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Em busca da campanha perdida – A melhor amiga da direita é a mentira

Nota

Neste tempo, quando o programa foi gravado, ainda se podia explicar o tema do chumbo do PEC. Incrivelmente, durante o período eleitoral, a crise política do PEC de 2011 tornou-se assunto tratado pela rama, e mal, na campanha socialista, dessa forma permitindo a continuação de todas as intrujices decorrentes desse episódio até aos dias de hoje – e não se sabe até quando.

Já fizeste 4 anos de idade? Então, vota PAF

Este artigo – Easy explanations for life’s inequities lead to support for the status quo [tradução minha: Explicações simplistas para as desigualdades na vida promovem a passividade política] – resume um estudo saído recentemente no Journal of Personality and Social Psychology intitulado An Early-Emerging Explanatory Heuristic Promotes Support for the Status Quo. O seu conteúdo liga-se na perfeição ao momento eleitoral que vivemos.

O estudo parte da constatação de que as desigualdades sociais, aqui referentes às diferenças na riqueza dos membros de um dado grupo humano, são vistas como sendo justas ao longo dos tempos e através de diferentes sociedades. A tese dos investigadores é a de que existem mecanismos cognitivos que produzem essa aceitação das diferenças através do modo como são explicadas pelos indivíduos. As explicações, logo a partir dos 4 anos de idade mas também para adultos, remetem para factores intrínsecos aos sujeitos em causa. Assim, o rico alcançou a sua riqueza por ser mais inteligente, ou mais trabalhador, e, consequentemente, o pobre não é rico, nem sequer remediado, porque é estúpido ou mandrião (e ainda “piegas”, embora o estudo não faça menção a esta categoria com sabor a laranja podre). A lógica cognitiva é a seguinte: quando precisamos de dar sentido a uma qualquer realidade com que nos confrontemos no imediato, dependemos de informação mental que esteja acessível rapidamente, e o que os estudos sobre a memória revelam é que esse tipo de informação “fácil” é relativa às coisas elas próprias, em si, na sua natureza percebida ou imaginada por cada um de nós. É a memória que selecciona essas características e as envia para a consciência perante um qualquer desafio cognitivo. Temos um preconceito a favor dos simplismos, daí a proliferação de tanto charlatanismo.

Estudos mostram como se sobrestima, magnifica, a facilidade com que se pode subir na vida, ou saltar de classe, ou mudar de estatuto social – em suma, enriquecer. Correlativamente, os estudos também mostram como se subestimam, reduzem ou apagam, as reais desigualdades existentes, dando-se como exemplo que em questionários públicos se acredita que os 20% no topo da sociedade norte-americana detêm 60% da riqueza total, quando na verdade possuem 84%. Igualmente se acredita que os 20% mais pobres possuem 5% da riqueza total, quando na verdade o valor anda à volta de 0,1%. Segundo os investigadores, estas distorções nascem de uma tendência para fugir ao confronto com a ideia de que se vive numa sociedade injusta, dessa forma livrando-se os respondentes de estados de incerteza, ansiedade e sofrimento que resultariam do choque com a realidade. Assim, parte-se para uma distorção sistemática das evidências, ou para a recusa em conhecê-las, tendo como prémio considerar que tudo está como deve estar. Os ricos na abastança, os remediados no consolo, os pobres na miséria.

Os resultados, por coincidência temporal, não podiam ter maior relevância para explicar o que as sondagens parecem estar a mostrar como resposta ao discurso da direita. Esta direita, até 2011, também discursava apelando ao simplismo: havia um homem diabólico, rodeado de ladrões, e bastava correr com ele para acabar com os sacrifícios. A eficácia desta narrativa dependia da repetição e da ubiquidade, pois era demasiado absurda até para os borregos do costume. Porém, conseguindo fazer o pleno na oposição, a qual gritava em coro estarmos perante um “mentiroso” (oh, a ironia do destino…), tendo um Presidente da República tão respeitador da Constituição que se permitia lançar golpadas mediáticas em cima de actos eleitorais, e existindo uma comunicação social onde as campanhas negras e a cultura do ódio correm livremente numa só direcção, o sucesso da operação era fatal. Na campanha eleitoral de 2011, o paroxismo do simplismo foi espalhado sobre as pobres gentes: vinha aí o corte de gorduras no Estado e a libertação dos pagadores de impostos esmagados pela opressão fiscal. Seguiu-se a tomada do poder e a instantânea mudança do disco. Agora, havia que castigar os mandriões e os estróinas. Ter vivido acima das nossas possibilidades não podia ficar sem castigo, e não ficou. Finalmente, após Vítor Gaspar ter ido tratar da vidinha deixando por escrito a confissão do fracasso do fanatismo, eis que um Governo que só chega ao fim da legislatura por protecção de Cavaco tem para apresentar nas eleições de 2015 mais e mais simplismos. Diz que a culpa de tudo o que fez doer foi dos outros, e que agora, agora sim, é que o leite e o mel estão prontos para correr. Para isso, diz esta gente habituada a lidar connosco, há que evitar que o PS vença. Porquê? Porque o PS tem um programa ultraliberal, onde se irá dar cabo da Segurança Social e do Estado social. E também porque o PS vai levar os comunistas para S. Bento, e isto, inclusive, contra a vontade dos mesmos, presume-se, pois já declararam que nem que Estaline ressuscitasse e os mandasse fazer tal eles aceitariam meter-se em tais companhias.

