Arquivo da Categoria: Valupi

Take five

PS acusa Governo de “esvaziar” escolas públicas

É isso, é. E também é:

1. Recuar 40 anos no ensino das disciplinas,

2. Pôr uma pedra sobre todas as formas minimamente eficazes de formação e certificação de adultos,

3. Domesticar pelo medo os professores,

4. Fugir a todas as avaliações independentes dos resultados das suas políticas, e

5. Pagar o apoio dado ao PSD pelos colégios privados na campanha eleitoral de 2011.

Augusto Santos Silva

Ao cuidado do Plúvio

PROPOSITIO LIV. Poenitentia virtus non est, sive ex ratione non oritur, sed is, quem facti poenitet, bis miser seu impotens est.

Espinosa, ETHICA, PARS QUARTA

Que é como quem diz: o arrependimento não é uma virtude, nem tem origem na razão; antes, aquele que se arrepende duplica a sua miséria e a sua impotência. E esta está longe de ser uma originalidade do nosso Bento, sendo já uma lição estóica. Eis o meu singelo contributo para a investigação.

Mas, estando com a mão na massa, há que multiplicar os benefícios da viagem:

PROPOSITIO LVII. Superbus parasitorum seu adulatorum praesentiam amat, generosorum autem odit.

Também queremos usar essa maravilha da óptica

O humor involuntário, quando ocorre em matérias científicas, tem especial graça. Como é o caso nesta notícia do DN, onde uma destemida Paula Mourato informa os leitores do seguinte:

Investigadores dos Estados Unidos garantes que uma em cada cinco estrelas como o Sol tem planetas que podem ser habitáveis. Uma dessas estrelas está apenas a 12 milhões de anos luz da Terra e pode ver-se nitidamente do nosso planeta.

O facto de aparecer um “garantes” onde devia estar um “garantem” poderá ser explicado por distracção, eventual dislexia. E também desleixo, pois nem ela nem ninguém releu o texto antes de o publicar. Mas como explicar os “12 milhões de anos luz”? Para termos uma noção da distância que está aqui a ser proposta, imaginemos que enviávamos a Paula Mourato num foguetão para a galáxia Andrómeda. Assim que ela lá chegasse, e não vamos agora discutir em que estado físico e mental lá chegaria a coitadinha, o certo seria o de ter percorrido uma distância que corresponde a um quarto (25%) do que teria de percorrer para chegar à tal estrela “apenas” a 12 milhões de anos luz. Ora, como a Paula Mourato afiança que a tal estrela se pode ver nitidamente do nosso planeta, há que descobrir rapidamente qual é o genial telescópio onde isso acontece e saber se o podemos utilizar para tentar descobrir vida inteligente na direita partidária.

Agosto, num país perto de si

Marco António Costa sublinha que “a ser verdade o que é relatado pela imprensa que instituições bancárias [neste caso o Citibank] abordaram o anterior Governo para vender produtos financeiros que alegadamente permitiriam adulterar ou falsificar as contas públicas do Estado português” para questionar porquê que “o Governo de então não denunciou tais práticas ao Ministério Público e ao Banco de Portugal, como entidade supervisora do sistema financeiro”.

Ora, afirma o porta-voz do PSD, essa era “a atitude exigível para agentes do Estado quando confrontados com comportamento que podem configurar a prática de actos ilícitos”.

“Atendendo ao alarme público que este assunto suscita e às consequências políticas que o mesmo já ditou”, o “PSD reclama das entidades competentes a averiguação dos factos agora divulgados pela imprensa, para esclarecer, nomeadamente, a eventual ocultação de actos que poderão configurar ilícito criminal por elementos ligados ao anterior Governo”.

Fonte

Oscar da hipocrisia, Nobel da sonsice

No seu discurso no Instituto Politécnico de Tomar, por ocasião dos 75 anos da IBM em Portugal, Cavaco Silva elogiou a empresa como “um exemplo para o país” de que é possível alcançar “consenso” entre as principais forças políticas, que se colocaram de acordo sobre o projecto da IBM.

“Surpreende-me que Portugal seja um pouco a excepção, porque me chegam notícias frequentes, até da nossa vizinha Espanha, de diálogo frutuoso entre as diferentes forças políticas”, disse, para concluir que “os partidos em Portugal têm que se habituar a trabalhar também em conjunto principalmente nas grandes orientações para o futuro”.

