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Pacheco cheio de saudades do animal feroz
A campanha foi confrontacional e isso foi positivo e muito eficaz. Aliás, os aspectos mais interessantes da campanha foram esses mesmos, os momentos em que em vez de dois monos a recitar frases feitas que passam por ideias, os dois homens se atacaram um ao outro, revelando-se como personalidades políticas. Personalidades políticas é personalidade+política, e isso mobilizou as pessoas exactamente em relação inversa à beatice hipócrita com que se recusava a “campanha pessoal”. Em inglês há uma palavra para isto, “sanctimonious”. Os nossos costumes oficiais de salamaleques, uma herança maldita do salazarismo e da censura na nossa vida colectiva, considera o confronto uma baixaria indigna da pompa do estado. Deviam ir ao Reino Unido, o país com mais forte tradição parlamentar, para ver o que é dureza nos debates. Nós cá somos uns anjinhos. O problema destas campanhas, de frente a frente, é que mobilizam a empatia, a simpatia e a antipatia, e isso é melhor do que as estratégias de plástico das agências de comunicação. Revelam logo quem é medíocre e fraco, ou quem é arrogante e ignorante, ou quem é hipócrita e genuíno. São duras porque são cruéis.
Louçã e o princípio da saída da crise
Louçã anda a escrever todos os dias e a fartura é tanta que até lhe deu para explicar o PEC IV à esquerda pura e verdadeira. Vindo do homem que declarou ser a sua recusa o “princípio da saída da crise“, está bem de ver que é prosa de especialista. Mas as ocasiões para discutir o PEC IV com os responsáveis pelo seu chumbo são tão raras que esta merece a nossa mais dedicada atenção. Bute lá.
Tudo se resume a um ponto: o PEC IV ser um conjunto de medidas de austeridade que jamais o BE e o PCP poderiam aprovar sem com isso estarem a abdicar dos seus programas e identidades. Esta lógica é indiscutível, vai por isso sem discussão, mas é também, e pela mesmíssima razão, um sofisma. Para se manter internamente coerente precisa de se separar da situação concreta onde historicamente se realizou, precisa de se transformar numa abstracção.
Abstracção é igualmente a acusação que se faz ao PCP e ao BE de se terem aliado à direita no chumbo do PEC IV para derrubarem o Governo socialista. É uma abstracção por não atender à anterior abstracção com que Louçã responde a esta. Quem tem chamado à sua responsabilidade BE e PCP, todavia, está a apontar para a situação concreta onde se decidiu ser preferível entregar o poder à direita do que continuar com ele nas mãos da esquerda – ou que fosse só nos dedos, no mindinho.
O argumento de Louçã é básico e não pode deixar de o ser sob pena de se esboroar. Louçã não se relaciona intelectualmente com o contexto de Março de 2011 e seus inerentes constrangimentos: Governo minoritário + pico da crise europeia das dívidas soberanas + política europeia sob domínio ideológico e formal dos fanáticos da austeridade radical + oligarquia portuguesa interessada no derrube dos socialistas assim que Cavaco fosse reeleito + oligarquia portuguesa interessada na vinda da Troika nas condições mais leoninas que fosse possível conseguir para a imposição do ataque ao Estado social. Louçã apaga a realidade por uma simples razão: apesar de tudo, é um rapaz que tem vergonha na cara – prefere esquecer que ele sabia de ciência certa que Sócrates estava coberto de razão quando, ainda a tempo, anunciou quais seriam as consequências reais da entrega do País à direita mais decadente que já apareceu nesta terra de marinheiros e fadistas.
