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A última trincheira

O Bloco Central voltou das férias e trouxe duas novidades: mudança de horário (irrelevante) e uma bacorada gigante do Pedro Marques Lopes (relevante). Aconteceu esta quando o respeitável, estimável e admirável Pedro considerou como uma das maiores falhas de Costa no debate com Passos o bate-boca sobre quem tinha sido responsável pela vinda da Troika. E manifestou a sua incredulidade por Costa estar a insistir nessa questão quando toda a gente sabe que foi o Governo socialista a fazer o pedido de resgate. A mesma lógica seguiu Passos no debate e rescaldo, agarrando-se à objectividade histórica para contra-atacar. E nos dias seguintes vimos os direitolas a repetirem a lengalenga.

Pois. Só que Costa não disse que foi o PSD quem chamou a Troika, como não poderia dizer sob pena de não poder continuar em campanha e ter de ir tratar-se. O que ele disse foi que o PSD quis a vinda da Troika, na intenção de a usar como aliada e disfarce para o programa de empobrecimento que escondeu do eleitorado em 2011. Basta rever o vídeo. No diálogo, e perante a insistência de Passos de que não tinha sido o PSD a pedir o resgate, Costa termina essa troca de palavras dizendo “Também…” – ou seja, e no contexto, é verdade que o Governo socialista é o responsável institucional pelo pedido que se viu obrigado a fazer, pois só o Governo é que o poderia fazer face à Lei, mas o PSD também é responsável no processo, tem uma responsabilidade política que pede avaliação política neste período eleitoral.

Do Pedro Marques Lopes, num absoluto contraste com o Pedro que nos traiu, não se pode dizer que sofra de desonestidade intelectual. Pelo que a única explicação para este teatro do absurdo tem de ser do foro cognitivo. É inevitável que os gostos, os afectos, os preconceitos condicionem a assimilação da informação, dando origem a uma versão deturpada da realidade de forma espontânea. Terá acontecido isso até a quem faz da interpretação de discursos e eventos políticos parte da sua vida profissional, naturalmente. Porém, igualmente se pode dizer que Costa poderá ainda trabalhar melhor esse tão importante argumento eleitoral.

A colagem da direita, especialmente do PSD, ao FMI, à Troika e ao Memorando foi feita com abundância de descaramento e racionalizações. Na altura, a invasão estrangeira vinha salvar a Pátria daquele que era insultado por dirigentes e notáveis do PSD como Hitler, Saddam e Drácula. O laranjal oferecia-se sedento e guloso para ser o capataz que iria meter na ordem os mandriões e esbanjadores. Uma das mais extraordinárias declarações nesse sentido foi feita pelo próprio Passos:

«É curioso que o programa eleitoral que nós apresentámos no ano passado e aquilo que é o nosso Programa do Governo não têm uma dissintonia muito grande com aquilo que veio a ser o memorando de entendimento celebrado entre Portugal, a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional», declarou Passos Coelho, durante uma sessão com militantes do PSD sobre a revisão do programa do partido, num hotel de Lisboa.

Depois de acrescentar que o diagnóstico da situação do país feito pelo PSD «não estava muito desviado da observação atenta especializada que o Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional tinham», Passos Coelho concluiu: «Quer dizer, há algum grau de identificação importante entre a opinião da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional e o que é a nossa convicção do que é preciso fazer».

Segundo o presidente do PSD, por esse motivo, «executar esse programa de entendimento não resulta assim de uma espécie de obrigação pesada que se cumpre apenas para se ter a noção de dever cumprido».

«Por isso, não fazemos a concretização daquele programa obrigados, como quem carrega uma cruz às costas.»

«Nós cumprimos aquele programa porque acreditamos que, no essencial, o que ele prescreve é necessário fazer em Portugal para vencermos a crise em que estamos mergulhados», reforçou.

Isto foi dito em 2012, nas vésperas de Gaspar descobrir que tinha errado na receita. Assim que no Governo se deram conta do buraco sem fundo em que se estavam a enterrar, mudaram radicalmente de estratégia de comunicação e passaram, maníaca e diariamente, a castigar o PS por ter “chamado a Troika” e ser quem “negociou o Memorando”. Ora, recordar esta história, que inclui o chumbo do PEC IV e a coligação negativa que deixou um Governo minoritário boicotado e a ser queimado num dos mais difíceis períodos internacionais de que há memória viva, tem máxima importância. A dimensão das mentiras que foram usadas por Cavaco, Passos e Portas resultaram no além-Troika cujas contas igualmente deveriam estar a ser exibidas.

Quantos vidas se degradaram – e perderam – por causa da traição cometida pela direita portuguesa em 2011? Como estaríamos em 2015 se o Memorando tivesse sido cumprido sem fanatismo ideológico e revanchismo partidário? E sabendo hoje o que sabemos que aconteceu durante os 4 anos, a acção do BCE e a baixa do petróleo, quem é que pode negar que o mais inteligente para os interesses da comunidade seria, indiscutivelmente, a aprovação do PEC IV, seguido de eleições ou de um Governo de coligação?

É por isto que o culto do medo e do ódio – e a sistemática diabolização de Sócrates, aquele que lutou até ao limite da sua resistência psíquica contra a vinda da Troika – é a última trincheira onde os pulhas ainda resistem depois da colossal destruição que causaram.

Aquila non capit muscas

Vítor Gonçalves é um daqueles jornalistas com grande influência (no caso, podendo entrevistar os protagonistas políticos na televisão pública) que não esconde as suas preferências ou aversões partidárias. Ou talvez seja mais correcto dizer que não as consegue esconder, dado que o homem é um bom bocado tosco. Ontem, resolveu ir entrevistar Costa como se fosse o advogado da direita a interrogar um arguido em tribunal. Aquilo que Passos não tinha conseguido fazer, ou onde tinha levado porrada, este Gonçalves propôs-se pegar nisso e fingir que estava a fazer jornalismo. Mas não estava, quis fazer política. Mais uma vez. E logo na RTP.

