Luís Pedro Nunes, companheiro de luta

Sócrates foi o involuntário alimento de um fenómeno à sua volta que atingiu, e continua a atingir, a classificação de patologia mental. Consiste numa racionalização incompleta de um grande medo, um pavor, que depois fica como obsessão. Ou seja, despertou ódios desvairados a uma escala que nem sequer no auge do Cavaquistão se observaram na sociedade contra algum político. Teríamos de recuar ao sentimento de pré-guerra civil no PREC para encontrar algo comparável, mutatis mutandis. Vários factores contribuíram para isso, tanto nacionais como internacionais, os quais têm sido abundantemente expostos e analisados ao longo dos anos por uns poucos de profissionais e amadores da opinião. Porém, contudo, todavia, há uma características universal nesses pacientes: quão mais odeiam Sócrates, quão mais broncos se apresentam em público.

Luís Pedro Nunes é um desses infelizes que rebola na sua bronquite crónica quando tem de verbalizar acerca de Sócrates. Tirando isso, ele é capaz de ser um excelente rapaz. Por exemplo, na última edição do Eixo do Mal explodiu de indignação contra as praxes. Justíssima atitude que só pecou pela suavidade apesar de ter dito “merda” e de ter ameaçado partir qualquer coisa no estúdio. Faltou-lhe dizer “cabrões”, “caralho”, “filhas-da-puta”, “vão-se foder, seus cabrões do caralho e filhas-da-puta” e a seguir destruir mesmo qualquer coisa pertença da SIC. É que as praxes portuguesas transformaram-se numa vergonha académica, numa vergonha nacional e numa vergonha civilizacional.

Há dias, na bicha de um supermercado, uma senhora de 20 anos que terá uma licenciatura dentro de muito pouco tempo falava ao telefone atrás de mim. Queixava-se da reacção de uma caloira na praxe. E detalhou a sua defesa: a caloira teria recusado participar numa anormalidade qualquer, pelo que esta senhora foi ficando cada vez mais irritada até que utilizou métodos violentos para a obrigar a fazer a estupidez em causa. O teor da conversa ao telefone rodava à volta do aborrecimento que esta senhora sentia por causa da caloira, da razão que a assistia ao ter usado da violência emocional e do ultraje que sentiria se a caloira ainda se lembrasse de ir fazer queixas a alguém.

As praxes como paraísos para violadores, sádicos e imbecis, onde a sexualidade é estereotipada pelos códigos pornográficos e tratada como dimensão ao serviço da hierarquia de poder, onde a dignidade e a autonomia individuais são perseguidas e castigadas, eis o que são as praxes convencionais – e isto logo desde os anos 80, embora em degradação acelerada a partir dos anos 90. Claro, generalizar será errar, mas antes isso do que consentir ou fugir. A visão grotesca dos trajes funerários com que se mascaram os algozes das praxes convoca a associação com os trajes dos fundamentalistas de todas as origens, criando tenebrosas afinidades estéticas e simbólicas.

Que fazer? Exactamente o que a Universidade da Beira Interior aqui mostra: Caloiros da UBI são praxados com ações solidárias. Estas actividades geram riqueza na comunidade, criam cultura académica, desenvolvem a cidadania e não põem em risco as bezanas que os praxistas querem impor aos caloiros. As finalidades da praxe continuariam, no fundo, a serem as mesmas, mas com a diferença de passarem a deixar de estar sob o comando dos broncos.

29 thoughts on “Luís Pedro Nunes, companheiro de luta”

  1. era escusado meteres o sócras ao barulho para falar de praxes. o nunes fala do que está a dar, fez mestrado em sócras quando este afrontou as corporações, sucesso garantido, agora cavalga a onda da caparica e no dia que o tio belarmino fizer sinal, faz piadolas sobre o bes ou cavaco com o mesmo empenho que bota gel. um gajo que conseguiu tornar-se conhecido graças ao programa pedante que mais telespectadores irrita. já era altura do estado islâmico entrar por ali dentro e varrer tudo à metralhadora em directo em vez de andarem a fazer publicidade à causa com aqueles programas deprimentes das batas laranja e pretas.

  2. Nem Sócrates nem Seguro tem o ADN Ps (aquele PS que veio da Alemanha).

    Estes dois ainda não chegaram a nascer na maternidade Alfredo da Costa ou mais a Sul.

    Muito tempo duraram eles.

    Vir directamente do interior, pode vestir no melhor alfaiate, mas o casaco parece sempre uma albarda.

  3. Interessante, essa noção de que a perseguição e castigo da dignidade e autonomia individuais já estão correctas se efectuadas através da imposição de trabalhos forçados («acções solidárias que geram riqueza na comunidade, criam cultura académica, desenvolvem a cidadania» etc.).

