Kobani, o local mais absurdo da galáxia

Alguém que saiba do assunto que me corrija, sendo o assunto história militar, mas acho que nunca se presenciou uma situação de guerra tão absurda como aquela que se está a passar em Kobani. Nessa cidade, um grupo de curdos sírios tem-se defendido durante semanas dos ataques do EI com equipamento muito inferior ao dos assassinos e com falta de munições e de combatentes. No céu há aviões americanos a bombardearem veículos e posições do EI numa paisagem que parece não oferecer qualquer protecção contra os ataques aéreos, mas até ontem sem qualquer efeito significativo no avanço do EI. Enquanto isto decorre, a Turquia aprovou leis que lhe permitem intervir no conflito e mantém a centenas de metros da batalha dezenas de tanques que se limitam a ficar apontados para a cidade.

É tudo demasiado absurdo. Os assassinos mais odiados da actualidade conseguem estar em acção debaixo do fogo aéreo da única superpotência mundial, avançando pela cidade colados a uma das maiores potências regionais, num país, ou no que sobra dele, com quem também estão em guerra, e o seu único objectivo é conseguirem matar mais um número indeterminado de inocentes, os que apanharem.

Assim como se tem constatado o fenómeno de alguns adolescentes e jovens adultos se quererem juntar aos assassinos partindo de diferentes países, Portugal incluído, aposto que se existisse um movimento simétrico teríamos facilmente um milhão de voluntários para ir lutar em Kobani ao lado daqueles curdos. A opinião pública internacional tem ficado mais e mais sedenta de vingança a cada vídeo de uma decapitação e a cada notícia das atrocidades desses doidos varridos. É a irracionalidade a espalhar irracionalidade.

Outra possibilidade seria a de encher o céu de Kobani com aviões telecomandados e permitir ao público em geral, desde que possuidor de um computador ou telemóvel com acesso à Internet, a escolha dos alvos e o respectivo disparo dos mísseis ar-terra. Aí, os voluntários seriam aos milhares de milhões. É este o grau de absurdo daquele absurdo desmedido.

26 thoughts on “Kobani, o local mais absurdo da galáxia”

  1. este texto está ambíguo demais. parece uma salada de fruta. e cada fruta tem um sabor único, como eu gosto. :-)

    mas sim, há absurdo. e mesmo com a estratégia a funcionar bem na zona tampão havia absurdo na mesma.

  2. esqueci-me de dizer uma coisa, falar de um desejo: a galáxia era tão mais feliz quando o Médio Oriente fazia nascer as mil e uma noites. a galáxia precisa de tapetes voadores. :-)

  3. Pareceu-me que o Val quis dizer-nos que o “povo em geral”, de qualquer parte da Europa, estaria disposto a matar os matadores , e matar sumariamente, se tivesse ao seu alcance aviões telecomandados, assassinos ou justiceiros, sem cuidar de saber do absurdo que tudo isto significa. Concordo que a grande maioria dos terráqueos continua, nestas questões, a deixar-se conduzir pela irracionalidade mais primitiva. E isto será tanto mais perigoso, quanto mais desenvolvidos forem os meios para a matança. Se não tivermos a sorte de um “11 de Setembro” a valer que nos faça despertar para o absurdo que estamos a criar, o mais certo é tudo isto desembocar num conflito global de proporções inimagináveis. Aliás, talvez esse conflito já esteja em marcha, enquanto a gente se entretém, descontraidamente, a ver futebóis e estrelas da música. Alguém se lembra de comparar os milhões que morrem da miséria mais miserável, com as poucas centenas de milhar vítimas destes jihadistas? Já viram os “justiceiros” da boa-consciência mandar bombardear a fome mil vezes mais assassina que estes jihadistas? Alguém se lembrou de chamar assassinos aos especuladores financeiros que, numa jogada só, fazem ajoelhar nações inteiras? Nem me admiraria que os jihadistas da finança agradeçam ao céus estes oportunos surtos de violência extrema, para que a extrema violência das suas jogadas financeiras passe despercebida. Digam-me lá se o absurdo não nos entra, dissimulado, pela casa dentro!