Costa vinha de uma noite triunfal. Talvez por isso, ou apesar disso, não se conseguiu controlar. Ao detectar que não estava numa entrevista imparcial mas num debate com um adversário, respondeu com indignação. E essa indignação ficou-se pela expressão da agressividade. Em consequência, o jornalista reagiu defensivamente à agressividade e aumentou os automatismos respectivos do conflito emocional em que se enredaram. Acabou por ser Costa quem perdeu, nem que fosse por ter lançado um osso aos direitolas famélicos que voltaram a ter o que roer durante um bocadinho. Mas a sua falha merece análise, pois se liga também com a sua vitória no debate com Passos.

A melhor forma de lidar com uma situação como aquela criada pelo Gonçalves teria sido o recurso à bonomia implacável. A bonomia tem um duplo benefício: gera simpatia na audiência e aumenta os recursos cognitivos, permitindo reacções e opções mais criativas, tanto no discurso verbal como no não-verbal. Inversamente, a reacção defensiva agressiva diminui o campo das opções por se concentrar na imposição da força. Mostrar que as perguntas do jornalista obedeciam a uma lógica concorrencial e não jornalística poderia, através da ironia e do sarcasmo dirigido à acção mas não ao agente, ser feito de forma implacável no aproveitamento das mesmas para transmitir as ideias do programa socialista. Caso o jornalista insistisse na sua agenda, e ele insistiria pois não levava outra, a sucessiva desmontagem da sua má-fé geraria um crescendo de fragilização para o entrevistador e de autoridade para o entrevistado.

A ligação do ontem com o anteontem está na ponderação do que deu a vitória unânime a Costa sobre Passos: a percepção de que esteve ao ataque. Costa atacou, Passos defendeu-se (ou nem sequer se defendeu pois alguns dos ataques não tinham defesa possível). Até quando Passos atacou (Sócratesx12) foi Costa que ganhou um assalto mais importante do que a própria batalha. Isto funcionou porque o páreo era entre iguais, primeiro, e porque os ataques eram legítimos, sendo esta a razão principal. Se algo aqui fez de errado, foi tão-só por não ter ido ainda mais longe, pois quanto ao tom, ao modo e ao conteúdo, Costa esteve perfeito na forma como se superiorizou ao concorrente.

Alguém poderia explicar ao actual secretário-geral socialista que ele tem uma comunidade inteira à espera que se indigne com o que se deve indignar e pelas boas razões para estar indignado. Quando entra nesse registo, até a sua torturada dicção parece desaparecer e a sua imagem de chefe combativo transmite somaticamente convicção e segurança, a tal confiança que promete ao eleitorado. Uma confiança que nasce quando se mostra que se tem coragem, força e habilidade para lutar. Um debate – portanto, uma campanha – não é uma disputa académica ou um julgamento judicial, nem sequer o eleitorado quer ser esclarecido acerca do programa seja de quem for. Se quiser, que os leia, pense neles e discuta com os amigos ou no café. O que está em causa nas eleições é a escolha do líder e a percepção do voto que antecede e gera o voto nas urnas. Tal voto antes do voto é aferido imediatamente a cada presença dos concorrentes, por maioria de razão quando se confrontam presencialmente.

Durante anos, com o alto patrocínio do Presidente da República, fez-se uma campanha contra dois Governos sob a égide da mentira. O primeiro-ministro de então era um super-mentiroso sem carência de se mostrar em quê e os governantes socialistas mentiam em tudo o que diziam, até mesmo quando referiam dados de instituições internacionais, também a mentir caso lhes desse para apresentarem uma visão positiva fosse do que fosse. O tal Presidente do “falar verdade aos portugueses”, o partido da “Política de Verdade” e das “gorduras do Estado”, os partidos restantes à direita e à esquerda abraçados no coro “Sócrates é mentiroso”, a comunicação social em uníssono e fúria, todos se aliaram para derrubar quem fez o que pôde para evitar males maiores à população por causa de tempos históricos extraordinários em todo o Mundo e na Europa. Com isso, os paladinos da verdade colocaram no poder quem fez da mentira o meio e o fim da sua estratégia. Nunca houve um Governo assim, onde todo o edifício da acção executiva, de facto, assenta em mentiras passadas e presentes. Só não se pode dizer que assenta em mentiras futuras porque esta gente nem programa tem. Eis o sedimento onde se funda a derrota de Passos. E daí a perplexidade por não se ter feito a campanha neste terreno, aquele onde Costa mostrou ser capaz de voltar a dar esperança ao seu partido e ao País.

Medina impecável a lidar com o tema Sócrates

Fernando Medina considera que as declarações de Sócrates, onde se diz vítima de uma conspiração para prejudicar o PS nestas eleições, nascem da situação anómala em que se encontra. Prender-se um ex-primeiro-ministro num ano eleitoral e deixá-lo mais de 9 meses numa cela sem o acusar de nada, nem nada explicando à sociedade, é anómalo seja qual for o ponto de vista.

É assim que um político deve falar da Justiça calhando uma personalidade do seu partido estar sob suspeita judicial: no confronto com os factos presentes, não com os futuros. Os factos futuros trarão uma acusação ou um arquivamento. No caso de trazerem uma acusação, logo se verá qual e como se sustenta. Por agora, o tempo é o de lidar com a prisão de um inocente e a exploração política que esse processo tem permitido.

Medina não se pronunciou sobre o desfecho do caso, o que seria irracional. Mas, no cumprimento da sua vocação e dever como político, denunciou a demora da Justiça que introduziu as perversões que se constatam diariamente. Em que outro caso judicial, na história da Justiça em Portugal, se viu existirem órgãos de informação, e jornalistas avulsos, em campanha permanente para a condenação na praça pública de um arguido – e isto ao longo de anos e anos, culminando nesta orgia mediático-justiceira da “Operação Marquês”?