  4. Gungunhana Meirelles, trabalhos cívicos, queres tu dizer, e não sabes se são forçados. Mas talvez tu não vejas diferença entre as praxes degradantes e as praxes cívicas, o que também é uma posição legítima – a qual tem ainda a vantagem de encerrar a conversa.

  5. Para sublinhar melhor o óbvio que procura deixar de o ser no contexto da alteridade praxística (meu negrito na citação):

    «Estas actividades geram riqueza na comunidade, criam cultura académica, desenvolvem a cidadania e não põem em risco as bezanas que os praxistas querem impor aos caloiros. As finalidades da praxe continuariam, no fundo, a serem as mesmas, mas com a diferença de passarem a deixar de estar sob o comando dos broncos».

    Já agora: «ser as mesmas» fica melhor, mas, enfim, não é tão grave como o estado de espírito por trás da «revolução na continuidade» das praxes.

  6. Valupi, se os trabalhos (fretes, incómodos, sofrimentos) não são forçados (física ou psiquicamente), não são, por definição, «praxe», nem cumprem as finalidades das mesmas, bem entendidas sob o ângulo da psicologia das massas e da fraca natureza humana.

    Ninguém impede todo e qualquer cidadão movido pelo amor desinteressado ao próximo de se alistar nas fileiras da solidariedade a todo o momento.

    A chave para a compreensão do que quero dizer está no negrito. O meu ponto de vista é simples e é este: solidariedade? óptima ideia.; solidariedade como praxe académica? péssima ideia.

  7. Gungunhana Meirelles, não entendo do que estás a falar ao sublinhares essas palavras, mas entendo que tenho algo a aprender contigo acerca do verbo ser. Venha daí a lição: “ser as mesmas” é melhor do que “serem as mesmas” porquê?

  8. “Sócrates foi o involuntário causador de um fenómeno à sua volta que atingiu, e continua a atingir, a classificação de patologia mental. ”

    So posso concordar. Não li o resto, mas suponho que prova a afirmação. Era escusado. Nesta matéria, a tua autoridade chega e sobra…

  9. excelente. faltou apenas roçar uma questão: a de que antes de serem da academia as praxes são individuais porque o problema da humilhação aberrante não está só em quem a manda praticar mas também a quem a ela se sujeita. e vale mesmo substituir o conceito por cidadania e civismo mas terá isso algum efeito individual em quem o pratica ou a prática continuará a andar em volta da vaidade académica sem terem a noção do que é contribuir positivamente para a sociedade? e digo isto tomando-me como exemplo perante os exemplos que vi e conheço. porque um dia tentaram praxar-me – só tentaram porque contra tudo e contra todos durante um ano vivi completamente excluída na universidade pela turma, tanto em sala de aula como fora: tanto por quem foi com agrado praxado como quem me quis praxar. na altura queriam obrigar-me a a ler e a simular pornografia. e eu posso dizer que fui a única, nesse ano porque dos restantes desconheço, a gritar não e a ser ameaçada e expulsa e completamente ostracizada do ambiente académico. e orgulho-me tremendamente disso e de ter berrado e cuspido na cara de quem me quis forçar. mas e os outros que não se importaram de fazer o que lhes mandaram e até hoje se orgulham disso? teriam feito trabalhos comunitários na altura com o mesmo agrado e orgulho com que foram sexualmente humilhados. e é essa a minha maior vergonha perante essa gente, abutres e presas, de esgoto.

  10. Gungunhana Meirelles, escrevi o anterior comentário sem ler o teu seguinte, onde explicas o teu ponto. Pois bem, discordo. Não existe, nem tem de existir, consenso algum acerca do que seja uma praxe académica. No entanto, a etimologia da palavra indica uma solução – “aquilo que se faz”, “os costumes”, “o habitual”. Nesse sentido, uma praxe tem como objectivo ser uma iniciação a uma certa prática, a um certo conjunto de valores e de regras, a uma certa cultura.

    Por exemplo, no antigamente era comum as praxes consistirem em brincadeiras dentro das salas de aulas e relativas à experiência da leccionação. Punham-se alunos mais velhos a fingir que eram professores e brincava-se nesse contexto com a ingenuidade dos caloiros. Tal espírito era estritamente académico e não tem nada a ver com a animalidade das praxes que se fazem apenas como coerção humilhante.

    Donde, não perceber a tua embirração com a iniciativa da UBI, a qual é um oásis de sanidade na paisagem das praxes académicas.