  4. Pedro o Eremita viveu há mil anos. Que o bom senso não tenha avançado um único passo é triste. Recorde quem leu alguma História da região agora a ferro e fogo,a paz que reinou na zona,nem um século após a 1ª Cruzada,quando do lado cristão e do lado islãmico mandavam dois príncipes sábios. Esse príncipe cristão morreu na Sicília,devidamente excomungado pelo Papa de então.

  5. agora li o texto outra vez e já não vi salada, só a ponte para a escalada irracional. acordei invertida, hoje, na manhã não estava clara. :-)

    (mas mantenho o tapete voador e as mil e uma noites em metáfora de que só a criatividade nos salva da morte)

  6. A verdade é que, numa dúzia de dias, as forças armadas turcas (em especial o exército e a força aérea) fariam a uma razia nas forças do EL, sem precisar de americanos nem coligações. Seria limpinho.
    A Turquia ainda não se mexeu porque não quis (o problema curdo) ou porque os americanos não querem que ela se mexa à vontade (a entente dos EUA com o Irão é, para já, para manter) — sem falar na ‘sensibilidade’ árabe em relação à Turquia.
    Demasiadas peças em jogo.

  7. Maria Abril: “Alguém se lembrou de chamar assassinos aos especuladores financeiros que, numa jogada só, fazem ajoelhar nações inteiras?”

    Por acaso, ou nem por isso, ouvi há pouco um jihadista apoiante do “estado islâmico”, entrevistado na BBC (curiosa noção de serviço público da vaca sagrada do “jornalismo de excelência”), a dizer basicamente o mesmo. Eu sei que não é essa a intenção, Maria Abril, mas a comparação que fazes branqueia objectivamente as acções dos energúmenos. Dito isto, confesso-te que não me desagrada a ideia de um enxame de drones a fazer a barba aos especuladores financeiros e outros mafiosos da alta finança.

  8. Val, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia impôs há bocado como condição (uma das) para desencadear uma operação que alegadamente se oponha ao “estado islâmico” a declaração de uma zona de exclusão aérea no Norte da Síria. Queres “absurdo” maior?

    Sabendo nós (os que não andam a dormir) que os energúmenos do califado não têm meios aéreos, para que serve aos turcos uma zona de exclusão aérea? Elementar, meu caro Val: serve de pretexto à máfia otomana sunita para eventualmente destruir o pouco que resta da Força Aérea síria, se esta tiver a ousadia de voar nos céus do seu próprio país para combater os terroristas treinados e armados, entre outros, pela referida máfia otomana.

    Há dias, a propósito do que se está a passar no Curdistão sírio junto à fronteira turca, um responsável americano, julgo que o Kerry, disse que a NATO interviria se a Turquia fosse atacada. Estarei eu distraído e não me apercebi da iminência de um ataque à Turquia? Por quem? Pelo “estado islâmico”? Não queres meter mais esta na tua colecção de absurdos? Ora vão lá brincar com a quinta perna do boi!

    E qual o objectivo da máfia otomana, nesta ginástica prodigiosa? Mais uma vez elementar, meu caro Val: ajudar os bandidos da máfia califosa sunita do EI, protegida, treinada e armada por turcos, sauditas, resto das monarquias corruptas do Golfo, americanos e merda sortida q.b., a abocanhar cada vez mais território sírio ao Bachar al-Assad.

    Uma intervenção turca na Síria terá como único objectivo proteger, ainda que disfarçadamente, os ganhos territoriais dos califosos e não o contrário. É claro que, quando perderem a utilidade, serão eles a ficar sem cabeça, já que à máfia otomana não falta experiência em “soluções (tendencialmente) finais”, como bem sabem arménios e curdos. Mas isso fica para depois, não perdem pela demora.

    Assim, caro Val, o absurdo é aparente. Há ali uma lógica implacável, uma táctica, uma estratégia, um objectivo. Este género de absurdos existe apenas na cabeça dos líricos e dos distraídos.

