticas revanchistas.

Augusto Santos Silva, sem vestígios de ressentimento, explica a partir do minuto 23.

3 thoughts on “Estamos exactamente onde e como eles queriam”

  1. O papel aceita tudo o que lá queiramos colocar. E o cavaco escreve ou, se calhar melhor, manda escrever o que lhe der na real gana. Se alguém depois de 30 anos na política não conhecia Cavaco era e é um anjinho, um palerma, um doido, um parvo, enfim um CALHAU. Pelo menos deveriam conhecer o sujeito que acabou com a agricultura neste país; que reduziu as nossas pescas quase a zero. Que construiu aquele mamarracho a que chamam Centro Cultural. O tipo que lançou a 1ª. auto-estrada sem portagens, isto é, a Via do Infante. E que lançou muitas outras estradas.
    Quem não conhecia pelo menos estas facetas do Aníbal ou vivia no estrangeiro ou é masoquista.
    Agora o homem não consegue viver com mais de 12.000 euros mensais, mas aqui à tempos nem se lembrava como tinha ganho uns largos milhares de euros no negócio das ações do BPN. Que desinteresse pelo dinheiro e que falta de memória. O homem não sabe, não se lembra, como lhe foi para às mãos a vivenda da Coelha.
    E a judiciária para que serve?

  2. E não esqueçamos o megaumbigo a quem ele deve o lugar que ocupa, para nossa desgraça e vergonha: Manuel Alegre. Sem este, hoje apostado em rivalizar com o Seguro nas modalidades desportivas de “low profile” e “desaparecido sem combate”, o megapensionista nunca teria sido eleito para o primeiro mandato e é mais que certo que lhe teria faltado a coragem para nova tentativa.

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