Dizer que a discussão, entretanto transformada numa luta sem quartel, sobre a vinda da Troika é algo que não interessa, por ser passado e os eleitores precisarem é de quem lhes fale do futuro, só aproveita a quem receia perder com ela. Durante os últimos 3 anos, PSD e CDS não tiverem outra bandeira a que se agarrarem, causticando diariamente o PS pela sua “culpa” no resgate e no Memorando. Pelos vistos, durante esse tempo fez sentido falar do passado, o tal passado que Passos tinha jurado deixar enterrado em ordem a poder concentrar-se sem distracções na revolução liberal por via do brutal aumento de impostos. Para o cenário ser perfeito, também durante 3 anos existiu um secretário-geral do PS que apreciava ver o seu partido achincalhado de forma tão primária e odienta. Com esse espectáculo obtinha o gozo de se vingar sonsa e cobardemente dos “socráticos”, aqueles que não tinham reconhecido a sua grandeza e que nem uma secretaria de Estado lhe arranjaram (mas ele recusaria, pois tudo o que fosse abaixo de ministro não lhe servia no pé). Ora, bastou Costa, e pela primeira vez, ter respondido à altura da afronta de quem traiu o interesse nacional para que o laranjal entrasse em pânico. Daí a palavra de ordem dada nas hostes para se repetir à maluca a patética fuga às responsabilidades políticas ao tempo e durante o ciclo que assim foi imposto aos portugueses. Hoje, véspera do segundo debate entre Passos e Costa, aparece Portas a agitar o espantalho de umas declarações de Soares e há temor e tremor no seio dos talibãs por causa de mais um documento que documenta a golpada. Acontece que o que essa memória traz é a ilustração da tragédia que Sócrates e o seu Governo viveram depois de esforços homéricos para evitar que Portugal se afundasse na pior das duas únicas soluções possíveis.
Discutir a vinda da Troika, portanto e evidentemente, é discutir questões relativas à responsabilidade patriótica em momentos de crise sistémica e ainda discutir a lealdade dos líderes políticos para com a comunidade. Não foi por acaso que, no discurso da tomada de posse para o seu segundo mandato, o tal discurso que correspondeu ao “Grândola, Vila Morena” para os direitolas, Cavaco nem de passagem refere o contexto europeu – tal como se esqueceu, possuído pelo rancor, de sequer fazer uma referência às Forças Armadas de que é o Comandante Supremo e que tinham operações de risco no estrangeiro. O seu ataque visou lançar no espaço público a ideia de que os problemas então vividos eram da exclusiva responsabilidade de um Governo, de um partido e de um homem. Logo, estava na altura de apeá-lo, e esse derrube devia começar pela rua. Isto foi dito no púlpito do Parlamento, transformando a Assembleia da República, nessa ocasião solene, num pavilhão polidesportivo onde se fez um comício de apoio à super-manifestação que teria lugar no sábado próximo. No dia a seguir a esta ordem dada pelo chefe da direita que nos calhou em desgraça, Sócrates reuniu com Passos, secretamente, para tentar salvar Portugal de uma ruína colossal evitável. O chorrilho de mentiras que se abateu depois na comunicação social não veio de Sócrates, nem do seu Governo, nem do PS. Essas mentiras foram usadas com frieza, calculismo, hipocrisia e cinismo numa escala nunca antes vista no rectângulo. A quem é que interessa deixar sem julgamento, sequer opinião, essa vergonha?
Se o descaramento obsceno dos políticos do PSD e CDS, que apenas cérebros de 5 anos de idade aceitam sem se indignarem, se percebe como o desespero final para evitarem o massacre, o papel dos jornalistas é mais complexo, quiçá intrigante. Veja-se o que escreveu o Pedro Santos Guerreiro – Fui eu que chamei a troika – onde encontramos esse registo típico das vedetas editorialistas do jornalismo “de referência”, uma mistela de factos, factóides, pontos de vista e narcisismo. A pose é a de quem se apresenta como árbitro, por estar acima, ou ao lado, do pugilato entre políticos. Todavia, o resultado não passa de mais um panfleto lançado para o meio da populaça na esperança de influenciar as claques.
PSG, sem se ter incomodado a demonstrar, dá como axiomas as seguintes hipóteses:
– “José Sócrates arruinou as contas públicas durante anos.”
– “Foi tudo empurrado para o futuro. Empurrado e agravado. Empurrado, agravado e escondido.”
– “Dizer que foi a Europa que nos mandou arruinar-nos é chamarmo-nos de estúpidos.”
– “Foi assim que, de PEC em PEC, chegámos a 2011.”
– “Muitos concordaram […] que a troika servisse para libertar a economia (e a sociedade) das redes de poder político-empresariais que a consumiam em proveito próprio.”
Aqui temos a continuação da diabolização de Sócrates, apresentado como um lunático. Sócrates “arruinou as contas públicas durante anos”, diz a vedeta, mas em que anos? Nos anos em que investiu em educação, energias renováveis, ciência, tecnologia, apoio à exportação, apoio ao investimento, direitos das minorias, reforma do Estado, reforma da Segurança Social, reformas na Saúde, redução da pobreza, e ainda conseguiu ter um défice abaixo dos 3%? Ou terá sido quando toda a oposição se uniu, com a conivência do Presidente da República, para deixar um Governo minoritário entalado entre a pressão da crise das dívidas soberanas e uma coligação negativa que estava apenas a fazer tempo para novas eleições, tendo passado um ano e meio a boicotar o País, agravando quanto puderam a situação das contas públicas?
Talvez o mais interessante ainda seja a referência às “redes de poder político-empresariais”. Do que se fala? E de quem? Já desapareceram? Continuam? Surgiram outras? Quem são? Que fazem? Cometeram crimes? Cometem? Quais? Como? Algum dia este jornalista, com tanto poder por vida do cargo que ocupa no órgão em causa, irá informar o público do que quer dizer com a expressão que, a ficar sem justificação, não passa de um fantasma agitado para fins de difamação e luta política?
O texto termina com uma referência a si próprio, recordando que tinha dito não sei quê não sei quando. O título concentra e amplifica o foco na sua pessoa. PSG veio dar um raspanete aos políticos que são uns malandros, os malandros. No entanto, apesar dessa sobranceria estilosa, não se consegue identificar em nenhuma linha, sequer no espaço em branco entre as letras, algum incómodo genuíno, sofrido, com a única causa da vinda da Troika: o chumbo do PEC IV. Trata-se da única causa em termos político-partidários, pois quanto a factores económicos nacionais e internacionais as causas remontam às cenas de um filho a bater na mãe para dar origem à fundação de Portugal.
Não faço ideia se Costa irá voltar a pegar no assunto no debate de amanhã. Apenas sei que o transtorno de toda a máquina da Coligação, onde se inclui o seu aparato mediático camuflado, mostra bem como estamos perante uma questão central para captar o voto dos indecisos. As mentiras de Passos e Portas radicam no que fizerem nos idos de Março de 2011. Os meses e anos seguintes foram a continuação dessa lógica inicial: valer tudo, até afundar o País, para ir ao pote o mais cedo que conseguissem.