2. António José Seguro abandonou com dignidade a liderança do Partido Socialista. O País fica a dever-lhe uma forma assaz responsável de exercício de liderança da oposição. Foi firme sem soçobrar no sectarismo, revelou sentido do compromisso sem resvalar para o oportunismo, optou pelo interesse geral em prejuízo das suas ambições particulares. Não era fácil a sua tarefa: estava incumbido de dirigir a oposição democrática num país sob assistência financeira. Essa circunstância obrigava-o a um difícil equilíbrio que, no essencial, conseguiu assegurar. Numa época de radicalismos, simplismos e exibicionismos, um político crente nas virtudes da moderação corre sérios riscos de fracasso. Foi o que aconteceu. Porém, António José Seguro tinha razão no fundamental. Fez bem em não votar contra o primeiro orçamento da responsabilidade da actual maioria; privilegiou os princípios do compromisso europeu quando apoiou o Tratado Orçamental, esteve à altura das suas responsabilidades no momento em que rejeitou a proposta presidencial de um entendimento iníquo com a actual maioria. Enganam-se os que se aprestam a declarar a sua morte política. Enganam-se sempre, ainda que por razões diferentes, os cínicos e os ingénuos.
Francisco Assis
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Uma das maiores vítimas de Seguro dá pelo beatífico nome de Francisco Assis. Que aconteceu a este homem? Que motivação o levou para o sacrifício da sua honestidade intelectual? Mistério antropológico que, como mistério que é, nunca encontrará explicação. Resta-nos lamentar a perda de um dos melhores tribunos que já passaram pela Assembleia da República.
Analisemos:
“António José Seguro abandonou com dignidade a liderança do Partido Socialista.” – A dignidade de não ter dado os parabéns ao adversário e se ter limitado a constatar a evidência do resultado, a que se seguiu a dignidade do discurso narcísico que é o seu mais brilhante legado, antecedida pela dignidade de uma campanha feita de assassinatos de carácter, calúnias, difamações, ameaças e ódio contra o próprio PS, seus quadros e sua História.
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“O País fica a dever-lhe uma forma assaz responsável de exercício de liderança da oposição.” – A tal oposição que foi o melhor presente que esta direita decadente e este desgoverno de traidores poderiam ter recebido, uma oposição que gastou mais energia a combater políticas e governantes socialistas do passado recente do que a combater a loucura além-Troika.
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“Foi firme sem soçobrar no sectarismo, revelou sentido do compromisso sem resvalar para o oportunismo, optou pelo interesse geral em prejuízo das suas ambições particulares.” – Como é que é? Seguro terá abdicado das suas “ambições particulares” em prol do interesse geral e por isso merece ser elogiado? Minha nossa senhora do Caravaggio, ergam uma estátua desse líder exemplar em Montalegre e que se façam romarias diárias do bom e honesto povo. E, por favor, haja alguém que o ajude a realizar as suas “ambições particulares”, coitadinho.
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“Não era fácil a sua tarefa: estava incumbido de dirigir a oposição democrática num país sob assistência financeira. Essa circunstância obrigava-o a um difícil equilíbrio que, no essencial, conseguiu assegurar.” – Não, Assis, é precisamente ao contrário: a assistência financeira – para mais tendo sido uma imposição da direita e estando ao serviço da sua agenda não sufragada – era a situação que simplificava a acção da oposição, pois estava em causa fiscalizar a sua aplicação e as transgressões a esse contrato. Se dizes que Seguro conseguiu equilibrar-se com um Governo que violou o Memorando sempre no sentido do empobrecimento, deixo para ti a sugestão do nome, ou nomes, com que devemos carimbar tal parceria.
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“Numa época de radicalismos, simplismos e exibicionismos, um político crente nas virtudes da moderação corre sérios riscos de fracasso. Foi o que aconteceu. Porém, António José Seguro tinha razão no fundamental.” – Um político que se apresenta como farol da ética, como exemplo moral para toda a classe política, como sendo o fundador de “uma nova forma de fazer política”, como o higienista que vai purificar o seu próprio partido e obrigar os seus camaradas a assinarem papelinhos onde jurem resistir à tentação do mal que os consome, pode ser qualquer coisa menos uma coisa crente nas virtudes da moderação. Assis, respeita a nossa inteligência – ou a tua.
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“Fez bem em não votar contra o primeiro orçamento da responsabilidade da actual maioria; privilegiou os princípios do compromisso europeu quando apoiou o Tratado Orçamental, esteve à altura das suas responsabilidades no momento em que rejeitou a proposta presidencial de um entendimento iníquo com a actual maioria.” – E também fez bem quando tentou impedir que os deputados da sua bancada denunciassem as inconstitucionalidades do primeiro Orçamento? Esteve bem quando alinhou com os ataques ao trabalho e quando foi complacente com o esbulho fiscal? Esteve à altura da sua responsabilidade quando vestiu a camisola de um populista sem escrúpulos e apostado em destruir o PS só para se manter na ribalta?
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“Enganam-se os que se aprestam a declarar a sua morte política. Enganam-se sempre, ainda que por razões diferentes, os cínicos e os ingénuos.” – Nisto, concordamos. Seguro jamais desistirá de tentar voltar ao poleiro dessa gaiola dourada. Pela simples razão de ele não ter vida fora do PS. Portanto, este período ficará como uma aprendizagem, uma experiência que o deixará mais forte. Por esta altura já terá um plano esboçado e vai recomeçar o circuito dos abraços e dos beijinhos a tempo de apanhar a quadra natalícia. Quando voltar a apanhar um elevador disponível, daqui por uns 10 anos, os jornalistas serão os primeiros a saber.
Quanto a ti, Assis, que te declaras imune ao cinismo e à ingenuidade, podes sempre reler o que já escreveste, recordares com quem estiveste, contemplares o que defendeste. E pensares com coragem. Era algo que muitos admiravam em ti.