Fonte

Revolution through evolution

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À série

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2012_Aaron Sorkin_1ª época

Aaron Sorkin é o criador da série The West Wing (1999-2006). Dizer que se trata de um dos melhores produtos televisivos de sempre não seria fazer-lhe justiça. Para além da sua função de entretenimento, o que em Portugal se intitulou “Os Homens do Presidente” é um brilhante curso ilustrado de política e de mitologia americana. Nele aprendemos que a governação em democracia realiza-se numa épica homeostase entre a tentadora canalhice e a libertadora decência. E com ele acreditamos que a ideológica superioridade americana está perfeitamente sintetizada na expressão que Lincoln cunhou no discurso de Gettysburg, em 1863, onde a democracia é definida como “government of the people, by the people, for the people“. Sorkin, exímio cultor do grande lirismo americano, sopra no barro dos seus protagonistas dilectos o espírito dos heróis fordianos – essa integridade sobre-humana, matricial, titânica, que não está acima do bem e do mal só por estar abaixo, por ser o próprio chão que sustém a humanidade.

Depois do fracasso com Studio 60 on the Sunset Strip, série televisiva que não passou da 1ª época, e do sucesso com The Social Network, filme realizado por David Fincher, Sorkin lançou The Newsroom. Dir-se-ia que o território do jornalismo político seria mais do que propício para o seu estilo de escrita facundo, frenético e fodido. Qual não é o espanto quando deparamos com uma fantochada onde ninguém e quase nada se salva. Começa no elenco, um miscast colectivo. Passa para a produção, onde o cenário principal não ambiciona ser mais do que um barracão com figurantes. Atravessa a direcção de actores, tendo sido feito um excelente trabalho para nos convencerem de que se filmou à primeira sem ensaio nem sequer leituras prévias do guião. E culmina na escrita, a qual parece de um principiante a quem fosse dito para imitar o estilo de Sorkin o pior que soubesse. Menção especial merecem os interlúdios cómicos, demasiado básicos para sequer serem aproveitados em conteúdos infantis, e menção especialíssima merecem os enredos românticos, tão aparvalhados, unidimensionais e mecânicos que talvez tenham inaugurado um novo género dramático. Em suma, tudo contribui para a suspeita de que esta série foi feita em cima do joelho, e por um centésimo do custo que precisaria para cumprir a sua promessa.

Uma excelente promessa, diga-se em abono da sua verdade. Por um lado, a narrativa apoia-se em acontecimentos reais e recentes, sendo que o primeiro é a explosão da plataforma Deepwater Horizon no Golfo do México em 2010. Por outro lado, o tema circular da série, literalmente ligando o primeiro ao último episódio, é o do Tea Party e da polarização alucinada que ele introduziu na política dos EUA. De tal forma essa questão é central que se poderia dizer que o democrata Sorkin, perante as catastróficas potenciais consequências em causa, tratou de servir à audiência um tempo de antena político polvilhado de ficção. E o que ele diz dos seus concidadãos é útil para o que temos a dizer dos nossos. Porque em Portugal há um análogo do Tea Party nascido da gula do casal Passos-Relvas e da decadência que habita em Belém. Tirando a dimensão religiosa, que por cá não aparece por variadas razões culturais e históricas, vejamos se a síntese de Sorkin sobre os fanáticos norte-americanos se pode aplicar, mutatis mutandis, aos fanáticos portugueses:

– Os mais conservadores dos Republicanos, actualmente, não são Republicanos.
– Os Republicanos defendem uma governação sensata, onde cabem programas de apoio social que provaram ser benéficos.
– Os Republicanos defendem o Estado de direito, a autoridade civil e o mercado livre.
– O Tea Party ama a América e odeia os americanos.
– O Tea Party considera que os pobres são pobres porque são preguiçosos ou estúpidos.
– Mais assustador do que as distorções do Tea Party é o silêncio dos Republicanos conscientes, inteligentes e influentes perante este fundamentalismo radicalizante.

Podemos agora substituir “Republicanos” por “social-democratas” e “Tea Party” por “aquela mistela de incompetência e traição que desgoverna Portugal”. As correspondências são perfeitas. As lógicas são simétricas. Os propósitos são os mesmos: aumentar a distância entre ricos e pobres.

Por causa da urgência em denunciar o perigo que esta ideologia violenta anda a espalhar, todos os defeitos de uma séria defeituosa estão perdoados, meu grande, enorme Aaron Sorkin.

Zé de Lisboa

Calhou passar pelo período de maior boémia na minha vida nos anos em que abriu o Plateau, final de 1984 se bem me lembro, e o Bairro Alto se consagrava como o parque de diversões nocturnas de Lisboa, em parte decisiva criado pelo Frágil e seu vanguardismo. Por motivos circunstâncias ligados às pessoas com quem saía à noite, tornei-me um habitué da discoteca do Paco, logo depois também do Pedro Luz. Foi aí que conheci o Zé da Guiné.

