Ser socrático compensa

Não se sabe quem representa a opinião da direita partidária nestes dias de pote lambuzado, mas a arraia-miúda dos direitolas engole o que lhe aparece à frente com a sofreguidão costumeira, mesmo quando tais substâncias provocam graves desarranjos na inteligência.

Foi assim dito que o pedido de fiscalização sucessiva do Orçamento era uma revolta na Bounty orquestrada pelos deputados socráticos para molestarem a direcção do PS, nomeadamente Seguro e Zorrinho. A inércia do simplismo e a excitação de poder continuar a falar de Sócrates davam as mãos e partiam aos saltinhos pelo jardim da boçalidade. Teríamos então que o socratismo parlamentar seria representado por Rui Santos, Glória Araújo, Eduardo Cabrita e a independente, e constitucionalista, Isabel Moreira, por exemplo. Pouco importava o que estes deputados pensassem a respeito do anterior ciclo governativo, passavam a representantes de Sócrates porque teriam ousado divergir das opções de Seguro. Pouco importava que a iniciativa dependesse da colaboração de Louçã, inimigo figadal do mafarrico. Acima e antes de tudo, pouco importava que estes deputados fossem deputados, representantes de um dever de consciência em nome do Soberano. O maniqueísmo é apanágio dos fanáticos e dos broncos, e eles nunca se cansam de o comprovar.

Acontece que nem Pedro Silva Pereira, que não subscreve o pedido, nem Augusto Santos Silva, que o repudiou publicamente, surgem nestes terrenos. Haverá personalidades supostamente mais socráticas do que esta dupla, a qual era o núcleo duro do Gabinete que andou a espiar Cavaco na Madeira, em Belém, nos seus emails, e se calhar até nos seus sonhos, e que obrigou o Rei de Espanha a tentar calar Moura Guedes e depois, não contente com a demora espanhola, deu ordens à PT para asfixiar Portugal assim que tivesse uma aberta no mercado das telecomunicações, entre outras perfídias, muitas utilizando técnicas dos mais secretos dos serviços secretos mundiais, as quais o Pacheco Pereira de imediato topou, denunciou e nelas chafurdou? Há aqui uma grande confusão, a menos que o socratismo em versão socialista, afinal, não passe dos justificadíssimos arroubos de Paulo Campos perante matérias ideológicas mais salientes.

O socratismo, porém, existe. Isso é inegável. Não há santo dia em que ele deixe de se fazer presente no nosso quotidiano. Basta ler jornais, ver televisão, ouvir rádio. Alguns dos mais ferrenhos socráticos trabalham ou sacam cheques no Correio da Manhã e no DN, na SIC e na TVI. Pelo que temos de reconhecer que compensa ser socrático, ficando só a faltar a profissionalização dessa actividade geradora de tanta riqueza.

6 thoughts on “Ser socrático compensa”