Medina não o chegou a dizer, mas aposto que concordará: mesmo no cenário hipotético em que Sócrates venha a ser acusado e condenado seja lá do que for, o que se fez com ele continuará a merecer denúncia e castigo.

Troika-tintas

Pedro Passos Coelho, e o PSD, na altura na oposição, tiveram um papel activo na convocação da troika. A 31 de Março de 2011, quando Sócrates ainda rejeitava o pedido de empréstimo, Passos Coelho assinou uma carta oficial do PSD, que escreveu com Miguel Macedo, e foi entregue pelos serviços de protocolo, defendendo o pedido de "resgate". Destinatários: Sócrates e Cavaco Silva. No dia seguinte, 1 de Abril, os mesmos destinatários receberam outra carta de teor idêntico, desta vez subscrita pelo governador do Banco de Portugal, Carlos Costa. No dia 2, Paulo Portas, líder do CDS, declarou à agência Lusa o seu apoio à ideia: "Não faço parte dos que diabolizam o FMI."

Dois dias depois, a 4, os principais banqueiros portugueses à época (Ricardo Salgado, Carlos Santos Ferreira, Faria de Oliveira, Fernando Ulrich e Nuno Amado) reuniram-se com Carlos Costa, na sede do regulador, e, de seguida, dirigiram-se para o Ministério das Finanças, onde fizeram o mesmo pedido ao ministro Teixeira dos Santos.

A prova dos factos: afinal, quem chamou a troika em 2011?

És um infeliz, ó pá

O caluniador pago pelo Público saiu-se hoje com esta coisa:

Quando Mário Soares vai visitar José Sócrates três vezes em três dias consecutivos, não é certamente para averiguar se ele se está a adaptar bem às suas novas instalações – Soares está a desempenhar o velho papel de figura tutelar do Partido Socialista e a servir de ponte entre Sócrates e António Costa. Que é como quem diz: Soares está a fazer o que pode para que o animal feroz não saia da jaula antes das eleições de 4 de Outubro.

Fonte

Se esta cagada fosse apenas um pensamento a compor a paisagem interior do caluniador, e calhando tropeçar-se nela, o interesse não ultrapassaria a esfera psiquiátrica e zoológica. Como isto aparece na forma de um texto assumido como representativo do que um jornal dito de referência considera opinião de qualidade, o interesse passa a ser político por via da sua influência no espaço público.

Soares já vai na quinta visita a Sócrates, uma por dia desde domingo, segundo afiança o esgoto a céu aberto. O que se vê em Soares, especialmente desde a encefalite, é a galopante degradação das capacidades físicas e cognitivas. Qual a sua extensão e profundidade, isso não pode ser medido por leigos, muito menos pelo que nos chega através da comunicação social. Contudo, basta o encontro fortuito de dois neurónios no cérebro de um qualquer caluniador para se ter de concluir estarmos perante um idoso a passar por uma fase de agudo declínio que, previsivelmente, será irreversível. Para agravar a sua condição, acaba de perder Maria Barroso, o que também muito previsivelmente será causa para estados depressivos ou tão-só para uma tristeza e desamparo a pedir a companhia de quem o ama, estima e admira. Este o quadro onde a sua ligação a Sócrates se justifica, antes de tudo o resto concebível, pela dimensão afectiva e existencial a ligar essas duas personalidades.

Para o caluniador, Sócrates e Soares não podem ser considerados como vulgares pessoas a mostrarem naturais laços de amizade, companheirismo, até camaradagem e amparo mútuo. O caluniador, para ter estômago para o serviço, não os pode aceitar como seres humanos, como consciências e vontades livres. De um lado, temos o monstro. Do outro, a marioneta. O monstro quer sair da jaula para atacar, destruir, matar. A marioneta está ao serviço de Costa, o qual tem medo do monstro e, portanto, serve-se do velhinho para não sei quê. E isto resulta. Ou não. Para o caluniador é indiferente. Porque ele vai sempre voltar a escrever e a berrar que tinha razão, aconteça o que acontecer. A carreira de um caluniador profissional, como se vê, é um descanso por não carecer de responsabilização. Vale tudo.

O caso deste caluniador merece atenção dada a produção maníaca de calúnias a que se dedica no meio em causa. Não é o único, há uma legião de caluniadores iguais nessa indústria ao serviço do laranjal, mas basta que escrevam em pasquins para que o carimbo já esteja a ser posto na sua tola por eles próprios. Quando se vende veneno destes na imprensa que pretensamente se respeita como imprensa, há que reagir. O soez, cínico, raivoso ataque a Soares dá-nos a ver como a mera empatia que se tem por um estranho não é compatível com os mecanismos de produção do ódio com que se faz este tipo de chicana. Se fosse um caso isolado, não valeria a pena falar do infeliz. Como ele faz parte da máquina que anda há anos a emporcalhar o espaço público desfrutando de larga exposição mediática, ficar calado é ser cúmplice da transformação de Portugal num país infestado de pulhas.

Ironia e maiêutica para as 20.30

O melhor momento da Catarina, no debate de ontem, foi quando anunciou que tinha uma pergunta para fazer a Portas. E fez mesmo, ficando tranquilamente à espera de uma resposta que nunca veio. Portas engasgou-se, esperneou e tentou fugir por onde se conseguisse enfiar. Contou com a ajuda involuntária da Ana Lourenço que se colou ao desafio da Catarina e misturou o tema do corte dos 600 milhões. Apesar disso, o trunfo foi eficaz e vimos que nem Portas, mestre da frase de efeito e há décadas a virar frangos no campeonato da hipocrisia, conseguiu salvar a face da Coligação. Pura e simplesmente, não fizeram contas nem estão preocupados com isso. Há malta algures na Europa a fazê-las, eles apenas têm de vencer as eleições ou não perder por muitos de forma a voltarem a boicotar o próximo Governo socialista.