O mais frequente era o Zé entrar sozinho e ficar sozinho depois de entrar. Registo esta memória porque costumava pousar entre o bengaleiro e a porta à conversa com os porteiros e com outros a descansar dos decibéis e do sufoco. A sua imponente figura, não por ser alto mas por nesse tempo estar musculado de uma forma que faria as delícias da estatuária grega clássica, transmitia uma irradiante calma. Ele era como um mestre Zen de origem africana embrulhado num visual que representava o melhor do cool lisboeta.

Eu e um amigo fazíamos questão de tentar falar com ele. Por falar, entenda-se: trocar algumas palavras. O resultado era invariavelmente o mesmo, não conseguindo mais do que criar a ilusão de que alguma coisa tinha sido dita embora ninguém estivesse em condições de saber o quê. O adiantado da hora explica parte do fenómeno, mas a outra parte é que é a boa. O seu sorriso. Um sorriso tão destemido, tão convicto, que nos fazia instantaneamente gostar daquele homem que, pela sua simples presença, vencia todos os preconceitos, epidérmicos ou latentes.

O Zé era parte essencial daquela Lisboa, daquela noite, daqueles que nós éramos. Daquilo que somos.

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Bela elegia: a beautiful child

Costa, o herege


Quadratura do Círculo_24 de Outubro de 2013

António Costa desmonta parte da gigantesca manipulação e chantagem que a direita montou à volta do chumbo do PEC IV e subsequente resgate. Esses dois acontecimentos são instrumentais no plano de alterar o regime nascido do 25 de Abril, onde o modelo do Estado social se constituiu como uma das mais históricas e fundamentais conquistas populares. Ao fazer de Sócrates e do PS o saco de encher diário da verborreia do laranjal, a direita não está apenas a usar uma táctica adequada a um país onde reina a iliteracia, a incipiente participação cívica, a aversão ao exercício intelectual e um estado de depressão colectiva. Está também a prosseguir uma estratégia cuja ambição não pode ser maior: transferir para a oligarquia o máximo de riqueza que for possível roubar à República. É essa a singular finalidade do ataque ao Estado e à Constituição.

Com este discurso, Costa pode contar com o fatal anátema político do cardeal Policarpo, santa figura que recentemente profetizou ter Portugal dinheiro apenas para mês e meio se a Troika fechar a torneira. Mas igualmente este discurso irá perturbar o diácono Seguro, um pio ser que fez voto de silêncio acerca dessas matérias pestíferas do PEC IV e quejandos; por serem obra do Diabo, quem mais. Quando tem de enfrentar os justos que lhe lançam à cara os pecados alheios, Seguro cala-se, resigna-se e ajusta o cilício com redobrado fervor. Maneira que estas palavras e palavras como estas ficam remetidas a um canal cabo, às quintas-feiras, algures entre as onze e a meia-noite.

É o que se arranja.

Porcaria na ventoinha

Hoje é um daqueles dias em que estamos a mostrar ao Norte da Europa que apesar de sermos geneticamente mandriões, estróinas e caloteiros ainda vale a pena terem um bocadinho de esperança na nossa cura e salvação. Desde que a gente séria esteja a mandar nisto, com a sua extraordinária competência e ofuscante honestidade, com a sua heróica ausência de pieguice, termina logo o regabofe. E não nos faria mal algum acabarmos com todos os feriados, com as férias e ainda com o sábado ou o domingo como dia de descanso semanal – neste caso, sendo dada a possibilidade de escolha ao trabalhador, pois finalmente os liberais portugueses chegaram ao poder e há que espalhar a liberdade. Assim reza a doutrina leporídea, por enquanto apenas discutida em almoços e jantares selectos.

É impressionante constatar como aqueles que afundaram Portugal, tourearam o eleitorado e rebentaram com o que restava da economia e dos apoios sociais permanecem sem castigo popular. Mas ainda mais impressionante é tal acontecer com quem, para além da intrujice colossal, apareceu a exibir asco pelos portugueses. Disseram que vivemos num luxo asiático por culpa dos socialistas, nós que sempre nos conhecemos pobres ou remediados. Acusaram-nos de preferir a sombra da bananeira do Estado à dignidade de ter uma profissão, nós que trabalhamos tanto ou mais do que os restantes europeus e por muito menos. Chegaram a mandar-nos sair do País, esse país onde eles beneficiaram desde que nasceram, ou cá chegaram, do nosso contributo para a sociedade.