  1. Volto aqui para precisar e acrescentar algumas ideias, ao comentário que há dias fiz à acertadíssima e louvável atitude de Isabel Moreira ao liderar, dentro do PS, o movimento que levou ao pedido de fiscalização por parte do TC, das disposições do Orçamento de Estado que levam ao esbulho, por parte deste governo, dos subsídios de férias e de Natal dos funcionários público e dos pensionistas.
    Está tudo louco, desabafou ela. Direi que, de facto, há neste país muitos a quem poderemos chamar loucos, para simplificar as coisas. Há loucos sim neste pais mas de maneira nenhuma são esses a quem a Isabel parece querer referir-se no seu desabafo. Esses tais que encabeçados pelo douto Marcelo, têm contestado o acerto da atitude, esses longe de estarem loucos, estão diabólicamente lúcidos.
    É que, quanto a mim, esta questão constitui o exemplo acabado de uma maquiavélica política de “dividir para reinar”. A direita fez a sua análise e concluiu que uma medida destas, generalizada a todos os portugueses, constituiria um verdadeiro suicídio político, a curto ou médio prazo.
    Senão vejamos o raciocíonio que fizeram! Elementar, aliás, que aquela gentalha gosta pouco de queimar as meninges. Pensaram então: o voto do funcionalismo, sector em que não podemos deixar de mexer para “emagrecer o Estado” (proclamam eles) está perdido. Está perdido não só por isso, mas também pelas “cobras e lagartos” que dele temos dito. O mesmo se passa com os pensionistas, mas esses, coitados, já não têm voz activa na matéria. Força reivindicativa nula. Os pés para a cova. Não são de temer.
    Consequência lógica: malhamos só nestes e todos os restantes, gratos e ao mesmo tempo temerosos de que outro qualquer governo se lembre de que a equidade e a justiça não são conceitos desprezíveis, todos os restantes nos cairão nos braços por muitos e muitos anos.
    Para melhorar o quadro, vamos, garantindo o presente mas principalmente preparando o futuro distribuindo tachos e mais tachos a “especialistas” de 24, 25, 30 anos, bem remunerados e com direito a dois abonos suplementares por ano (nova designação do dos subsídios de férias e de Natal! e dizia eu que aquela gente não gosta de puxar pelas meninges). Se a estes acrescentarmos todo um número de amigos dos contemplados que ficam aguardando gulosamente idêntica esmola e todo um crescente número de familiares desvanecidos, que passa a dizer orgulhosamente: o meu filho, o meu namorado, o meu maridinho é assessor do ministro A, do Secretário de Estado B, temos o futuro mais que garantido.
    A passividade das pessoas, o encolher de ombros generalizado, o lugar invejável que PPC ainda vai mantendo nas “sondagens de opinião”, as pífias manifestações de rua, ainda por cima e ao que parece, da iniciativa daqueles que, por insanável cegueira política, mais responsabilidade têm na situação que está criada, tudo isto me leva a pensar que pode estar tudo louco, menos os das mãozinhas sinistras que vão cozinhando o país em lume brando.
    Depois há aqueles que têm “bué de dúvidas” sobre se devem ser os Tribunais a conduzir a política. Até o douto Marcelo perorou: “a decisão é política”. Imaginemos que os sacripantas que nos governam, na linha da sua tradição, tomam um dia a “decisão política” de instituir de novo a “censura! Claro que este exemplo é bastante infeliz porque esta gente jamais disso precisará. De facto, de uma forma mais subtil e sofisticada que a do “velho de Santa Comba”, limitou-se a deitar a mão aos meios de comunicação social; a todos sem excepção. Não contente com isso e para dar voz ao instrumento de que dispunha, tratou de comprar as consciências de uns quantos intelectuais e grandes especialistas que por um prato de lentilhas se venderam. Qual censura, portanto! Tudo aqui na mãozinha!
    Ocorre-me a célebre canção do Pedro Barroso em que ele canta: “”de 30 em 30 anos, às vezes mais, 50, até acreditamos, rumamos à tormenta, batemo-nos e vamos para a liça do futuro com a nossa força grande, antiga, mas…contados pelos dedos assuntos bem saldados, ficaram intenções, castelos abandonados, crianças sem saber, o sol para os reformados, remessas de emigrantes, ah!…e o mar! Eles voltam, voltam sempre, cinzentos, sorridentes, cheirosos, influentes, de todos os quadrantes e por todas as frentes com cupidez te amansam, com polimento avançam e…zás! Caíste! ”
    Pois, é. Preparemo-nos, já que me parece que vamos ter de esperar mais 30anos até que tenha razão Almada Negreiros quando disse que “PORTUGAL, PORTUGAL INTEIRO HÁ-DE ABRIR OS OLHOS UM DIA SE É QUE A SUA CEGUEIRA NÃO É INCURÁVEL E ENTÃO GRITARÁ COMIGO, A MEU LADO, A NECESSIDADE QUE PORTUGAL TEM DE SER QUALQUER COISA DE ASSEADO”!
    Desculpem-me mas não quero terminar, sem uma última nota. É que não sei se ria se chore quando oiço gente do PS, que tanto gostaria de ver unido, acusar Isabel Moreira de se ter “bandeado” com o Bloco de Esquerda. De facto, é preciso, ter perdido de todo a vergonha. Aqueles mesmos que durante anos e anos, insidiosamente deram a mão ao BE para o ajudarem a destruir Sócrates, têm agora o desplante de utilizar este argumento contra aqueles do seu partido que sempre ao lado dele se mantiveram. Enfim! Tempos! .