Um PS capaz de levar o PCP a governar a mielas com um programa ultraliberal parece, à partida, uma ideia com alguma complexidade conceptual, ainda antes de ponderarmos da sua exequibilidade prática. No entanto, tudo se torna simples quando nos recordamos que estes são os mesmo artistas que juraram irem livrar-nos do mal. E, de facto, o mal foi posto no chilindró. A capacidade da direita para simplificar a compreensão do que se passou e passa em Portugal ficou com esse triunfo bastamente comprovada. Pelo que não admirará estarmos a pressentir que quem nos enganou tanto ao longo de 7 ou 8 anos não tenha desaprendido de o fazer. Condições cognitivas para isso é o que há mais por aí à espera de quem lhes sirva a papinha, dizem os carolas.

Liberdade em coma

O estado de coma a que foi levada uma estudante numa praxe em Faro traz de novo esse fenómeno para a ribalta mediática. No caso, ela foi enterrada na areia de uma praia e forçada a ingerir álcool nessa situação. Porém, mesmo que não aconteçam desfechos com essa gravidade, o que se vê nas praxes é de ano para ano mais assustador. Nem que seja por se irem acumulando as manifestações de algo que apenas encontra num certo de tipo de violência política a sua justificação social e psicológica.

Ao final da tarde, quando não chove, percorro uma parte da cidade onde estão próximas várias universidades, faculdades e institutos superiores. Nesse trajecto, atravesso a pé diferentes zonas verdes. No período das praxes, o qual agora dura todo o ano só variando na intensidade, observo diariamente as macacadas e cenas tristes que os diferentes cursos organizam em espaços públicos, fora do perímetro das suas instituições de ensino. A percepção que registo é a de o ambiente ser cada vez mais militarizado, vendo-se os praxistas a passearem-se ufanos na sua farda medonha e ridícula como se estivessem num quartel e expressarem-se por gritos e ameaças copiados de cenas televisivas e cinematográficas onde se retrata o abuso de poder.

Nada disto tem a ver com o que foram as praxes outrora, na sua versão pedagógica levando a brincadeiras dentro da sala de aula (alunos finalistas a passarem-se por professores, por exemplo) e na sua versão carnavalesca não passando de uma festa antecedida de palhaçadas inócuas (pinturas, ovos, farinha). Agora, o que está em causa é verdadeiramente sinistro no seu plano simbólico. Num contexto de sexualização animal e humilhação moral dos alunos por outros alunos, o que se transmite é uma associação entre a vida académica e uma atitude de conformismo obnóxio e revanchista.

Creio que nunca foi feito, mas teria supino interesse conhecer as práticas e preferências políticas desta elite assim iniciada na vida adulta.

Revolution through evolution

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Estamos de acórdão

O acórdão dos juízes Rui Rangel e Francisco Caramelo, onde se permite o acesso ao processo pela defesa de Sócrates, não é, sequer numa vírgula, a indicação de que o arguido vê a sua presunção de inocência reforçada. O Octávio Ribeiro, o Eduardo Dâmaso, o Zé Manel, a Helena Matos e o caluniador pago pelo Público, entre tantos outros para quem o Estado de direito é uma cena que se utiliza para proteger os amigos e atacar os inimigos, podem dormir, teclar e berrar descansados como se nada tivesse acontecido. O monstro continua à mercê dos carrascos, e a verdade dos seus monstruosos crimes irá desabar em cima dele com a força e a fúria do fim dos tempos.

Este acórdão é outra coisa. É, da primeira à última linha, a prova de que Sócrates teve razão ao denunciar estar a ser vítima de erros processuais que configuravam ilegalidades várias e de variegado grau. Daqui decorrem duas consequências imediatas: para o seu caso, e para a prática dos magistrados em causa. Idealmente, haverá uma terceira consequência: alterações legislativas e jurisprudência a partir do acórdão. Uma vez detectada – ou seja, demonstrada por instância legítima – uma prática judicial que atenta contra a Constituição e contra os códigos nela sustentados, não pode ficar pedra sobre pedra até ser erradicada.