É o mesmo discurso odioso com que os colonizadores e os miseráveis sabujos falavam dos pretos, essa raça de preguiçosos que melhora a sua condição existencial na directa medida em que o chicote lhes chegar aos costados. São muitos anos disto na oligarquia, séculos, uma cultura de senhoritos e tiranetes que permanece como o mínimo denominador comum do albergue espanhol que é a actual direita partidária.

Cuidem-se

Aproveitando a boleia da Fernanda – Carrilho trágico – importa lembrar que Carrilho foi e é alguém que é recompensado com dinheiro e espaço mediático para exercícios de ódio que, pela sua extensão no tempo e pela tipologia maníaca, configuram um caso patológico óbvio. E por óbvio quero dizer evidente. E por evidente quero dizer que é preciso ser um calhau com dois olhos para ter caucionado ou continuar a explorar a sua gravíssima perturbação.

A política, porque implica uma luta pela sobrevivência social e pelos recursos materiais, gera amiúde fenómenos de ódio. É uma ameaça sempre latente que tem sido utilizada como estratégia generalizada em Portugal pela direita desde 2008 até hoje. Mas é diferente o ódio assimétrico nascido das desigualdades económicas ou dos preconceitos de classe do ódio fulanizado e narcísico. Carrilho revelou-se um farrapo humano na obsessão com que persegue Sócrates, sendo que aqui o que menos importa é o nome do seu alvo. Como hoje sabemos, até a mãe dos seus filhos e respectiva família, a qual é igualmente sua por laços de sangue, lhe aparece como alvo legítimo para um ódio que, diz-nos a literatura clínica e policial, ameaça consumar-se em crime de morte. Quem diz o que Carrilho já disse publicamente não está mais num plano de domínio psicológico onde seja capaz de se responsabilizar pelas suas acções.

Todos os episódios de violência doméstica são criminosos e, potencialmente, podem gerar a perda de vidas. A haver alguma utilidade social na cobertura mediática do caso Carrilho-Bárbara é mesmo esta de estarmos perante a exposição de uma doença grave, a qual convive connosco no meio da nossa indiferença ou cobardia.

Os que aplaudiram o Carrilho raivoso e patético só porque partilhavam um ódio comum que se cuidem. Literalmente.

Se Portugal tivesse oposição

Numa democracia constitucional, como a que temos, a lei suprema nasce de um acordo maioritário validado pela comunidade. A Constituição vai buscar à sua legitimidade prévia a posterior dinâmica evolutiva, podendo o texto fundamental ser alterado sempre que a maioria necessária para o efeito assim o delibere.

Numa democracia liberal, como a que temos, a governação é, por inerência, um exercício reformador. Reforma-se incessantemente como forma de responder à imparável alteração das circunstâncias económicas, sociais e políticas. Só um regime que se arrogasse a posse de uma qualquer verdade histórica ou religiosa abdicaria do propósito reformador por ver nele a perda da verdade original.

A direita portuguesa, servida pelo formidável aparelho mediático que domina e com a decisiva cumplicidade da esquerda, teve sucesso na operação que fez de Sócrates e do PS os únicos responsáveis pelas consequências das crises internacionais que rebentaram em 2008 e 2010, apagando qualquer referência às causas externas. Continuou a ter sucesso na estratégia de alto risco que consistiu em afundar o País no resgate e em mentir de alto a baixo e do princípio ao fim na campanha eleitoral. E é de sucesso que temos de falar perante a facilidade, até impunidade, com que ataca a Constituição e os juízes do Tribunal Constitucional só para concluir um plano de destruição económica e devastação social que a oligarquia considera ser proveitoso.

Não, defender a Constituição não equivale a defender a imutabilidade do texto constitucional, pois isso seria igual a renegar a legitimidade democrática da Lei. Não, acusar Governos anteriores de terem errado só porque eles tiveram de lidar com crises globais e sistémicas de origem externa não corresponde a nenhuma forma de debate intelectual, é apenas hipocrisia e cinismo, o triunfo da chicana como modus operandi da baixa política.

O que está em causa é fazer frente a quem pretende alterar o regime à força, grupos e indivíduos que agravaram as dificuldades nacionais por infrene calculismo político e que estão agora a explorar os constrangimentos assim impostos para conseguirem aquilo que democraticamente jamais obteriam. E estes grupos e indivíduos não se comovem com sofrimentos da população passados, presentes ou futuros, pois estão a tratar de aumentar a sua riqueza, sabendo-se blindados no topo da pirâmide social e protegidos vitaliciamente pela oligarquia.

Ah, como tudo seria diferente se Portugal tivesse oposição…