  2. Val, a mim não me interessa tanto se é boa táctica política ou não suscitar a questão da constitucionalidade. Até posso achar que, tacticamente, é má ideia.
    O que me importa é outra coisa: os deputados servem para quê? Das poucas iniciativas relevantes que um deputado pode tomar individualmente, estando quase tudo o resto à guarda do “grupo parlamentar” (e, portanto, do líder), vamos fazer o quê? AJS, na campanha para a sua eleição como SG, anunciou que iria aumentar muito a liberdade individual dos deputados. Ainda não vi isso a ser implementado de modo nenhum que tenha sido politicamente notado e notável. Na primeira oportunidade, pelo contrário fazem uma campanha danada contra deputados que fazem isso: pensam pela sua cabeça.
    Eu não percebo nada de Constituição, portanto a minha opinião conta pouco por esse lado. Mas, se eu percebesse da coisa, e tivesse a convicção de que o OE era inconstitucional, e estivesse numa posição institucional que me permitisse fazer alguma coisa quanto isso, tinha o dever – não o direito, mas o dever – de o fazer. Conceber um regime onde um deputado é mal-querido por fazer aquilo que acha ser o seu dever, é conceber um regime de gente incivilizada. É nestas coisas que vemos até quão fundo chegou a dissipação da densidade democrática dos nossos dirigentes.
    Aplauso aos deputados que ainda têm cabeça para pensar – e a usam. E, para o caso, não importa nada se eu concordo ou não com eles politicamente.

  3. Os que estiveram no governo durante seis anos – apesar de torpedeados todo o tempo, e das maneiras mais vis, pelas oposições selváticas de direita e de esquerda – ficaram com uma noção do interesse nacional e com um sentido de Estado que geralmente, talvez naturalmente, escapam à malta da bancada, mais sectária (não é paradoxo). So far so good, como dizem os franceses. O meu receio é que esses que estiveram no governo e agora denotam tanta conciência do interesse nacional, tanto sentido de Estado e tanta fidelidade aos compromissos que assumiram com a troika, se esqueçam de que a luta política não suporta intervalos nem tréguas. Quem não sabe isso, ou finge não saber, é trucidado por ela. Isto a propósito da atitude anti-fiscalização do OE da maioria da bancada socialista, incluindo as posições de Santos Silva e Silva Pereira. Mas se calhar eles são mais sábios do que eu.

  4. Concluindo: os deputados que estiveram no governo de Sócrates e agora sentem especiais pruridos em lutar contra este governo por todas as formas disponíveis, desde que legítimas e politicamente razoáveis, pois que cedam o lugar aos que têm outra energia, outra motivação, outras ideias e outras preocupações. Zorrinho é um mau líder parlamentar nesta altura do campeonato? Que ceda o lugar a quem tem mais garra. Alguns deputados não estão à vontade para fazer oposição? Que cedam o seu lugar de deputado.

  5. CICERO, muito bem.
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    Porfírio, assino por baixo as tuas palavras.
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    Júlio, há vários factores na liça. Um deles será o sentido de Estado, certamente, mas outro, tão ou mais importante, é a protecção do partido, o qual não ganharia nada com uma suposta guerra fratricida, como é óbvio. Depois também entrarão os cálculos pessoais e os projectos de percurso possível para cada qual adentro dos vários cenários de curto e médio prazo.

  6. Caro Val,
    para além da justeza do teu ‘post’, na tua resposta ao Júlio estão escarrapachadas mais algumas razões que levam alguns a tentar evitar o esboroar dum partido.
    Mas, e há sempre um ‘mas’ terrível nestas situações, ou o partido muda de rumo, ou por muito que tente a oposição de algodão ficará muitos e longos anos ausentes das cátedras do poder, pois o polvo com os seus tentáculos depois de se fixar nos seus objetivos muito dificilmente se separa deles a não ser pelo corte dos mesmos ou se a sua destruição for total.

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