O recurso de colocar uma pergunta ao adversário é muito pouco usado em Portugal em debates. Porém, nas devidas circunstâncias, como as de ontem, é poderosíssimo. O alvo, ao não ter resposta, e ao não querer assumir que não tem resposta, enterra-se nas areias movediças da falsidade e do ridículo. O costume é vermos políticos que têm uma concepção geométrica do que é vencer o debate: ser aquele que ocupa mais espaço dentro do espaço limitado pelo tempo. Daí a pulsão para se interromperem, falarem por cima uns dos outros e falarem sem parar, só para não dar a palavra ao adversário mesmo que aquilo que se esteja a dizer valha menos do que esferovite numa lixeira. Resultado: apenas convencem quem já está convencido e trabalham para as suas claques. Todavia, o que realmente altera percepções e convicções é ter uma concepção aritmética do debate, onde vencer é não só apresentar cálculos correctos como mostrar que o cálculo do adversário está errado. 2+2 não poderão nunca ser 5 ou 3, ainda menos 1000 ou 0. Pelo que tal será demonstrável, e ficará na consciência da audiência a questão: aquele que está a mostrar contas erradas não sabe fazê-las ou quer enganar-nos? Em qualquer dos casos, vitória inequívoca para quem consegue expor o erro no discurso do adversário.

Imaginemos que Costa, na primeira oportunidade para falar no debate desta noite, dizia o seguinte ou uma qualquer variante do mesmo:

Vou aproveitar parte do meu tempo para permitir a Passos Coelho responder a uma pergunta que milhões de portugueses lhe querem fazer: por que razão sentiu a necessidade de mentir, e mentir tanto que acabou por mentir em tudo, na campanha eleitoral de 2011? O senhor deve-nos essa explicação.

Qual poderia ser a resposta de Passos a este desafio de Costa? Se optasse por se mostrar ofendido, não desmontando o ataque, estaria apenas a aceitar a factualidade de ser mentiroso e ter chegado ao poder através de colossais mentiras. Se dissesse que não conhecia a “realidade” na altura em que disse isto e aquilo, estaria a acrescentar mais mentiras, podendo ser de imediato desmentido por Costa dada a profusão de declarações de Passos e altos responsáveis do PSD, incluindo do avô Catroga, onde juravam ter “as contas todas feitas” e terem sido eles a influenciar decisivamente o Memorando. Pelo que a sua única resposta possível seria não responder, levantar-se e sair.

Costa não o fará, para grande sorte de Passos. Azar o nosso.

It’s not rocket science

Nota

O texto que se segue foi encontrado numa caixa de comentários do Expresso, assim se provando que ainda há quem acredite na absoluta democratização da opinião, como ocorre nesses ambientes. Mas o mais extraordinário, logo a seguir à opinião ela própria abaixo exposta, será descobrir quem é George Rupp. Se a identidade que assim assina os comentários no jornal for a mesma da vida real (coisa da qual nunca se tem a certeza na dimensão digital, mas que aqui não suscita qualquer dúvida imediata ou seguinte, chegando ao ponto de incluir uma foto), então estamos só perante um dos mais prestigiados cientistas portugueses na área da Física. Fica como curiosidade que não desabona a ciência, antes a política.

Como se sabe, o PS não seguiu a estratégia de julgar a golpada que levou ao resgate de 2011 e fazer dessa condenação política e moral o esteio do combate ao longo da legislatura. Nem com Seguro nem com Costa, para grande surpresa daqueles que votaram neste nas primárias. Ao se calarem perante esses acontecimentos, os líderes socialistas tornaram-se cúmplices do vil discurso da culpa e do castigo. E ainda pior: deixaram de ter uma explicação a dar para os resultados positivos na economia que viriam inevitavelmente a registar-se, por mais pequenos que fossem, depois de termos batido no fundo ou em resultado da conjuntura internacional.

Talvez um dia alguém estude o assunto e ainda faça uns trocos com um livro.

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Discordo de Ricardo Costa. O debate entre António Costa e Pedro Passos Coelho vai ser de uma extrema importância, independentemente de Sócrates fazer ou não fazer declarações esta semana. Costa tem de perceber que esta será a sua única oportunidade de definitivamente acabar com a pouca credibilidade que PPC ainda possa ter junto dos mais desinformados. Mas terá de falar claro, nomeadamente sobre o que levou ao resgate em 2011, um assunto que inevitavelmente será abordado no debate. Por isso, além de denunciar todas as promessas quebradas de PPC e o falhanço da sua governação, que apenas foi salva do descalabro total pelas intervenções de Mario Draghi no BCE a partir do verão de 2012 e também por algumas decisões do nosso Tribunal Constitucional, é imprescindível falar verdade sobre os acontecimentos de 2010 e 2011.
É preciso desmontar o mito de o PS ter levado o país à bancarrota em 2011, mito esse que faz tábua rasa das graves responsabilidades do PSD na derrapagem das nossas taxas de juro nos mercados financeiros, através de repetidas declarações de Passos Coelho em 2010 sobre a necessidade de pedir ajuda financeira, ao mesmo tempo que minava internamente o governo minoritário e fez aumentar o défice através de exigências para deixar passar o orçamento do estado para 2011. Mas o culminar da estratégia de PPC de se apoderar do "pote" foi naturalmente o chumbo do PEC-IV e o consequente derrube do governo, com base em argumentos que ele próprio engoliu logo no dia seguinte, ao assegurar em Bruxelas que iria assumir todos os compromissos do PEC-IV:
Miguel Portas - O farsolas e o pote - 2011/03/25
António Costa não pode deixar de falar sobre esta farsa. Não se trata apenas de ganhar as eleições. É preciso repor a verdade, por respeito aos portugueses.

George Rupp

Catarina leva Portas ao tapete

Portas, que se viu grego para saber o que dizer, que se refugiava em tábuas não largando os papéis, merece o que lhe aconteceu e merece pior. Haja quem continue este trabalho de salubridade política.

