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900 anos de maluqueira

A pressão sobre o Tribunal Constitucional, depois de Barroso ter dado fogo à peça, é agora à outrance. Mas caso os juízes cedam, e saberemos se cederam, essa cobardia transformará por completo a situação política em Portugal para alguma coisa que só conhecemos de ler nos livros de História. É que não é possível saber quem é que Passos, Portas e Cavaco representam neste momento, dado que todos traíram radicalmente os seus eleitorados, mas sabemos que aqueles malucos ibéricos que são o sonho da Galiza e a inveja da Catalunha têm perto de 900 anos de irredutível independência.

Se os juízes não cederem, essa valentia será em nosso nome e devemos festejar com quem nos enche o peito de orgulho. No fundo, na política como no amor, o que está em causa é conseguir andar de cabeça erguida e olhar franco por entre iguais.

Anarquia do mais forte

Num blogue cujo elenco reunia actuais assessores do Governo e demais figuras dos aparelhos partidários do PSD e CDS, à mistura com arraia-miúda, podiam encontrar-se exercícios de ódio alucinado como este:

Migo! Migo!!

Há qualquer coisa de insuportavelmente repugnante naquele esganiçamento histérico com que Sócrates se vira para os congressistas berrando: ‘Está comigo todo o Partido Socialista? Vocês estão comigo??’

Livra, até o outro tarado, lá nos Parteitage de Nuremberga, berrava ‘Hinter uns kommt Deutschland!’ – e não hinter mich…

Carlos Botelho às 02:13 | comentar | partilhar | favorito

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12 comentários:

Anónimo a 9 de Abril de 2011 às 09:02

Tal como nos tempos do outro “tarado”, Portugal está a viver a sua própria fase “República de Weimar”, falido e com um Kaiser sem poderes e sem vontade. Os portugueses, tal como os antigos Weimarenses, criaram o seu próprio “tarado” e, ponho a cabeça no cepo, torná-lo-ão, ao tarado, Primeiro Ministro pela terceira vez.

Depois … depois a nossa Weimar cairá de vez e a Nazificação do regime será irremediável.

O que é inquietante é que se fazem comparações com a verdadeira Weimar, de uma forma ligeira, sem verdadeiramente acreditar que é essa situação que realmente vivemos. Expressões como “tiranete” implicam um cinismo por parte daqueles que se julgam superiores a tudo isto. Pois é altura de termos consciência de que o “tarado” não é um tiranete, mas um tirano, perigoso para Portugal e para os Portugueses … os que ainda cá moram, claro está.

Fonte

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O blogue em causa, o extinto Cachimbo de Magritte, era política e sociologicamente relevante por ser um desses espaços de acesso público onde se deixam a nu as entranhas putrefactas da actual direita partidária. O que lá se mostrava era a versão pública do que diziam uns aos outros nos almoços e na copofonia. E, certamente entre muitas caralhadas e calúnias febris, também podiam cuspir o que se lê acima: Sócrates é igual a Hitler – ou, no caso deste infeliz que assina Carlos Botelho, Sócrates consegue ser ainda pior. Para que não se pense estarmos apenas perante o espasmo canalha de um maluquinho a quem se acabaram os comprimidos, recorde-se que Catroga fez a mesma associação. Outros passarões laranja lembraram-se do Drácula e de Saddam. No fundo, estavam todos a espalhar esta sublime elucubração, uns por deboche e outros por demência: Sócrates é o Diabo.

Entretanto, o que importa reter é o comentário que por sorte ficou registado no Google. Nele se evidencia que as referências à República de Weimar, o período que antecede a instauração do nazismo, já vinham a ser feitas há muito tempo em Portugal. Apareciam como reacção espontânea ao período de crise política e económica começado em 2008, e agravado a seguir às eleições de 2009 e à queda da Grécia e Irlanda em 2010, ou como parte da retórica catastrofista de uma direita sem projecto e, por isso, decadente. Mas essa associação não é fatalmente irracional ou espúria, também pode ser legítima e frutuosa.