É a notoriedade – mas também, ou ainda mais, o estatuto – de Sócrates que confere exemplaridade à descoberta de que há agentes de Justiça tão disfuncionais, ou mesmo pervertidos, que até um juiz das liberdades e garantias dos cidadãos alinha com um procurador para se violarem os direitos de um inocente. Ou que fosse culpado. Isto foi feito sabendo-se os efeitos políticos que teria. E nós sabemos quem se aproveitou, e continua a aproveitar, de um tipo de violência que julgávamos ter sido derrotada num distante dia de Abril.

A batalha que tem sido perdida

No Fórum TSF falou-se hoje de Justiça. Nele, o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público apresentou as suas queixas relativas a carências diversas, uma delas sendo a falta de gabinetes suficientes para os procuradores, promessa que vem de 2008 e não foi até agora cumprida. A presidente da Associação Sindical dos Juízes apontou à necessidade de um acordo de regime que acabe com a instabilidade causada pela mudança de políticas a cada legislatura ou mudança de ciclo político. Deu como exemplo dos problemas correntes a falta de salas em número suficiente para se realizarem julgamentos, entre outras carências relativas a instalações.

Mesmo que se admita como especialmente complexo e custoso atribuir à Justiça todos os recursos humanos há décadas solicitados para o cumprimento dos seus diversos serviços ao Estado, o que de si é já estranho face à reduzida dimensão orçamental do OGE do que está em causa e aos benefícios financeiros e económicos potenciais que gera ter uma Justiça muito mais rápida e eficaz, causa-me dilacerante confusão que seja possível privar magistrados de salas e saletas. Aqui, sim, e sem precisar de fazer qualquer conta, estamos perante um custo irrisório. Como é possível que a comunidade permaneça passiva, alheada, perante tamanho dano que diariamente é feito no património e existência de milhares ou milhões de pessoas?

De facto, sempre me espantou que nenhum partido – nenhum de nenhum, actuais ou desaparecidos – tivesse assumido essa bandeira programática e se tivesse chegado à frente com um plano que dissesse algo tão simples como isto: vamos, como País, tomar a decisão colectiva de dotar a nossa Justiça de todos os meios que ela considere necessários para fazer o melhor trabalho possível. E, depois, passaremos a exigir a todos os agentes de Justiça que façam o melhor trabalho possível. Os que não o fizerem, saem para dar lugar a outros.

A quem é que interessa manter uma Justiça sem os mínimos para poder cumprir a sua missão num plano de excelência, o único adequado às exigências de uma democracia? A resposta está na História, e conduz a um enigma. Historicamente, esta Justiça medíocre e má tem servido, nos últimos anos, como a arma mais forte para uma direita decadente que actualmente domina os principais órgãos do Estado. Desde 2004 que a judicialização da política é uma constante do quotidiano mediático e tem só uma direcção: contra o PS. Aparentemente, é possível manter o segredo de Justiça nos casos onde os envolvidos sejam do PSD, mas impossível calhando serem do PS. Nestes, dá-se uma exploração selvagem, com órgãos de comunicação social especializados em campanhas negras e uma complacência geral, e até aproveitamento, por parte da restante imprensa. O benefício é duplo: atinge-se o PS sem que este tenha possibilidade de defesa e canaliza-se a pulsão populista contra um, ou mais do que um, bode expiatório.

E eis o enigma: por que razão o PS prefere comer e calar? Será que os socialistas se sabem culpados, incapazes de esconder que não passam de uma agremiação criminosa cuja finalidade é roubar o Estado, tal como os talibãs direitolas não se cansam de repetir de hora a hora? Que impede o PS, para mais por causa da sua vocação republicana, de se atirar para a frente da batalha? Porque se trata de uma batalha. De vida ou de morte cívica.

Descubra as diferenças

Quanto mais tarde [o empréstimo] regressar aos cofres do Tesouro mais o Estado recebe em juros. É dinheiro que está a render.


Antigo vendedor do BES
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A aldrabice explicada

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Lesionado do BES - Se não tem dinheiro para ir lá, eu organizarei uma subscrição pública para os ajudar a recorrer ao tribunal.

Lesado do GES - O senhor compromete-se, o senhor compromete-se, perante a opinião pública?

Lesionado do BES - A ajudá-lo a ir para tribunal?! Sim senhor, sim senhor! Disso pode ter a certeza.