  9. Joaquim Camacho, a condição turca do prévio estabelecimento de uma zona de exclusão estará relacionada com a aviação síria e a frontal oposição de Damasco a qualquer entrada de tropas turcas na Síria. Obviamente, ninguém fora dos círculos diplomáticos, militares e da espionagem faz ideia de qual seja o plano da Turquia, na eventualidade de terem algum. O que é certo é que a sua passividade abre espaço para todo o tipo de teorias da conspiração, como vieste aqui fazer.

    Mas folgo em saber que não és lírico nem distraído. O mundo fica muito mais seguro , porque menos absurdo, com as tuas aquilinas capacidades de análise.

  10. Valupi: “Obviamente, ninguém fora dos círculos diplomáticos, militares e da espionagem faz ideia de qual seja o plano da Turquia, na eventualidade de terem algum. O que é certo é que a sua passividade abre espaço para todo o tipo de teorias da conspiração, como vieste aqui fazer.”

    A teoria das teorias das conspiração é um utensílio muito cómodo para arrumar os discordantes na prateleira dos maluquinhos excêntricos, a quem não vale a pena ligar ponta de corno. Mas, queiram ou não os distraídos, os objectivos da Turquia (parcialmente coincidentes com os da Arábia Saudita e outras corruptocracias gordas do Golfo, EUA e alguns vassalos europeus) são claros e conhecidos. Aqui vão dois:

    Objectivo 1 – Impedir a construção do projectado gasoduto/oleoduto que ligaria Irão, Iraque e Síria ao Mediterrâneo, para abastecer a Europa com gás e petróleo desses três países. Tais gasoduto e oleoduto iriam fazer concorrência a duas rotas já existentes, com origem na zona do Cáspio, que atravessam a Turquia e lhe trazem benefícios óbvios, como tarifas de passagem e o abastecimento facilitado do país. São essas duas rotas turcas o BTC [iniciais de Baku (Azerbaijão), Tbilissi (Geórgia), Ceyhan (Sul da Turquia)] e o Nabucco, este último em grave crise de exploração, com enormes prejuízos que seriam agravados com a construção do gasoduto Irão-Iraque-Síria. Este é, aliás, depreciativamente designado pelos corruptocratas sauditas como “gasoduto xiita”. É óbvio, pelo menos para os maluquinhos das teorias da conspiração, que os sauditas seriam igualmente prejudicados pela concorrência do novo traçado. E é claro também que apenas os ditos maluquinhos acreditam serem os EUA, em toda a galáxia, a melhor garantia de protecção dos interesses da corruptocracia saudita. A acrescentar ao ramalhete dos maluquinhos, a crença doida de que, apesar de a construção do gasoduto Irão-Iraque-Síria ser do interesse da Europa, por aumentar e diversificar fontes de abastecimento, não faltam na dita Europa vassalos e sipaios que dão o cu e oito tostões para proteger os interesses americanos contra os dos seus próprios povos e países.

    Objectivo 2 – Contenção de eventuais “divagações” curdas no que respeita à sua velha aspiração a um Estado independente, que amputaria parte do território turco.

    As minhas sinceras condolências aos líricos que acreditam não ter a Turquia objectivos e que, se e quando actuar, o fará para combater os bandos de assassinos que treinou, armou e financiou e proteger os curdos que toda a vida tratou como inimigos.

  11. Joaquim Camacho, mas o que escreves pode estar certíssimo. Da minha parte, apenas te recomendo um pouquinho de humildade face à complexidade do real.

  12. Análise lúcida a de Joaquim Camacho. A complexidade do real, Valupi dixit, é por vezes de uma simplicidade estonteante. Quando Abu Bakr al-Bagdadi arrasar Kobani e exterminar uns bons milhares de Kurdos, então o exército turco e os seus ioldachs – o segundo mais podeoso da NATO, depois do dos EUA – arrumará a sala e colocará os móveis no lugar. Depois, bem depois, tudo continuará na mesma até à insustentabilidade da situação ditar as suas leis e os homens do “califado” deixarem de ser funcionais no complexo xadrez do Médio Oriente.