De facto, há diversos aspectos que parecem similares entre a situação alemã após a I Guerra Mundial e a actual situação portuguesa no contexto europeu. Os mais referidos têm sido a crise económica, o bloqueio político e a crise de valores. Sem surpresa, o discurso sobre a alteração profunda do regime, de modo a se abandonar o parlamentarismo por troca com o presidencialismo, começou a ser espalhado no espaço público por personalidades mais ou menos, e assim ou assado, ligadas a Cavaco Silva. A invocação de Weimar surgia como tentação irresistível para esses populistas encartados. Isto logo a partir de 2008, resultando da crença de que a oligarquia não conseguiria comprar ou assustar Sócrates e de que ninguém no PSD o conseguiria derrotar em eleições. Os acontecimentos de 2009, onde nem com golpadas escabrosas e inauditas que envolveram magistrados, polícias, jornalistas e a Casa Civil o conseguiram derrubar, provou à saciedade o diagnóstico. Tratava-se de um discurso que reunia fogosos artilheiros da brigada do reumático com celerados e acelerados arrivistas para quem valia tudo por ser tudo ganho para a sua deslumbrada gula, mas não passava de entretenimento despachado na indústria da política-espectáculo.

Continuar a lerAnarquia do mais forte

Encore un effort

Infelizmente, Cristina Esteves interrompeu Sócrates quanto este já ia lançado para continuar a malhar na expressão “regresso a mercado”, a qual é bem capaz de ser o que de melhor ficará da devastadora herança política de Passos, pelo que ficámos privados de saboroso entretenimento.

Mas o actual primeiro-ministro não tem só um discurso macarrónico para português não entender, ele também exibe uma pulsional vocação para ser a esponja do que não domina. Obviamente, nada pesca de Finanças, pelo que teve em Vítor Gaspar o mestre que lhe abria os olhos para o mundo e a fonte onde bebeu os tiques tecnocráticos que decoram a cultura do Banco Central e demais corredores alcatifados onde um gajo dá por si a pensar que chegou lá, que é mesmo ali. Foi também assim que Passos se encheu das suas bojardas ditas liberais, avançando à doida para qualquer medida que lhe digam ser boa para meter na ordem o maligno socialismo que nos levou à bancarrota por causa do rico dinheirinho dado a tanto malandro que nada mais fez do que trabalhar e envelhecer.

No fundo, o problema não está com ele, porque o homem limita-se a fazer o que lhe mandam. O problema está com os outros, esses que o rodeiam e lhe garantem que está quase, que é desta que nos vamos livrar do socialismo e dos seus dois tenebrosos braços: a Constituição e o Estado social.

A traição ou o caos, dizem eles

Assim, o presidente do CDS e vice-primeiro-ministro, que tem conduzido as negociações com a troika e que negociou as oitava e nova avaliações do cumprimento do acordo do memorando, deixou claro aos seus pares de direcção que, depois dos chumbos que têm sido feitos pelo Tribunal Constitucional, ficou explícito para os credores que há uma incompatibilidade entre a leitura que o Tribunal Constitucional faz da Constituição portuguesa, mesmo em estado de emergência financeira, e aquilo que é a transformação do modelo do Estado português que essas mesmas instituições credoras exigem ao país.

Daí que Portas tenha a percepção de que qualquer novo resgate financeiro a Portugal, adquira ou não este nome, irá ser feito com exigências que passam pela explicitação de que os partidos portugueses que podem ocupar o governo aceitam a transformação do perfil constitucional do Estado português. Uma exigência que o líder do CDS considera que nunca será aceite pelo PS. Temendo assim que, perante tal cenário, a governabilidade possa ser substituída pelo caos.

Direcção do CDS teme que segundo resgate imponha um “pacto constitucional”

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Ainda alguém se lembra do berreiro que a direita fez desde 2010 onde jurava que o FMI devia ter sido chamado mais cedo, e muito mais cedo, talvez logo em 12 de Março de 2005, porque só com os estrangeiros a pôr e dispor é que Portugal teria salvação? Foi muita gente junta, gente muito importante, a dizer que Sócrates era um louco por teimar em resistir à capitulação.

Dois anos e meio depois, ficamos agora a saber (fazendo fé nesta notícia) que a salvação consiste na destruição económica e social do País e ainda na “transformação do perfil constitucional do Estado português”. E que será isso ou o caos.

Paulo Portas é uma figura querida na sociedade, o Pedro é bom rapaz, Cavaco é seríssimo. Mas o que estamos a presenciar sob a desorientação e apatia da oposição só tem um nome: traição à Pátria.

Para quem não saiba, a pátria é aquela consciência colectiva de uma unidade onde radica a memória e a justiça. Quem a atraiçoa, atraiçoa-nos a todos, vivos e mortos.

