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Passos, ao longo deste ano, tem largado invectivas contra a retórica, a demagogia e o populismo. Ao mesmo tempo, agarrou-se ao termo “realismo” como muleta discursiva para embrulhar qualquer medida que o Governo tome ou deixe de tomar. Mas Passos é o mesmo que fez uma campanha eleitoral demagógica e populista, apresentando propostas ultra-simplistas para uma realidade ao tempo já demasiado complexa para ser lidada sem um fundo consenso nacional entre os partidos do projecto europeu. Nessa altura, aqueles que apelavam ao realismo eram catalogados como mentirosos e delirantes por um Passos que nos garantiu ter uma alternativa muito melhor, muito mais fácil, muito mais real do que as “fantasias” de Sócrates, Barroso e Merkel.
Estamos, portanto, face a uma manifestação da loucura. A loucura tem de ser isto, ou também isto: a capacidade de afirmar uma coisa e o seu contrário sem responsabilização pela automaquia. Esta a hipótese bondosa, a de uma loucura generalizada, institucionalizada, onde o Presidente da República igualmente se apresenta louco, a sua palavra para nada valendo e, por isso, nada de errado encontrando no comportamento do primeiro-ministro. Uma loucura de regime, onde a maioria dos deputados faz com que a Assembleia da República seja cúmplice de dois outros órgãos de soberania actualmente sem representantes dignos do estatuto e do poder que lhes foi dado pelo Povo.
Esta situação é nova em Portugal. Não tínhamos defesas para ela e sentimo-nos, passados dois anos de loucura diária, em completo esgotamento de recursos mentais para lidar com a perversão política e cívica em curso. Eis o maior desafio lançado aos fundamentos da comunidade que somos, e queremos ser, desde o 25 de Novembro.