  13. jafonso, isso é o que todos acham mais provável, que a Turquia só avance para Kobani caso o EI tome conta da cidade. As vantagens são óbvias, esse é o discurso dos jornalistas internacionais e etc. Mas a complexidade do real continua imutável.

  14. os turcos não atacam porque não trabalham de borla, se os amaricanos querem ataque terrestre têm de pagar extra, o resto é conversa para encher xóriços e mostrar kultura de almanak

  15. Há por aí alguém que explique o que pode, para o Ocidente, justificar o não apoio às instituições formais seculares sírias no combate à maior aglomeração de milícias terroristas que o mundo moderno já conheceu? Nas actuais circunstancias, o que pode fazer pensar que haverá menos barbárie sem Assad do que com ele? Que raio pode acontecer para que a queda de Assad não tenha exactamente as mesmas consequências que teve a queda de Kadafi ou de Saddam?

  16. Valupi 1: “Alguém que saiba do assunto que me corrija.”

    Valupi 2: “Joaquim Camacho, mas o que escreves pode estar certíssimo. Da minha parte, apenas te recomendo um pouquinho de humildade face à complexidade do real.”

    O Valupi 1 pediu ajuda, mas o Valupi 2 acha que foi humildade a mais, pois o Valupi 1+2, por definição, não precisa de ajuda para nada e quem se dispõe a dá-la revela, por sua vez, défice de humildade.

    Se o “pouquinho de humildade face à complexidade do real” que me recomendas significa pensares que, se as coisas parecem complexas, a sua compreensão deve ser reservada a especialistas, pensas mal, porque há autoproclamados especialistas que não passam frequentemente de criadagem ruidosa e garridamente emplumada e muito do que nos fazem crer ser complexo é na realidade simples e claro como água, se nos dermos ao trabalho de procurar informação esclarecedora. É simples, dá trabalho e não dá milhões.

    Ora eu fartei-me de perceber, muitas vezes tarde de mais, que esta ou aquela questão não tinha, afinal, a explicação simples que na altura me fizeram crer ser evidente. E que o negócio das máfias merdiáticas “tradicionais” não é o de nos fornecer informação válida mas sim o de nos despejar pela goela abaixo a propaganda dissimulada que nos leva a conclusões previamente definidas pela mão atrás do arbusto.

    No que toca aos interesses em jogo quanto ao que se passa na Síria (Turquia, Iraque, Irão, Rússia, EUA, Israel, corruptocracias do Golfo com seus gatos gordos, Estados vassalos da Europa com seus sipaios, etc.), a mão atrás do arbusto tem sido incansável na invenção de biombos à frente de biombos que os mantenham bem dissimulados.

    A expressão-chave é esta: “Darmo-nos ao trabalho.” É claro que, para o efeito, é preciso mais do que os dois neurónios gripados de um parvalhatz, mas, descontando as inúmeras discordâncias, tenho de reconhecer, Valupi, que já provaste à saciedade seres possuidor de uma carola rica em sinapses e respectivos tijolos-base. Assim, se te atirares ao assunto, não terás dificuldade em chegar lá.

    Caso contrário, poderás trinar uns bitaites bem afinados, ou ostentar ocasionalmente uma “ingénua” perplexidade perante o “absurdo” que por vezes complica a maravilhosa simplicidade da galáxia, mas não passarás daí e não contribuirás um milímetro para uma discussão informada e eventualmente esclarecedora sobre o alvo da tua atenção. Entretanto, o planeta continuará a girar, as bombas continuarão a cair onde não devem, os pescoços continuarão a ser cortados e nós, indígenas bem-intencionados, continuaremos a bater com a cabeça na parede da “complexidade do real”.