A hecatombe das alternativas

Aquando da discussão do PEC IV, o Governo socialista e o PS também perguntaram à oposição qual era a alternativa. Mais: declararam que estavam dispostos a discutir e acolher alternativas. A oposição não queria discutir alternativas, mas foram rápidos a agitar as suas preferências. Que convergiam todas nesta sublime ideia consagrada pelo Presidente da República na solenidade da sua tomada de posse: já chega de sacrifícios. E depois o País foi para eleições, como toda a oposição entusiasticamente queria.

Hoje, o Governo do empobrecimento e a maioria da vergonha perguntam pelas alternativas. E gozam, arrotam, peidam-se alarvemente em público porque não há ninguém que se chegue à frente com alternativas. Nem sequer as eleições são agora uma alternativa, como as sondagens indicam monotonamente e Belém confirma impavidamente.

Mas há uma alternativa à falta de alternativas. Consiste em pensar. Cada um a pensar por si e a pensar para todos.

Uma coisa explica a outra

Se PSD e CDS tivessem dito na campanha eleitoral o que realmente pretendiam fazer quando fossem Governo, provavelmente nem teriam elegido um único deputado. Disseram, prometeram, garantiram exactamente o contrário.

Esta evidência não provoca um clamor nacional. E assim também se explica a mansidão cúmplice com que os portugueses aceitaram que uma cultura de calúnias e golpadas tivesse dirigido a luta política de 2008 a 2011. Gostamos de ser toureados, é uma coisa cá nossa.

Ajoelhaste? Então, reza

O professor de Economia na Universidade Católica de Luanda, Justino Pinto de Andrade, diz que as declarações de Rui Machete deram “uma má imagem de Portugal” em Angola.

No quadro das relações entre Portugal e Angola, presente e futuro não podem ser encarados da mesma forma. Se, no presente, Portugal pode ganhar com uma cumplicidade com Angola, no futuro o mais certo é vir a “perder”. Quem o diz é Justino Pinto de Andrade, professor de Economia da Universidade Católica de Luanda e líder do Bloco Democrático, para quem a forma como “as elites políticas” de Lisboa se relacionam com o poder em Luanda passou a linha da cumplicidade para o campo da “subserviência”.

O académico e político da oposição diz que as declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros português Rui Machete à Rádio Nacional de Angola (RNA) dão “uma má imagem” de Portugal em Angola. Algo que vem na sequência de comportamentos anteriores e que, ao contrário do que podem pensar os políticos portugueses, “não ajuda a fomentar as relações entre os dois países”.

A cumplicidade entre Portugal e Angola pode trazer “um maior fluxo” de comércio e investimentos, mas “só no curto prazo”, considerou o analista ao PÚBLICO. “Se olhar para o futuro, Portugal vai perder muito. As autoridades angolanas não respeitam quem se põe de joelhos. É uma forma muito negativa de relacionamento.”

Sinal disso é a forma violenta e depreciativa como o Jornal de Angola reage a notícias que comprometem o poder de Luanda.

Público, 8 de Outubro

Também de viva voz

Inteligência digital, procura-se

Consta que jornalistas e publicitários, a que ainda podemos juntar os profissionais de meios, são dos mais inteligentes mariolas que andam por aí à solta. Consumindo constantemente abundante informação, alguns até sendo cultos (dizem, os próprios), e exibindo uma pulsão para a conversa de merda que rivaliza com a dos advogados e a dos deputados do PSD e CDS, dir-se-ia que estavam em condições de compreender sem esforço este fenómeno singelo: quando se coloca um rectângulo, ou uma página inteira, à nossa frente só porque nos apanharam a querer ver outra coisa, tal experiência resulta numa irritada e muito rápida fuga do obstáculo em causa, gerando quase sempre uma amnésia e, quanto muito, dando origem a uma antipatia pelo produto ou marca responsável por mais um aumento de frustração no nosso quotidiano.

O que (não) se faz com a publicidade digital é a prova provada de que a inteligência, regra geral, continua a ser uma actividade analógica.

