À série

Kemal
Pamuk
2010-11-12_Julian Fellowes_1ª-2ª-3ª épocas

Só vi esta série no começo de 2014. As três primeiras temporadas de rajada. Os elogios em que fui tropeçando desde que surgiu eram unanimemente hiperbólicos. Num período de glória televisiva, com as séries a ultrapassarem o cinema em relevância social e cultural, o entusiasmo gerado por este produto britânico despertava as mais altas expectativas.

Episódio 3 da 1ª temporada. A Condessa de Grantham quer muito casar a filha mais velha. Com esse fim, convida o filho de um marquês a passar uns dias lá em casa. O filho do marquês aceita e anuncia que levará consigo Kemal Pamuk, um diplomata turco filho de um dos ministros do Sultão. A Condessa de Grantham decide que a filha casadoira deverá acompanhar as visitas numa caçada. Kemal Pamuk revela-se um adónis que perturba assaz favoravelmente Lady Mary, a filha casadoira. Tão perturbada fica que despacha o guardião parental e vai para a caçada como presa indefesa. Kemal não perde essa oportunidade e a meio da coisa, depois de uma valente galopada, propõe-lhe que sigam por um atalho. O atalho implica saltarem para dentro de uma poça de lama, ficando ambos muito sujos. A metáfora não podia ser mais explícita, aqueles dois estavam doidinhos para fazerem porcarias mesmo porcalhonas. Ao voltarem a Downton Abbey, Kemal, o turco, arrasa com sucesso igual no sexo oposto como no sexo não oposto. A primeira vítima do seu fascínio bi-erótico é um dos criados, o qual não perde tempo e na primeira vez que se encontra no quarto da visita para a servir trata de lhe mostrar que o serviço pode ser completíssimo. Kemal recusa, tem gostos diferentes mas um plano parecido. Plano esse que passa por aproveitar a sua primeira noite sob a hospitalidade da nobre família Crawley para se enfiar no quarto da filha casadoira. Se bem o pensou, melhor o executou. Lá chegado, explica ao que vai. Vai fazer-lhe uma certa coisa com a pilinha que, garante, não porá em risco a sua virgindade. Lady Mary poderá casar com um otário qualquer sem temer o escândalo, desenvolve Kemal. Basta usar a imaginação. Um único obstáculo ainda se ergue entre a pilinha do turco e uma parte não nomeada da intimidade virginal da Lady. É a interrogação final: “Vai doer?” Que nada, responde o diplomata. Essa agora, o que é que isso importa. O que é preciso é estupidez e descontracção natural. Resposta convincente, a avaliar pela abundante troca salivar a que dá origem. Corta para Lady Mary a receber uma descasca da Condessa madrugada adentro. O cabrão do Pamuk tinha patinado durante o acto. Esse garboso e atlético jovem terá ido longe de mais no esforço despendido a dar largas à imaginação. E a filha casadoira de uma das mais ilustres linhagens de sangue inglês ficava determinantemente proibida de andar a levar no rabo do corpo diplomático turco.

Este terceiro episódio consolidou a minha crença de estar perante uma versão actualizada de Upstairs, Downstairs (A Família Belamy). Jamais nos anos 70 teria sido possível tratar na TV a sexualidade desta forma tão libertina e tão pícara. Tirando isso, o modelo narrativo era exactamente igual ao da série de saudosa memória. As venturas e desventuras dos amos e criadagem numa casa da aristocracia londrina no princípio do século XX, a ideologia niveladora e conservadora, onde há heróis e vilões em ambas as classes e onde faz sentido haver classes, a simetria entre os códigos monárquicos e a hierarquia do trabalho proletário. Tudo igual, tudo telenovelesco. Mas com homossexuais assumidos, sexo anal em miúdas virgens e cavalos. De facto, prometia.

O que veio a seguir reposicionou a história entre o Kemal e a Lady, e gradual mas inexoravelmente transportou-me para a conclusão de ser Downton Abbey não só uma das mais pirosas séries que alguma vez vi como um exercício de escrita televisiva a pedir intervenção terapêutica de psicanalistas. As personagens revelaram-se todas, sem excepção, como unidimensionais, sem profundidade nem complexidade. Essa insuportável leveza de ser é agravada pela vacuidade das suas acções que nunca ultrapassam o simplismo, o infantilismo ou o artificialismo. Não admira que as personagens possam aparecer ou desaparecer sem qualquer nexo que acrescente unidade à história. À medida que começamos a descodificar o arbítrio criativo que impera na cabeça do autor e guionista da série, os episódios passam a ser cada vez mais hilariantes. E claustrofóbicos.

Há uma moral nesta palhaçada: os muito ricos sofrem muito e merecem receber a compaixão dos pobres. O resto é paisagem; e o mundo interior de uma sopeira milionária chamada Julian Fellowes.

5 thoughts on “À série”

  1. Os contos que integram as mil e uma noites são de diversas origens e foram sendo acrescentados e suprimidos ao longo da história da obra. As mais antigas referências à obra não mencionam que contos compunham a colecção desconhecendo-se, por isso, quais foram as primeiras versões das histórias – uma vez que os manuscritos com contos que chegaram até aos nossos dias datam do século quinze.
    Trata-se de uma obra clássica estruturada com histórias em cadeia: cada conto termina com uma deixa que o liga ao seguinte, o que leva todo aquele que é curioso a querer sempre continuar a história, interrompida com a magia sempre no ar. E daí talvez a escolha bem sugestiva de mil e uma – se fosse mil era estanque e sem margem para a ideia de continuidade…
    Schahriar, rei da Pérsia, terá sido vítima da infidelidade da sua mulher. Então mandou matá-la e resolveu passar cada noite com uma mulher diferente que mandava degolar na manhã seguinte. Uma mulher especial, Sherazade, começou um conto que despertou o interesse do rei em ouvir-lhe a continuação sempre na noite seguinte. Sherazade, em talento puro no ligar dos seus contos, conseguiu encantar o rei por mil e uma noites. E foi poupada da morte.
    Este parágrafo merece, por ter magia, um sorriso. Porque o importante mesmo a reter está nesta metáfora traduzida por Sherazade: a liberdade conquista-se pelo exercício da criatividade.
    :-)

  2. É isso mesmo. Todos os que se opõem àquela estrutura social são apresentados como maluquinhos perigosos, ou então acabam mais ou menos rendidos à pseudo-evidência da sua bondade. As patifarias dos aristocratas aparecem sempre como sendo de pouca importância e reflectindo, no máximo, idiossincrasias pessoais. Vista com distância irónica, é uma série hilariante. O problema é que se leva mesmo muito a sério.

  3. “Jamais nos anos 70 teria sido possível tratar na TV a sexualidade desta forma tão libertina e tão pícara.”

    Porque não? Se já havia margarina vaqueiro e o Salazar já tinha batido as botas?

  4. Como se pode não ter visto e ter gostado. Tonteria aceitável pela escrita livre, admito. A série não justifica tanto… Abracos

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