A vitória de Costa deixou os sectários da esquerda pura e verdadeira num estado febril. Jerónimo começou logo durante a campanha das primárias a gritar que vinha aí o Belzebu, um taralhouco na bancada do BE convenceu-se de que alguém está interessado no seu ódio ao PS, várias figuras menores não se têm cansado de agitar as bandeiras do asco que sentem pelos socialistas, e Louçã foi pelo mesmo caminho, embora com mais originalidade, aqui ligando Costa ao PEC IV. O que estão a dizer em coro é que só aceitariam negociar com o PS caso este partido de direita assumisse que estava há 40 anos no lado errado da barricada. Ou tudo ou nada, propõem os guardas da revolução.
Teria sido, de facto, impossível aprovar o PEC IV com os votos do PS, BE e PCP? Estará para nascer duas vezes quem diga que seria possível. Mas podemos imaginar as condições de tal milagre. Começaria por uma reunião. Ou começaria por muitas reuniões. As reuniões serviriam para se fazerem trocas. As trocas teriam de ser exequíveis. Por exemplo, querer trocar o voto favorável ao PEC IV pela saída de Portugal da zona euro e da União Europeia não seria exequível. Querer trocar o voto favorável ao PEC IV por medidas que reforçassem o Estado social e a condição dos trabalhadores seria exequível. Exequível mas não imediatamente, pois o PEC IV estava a ir na direcção contrária por força de factores que escapavam ao domínio da soberania nacional naquela situação. Então, quando? Quando pudesse ser, é a resposta. E para o poder ser, os partidos que estariam a negociar esse acordo estariam no mesmo passo a negociar um acordo de Governo para o restante daquela legislatura e para a legislatura seguinte. O ganho imediato, portanto, era o de evitarem entregar o pote aos bandidos. O ganho mediato, o de se ver pela primeira vez em Portugal a esquerda a governar com a extrema-esquerda.
Mas milagre por milagre, teria sido muito mais fácil fazê-lo logo em Setembro de 2009. Nessa altura, houve mesmo reuniões. Uma com cada partido da oposição. Ainda não se sabia do estouro que a Grécia estava para dar e do terramoto que tal gerou na Europa. Apenas se sabia que PSD, CDS, BE e PCP concordavam no essencial: os portugueses iriam ser carne para os canhões dos traidores e dos sectários.
Estado da Nação
Manela, a técnica e a forma
Manela e a construção de histórias
Manuela Ferreira Leite disse esta noite no programa Política Mesmo da TVI 24 que se recusa a "participar na construção de histórias", manifestando "relutância em falar de assuntos que ainda não são factos". A antiga presidente do PSD referia-se ao "caso Tecnoforma" em que Passos Coelho enfrenta suspeitas, oriundas de uma queixa anónima que chegou à Procuradoria Geral da República, de fraude fiscal e de se ter aproveitado de uma situação de "exclusividade" no Parlamento, que não se terá verificado.
Manela e a destruição de pessoas
Ferreira Leite estranhou que "este tema venha para a praça pública numa altura em que estamos a entrar em campanha eleitoral" e que o caso "cheira a histórias anónimas que surgem nestas alturas para destruir pessoas".
Manela e os assuntos importantes
A social-democrata lamentou que não se estejam a discutir assuntos importantes para o País e disse que o Governo devia estar a ser julgado pela sua atuação e não pelo passado do primeiro-ministro.
Manela e os sinais exteriores
A ex-líder laranja destacou o dinheiro em causa (1000 contos, equivalente a 5 mil euros, por mês) tornariam qualquer um "riquíssimo". Ora, Passos Coelho não corresponderá ao perfil, pois, "não vejo [no primeiro-ministro] esses sinais exteriores de riqueza".
2014
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Manela e a construção de histórias
Referindo-se à intervenção que fez a 11 de Novembro no Parlamento, exigindo que o primeiro-ministro esclarecesse o conteúdo das escutas de conversas suas que motivaram certidões judiciais, Manuela Ferreira Leite declarou: "O que foi dito na Assembleia é que o primeiro-ministro está sob suspeita e essa suspeita é lançada por entidades judiciais".
“E ele, ao não desfazer essa suspeita, significa que temos um primeiro-ministro sob suspeita, o que não é bom para o país", rematou a presidente do PSD, escusando-se a prestar mais declarações.