Não há dinheiro

A justificação para o empobrecimento desmiolado e rapace consiste nesta monolítica ideia de que não há dinheiro. Se não há dinheiro, dizem-nos a rir, então a democracia está suspensa, a Constituição fica obsoleta, a comunidade tem de abdicar do contrato social que é seu fundamento. Não há dinheiro, declara o primário primeiro-ministro na sua voz de barítono, porque ele foi gasto ao longo de muitos anos por gente muito má, muito tonta. Gente que andou por aí a espalhar escolas, hospitais, estradas, transportes, serviços públicos os mais variados em vez de ter guardado o dinheiro, assim reza a lógica do actual poder. Uma lógica para fanáticos e broncos.

E era mesmo isso que uma oposição opositora estaria agora a perguntar aos portugueses. Se estes também preferem viver sem escolas, hospitais, estradas, transportes, serviços públicos os mais variados, mas num país com dinheiro.

Comunismo com sabor a laranja

José Cesário, um paradigmático representante do PSD profundo, actualmente na função de secretário de Estado das Comunidades, fez um rasgado elogio ao deputado comunista João Ramos por este, em vez de lavrar a sua indignação e pedir a demissão de Machete olhando-o nos olhos, ter preferido fazer perguntas sobre o ensino de português no estrangeiro.

Este Ramos ou se enganou na ideologia ou na sala do Parlamento.

Audição completa

Revolution through evolution

Kissing Helps Us Find the Right Partner – And Keep Them
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Women’s Desire for a “Thigh Gap” May Fuel Eating Disorders
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Delayed Aging Is Better Investment Than Cancer, Heart Disease
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Innovation in Renewable-Energy Technologies Is Booming
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Wedded Bliss or Blues? Scientists Link DNA to Marital Satisfaction
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A Slow, Loving, ‘Affective’ Touch May Be Key to a Healthy Sense of Self
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Several Top Websites Use Device Fingerprinting to Secretly Track Users

Continuar a lerRevolution through evolution

Serei só eu?

Serei só eu a achar que o episódio da suspeita de espionagem na sede do PS, cuja queixa entrou na Procuradoria em Julho com o carimbo “dúvidas fundamentadas”, é um dos mais bizarros dos últimos anos, tanto pela aparente existência de matéria de facto como pela cortina de absoluto silêncio que rodeia esse caso?

A tal coisa

Vai acontecer a Passos o que aconteceu a Relvas. Assim que desaparecer de cena, ninguém mais gastará uma caloria a dar-lhe importância. Porque nunca a tiveram nem se acredita que venham a ter. Relvas e Passos foram os principais responsáveis pela existência de um Governo que conseguiu recuperar para a estima pátria o período de Santana Lopes como primeiro-ministro, um feito que para ser devidamente celebrado devia ser galardoado com o Nobel da Paz, o Nobel da Física, o Nobel da Química, o Nobel da Medicina, o Nobel da Literatura, o prémio Pritzker, o prémio Ostra e o prémio Sakharov, tudo ao mesmo tempo e entregue à molhada num saco de plástico. A memória deste casal servirá para nos espantarmos de quando em vez, em momentos de insana modorra, com a degradação a que chegou a direita portuguesa no século XXI. E para nada mais.

Pois é. Isto da importância é a tal coisa.

Cineterapia

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La cage dorée_Ruben Alves

“Já não vou ao cinema há mais de 20 anos”, dizia a minha mãe enquanto se preparava para sair. E lá foi. Ao cinema. Voltou feliz da vida. Adorou a “Gaiola Dourada”, um filme que “mostra mesmo o que é a vida dos emigrantes”, sentenciou sem margem para dúvidas.

Ao dia 9 de Outubro, fazendo fé no ICA, a primeira obra de Ruben Alves ultrapassou oficialmente os 700 mil espectadores – o que a coloca em 9º lugar na lista dos filmes mais vistos em Portugal desde 2004. Irá acabar nos 5 primeiros antes do final do ano, pelo menos, sendo “A Paixão de Cristo” o próximo gigante a ser derrubado dentro de uma ou duas semanas. É um sucesso quase chocante de tão surpreendente, que pede reflexão cinematográfica, sociológica e até antropológica.

Tudo neste filme, sem excepção, é banal. O enredo é simplório, as piadas são chochas ou gastas, as personagens são caricaturais, o trabalho dos actores é apenas o suficiente para ninguém se queixar, os clichés culturais são a matéria que enche os espaços e os modos do princípio ao fim. Mas com esta ressalva: estamos perante um filme francês. Isso, neste caso, implica ter valores de produção que facilitam a entrada na narrativa, implica ter uma montagem com eficácia comercial e implica ter o espectador francês como alvo prioritário da obra. Este último ponto, paradoxalmente, é o que acaba por explicar o sucesso do filme também em Portugal.