    Já aqui deixei, há alguns meses, o link do YouTube que aparece a seguir, mas vale a pena repeti-lo. É apenas um minuto e 34 segundos de realidade simples e esclarecedora, daquela que ninguém vê nas pastagens simples e bucólicas em que, simpáticas ovelhinhas, habitualmente pastamos.

    https://www.youtube.com/watch?v=jeyRwFHR8WY

    Trata-se de um debate televisivo em que o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros francês Roland Dumas afirma ter sido sondado por altos responsáveis da política externa britânica, numa reunião em Londres, dois anos antes do início da agitação na Síria e da guerra civil que se lhe seguiu, sobre a disponibilidade da França para apoiar “qualquer coisa” que estava a ser preparada para aquele país, que incluía uma “invasão de rebeldes” para derrubar Bachar al-Assad. Certamente por coincidência, essa humanitária intenção foi expressa depois de Síria, Iraque e Irão decidirem avançar com a construção do gasoduto/oleoduto que acima referi. Ou seja: dois anos antes do início da agitação na Síria, a Inglaterra já arregimentava apoiantes, organizava participantes e preparava (certamente não sozinha) toda a operação, o que é sintomático da “espontaneidade” do que se seguiu. Agora, coitadinhos, quando os pescoços cortados são brancos e o espectáculo se tornou público, parecem não saber o que fazer ao “génio” que libertaram da lâmpada e tomou o freio nos dentes.

    Sobre a teoria da conspiração que defende serem gasodutos e oleodutos a causa principal do que se passa na Síria, podes, se quiseres, dar-te ao trabalho de consultar os dois links a seguir:

    http://www.globalresearch.ca/the-geopolitics-of-gas-and-the-syrian-crisis-syrian-opposition-armed-to-thwart-construction-of-iran-iraq-syria-gas-pipeline/5337452

    http://www.globalresearch.ca/oil-and-pipeline-geopolitics-the-us-nato-race-for-syrias-black-gold/5330216

  17. Joaquim Camacho, o pedido de ajuda foi a respeito da disciplina de história militar, não a respeito da ausência de disciplina das teorias da conspiração. O que me interessa no texto acima não é o conhecimento das explicações que tu, ou outro qualquer, tenha a respeito dos planos da Turquia. O que me interessa é a estrita situação militar: um grupo de assassinos, recorrendo a armas ligeiras e algum armamento pesado roubado, consegue cercar uma cidade apesar de estar a ser bombardeado pela única superpotência mundial e apesar de ter uma potência regional, aliada da superpotência, a centenas de metros de distância e pronta para os destruir assim que quiser. Enquanto isto, os defensores da cidade nem sequer conseguem receber armamento e munições suficientes para se defenderem o melhor possível do ataque.

    É este o absurdo de que falo. O absurdo das várias assimetrias militares, tecnológicas e morais aqui reunidas num só local. Mas tu, que és um sábio, só pretendes é dar lições a respeito das matérias que dominas (e que serão todas, né?). No que farás muito bem, o assunto do texto é que não se altera por causa disso.

  18. Valupi, a Turquia não combate o grupo de assassinos porque não quer, porque isso, sim, seria um absurdo. A tua crença no desejo da Turquia de que Kobani não caia nas mãos dos assassinos é tão estapafúrdia como a história da Virgem que em Fátima esvoaçava sobre uma oliveira. A Turquia treina, financia, arma e dá livre trânsito nas suas fronteiras aos assassinos desde há mais de dois anos, visando determinados objectivos, e agora ia combatê-los, quando os objectivos parecem próximos e a acção dos assassinos é essencial para a sua concretização?

    Não é preciso um perito em história militar, o simples senso comum basta para perceber que é o mesmo o inimigo de um e do outro, é o mesmo o objectivo, a saber: dar cabo da Síria para daí tirar dividendos económicos, políticos, geostratégicos e outros. Mas já que a “história militar”, a que trata de guerras e batalhas, tácticas e estratégias, parece ser o centro da tua perplexidade, deixa-me lembrar-te a conhecida tese de Carl von Clausewitz, célebre especialista no assunto, de que “a guerra é a continuação da política por outros meios”. A falsa passividade militar turca é precisamente isso: política pura, visando objectivos militares, políticos, económicos, etc. E se parares para pensar dois segundos, verás que foi disso que falei nos comentários anteriores.