Manela e a destruição de pessoas
No final de um debate sobre os 35 anos do PSD, promovido pelo Instituto Francisco Sá Carneiro, em Lisboa, Manuela Ferreira Leite foi questionada sobre a acusação do PS de que teve acesso prévio ao teor dessas escutas. “O problema que está em causa não tem a ver com o acesso às escutas - tem exactamente a ver com o facto de o povo português não conhecer o conteúdo das escutas”, respondeu a presidente do PSD.
Manela e os assuntos importantes
Manuela Ferreira Leite afirmou, hoje, no Parlamento, que o processo "Face Oculta" está a "ganhar contornos políticos" e que, por isso, José Sócrates deve prestar esclarecimentos sobre o caso. "O Primeiro-Ministro tem consciência da necessidade de esclarecer o país. As dúvidas políticas não se resolvem adiando investigações e destruindo provas", frisou a líder do PSD.
Ferreira Leite considerou ainda "lamentável o espectáculo que os órgãos superiores de justiça deram ao longo da semana", reportando-se a declarações do Procurador-geral da República e do presidente do Supremo Tribunal de Justiça a propósito da validação ou anulação das referidas escutas.
"O que se está a passar é inadmissível", disse a líder do PSD, referindo-se ao processo "Face Oculta" e aludindo à anulação das escutas da conversa telefónica entre Armando Vara e o primeiro-ministro. Manuela Ferreira Leite reclamou a José Sócrates "que tome a iniciativa de esclarecer a opinião pública, já que a justiça não consegue esclarecer".
Manela e os sinais exteriores
Para a líder do PSD a "actuação da justiça neste processo e o silêncio do primeiro-ministro transformaram esta matéria, que poderia ser apenas jurídica, numa questão política". E, nesse contexto considera que "as questões políticas não podem esconder-se atrás das explicações jurídicas" e que "as dúvidas políticas não se resolvem adiando os problemas e eliminando provas".
Ferreira Leite fez mesmo alusão ao teor das escutas considerando "inadmissível" a "intromissão do Governo na área da comunicação social".
2009
A bandidagem que se cuide
Seguro vai continuar como deputado, consta. Eis os direitos dos deputados:
a) Adiamento do serviço militar, do serviço cívico ou da mobilização civil;
b) Livre trânsito, considerado como livre circulação em locais públicos de acesso condicionado, mediante exibição do cartão de Deputado;
c) Passaporte diplomático por legislatura, renovado em cada sessão legislativa;
d) Cartão de Deputado, cujo modelo e emissão são fixados por despacho do Presidente da Assembleia da República;
e) Remunerações e subsídios que a lei prescrever;
f) Os previstos na legislação sobre protecção à maternidade e à paternidade;
g) Direito de uso e porte de arma, nos termos do n.º 7 do presente artigo;
h) Prioridade nas reservas de passagem nas empresas públicas de navegação aérea durante o funcionamento efectivo da Assembleia ou por motivos relacionados com o desempenho do seu mandato.
O que a situação configura é de uma transparência cristalina. Seguro vai usar todos estes recursos, incluindo o porte de arma e a prioridade nas reservas de passagem nas empresas públicas de navegação aérea, para lançar uma perseguição implacável ao PIIN (Partido Invisível dos Interesses e Negócios). A podridão do regime, que acaba de aumentar com a escolha de Ferro para liderar uma bancada cheia de corruptos, irá ser alvo de um combate feroz e literalmente sem quartel.
Donde vem esta certeza? Do facto de Seguro só prometer o que sabe ir cumprir e de ser um político como nenhum outro que a memória dos vivos conserve, um daqueles que honram a sua palavra. Pelo que, daqui até ao fim da legislatura, a higienização que Ana Gomes e Carlos Abreu Amorim queriam para o PS vai mesmo acontecer – nem que para isso Seguro tenha de sacar da pistola e mandar uns balázios a partir da sexta fila.
