Desde os anos 80 que se regista um aumento da abstenção em todas as democracias europeias. E o grupo etário que cada vez vota menos é o do eleitorado mais jovem. Causas? As que têm sido repetidas à exaustão: aumento da desconfiança nos Governos e descredibilização dos políticos, aumento da complexidade dos problemas políticos e diminuição da soberania pelo crescimento da globalização e da integração europeia numa entidade supranacional, violência e irresponsabilidade da imprensa na exploração mediática dos escândalos com políticos cujo sensacionalismo ofusca e anula a discussão das questões da governação e impõe a tirania das alienantes lógicas do consumo da imagem e do voyeurismo sobre a privacidade das figuras públicas. Os políticos são dados como incompetentes e corruptos pelo simples facto de estarem na política, eis o que se cristaliza nesta cultura populista alimentada pela indústria da política-espectáculo e pelos grupos e ideologias extremistas para quem o centro político, a comunidade e a racionalidade são os alvos a abater.
As consequências são vastas. Por um lado, as populações tendem a ficar apáticas à medida que se vão sentindo enganadas pela discrepância entre as retóricas eleitoralistas e a realidade da prática governativa. O valor psicológico do voto diminui perante a percepção de ter cada vez menos influência na decisão dos Executivos, podendo até gerar um cálculo em que é mais compensador para o indivíduo abandonar por completo o esforço de entender o mundo à sua volta e mergulhar numa ignorância voluntária. Por outro lado, as crises económicas e sociais são o combustível perfeito para a erupção dos populismos e seu cardápio de violação dos direitos humanos, ódio às Constituições democráticas e desprezo pelo Estado de direito.
É a democracia que está ameaçada, pois, como sempre esteve e estará. E se não conhecemos ninguém que tenha qualquer solução pronta a aplicar para este tempo histórico e seus desafios onde nos calhou a vez de ser, há pelo menos algo que permanece imutável desde que as pedras começaram a ser lascadas por mãos iguais às nossas: no que venha a acontecer neste ponto ridículo e glorioso do Universo, uma parte será aquela que quisermos que seja. Mas qual?