    A Turquia atacará os assassinos do “estado islâmico” quando deixar de precisar deles, quando se tornarem um empecilho mediático demasiado incómodo ou quando puder concretizar os objectivos na Síria por outros meios ou com outros actores, mas nunca antes. Há centenas de curdos de Kobani que entraram na Turquia apenas para pôr as famílias em segurança e depois tentaram regressar à Síria para combater os assassinos. Pois bem, a Turquia não os deixou regressar. Há milhares de curdos turcos que querem atravessar a fronteira para ajudar os seus irmãos sírios a combater os assassinos. Mais uma vez, a Turquia não os deixa passar e não tem qualquer pudor em usar nessa tarefa o poderio militar que ostenta obscenamente na fronteira. Ou seja, a Turquia usa a violência militar para impedir a passagem de reforços para os defensores de Kobani na mesmíssima fronteira que, durante mais de dois anos, a mesmíssima Turquia tornou pornograficamente permeável à passagem dos mesmíssimos assassinos que agora queres que combata. Não se trata de teoria da conspiração, podes vê-lo com os teus próprios olhos até nos media mercenários, apesar dos filtros. E não há aqui qualquer absurdo, mas sim um comportamento lógico, coerente, implacável, sem escrúpulos e sem vergonha.

    Sobre mim decretas: “Mas tu, que és um sábio, só pretendes é dar lições a respeito das matérias que dominas (e que serão todas, né?).” Se pensares mais dois segundinhos, Valupi, concluirás sem dificuldade que chego a passar semanas, por vezes meses, sem meter aqui na chafarica um único comentário, enquanto gerência e ilustres comensais se pronunciam diariamente sobre variadíssimos assuntos, que serão pouco menos que tudo e mais um par de botas. Se, como levianamente insinuas, tenho a mania que domino “todas” as matérias, não te parece que a minha participação na caixa de comentários do Aspirina seria umas centenas de vezes mais assídua? Intervenho apenas quando penso que tenho uma contribuição válida para a discussão e não tenho culpa que sobre o assunto em apreço estejas tão bem informado como eu sobre futebol, alta-costura ou lagares de azeite.

  19. Bom. Essa batalha os curdos de Kobani já ganharam. Estão à vista de quem tem olhos para ver as simpatias e prioridades do actual regime turco. O absurdo está cercado aquém Bósforo.

  20. Joaquim Camacho, o assunto em apreço não é o mesmo para cada um de nós. Tu queres repetir informação mastigada sobre os supostos interesses da Turquia. Força nisso, camarada, que não pagas mais pela utilização do serviço. Eu estou a registar uma situação isolada no altamente complexo tecido geo-estratégico do médio oriente. Essa situação pode a qualquer momento sofrer alterações, pouco importa o que os agentes fizeram no passado ou venham a fazer no futuro. Por exemplo, os EUA poderiam decidir defender com tropas terrestres Kobani – muito improvável, mas não impossível. Ou os EUA poderiam negociar com a Turquia a sua participação contra os assassinos – muito difícil, como se vê, mas não impossível. A própria ONU poderia, através do Conselho de Segurança, acordar numa força rápida terrestre para intervir em Kobani – muito improvável, mas não impossível. O ponto é o de em política não haver impossíveis.

    Contudo, o que me interessou para escrever o texto não foi a parte analítica, algo que todos os dias recebe acrescentos dos jornalistas e comentadores. O que me interessou e interessa é isto de a tecnologia, poderio militar e influência política dos EUA não ser capaz de salvar uma cidade do ataque de uma força terrorista sem qualquer complexo industrial que a apoie e a actuar no meio de um terreno desértico com a iminência de ser pulverizada em horas caso a Turquia assim o decida. Aparentemente, nem sequer tem sido possível enviar apoio militar para os curdos sírios que resistem em Kobani.