Fezada II
Coisa linda de se ver: os direitolas estão de regresso ao Estado de direito
"Já tenho anos suficientes na política, em Portugal, para não acreditar que isto é apenas uma coincidência", começou por dizer à comunicação social, à margem de um seminário sobre "Competitividade Regional", organizado pela Associação Comercial e Industrial do Funchal (ACIF).
"Agora, do meu ponto de vista, há um aspeto muito negativo nesta questão, nós não podemos deixar de perceber que estas acusações ou estes rumores sobre eventuais delitos fiscais ligadas a figuras do PSD acontecem pouco depois de ter havido condenação de figuras do Partido Socialista", recordou.
O fiscalista considera ser "lamentável que, num país, exista a possibilidade de algum modo instrumentalizar os segredos fiscais, os segredos dos processos para fazer compensações políticas desta natureza".
"Obviamente os delitos fiscais ou de corrupção são iguais para todos qualquer que seja a sua origem ideológica mas temos a sensação, nós, cidadãos, que pode haver algum conluio entre instâncias judiciais, jornalistas e políticos, conluios que não percebemos, que não sabemos como atuam", disse.
"É um fator de insegurança enorme e isso preocupa-me muito mais do que o delito fiscal em si", concluiu.
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O progresso mede-se assim: há cem anos, para derrubar um governo, ia-se a um quartel; agora, vai-se ao tribunal. O golpismo mediático-judicial é a versão democrática do golpismo militar da primeira república. O caso da Tecnoforma lembrou-nos, a semana passada, como estas coisas se fazem. Depois do procedimento judicial, que pode consistir apenas no arquivamento de uma carta anónima, há a fuga de informação, calibrada para que a oposição e a imprensa possam gritar por “esclarecimentos” que, venham quando vierem, já se sabe que serão sempre “tardios” e “incompletos”. Ao visado, de nada serve “mostrar tudo”. Resta-lhe subir a parada, como Passos Coelho terá feito na sexta-feira, e colocar o caso no plano da conspiração. A partir daqui, cada um acredita no que quiser.
Há muito tempo que em Portugal, como noutras democracias, o debate de políticas públicas ou de princípios doutrinários conta menos na disputa política do que a esgrima dos escândalos. As primárias do PS confirmaram a tendência, quando Seguro tentou pregar Costa à cruz do “partido invisível”. Para qualquer concorrente, a esperança nunca é convencer os eleitores com um argumento, mas comprometer o rival num escândalo ou submetê-lo a uma súbita luz melindrosa.
Fezada
Revolution through evolution
Fear of failure from a young age affects attitude to learning
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Cheater, cheater: Study shows what happens when employees feel excluded at work
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We drink more alcohol on gym days
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Video Blinds Us to the Evidence
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Walking Off Depression and Beating Stress Outdoors? Nature Group Walks Linked to Improved Mental Health
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Nine Tips to Achieve an Amicable Divorce
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‘The Process by Which Drugs Are Discovered and Developed Will Be Fundamentally Different in the Future’
Quando o telefone não toca
No discurso de derrota, Seguro disse, e mais uma vez, que tinha feito História. Será até provável que já tenha perdido a conta às vezes em que fez História só nestes três anos de poleiro. E disse que a sua campanha tinha sido “memorável”, algo que ninguém se atreverá a contraditar. E mais disse que vai continuar a lutar pela separação entre a “política” e os “negócios”, o que será especialmente interessante de acompanhar caso Costa não o inclua na lista de deputados para a próxima legislatura. O que Seguro não vocalizou foi a declaração convencionada de etiqueta democrática entre rivais políticos no desfecho da contenda: “Telefonei ao fulano e dei-lhe os parabéns.” Ou seja, antes e depois, acima e abaixo, do páreo está a comunidade, é o que esse ritual celebra e consagra.
