Há política para além do pragmatismo

Seguro, ao contrário do que tinha sido posto a correr após as primárias, não fica no Parlamento. De facto, tal decisão parecia demasiado bizarra (patética?) mesmo para o fundador da “nova forma de fazer política”. Mas o seu silêncio a respeito validava a informação, tendo deixado passar a altura apropriada, a declaração de derrotado, sem comunicar o mais que lógico abandono da função parlamentar. A sexta fila iria regressar à glória de tempos idos, pairava a ameaça. Nisto, Costa consegue em 48 horas a prometida unificação do partido. Os tenentes de Seguro, que logo na noite eleitoral começaram a pedir uma fatia do bolo, foram atendidos por um Costa ultrageneroso. Um terço do PS iria ostentar a bandeira da separação entre a política e os negócios. De seguida, surgiram notícias acerca de umas camionetas manhosas cuja missão foi a de arrebanhar votantes para Seguro na Guarda. Ninguém explicou mais nada acerca do caso, ninguém se justificou. Por fim, estava para sair a sondagem que retrata a espectacular mudança de ciclo político. Como é que Seguro poderia continuar por aí a saltitar em frente aos jornalistas? Inimaginável.

A rapidez e facilidade com que se fez o enterro do machado de guerra no PS resulta directamente da assimetria dos resultados, não tendo passado de uma piada a hipótese de Álvaro Beleza ou João Soares irem a votos no congresso contra Costa. Apesar dessa força magnética do novo poder, que muitos anteciparam como regra de ouro, a instantaneidade do processo surpreende negativamente. Qual o valor das crenças políticas daqueles que optaram por uma campanha de calúnias e de terra queimada? Será que não se importam de estar agora coligados com aqueles que carimbaram como inveterados corruptos? Vale tudo pela gamela? Também Costa não fica bem na fotografia, parecendo demasiado profissional a resolver uma questão que é igualmente relativa a dimensões éticas, sentimentais e simbólicas – a seiva da política. Toda a razão para o protesto de Sérgio Sousa Pinto, que vimos a acompanhar Costa na ida à sede do PS na noite das primárias e que de imediato registou a disfuncionalidade do que se estava a passar. Conceder a Seguro a benesse de ter oficialmente um terço do partido era um prémio injustificável e um erro político.

Para se contemplar o que representa Seguro para o futuro do PS e da política nacional, recorde-se como Marinho e Pinto o encheu de elogios, antes e depois da votação nas primárias, ao mesmo tempo que atacou Costa. Os direitolas decadentes fizeram o mesmo. Os comunas foram até onde podiam ir, ficaram-se pelo ataque a Costa pois é sacrilégio fazerem elogios a qualquer socialista vivo, morto ou por nascer. Este cenário não é um acaso, é um alinhamento de interesses. O inimigo comum a dar corpo à turbamulta. Qual a razão para lidar com esta ridícula figura, e quem o apoiou, como se nada de muito perigoso tivesse acontecido no PS e na democracia portuguesa?

Costa sabe que ele e os seus seriam tratados como traidores em caso de vitória de Seguro. O ressentimento e a velhacaria iriam rebentar furiosos e o PS deixaria de existir como o conhecemos até Seguro ter saído da gaiola. Essa consciência, esta história, merecia algo mais do que o seu exímio pragmatismo.

5 thoughts on “Há política para além do pragmatismo”

  1. ser líder é gerir pessoas e não estados de alma. ganhar é ser magnânimo e pôr os 30% de coiros a trabalhar defendendo aquilo que anteriormente abominavam. ahhh!… não cumprem… vão boicotar… conspiram,,, coiso & tal, tanto melhor vão sendo despromovidos até chegarem à porta da rua, depois assistem na têvê e mandam bocas nos caixotes de comentários. não acho que tenha sido mau negócio, a rapidez da decisão acabou com veleidades de mais parvoeira, passa a imagem de unificação que chateia do gerómino ao cavacoiso, apresenta resultados imediatos nas sondagens e dá cabo da teoria do partido destruído que os direitolos se preparavam para cavalgar. deixa lá, aguenta mais uns tempos e vais ter o prazer de ver o beleza na decoração de interiores, o brilhante nos interruptores e o jô soares a mordomo dos urinóis do rato.

  2. Parece que toda a gente quer comandar a agenda do novo líder: os jornalistas, as oposições e o próprio PS. É preciso calma, Costa tem muitas provas a dar e tempo para o fazer. Estou convencido que ele vai surpreender, nas alturas próprias.

  3. O terço do PS que, aparentemente, era Seguro vai diluir-se, qual amiba, e navegar ao sabor da maré de vitória e prometimentos futuros.

    Os restinhos contestatários e bafientos serão anulados por novos desígnios.

    A tradição já não é o que era. Abriram-se as mentes duma esquerda agarrada a preconceitos de “casta”!!

    O pragmatismo, por um lado, e a necessidade de sobrevivência por outro, vão fazer a diferença. Novos tempos exigem novas gentes, de mentalidades frescas.

    Independentemente da idade dos protagonistas, os desafios são enormes. É necessário uma base forte de apoio e para isso toda a gente tem que compreender para onde vamos e quais os objetivos !!!

  4. A questão é pertinente, os fins não justificam os
    meios usados por alguns dos “tenentes” do Tozé,
    lembro o que foi dito pelo j. soares sobre o seu
    Pai, o que um a. galamba escrevinhou em artigos
    de opinião sobre A. Costa, o que um tal laranjo
    disse sobre a “chapelada” dos pagamentos das
    quotas lá por Braga … creio não terem condições
    para continuarem no Partido porque de socialis-
    tas nada mostram! A continuarem, só ajudam a
    desvirtuar os princípios com que o PS se deve
    apresentar aos eleitores ferindo a sua credibilidade!!!

  5. os 30% não me incomoda. é bom ter gente num orgao partidario que pense diferente,desde que não façam oposiçao à moda do pcp. com o tempo os do “reviralho” com naturalidade deixam de existir como organização .isto é na minha opinião o que deve ser o funcionamento de um partido.uma banda que cada um toca para o seu lado dá merda! custa -me falar sobre esta materia,mas é por ser assim que não milito em nenhum partido.concordo com esta escolha interina de ferro rodrigues,mas com um papel diferente daquele que estamos habituados.como não é um brilhante tribuno,e a preparaçao de um debate implica muito trabalho no partido ou em casa,acho que o papel dele se devia limitar as intervençoes politicas, e para os debates quinzenais ia dando oportunidades aos mais novos mas brilhantes oradores que estão no parlamento.esta escolha dependia dos temas a debater. hoje o som e a imagem conta muito.

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