Ana Lourenço perdeu a paciência com Portas várias vezes. Pudera, os palhaços nunca souberam comportar-se à mesa.

Amanhã, Passos vai repetir a cassete. Está tudo à vista, é escolher onde e como se quer malhar.

Comunistas portugueses, espécie protegida

No sistema político português não há partido mais populista do que o PCP. O populismo é a anulação do debate democrático pela invocação de um argumento de autoridade onde se alega ter uma representatividade exclusiva da entidade “povo”. Tal pode ser feito indirectamente, como quando um partido ou agente político cavalga uma crise social e ataca moralmente a própria classe política para obter um ganho táctico (como o PSD, CDS e Cavaco nos anos de Sócrates, por exemplo), ou pode ser feito directamente, como no caso do PNR e do PCP, onde o corpo doutrinal, ou meramente retórico, estabelece a supremacia com base na reclamação da defesa do “povo” e suas configurações simbólicas e institucionais; como “Portugal”, a “Constituição”, o “patriotismo”, até a “democracia” entendida como “a democracia onde nós somos o poder”.

Jerónimo foi hoje ao Fórum TSF. Antes das perguntas dos participantes, saiu-lhe esta declaração: “Portugal tem um povo muito característico, que é uma das maiores riquezas que temos.” Poucos segundos depois dizia que temos de romper com a política que “durante décadas” levou o País à situação em que se encontra. Ora, deixa cá ver. O povo é “característico”, “muito” e uma “riqueza”, das “maiores”. Porém, aparentemente, essa riqueza de povo anda muito mal orientado, dado ter passado as últimas décadas a insistir em votar na direita em vez de dar o voto a quem o defende. A quem sabe quão rico, característico e, portanto, comunista, esse povo é. É isso, não é Jerónimo? Calma, escusas de responder. Saltemos para um assunto mais tangível.

A segunda pergunta que lhe chegou do povo ouvinte, ou talvez de um imperialista capitalista militante no PS, era dupla: sobre a saída do Euro, e sobre o financiamento às PME. Só se respondeu à primeira interrogação, sendo a segunda tão ou mais interessante para o público. A passagem começa ao minuto 14.20 e termina ao 20.03 – 5 minutos e 50 segundos em que Jerónimo diz tudo e o seu contrário, culminando numa sequência de raciocínios alucinante em que defende que a vontade popular não chega para que se realize a vontade popular. Só o Estado, desde que dominado pelo PCP, pode cumprir a vontade do povo.

Num outro nó cego maravilhoso, Jerónimo, para justificar a proposta do PCP para que Portugal saia do Euro, e mesmo da Comunidade Europeia, lembrou-se de agitar o espantalho da Grécia que ia sendo forçada a sair da moeda única por imposição da Alemanha; dramatizou mostrando o seu sincero desagrado pela maldade germânica, os brutos. Acontece que a Grécia não saiu – isto é, nem a Grécia, naquela situação económica e com aquele Governo, saiu – pelo que ficará como um mistério os mecanismos lógicos a operar no doce patriarca dos amanhãs que cantam. Onde não há mistério é na pulsão demagógica, pois o que fica do argumentário à volta da bandeira contra a Europa é que nem sequer o Jerónimo quer que alguma mudança drástica aconteça. O que ele pretende é que se inicie um “processo”, e depois, se bem conduzido, por malta operária à mistura com um ou dois marinheiros, e pelo tempo considerado necessário, algo que o Comité Central não terá dificuldade em estabelecer em nome do povo, então a coisa poderá resolver-se. Até lá, bute é malhar no PS, gozo do caraças.

O PCP anda há décadas a propor que Portugal abandone esse clube opressor onde nunca deveria ter entrado. Contudo, basta apertar um bocadinho com o seu secretário-geral para se ver como esse folclore comuna não passa de um forte medieval a desfazer-se, comido pelo salitre. Nesse sentido, os comunistas portugueses são uma espécie protegida. Protegida pelos jornalistas e pela direita.

Dupond et Dupont

O caluniador pago pelo Público teria de vir apoiar o caluniador Rangel – No país dos sonsos – ou o mundo estaria para acabar. Começo por elogiar-lhe o título, no que vejo um lampejo de salutar autocrítica. De seguida, faço uma confissão. Confesso ter pensado que ia ser desta. Quando o prolixo caluniador prometeu ir contar “verdades” acerca das agruras sofridas pelo “ar democrático” e pela “decência” nos anos em que Sócrates governou, fiquei num estado de grande agitação na expectativa do que viria aí. Afinal, conseguir estabelecer que Sócrates atentou contra a democracia é quase tão valioso como inventar que atentou contra o Estado de direito.

E era isto, e nada mais do que isto, o que o caluniador tinha para apresentar aos leitores:

– Sócrates andou a enfiar o nariz nas redacções e a berrar com jornalistas.

Não se identificam as redacções nem os jornalistas. Temos de admitir estarem envolvidos pelo menos duas redacções e dois jornalistas, posto que se usa o plural. Será legítimo concebermos que se trata de um jornalista por redacção? E que devemos interpretar por “meter o nariz”? Meteu-o todo, e à bruta, ou só a pontinha, com delicadeza? Quanto ao “berrar”, dá ideia de ser mais fácil de perceber. Fica é a dúvida sobre o que terão feito esses jornalistas com os berros recebidos. Por exemplo, o Henrique Monteiro está fartinho de contar como, uma solitária vez, esteve ao telefone com Sócrates por mais de uma hora. E que Sócrates se fartou de berrar. Cá está, comprova-se que o caluniador conta a verdade, pelo menos metade dela. O Monteiro chegou a ir para uma Comissão de Inquérito parlamentar queixar-se dessa conversa que foi obrigado a manter com o então primeiro-ministro. Curiosamente, este Monteiro nunca explicou por que razão aceitou estar ao telefone com personagem tão desagradável, ainda menos explicou em que é que esse telefonema o inibiu na sua liberdade como jornalista ou cidadão. Dá ideia que em nada. Dá até ideia que lhe deu, e continua a dar, apreciadas vantagens por ter tido a sorte de haver um primeiro-ministro com tão pouco para fazer que até tinha tempo para estar a falar consigo como se fossem conhecidos e o assunto em causa tivesse importância. Mas, portanto, e voltando ao caluniador pago pelo Público que intitula um texto seu com a expressão “No país dos sonsos”, fique em acta que o sustento objectivo para atacar como antidemocrático um governante é uma reles converseta de calhandreira. A partir daí, compõe o ramalhete das pulhices, chegando ao ponto de repetir que “a partidarização da justiça existiu mesmo”. É um bravo, este caluniador.