Terá telefonado? Terá mandado alguém telefonar por ele? Ainda não li nenhuma referência a esta questão. Porque é uma questão. A qual aponta, se ficarmos apenas limitados ao espectáculo mediático, para uma ausência de contacto pessoal. Contudo, se Seguro telefonou a Costa, não o ter referido na sua declaração de derrota continuará a ser relevante para as contas finais deste longo e destruidor ciclo no PS – e na oposição – que começou em Setembro de 2011.
Por sua vez, Costa dirigiu-se a Seguro com pujantes gestos políticos. Primeiro, quando apareceu de cravo ao peito. Depois, quando lançou o cravo para a plateia, ridicularizando o ridículo vídeo do ridículo Seguro. Por fim, quando se dirigiu ao Rato e se passeou triunfal no que poucas horas antes tinha sido o quartel-general do seu adversário. Foi uma humilhação à antiga, de sabor e requinte clássicos, mas a qual só foi possível de aparecer como oportunidade pelo absoluto desrespeito de Seguro pela democracia interna do partido nascido da confusão que fez até ao último momento entre a sua carreira política e a sua vidinha.
Para o meu palato, teria preferido que Costa falasse de Seguro. Para o pendurar na parede, em nome do partido. E para o expor como um pulha, em nome da cidade.
A vitória das vitórias nestas primárias
As primárias nasceram tortas e por péssimas razões, permitindo a campanha negra de Seguro. No balanço final, o seu maior mérito não diz respeito aos números da participação, os quais não comparam com nada e que tenderão a ter a mesma dinâmica avulsa dos referendos. Ao se repetir o modelo, eventualmente, e sem a novidade e dramatismo das actuais, poderão ser um completo fracasso representativo. O seu maior mérito está é no chumbo do populismo básico e tosco de Seguro, juntamente com a sua estratégia de emporcalhamento do espaço público e de degradação insanável do partido. Isso recoloca o PS como baluarte da cultura democrática e republicana em Portugal depois da maior ameaça de sempre à sua identidade e função no regime.
Quando se fala do afastamento dos cidadãos face à política, a resposta dos populistas e dos broncos é invariavelmente a de tentarem destruir a política, naquilo que não passa de uma gula ditatorial ou de uma pulsão suicidária. Porém, também invariavelmente, os cidadãos mostram que respondem com o seu voto aos discursos que os tomam como seres inteligentes e decentes. É um fenómeno já com mais de dois mil e quinhentos anos.
Começa com um desperdício
Seguro não quis falar com os jornalistas depois da declaração de derrota. Compreende-se e agradece-se. Costa não quis falar com os jornalistas depois da declaração de vitória. Uma declaração sem qualquer balanço do processo e sem qualquer indicação acerca do futuro próximo. Compreende-se e não se agradece.
Começa com um desperdício o primeiro dia dos últimos dias deste desgoverno.
Primários
Pedro, mostra o jogo
A Fernanda, no seu Referencial de ética, usou uma expressão que é de rigor geométrico para sintetizar o essencial da prática política de Passos Coelho: “jogar o País ao póquer“.
Foi nisso em que se meteu quando afundou Portugal numa crise política que, no imediato, tornava inevitável o resgate de emergência, e que, com alta probabilidade, poderia não ter dado uma maioria absoluta à direita – o que não se imagina como viria a possibilitar uma qualquer solução governativa dada a política de terra queimada da direita e o sectarismo fanático da esquerda. Como teria ficado o País vendo a Troika a chegar à Portela e não existindo novo Governo estável, ou sequer formado, à sua espera em S. Bento? Tal como se contou na altura, o único critério a que Passos atendeu foi o da sua sobrevivência à frente do PSD, custasse o que custasse aos habitantes do rectângulo e adjacências.