    Perante isto, tu resolveste anunciar que não andas distraído, daí ser tudo evidente para a tua poderosa inteligência. Deixa-me repetir-te pela enésima vez: parabéns, pá!

  21. Parabéns, pá, pelo brilhante ensaio de teoria militar com que nesta última resposta me brindaste. Fiquei tão excitado que cheguei a lamentar que nos brinquedos da minha infância fossem raros os soldadinhos de chumbo. Não fosse esse o caso e o entusiasmo ter-me-ia levado a procurá-los imediatamente nas catacumbas de algum armário esquecido, para os dispor no terreno e visualizar melhor os geniais e priápicos cenários produzidos pela carola de Sun Valupi Tzu.

    “Aparentemente, nem sequer tem sido possível enviar apoio militar para os curdos sírios que resistem em Kobani.”

    Pois é, aparentemente, continuam a escapar ao grande estrategista respostas a questões que os maluquinhos das teorias da conspiração consideram simples.

    “NEM SEQUER TEM SIDO POSSÍVEL”, mistério do caraças, vá-se lá entender porquê, deve ser o 69.º segredo de Fátima. Eh pá, essa é fácil, diz aqui o maluquinho das teorias da conspiração: aquilo parece que à volta de Kobani há um fosso com léguas de largura e a profundidade das Marianas cheio de tubarões, jacarés, jacaralhos, piranhas e crocodalhos, seguidos por mais umas duzentas léguas de deserto infestadas de tarântulas e escorpiões, sem esquecer os ares patrulhados por infindáveis esquadrilhas de pterodáctilos. Está visto que é bué de dificilississíssimo fazer passar até uma caixinha de camisas-de-vénus, prontos, quanto mais apoio militar, prontos again.

    Já agora, isto não é evidente apenas para a minha “poderosa inteligência”. Tenho lido e ouvido dezenas de textos e vozes a dizer o mesmo, só que em tascas de que provavelmente não gostas.

  22. 19 Janeiro 2013 (Los Angeles Times):
    http://articles.latimes.com/2013/jan/19/world/la-fg-wn-syrian-kurds-and-rebels-battle-over-town-20130119

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    27 Janeiro 2013 (Global Research):
    http://www.globalresearch.ca/nato-terrorists-in-syria-attack-kurdish-minority/5320655

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    8 Outubro 2014:
    http://bahrain.shafaqna.com/other-services/middle-east/item/33677-why-erdogan-is-refusing-to-send-his-forces-into-kobani.html

    Rapinado daqui (The Times):
    http://www.thetimes.co.uk/tto/news/world/middleeast/article4230053.ece

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    26 Agosto 2012 (The Independent):
    http://www.independent.co.uk/voices/commentators/patrick-cockburn-as-the-violence-intensifies-in-syria-there-can-be-only-one-winner–the-kurds-8081272.html

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    13 Outubro 2014 (Pravda):
    http://english.pravda.ru/world/asia/13-10-2014/128787-translational_elite_syria-0/#

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    Dá trabalho mas vale a pena.

  23. Joaquim Camacho, gabo-te a paciência. Estás mesmo convencido de que as catacumbas deste blogue são o palco onde verás reconhecida a verdade que te assiste, nem que para isso tenhas de passar o resto do tempo a vir para aqui despejar links. Olha, antes isso do que pancada pior.

  24. Tem graça. Ver um autor anónimo fulanizar os comentários às suas opiniões. Lançaste a bisca tens que ficar com o jogo, Valupi. A batalha de Kobani é ou não é o momento decisivo em que se faz luz sobre a real hipocrisia ocidental? Como raio se aplicam sanções económicas e políticas de toda a especie à Rússia ao mesmo tempo que se trata com doçura e carinho uma Turquia que, não apenas assiste no camarote, permite apoios à maior barbárie que este século já assistiu e reprime com brutalidade os que contra ela se rebelam?

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