Entra em cena o mano Costa, com É ou não é? É, João Miguel, mas o ponto era outro; alma gémea, embora dizigótica, do tal João Miguel. Veio a correr porque falaram dele e, claro, não poderia deixar passar a oportunidade para também falar de si. Pelo meio, e para o que aqui nos ocupa, concordou com o caluniador pago pelo Público. Sim, Sócrates meteu o nariz nas redacções. Por três vez o mano Costa repete essa informação, a qual associa a uma difusa síndrome do foro respiratório. Donde, só por muito má vontade é que poderemos duvidar do que estes dois cromos do antisocratismo militante nos estão a dizer, dado que eles são especialistas no mafarrico. O nariz de Sócrates, entre 2005 e 2011, enfiava-se nas redacções. E era isto. Muito provavelmente, só isto. Se fosse num convento, poderíamos perguntar às freiras o que faziam com ele lá dentro. Como estamos a falar de jornalistas, um grupo sócio-profissional com dificuldades no acesso à imprensa, talvez tenhamos de reler as notícias desse período à procura das mensagens cifradas que algum tenha conseguido enviar em ordem a descobrirmos os terrores por que passaram sob a ameaça desse narigão hirto e soberbo.

Entretanto, adorava saber quanto é que se ganha na indústria da calúnia. Um gajo despacha um texto destes em meia hora, a vilipendiar um fulano qualquer com base em moléculas de oxigénio e apêndices faciais, e saca quanto ao Belmiro e ao militante do nº1 do PSD? Existirá uma tabela por grau de pulhice e prémios de produtividade? É que abrindo vagas, estou interessado. Foda-se, já que não há moral, toca a comermos todos.

Imprensa Pepperoni

Na cena da entrega de uma pizza na residência de Sócrates, há um aspecto que ainda não vi tratado. Para além do ridículo risível, e do voyeurismo predador, aquilo a que assistimos consistiu numa acção espontânea e concertada dos jornalistas presentes para sequestrarem e manipularem a pessoa que calhou terem apanhado pela frente. Como se vê na versão completa do episódio, os jornalistas nunca disseram ao funcionário da Telepizza qual era a razão para o aparato mediático. Em vez disso, começaram a explorar a crescente desorientação do indivíduo e chegaram ao ponto de o instigar a agir como se fosse voluntário de uma experiência destinada a ser transmitida em directo para todo o País desfrutar. A perfeita sincronia de todos os jornalistas (mas eram mesmo jornalistas?) tinha como objectivo captar material nascido da resposta emocional que eles antecipavam pudesse ocorrer assim que o sujeito da sua experiência descobrisse quem era o fulano a quem tinha ido entregar a pizza de extra-queijo + pepperoni.

Pode alegar-se que o episódio é aceitável, normal, engraçado. Afinal, tratava-se apenas de uma singela pizza, das pequenas. E do puto que as entrega, um zé-ninguém. Um ser que está quase ao nível de um arrumador de rua, carne para o canhão da comunicação social profissional. Pode defender-se que não se fez mal nenhum ao animal humano capturado na ocorrência. Se calhar ele até gostou, terá sido inundado com mensagens dos amigos e família com parabéns e convites para isto e aquilo. No local de trabalho, passará a ser uma vedeta. Outras pizzarias poderão fazer-lhe propostas de trabalho, a actual poderá lutar pelas sua permanência. Talvez venha a incluir a história no seu currículo profissional. Talvez participe num próximo Big Brother qualquer, agora que é famoso. Ou venha a fundar a sua própria marca de pizzas; a “Pizzas do Marquês”, por exemplo. No entanto, aquilo a que assistimos foi um espectacular abuso que fica como metonímia da impunidade com que se viola a privacidade e a intimidade ao serviço da comunicação social e suas agendas, tanto as comerciais como as políticas.

No final desta histórica reportagem, após a entrega gorada, irrompeu por flutuação quântica um meta-diálogo:

Esgoto a céu abertoE o senhor vai voltar agora? Vai dar essa informação à gerência da sua cadeia?
Arguido de massa finaDa minha cadeia?! Não, que eu não estou preso…

Nada mais lógico: a encomenda de comida feita por um prisioneiro domiciliário ser-lhe entregue por um funcionário da cadeia. Porém, este jornalismo extra-queijo arrisca provocar um curto-circuito semântico junto dos cidadãos alienados que ignorem estarem a soldo de uma superestrutura dedicada a acabar com a corrupção através do aumento de vendas dos pasquins e da destruição do PS, como era o caso daquele indocumentado rapaz telepizzeiro. Tenham cuidado, não se engasguem com o salame.

Revolution through evolution

Single mothers much more likely to live in poverty than single fathers, study finds
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Covert and overt forms of sexism are equally damaging to working women
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Men who buy sex have much in common with sexually coercive men
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Does having a bias actually sell newspapers?
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To Email or Not to Email? For Those in Love, It’s Better Than Leaving a Voice Message
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Risk of financial crisis higher than previously estimated
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Laughter, then love: Study explores why humor is important in romantic attraction
Continuar a lerRevolution through evolution

Ajudemos o Ministério Público, coitadinhos

As intervenções de Paulo Sá e Cunha a respeito do caso Sócrates, na sua vertente jurídica, são exemplares. Como presidente da Associação dos Advogados Penalistas, reúne os atributos de especialista em Direito penal e a missão de promover a excelência nessa prática, por parte de todos os agentes de Justiça envolvidos, a partir dos interesses e direitos dos arguidos.