Assim que se agarrou ao pote, começou a fazer exactamente o contrário do que tinha prometido na campanha eleitoral. A dimensão da fraude eleitoralista conjugada com a violência das medidas além-Troika poderiam ter causado tumultos sociais de consequências colossais. Que teria acontecido neste país caso a comunicação social e o PCP tivessem reagido de acordo com a lógica que usaram para desgastar e boicotar a governação do PS? Se com Sócrates, com um programa de desenvolvimento económico e defesa do Estado social apesar das crises gigantescas que teve o azar de apanhar pela frente, conseguiram inflamar a opinião pública até ao paroxismo do ódio, então tudo o que ficasse abaixo de uma revolução vermelha não estaria a fazer justiça ao programa de Pedro&Paulo.
A crise aberta pelo irrevogável que na altura ocupava a terceira posição no Governo e ainda não tinha um gabinete com vista para o Jardim Zoológico foi igualmente vista como ocasião de uma magnífica jogada de Passos, o qual saiu da efectiva implosão do seu executivo como o grande vencedor que, de caminho, conseguia apagar os efeitos da demissão de Gaspar, um abandono impensável desde o início da governação; assim como já tinha conseguido saltar por cima da demissão de Relvas, outro abandono impensável dado serem um casal inseparável desde os anos 90. Só que neste caso talvez o bluff de Portas tivesse sido tão evidente que Passos nem sequer terá tremido de emoção.
Agora que foi finalmente apanhado sem possibilidade de fuga – só porque decidiu não esclarecer a situação, ou porque a situação não é passível de esclarecimento sem que arruíne a sua carreira política – num caso que pode misturar fugas ao fisco, declarações falsas no Parlamento, cobiça por dinheiros públicos indevidos, tráfico de influências e branqueamento de capitais, lançou-se sem pestanejar na divulgação de uma teoria da conspiração que faz de Ricardo Salgado o vilão por detrás da denúncia anónima. Este é o espírito de um verdadeiro e inveterado jogador. Não há problema que não possa ser enfrentado com uma fuga para a frente; ou, no caso, para o fundo – para o fundo da baixa política e do desespero de quem sabe quais são as cartas que tem na mão.
Quem ganha com a imbecilidade?
Quem ganha com os SMS mandados pela candidatura de Costa neste domingo a apelar ao voto em si? Ganha Seguro, saiu-lhe o brinde. A manobra seria sempre impossível de esconder, para além de ser completamente inútil como forma de motivação do eleitorado de Costa. Parece nascida de um génio maligno. Ou de um imbecil benigno. Mas muito, muito e muito imbecil.
A estupidez não mete cagufa
O principal defeito de Seguro não está no seu moralismo, angelismo ou populismo. Nem sequer na falta de carácter, manifestada nos ataques ao carácter de Costa, ou no desprezo que tem pelo PS, tomado como mero veículo de uma ambição vulgar. Tudo isso é nojento, do ponto de vista cívico, mas igualmente secundário, se não for terciário. O principal problema que Seguro causa no PS e no País radica na sua estupidez.
Quando Costa avançou para a liderança, no rescaldo das Europeias, a opção que melhor teria defendido os interesses de Seguro era a de acolher e aplaudir o confronto. A ter ido por aqui, quão mais perto da vitória acabadinha de alcançar fizesse um congresso extraordinário melhor seria para a sua imagem. Lá chegado, poderia explorar com eficácia o falso arranque de Costa no ano anterior para o relacionar com a intempestiva disputa. O congresso, no mínimo dos mínimos, ficaria muito receoso de validar a pretensão de Costa – a qual, de facto, é alheia à história do partido – e exigir-lhe-ia um preço muito mais alto para lhe dar a razão e o coração. Seguro, simetricamente, veria aumentar a inércia contra a sua deposição na relação directa em que assumisse uma liderança inclusiva, discursando para os apoiantes de Costa e prometendo uma unidade refundada a 1 ano de uma vitória nas legislativas.
