Não confio politicamente no Rui Tavares. Parece-me uma figura volúvel e oportunista. Tudo isto com as melhores intenções, as dele. Acima de tudo, não o tenho como um democrata de raiz, posto que não se chegou à frente dando o corpo às balas quando o Estado de direito começou a ser violado na fúria de derrubar Sócrates. Terá até sido ao contrário, mal contendo o gozo por ver um primeiro-ministro a ser torturado pela oligarquia. Vejo-o como um democrata de flor na lapela, portanto. O que nos leva para o partido que acaba de fundar: Livre
Se aceitarmos que esse canal contém o essencial do que está em causa, então a promessa mais reveladora será esta:
“A cooperação e convergência entre partidos da esquerda portuguesa é um dos objetivos deste partido político, bem como o diálogo com todas as forças sociais e políticas para o aprofundamento da democracia em Portugal, na Europa e no resto do mundo. Esta convergência será realizada de forma aberta e democrática, sob o princípio da subsidariedade para programas conjuntos locais, nacionais ou europeus.“
Numa leitura literal, o que está aqui a ser proposto é algo do foro da consultoria ou da terapia. O Livre assume-se como o meio, a equipa, o veículo para se chegar às figuras da “cooperação” e “convergência” entre partidos da “esquerda”. Mas porquê? E para quê? Acaso o Tavares acha possível conciliar o sectarismo fanático do PCP com as responsabilidades governativas do PS? E dar-se-á o caso de o Tavares acalentar o delírio de poder escapar ao ódio eterno do BE? É muita fantasia junta num terreno onde nem sequer os comunistas e os bloquistas conseguem dar-se ao respeito mútuo, quanto mais a alianças. A menos que continue a sonhar com os votos de Alegre, o tal milhão de professores abraçados à legião dos recibos verdes que ia acabar com o PS, na gula de alcançar o que nem Louçã conseguiu.
O Livre, no seu espaço digital, apresenta-se como um produto de fácil consumo, embrulhando-se em generalidades a roçar o vácuo para digestão rápida. O mais estranho (chocante?) é o grau de abstracção que invade todas as linhas disponíveis para leitura. Onde está a situação? Onde estão as histórias e a História? Onde estão os portugueses? É que nem sequer a referência à Troika – LIBERTAR O PAÍS DA TROIKA, DA DEPENDÊNCIA, DA DÍVIDA E DO SUBDESENVOLVIMENTO – permite qualquer entendimento do que esteja a ser concretamente proposto.
Há que dizer o óbvio: a questão da convergência à esquerda começa por saber quem é que está disposto a pôr o Estado de direito à frente da ideologia. Sem esta primeira pedra, não há construção possível de uma casa comum.