Ontem esteve na TVI24 a debater com Maria José Morgado e João Paulo Batalha o caso. Este excerto – “Lume brando” do MP durante todo este tempo “terá sido mal ponderando” – corresponde ao que de mais importante foi dito nessa conversa (na minha opinião e dentro do que apanhei, que não foi tudo). Nele se faz referência ao episódio de Julho de 2014, quando na revista Sábado foi publicado o que, na sua parte principal, se viria a confirmar em finais de Novembro com a detenção e prisão de Sócrates.

O Paulo coloca aquela que tem de ser uma interrogação crucial neste processo: quem é que violou o segredo de Justiça naquela data e daquela forma? E, por inerência, quem é que não se importou com as consequências disso para a investigação? Ainda não havia advogados de defesa para servirem de bodes expiatórios, nem qualquer outra notícia anterior a permitir uma especulação divinamente certeira. Para nos aproximarmos dessa resposta temos de cruzar diferentes elementos:

– A condição de absoluto sigilo em que o processo estava envolvido.
– O meio escolhido para a divulgação.
– A data da publicação.
– O histórico das violações do segredo de justiça seguintes.
– A lógica das violações do segredo de justiça na “Operação Marquês”.

A resposta, a mim, parece óbvia. Escrevi logo sobre isso assim que aconteceu e fui recordando essa especialíssima pulhice ao longo do tempo. Ao Paulo Sá e Cunha também parece fácil chegar a uma resposta, ou quiçá. Aliás, é pena que o excerto que a TVI disponibilizou tenha terminado sem mostrar os segundos seguintes, onde vemos uma Maria José Morgado completamente aos papéis e rapidamente a disparar noutra direcção para fugir do assunto.

E tu, que responderias?

Cala-te tu, pá

No Eixo do Mal, o bronco do Luís Pedro Nunes estava feliz da vida com a saída da prisão em Évora e o regresso a Lisboa de Sócrates. A sua alegria tinha um racional, este de a alteração na medida de coação prejudicar António Costa e a campanha do PS, tanto pelo desvio das atenções como pelo que se espera que Sócrates venha a dizer assim que começar a falar com jornalistas. Nos órgãos oficiosos da campanha PaF, o Observador e o Expresso, a construção dos títulos e o tom dos textos transmitia a mesma certeza, Sócrates vinha raivoso para fazer mal a Costa. Igualmente foi posto a correr que entre esses dois socialistas as relações tinham esfriado e azedado, estando aí mais combustível para a explosão. Marcelo, no meio de uma acção de campanha onde apelou ao voto no PCP, repetiu a mesma cassete de poder Sócrates prejudicar, mesmo impedir, a vitória dos socialistas nas eleições caso resolva abrir a boca. Chegam estes exemplos para aterrarmos numa conclusão: mais do que um gozo antecipado com eventuais desgraças na campanha do PS, o que a direita está realmente a pedir, recorrendo à psicologia inversa, é que Sócrates fique em silêncio até às eleições.

E de facto, pois será a passividade de Sócrates o que melhor serve os interesses da coligação. Termos um Sócrates calado implicaria que ele aceitava manter-se como o bombo da festa da indústria da calúnia, a qual continuaria sem oposição a declarar que o ex-primeiro-ministro é um criminoso e que o actual primeiro-ministro é um santo. Mas mais, eventuais declarações de Sócrates sobre a situação política, e sobre esta legislatura que agora termina, poderão fazer mossa é na direita. Sócrates mantém a capacidade de empolgar faixas de militantes e simpatizantes socialistas que estão completamente baralhados com as posturas de Seguro e de Costa em relação ao secretário-geral que os antecedeu.

Há uma correlação inevitável e fundamental entre a avaliação moral e a adesão política. Daí a importância eleitoral da “Operação Marquês”, onde está muito mais em jogo do que apenas a investigação judicial a um indivíduo. Pelo estatuto de Sócrates, ele representa, mesmo na esfera da sua privacidade, um símbolo vivo do que é o PS. Tudo fazer para o apresentar como culpado de qualquer crime é, acto contínuo, estar a envolver o partido nessa criminalidade. Eis a hipótese de ele ser substantivamente um preso político que formalmente não passa de um político preso.

Viriato Soromenho Marques, uma aborrecida figura que rivaliza em pedantice e aversão a Sócrates com Carrilho, também pediu para que o homem se cale – Gerir o silêncio – encerrando o texto com a citação mais famosa do Tractatus e de todo o Wittgenstein: “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve manter-se o silêncio.” O que é que ele, Soromenho, quer dizer com isto? Não sei, desconfio que nada. Será apenas um insulto básico na forma tentada. Sei, contudo, que a releitura da proposição número 1 – a que abre o tratado e que, portanto, é simétrica da última recomendada a Sócrates – seria de grande proveito para o Soromenho. Reza assim:

Die Welt ist alles, was der Fall ist.

Que é como quem diz, o mundo de cada um é o que lhe acontece. No mundo do processo judicial de Sócrates muito tem acontecido sobre o qual não apenas se pode falar, também se deve falar. Manter o silêncio nessas matérias poderá ser do agrado do Soromenho e que tais, entende-se. Pois têm bom remédio, que se calem.

O último a rir

Há um lado humorístico na “Operação Marquês” e seus desenvolvimentos judiciais. Começa pela lógica da suposta corrupção, onde os corruptos em causa terão achado que o melhor era inventarem um esquema barroco e asinino para enviarem dinheiro uns aos outros, e culmina no suposto perigo de fuga e perturbação do inquérito, fórmulas que poderão não passar de justificações totalmente arbitrárias que em nada respeitam os direitos dos arguidos.