Este cenário não aconteceu porque não podia ter acontecido. E não podia ter acontecido porque Seguro é estúpido. Se Seguro não fosse estúpido, teria começado logo a unir o partido à sua volta assim que foi eleito. Acontece que ele foi eleito secretário-geral prometendo dividir o partido, depois cumpriu o que tinha prometido e para todo o sempre será um foco de perversão patológica dentro do PS. Pelo caminho, já fez duas baixas de peso, Francisco Assis e Alberto Martins, os quais saem deste processo com a reputação política gravemente manchada.
Ter um estúpido à frente do PS só é do agrado dos direitolas. Aliás, os direitolas dão-se muito bem com a estupidez. É a inteligência que os deixa cheios de cagufa.
Tempestade
Cabrão do caralho
Já que o Pacheco não está disponível, traduzo eu
Cavaco Silva recusou dar a sua opinião sobre o caso Tecnoforma em nome da defesa do "superior interesse nacional".
"Devo dizer-lhe que há matérias que os jornalistas, comentadores, politólogos, podem opinar e comentam. E penso que não existe nenhum país no mundo da nossa dimensão com tantos comentadores e com tantos politólogos que opinem e comentem durante as 24 horas do dia. Mas o Presidente da República não deve fazê-lo por forma a defender o superior interesse nacional", disse o chefe de Estado.
Tradução:
“Houve um tempo em que Portugal registava politólogos a menos. Nesse tempo, eu, Cavaco Silva, esse mesmo, tinha de opinar e comentar uma catrefada de coisas. Olhem, tive de opinar e comentar aquilo dos Açores, o que me deixou com uma má-disposição tramada. Depois, tive de opinar e comentar aquilo do “falar verdade aos portugueses”. Fartei-me de opinar e comentar sobre essa questão, nem imaginam. Depois, tive de opinar e comentar acerca do tentado atentado ao Estado de direito de um primeiro-ministro em funções, um filha-da-puta da pior espécie. Logo depois, quase que sem ter tempo para respirar, já estava a opinar e comentar sobre espiões e emails e o Diabo. Parecia que tínhamos chegado à Madeira. Depois, fui para eleições, ganhei e nessa mesma noite fui obrigado a opinar e comentar sobre o carácter dos restantes candidatos vencidos. Acreditem, não foi bonito de se ver. Um mês e tal mais tarde, lá estava eu a opinar e comentar sobre os limites dos sacrifícios, a letargia dos portugueses, a necessidade de os jovens fazerem ouvir a sua voz e do jeito que me dava um sobressalto cívico. E foi aqui que parei. Porque me cansei. Acreditem. Após 3 anos a opinar e a comentar uma pessoa cansa-se. É natural, somos humanos. Quer dizer, até eu sou humano, juro. Claro, nunca há vazios nestas coisas, pelo que começaram logo a aparecer uns fulanos para ocupar o meu lugar. E deixei-os, bem precisado de sopas e descanso estava eu. A partir de 5 Junho de 2011, lembro-me bem porque se fez uma grande festa na Coelha com os vizinhos e outras pessoas seríssimas a propósito de uma coisa qualquer, resolvi nunca mais andar por aí armado em politólogo. A minha vida passou a ser casa-Palácio, Palácio-casa. E nem vos conto a ginástica que faço para conseguir que a pobre reforma chegue para as despesas. É que eu sou reformado, sabem? E se cuidar de uma casa já é o que é, então e de um palácio? Pois. Ah pois. Maneiras que tenho muito em que pensar, não há cá tempo para andar a opinar e comentar como antigamente.
Prontos, é a esta situação que chamo “o superior interesse nacional”. Agora, se esses politólogos aos magotes que não se calam nas 24 horas do dia lhe quiserem chamar outra coisa, é lá com eles. Eu nem ligo. Olhem, tenho de me despedir porque vou ali ao jardim cuidar de umas flores com o meu amigo Seguro. Ele nasceu para isso, tem um jeitinho que só vídeo. Adeus, adeus.”