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“Não há nada de grave no comportamento de Rui Machete”

Verdade. Se o comportamento de Machete tivesse alguma coisa de grave, em que língua, viva ou morta, existente ou por inventar, conseguiríamos descrever o comportamento de Passos, Portas e Cavaco? Portanto, não, tenham lá a santa paciência, que aquilo que Machete fez, essa auto-humilhação de Portugal para angolano curtir, não tem nada de nada de nadinha de nada de grave. Verdade.

A única lição

A questão do chumbo do PEC IV é crucial em qualquer análise das causas da presente situação, mas não só pelo óbvio prejuízo financeiro, económico e social causado tanto pela abertura de uma crise política naquelas circunstâncias como pela entrega directa e alargada da soberania aos credores. Há um outro aspecto tão ou mais relevante.

A razão pela qual a direita, em geral, e o PSD, em especial, se sentiam tão ameaçados por Sócrates encontrava-se no seu carácter; o alvo de todas as calúnias, ora pois. Aquele socialista não se limitava a não ter medo da oligarquia – como a raiva que despertou em Belmiro de Azevedo e Soares dos Santos o demonstra à saciedade, por exemplo – igualmente o seu pensamento e tacto político o levava a conseguir conciliar agendas do agrado de empresários e do agrado de vastas camadas sociais, inclusive conseguindo esvaziar o BE das suas queridas e mediáticas bandeiras vanguardistas ou tão-só contemporâneas no campo dos direitos e dos costumes. Talvez o conflito com os professores tivesse chegado para retirar a maioria absoluta em 2009, mas, num universo paralelo onde a crise de 2008 não tivesse acontecido, quem sabe o que se teria passado? A dinâmica da requalificação, do investimento em ciência e tecnologia e do alargamento dos mercados exportadores só poderia melhorar o que já era notável: o começo da mudança de paradigma da economia portuguesa.

Olhemos, então, para a equipa de Sócrates no seu núcleo perene: Teixeira dos Santos, Santos Silva, Luís Amado, Pedro Silva Pereira, Vieira da Silva e Alberto Martins (primeiro como líder de bancada até 2009 e depois como ministro). Se reuníssemos as suas ideias sobre as origens da crise encontraríamos como mínimo denominador comum algo parecido com isto que Teixeira dos Santos verbalizou há dias:

O antigo ministro das Finanças Fernando Teixeira dos Santos afirmou hoje, em Braga, que a Europa não estava nem está ainda preparada para responder à crise e defendeu um orçamento federal para ajudar os países em dificuldades.

Teixeira dos Santos, que falava à margem de uma conferência na Universidade do Minho, disse que, neste momento, a Europa ainda não tem instrumentos de política orçamental para poder intervir, para poder suportar ou apoiar o esforço de crescimento dos países e para atenuar os impactos da austeridade nos países que têm processos de ajustamento.

“A Europa deu claramente mostras de que não tem instrumentos de intervenção”, disse.

Aludiu ao caso da Grécia, que pediu ajuda aos parceiros europeus mas a União Europeia “não tinha meios para lhe valer”, pelo que houve necessidade de recorrer a “um esquema de empréstimos bilaterais.

Este entendimento, que é uma posição de módica prudência face às evidências, caso tivesse sido mantido por um qualquer Governo português maioritário desde 2010 – o ano a seguir àquele em que a Europa apostou tudo no investimento público para evitar uma depressão e sair o mais rapidamente possível da recessão, o que gerou o aumento da dívida em todos os países europeus – levaria a que jamais o País se tivesse afundado num agravamento demente da crise como aquele a que assistimos em Março de 2011. E o que veio a seguir foi verdadeiramente desastroso, pois subiu ao poder um grupo de fanáticos e de incompetentes.

Em 2011, Portugal tinha um Governo cujo elenco era o que melhor conseguiria defender o interesse nacional face às alternativas em compita. Sim, a austeridade continuaria e os protestos de tudo e de todos igualmente. Mas não estaríamos mergulhados na miséria intelectual e ética de uma direita decadente. Esta é a única lição que se aproveita dos últimos dois anos e meio.