Quanto ao esquema – e continuando eu a admitir que Sócrates poderá acabar por ser considerado culpado havendo provas para tal mas que por agora e até ver é plenamente inocente – a estupidez fica como a única lei a ser respeitada nessa história. Vai assim: um primeiro-ministro consegue fazer cúmplices todos os membros do seu Governo, os quais aprovam em Conselho de Ministros a medida ou medidas que permitirão a corrupção final através de uma câmara municipal, também aqui havendo um número indeterminado de cúmplices activos e passivos, directos e indirectos. Tudo isto para que o tal primeiro-ministro consiga sacar 12 milhões de euros, ficando no ar a interrogação acerca do valor total pago pelo corruptor, posto que haverá dezenas de envolvidos a precisarem de ser pagos. Depois da coisa feita, o primeiro-ministro corrupto descobre que o melhor para os seus interesses e segurança não é deixar o balúrdio lá fora à sua espera, talvez em Porto Rico ou numas ilhas mais exóticas, mas antes conseguir trazer a narta para Portugal através de figurões do Grupo Lena e do seu melhor amigo. E cá chegada, passar o tempo a pedir-lhe às mijinhas autorização para gastá-la. Faz isto algum sentido na cabeça de alguém que não esteja possuído pelo ódio? Se fizer, então também é de admitir que esse não terá sido o primeiro e único acto corrupto levado a cabo por tal criminoso. Quem se entrega à corrupção desmiolada que faz tese no Ministério Públio, por maioria de razão terá entrado noutros esquemas que lhe terão dado quantias aproximadas, semelhantes ou até maiores. Onde estará esse dinheiro? Foi gasto em sapatos e relógios? Ainda chegará o dia em que se fará justiça acerca do Freeport? E quanto à licenciatura num domingo por fax e à paneleiragem, não daria para aproveitar os recursos do Ministério Público agora reunidos e resolver também esses assuntos pendentes?

Desta perplexidade vêm as outras. Então, o primeiro-ministro super-corrupto, mais os super-construtores corruptos, sabendo todos que os inimigos eram mais do que muitos à espera de uma oportunidade para meterem as polícias e a Justiça nisto, não se acautelaram, não destruíram as provas, não apagaram as pistas? Será que estavam à espera de serem apanhados para finalmente se dignarem pensar em escapar? Como é que um arguido com a notoriedade e importância de Sócrates poderia perturbar o inquérito ou a aquisição de prova? Quer isso dizer que ele conseguiria fugir à vigilância policial, a mesma que o espiou durante tanto tempo sem ele saber? Que andaria pela rua embuçado, assaltando a Judiciária e fugindo pelos telhados? Iria almoçar outra vez com Pinto Monteiro, só para os jornalistas voltarem a noticiar o evento e assim os procuradores e juízes tremerem de medo?

Quanto ao perigo de fuga, isso é o mais hilariante. O homem que podia ter ficado em Paris, ou no cu do mundo, a rebolar-se no luxo dos milhões que desviou, veio entregar-se ao Rosário e ao Alexandre. Depois disso, que já chegaria para esclarecer o assunto, ainda pensaria em fugir? Iria fugir agora, quando o MP nem sequer o consegue acusar? Aliás, se Sócrates fugisse isso era só o melhor que poderia acontecer à acusação, à direita, e aos que o odeiam na esquerda e dentro do PS.

Acontece que ele não fugiu. Pelo contrário, parece é estar a dirigir-se para a frente da batalha.

Consolidação dos indícios de pulhice

Na RTP Informação, ao lado do seboso Zé Manel, o João Marcelino terminou a sua participação no falatório revelando que as pessoas como ele, leia-se “jornalistas”, têm acesso a muitas informações que o povinho nem sonha existirem. E que andam para aí a correr uns zunzuns a respeito de umas coisas, umas conversas, que envolvem Sócrates e figuras importantes do PS, as quais a virem a público nesta altura seria o bom e o bonito. Vamos lá ver, deixou num misto de interrogação e profecia, se os magistrados as conseguem guardar.

Não é uma maravilha a cultura da pulhice? Marcelino apela a que se guarde o que ele atesta já estar a circular sabe-se lá por onde. Ou melhor, sabe-se: por entre as pessoas bem informadas, como ele. Pelo que está, no fundo, é a congratular-se por pertencer ao grupo dos privilegiados, aqueles que adivinham que os magistrados da “Operação Marquês” vão continuar a despejar dados sigilosos acerca do processo sempre que lhes apeteça.

Desde o princípio do caso que os jornalistas anti-socráticos vêm salivando de gula na antecipação do envolvimento de outros notáveis socialistas. As presas mais apetecidas serão Paulo Campos, Pedro Silva Pereira e Vieira da Silva, mas qualquer um que tenha tido relações de proximidade com Sócrates serve. Calhando aparecer um nome que também esteja ligado à actual equipa de Costa, isso será ouro sobre azul. E a probabilidade para tal é altíssima. A função das escutas é essa mesmo, a de violar a privacidade de forma a que o alvo fique sujeito às interpretações de terceiros acerca do sentido do que disse, e ainda a de o alvo ver esses registos a escaparem-lhe do controlo e poderem ser explorados sem limite – e isto envolvendo todas as pessoas com quem tenha efectuado contactos, sejam quais forem as circunstâncias nessas ocasiões. Foi o que se fez no “Face Oculta”, tendo-se usado conversas sem indícios criminais para tentar uma golpada judicial em cima das eleições de 2009. Não fosse a integridade e coragem de Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento, ter-se-ia aberto um processo judicial só com diálogos ambíguos e pícaros, captados ilicitamente, como base material para atacar um primeiro-ministro e um partido.

O Marcelino, portanto, aposta na partilha com o público desses tais registos. Será depois do debate com Passos, caso Costa saia de lá vencedor? Será na última semana da campanha, para a porqueira ser a maior possível? O Dâmaso deve saber. A esta hora já tem o título pronto e tudo.