  11. as faculdades não acabam com esta merda,por que têm medo de perder clientes! os praxistas é tudo malta de direita que depois vão para o parlamento defender as cores do cds e psd! o socrates, é praxado todos os sabados pelo pedro nunes,por que não gosta de gajos de tomates! mas gosta que o comam com impostos,salarios roubados etc etc. tinha que haver um burro no eixo do mal,para nos rirmos,um pouco com o alarve!

  12. Diz o Valupi: «Gungunhana Meirelles, não entendo do que estás a falar ao sublinhares essas palavras,

    A finalidade daquilo a que estamos a chamar «praxes» não é apenas a satisfação das necessidades éticas, estéticas e recreativas a que cada um pode aspirar (rasteiras, à laia de tourada, para os espíritos mais fraquitos, ou mais elevadas, à laia de colonização da Sibéria, para os espíritos mais cultos). É também, e sobretudo, a submissão do pensamento individual da vítima ao automatismo do grupo. Válido tanto para a academia dos U.S. marines, como para todos os outros academismos em formação.

    Diz ainda o Valupi: «mas entendo que tenho algo a aprender contigo acerca do verbo ser. Venha daí a lição: “ser as mesmas” é melhor do que “serem as mesmas” porquê?»

    Porque o problema não está no ser, está no continuar. «Continuariam a serem as mesmas» é como «continuariam a fazerem o mesmo».

    Sim, é a velha querela dos universais reflectida no duelo Marx / Stirner: «Tobias or not Tobias, eis a questão» (segundo o Der Einzige und sein Eigentum do Tobias).

  13. Gungunhana Meirelles, quanto à gramática, ou à estilística, constato que não vou aprender nada contigo. Quanto às praxes, creio que podemos deixar os “marines” em paz, tanto que eles têm para fazer.

  14. Diz o Valupi: «Gungunhana Meirelles, quanto à gramática, ou à estilística, constato que não vou aprender nada contigo.»

    Valupi, é muita modéstia tua. O sucesso é filho da persistência.

    Diz ainda o Valupi: «Quanto às praxes, creio que podemos deixar os “marines” em paz, tanto que eles têm para fazer.»

    Pormenor não dispiciendo: estamos a usar a palavra «praxe» no sentido estrito de «ritual de inserção no grupo».

    A simples informação — panfletos volantes? notas de rodapé nos boletins de inscrição dos cursos? — do elevado valor moral do trabalho comunitário voluntário não seria praxe nenhuma porque nada traria de novo à vida corrente fora do grupo (a não ser para quem acabasse de chegar de outro planeta e nunca tivesse ouvido falar em semelhantes práticas).

  15. Valupi: «Punham-se alunos mais velhos a fingir que eram professores e brincava-se nesse contexto com a ingenuidade dos caloiros.»

    Estamos portanto perante um problema de grau, e não de natureza?

    O intinerário desejável do «brincalhão com» deve ser brincar primeiro e conhecer depois, ou conhecer primeiro e (eventualmente) brincar depois?

    Por outro lado, em que é que a vida académica deve ser diferente dos programas de apanhados? Por aí é que já talvez possas chegar a alguma conclusão…

  16. Pedro: «Gungunhana: acções solidárias, bom; meter a cabeça num balde de merda, mau. Pronto.

    Pedro, canal comunitário do Mar Branco, mau; e meter baldes de merda em cabeças, também mau. Pronto.

    Exagero, bom, porque tirar cabeça do balde, muito bom.

  17. Valupi: «Gungunhana Meirelles, cresce em mim a convicção de não ser pela leitura do que escreves que vou chegar a alguma conclusão.»

    Teste do filo-sionismo feito ou por fazer?

  18. O Gungunhana não gosta de praxes de espécie alguma, nem faz distinção de tipologias. Mas desconfio que o Meireles abriria excepção caso os praxados fossem rapazes efeminados ou raparigas barbudas.

  19. Roteia afirmou: «O Gungunhana não gosta de praxes de espécie alguma, nem faz distinção de tipologias. Mas desconfio que o Meireles abriria excepção caso os praxados fossem rapazes efeminados ou raparigas barbudas».

    Não é verdade. Não sou nenhum fanático, inimigo de toda e qualquer praxe. Por exemplo, não sou particulamente contra a praxe do casamento, mas acho que os efeminados e as barbudas deviam ser poupados a essas humilhações públicas, em nome do que já são obrigados a sofrer.

  20. Joaquim O., aposto que o Dentuças, se aqui estivesse, respondia que companheiros de luta são os tomates.

    Mas é só um palpite.

  21. Porém, contudo, todavia, ainda assim……!!!! Começo e fim de conversas em que este protagonista se envolve , confunde, fala…fala… e não diz quase nada !!!
    Tem, no movimento frenético dos óculos, a sua válvula de escape.!! Santa paciência !!!

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