A tanga completa

Assunto arrumado, diz o arrumador

As eleições de 4 de outubro são, provavelmente, as mais importantes dos últimos 20 anos, depois de termos sobrevivido a um resgate de violência tão extrema como nunca tínhamos enfrentado. Importa pouco, com franqueza, voltar hoje à discussão do "de quem é a culpa". Esse foi assunto arrumado em 2011. O passado é importante apenas, e não é coisa pouca, como referência de aprendizagem para que os erros não se repitam. Mas aquilo que se vai jogar daqui a menos de uma semana é o futuro, o nosso futuro. Como crescer economicamente e criar emprego, como garantir a sustentabilidade da Segurança Social e as reformas futuras, como assegurar que ninguém que precise de cuidados de saúde ou queira estudar fique para trás, como atestar que quem carece de aceder à justiça não fica à porta de um tribunal. É isto que interessa.


Nuno Saraiva

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O meu foco no Nuno Saraiva não advém do interesse pela sua personalidade, antes de vê-lo como representativo de uma larga fatia da classe jornalística, por um lado, e de constatar a importância que esta figura adquire ao ser editorialista do DN e comentador político em várias órgãos de comunicação social, fazendo o pleno: imprensa escrita, imprensa radiofónica e imprensa televisiva. O que ele transmite reflecte um drama interior, esse esforço para utilizar o seu poder mediático em ordem a influenciar os acontecimentos políticos.

Acredito que este jornalista se reja apenas pelos ditames da sua consciência. É a partir dessa independência percebida, ou imaginada, que questiono a sua honestidade intelectual. Na passagem citada, começamos por uma ideia sem qualquer possibilidade de aferição. Dizer que as eleições de 2015 são as mais importantes dos últimos 20 anos vale menos do que dizer que as eleições de 2011, onde se elegeu um Governo cuja agenda secreta era o empobrecimento furioso e o desmantelamento do Estado social, foram as mais importantes dos últimos não sei quantos anos. Porquê? Porque, sem esse fanatismo permitido pelo logro eleitoralista, a austeridade não teria sido tão destrutiva e a recuperação teria começado mais cedo e com mais força. A mesma lógica vale para as eleições de 2009, pois foi o seu resultado e desfecho que levou a que entrássemos na maior convulsão europeia desde a criação do euro – ficando à mercê de todos os golpes, externos e internos – sem possibilidade de defesa dado que o Governo era minoritário e estava a ser boicotado pela oposição e pelo Presidente da República. Ou seja, caso em 2009 tivéssemos conseguido alcançar um Governo com maioria, provavelmente – muito e muito provavelmente – não teria havido resgate. Assim, o seu ênfase nas eleições de 2015 é falacioso e retórico, estando ao serviço do que vai dizer a seguir.

A seguir, voltamos à sua cassete: que não se fale mais do passado. Quer-se dizer, ele pode falar do passado. Para dizer que já chega. Já chega porque ficou lá para trás, em 2011. Está tão afastado que, maravilha das maravilhas, nem sequer conseguimos identificar culpados. A culpa desapareceu como desaparecem os desgostos de amor, carcomida pelo tempo. Aproveitam-se só algumas lições que o articulista não chega a articular, talvez porque remetam para um fulano preso sem acusação está quase a fazer 1 ano e os seus diabólicos comboios, mais os aeroportos, e as escolas, e os computadores. Erros que este Saraiva não quer que se repitam e que, com sorte, um dia revelará ao público quais foram caso a malta se porte bem. Sem capacidade de disfarce fica o seu pedido para não falarmos do que fez a direita para ir ao pote dando em troca o seu silêncio sobre que ele acha que fez o PS para chegarmos à “bancarrota”. O laranjal alinha neste negócio, como se regista depois de terem visto a bala de prata “Sócrates” ter explodido na cara de Passos no 1º debate com Costa.

Esta conversa do “calem-se acerca das eleições passadas” é equivalente à situação de termos de escolher entre dois cirurgiões para fazer a operação “mais importante dos últimos 20 anos”, seja a nós próprios ou a quem amemos. Entre os candidatos que nos tentam convencer a contratar os seus serviços, aparece um fulano que é conhecido por ter falsificado o seu diploma. Ele diz que se licenciou em Medicina, e que se especializou em cirurgia, mas é sabido que nem o 12º ano conseguiu acabar. Se pedirmos conselhos ao Saraiva dos conselhos eleitorais, e a outros que tais, receberemos como resposta que isso do passado desse senhor não importa nada dado que a operação em causa vai acontecer no futuro e diz respeito ao futuro. Ora, continuará o Saraiva que sabe mesmo o que é que interessa para o povinho, o futuro não tem nada a ver com o passado. Se tivesse, isso seria uma grande confusão; e não estamos em condições de alimentar essas confusões, como é notório.

A única coisa que o PS sabia com certeza absoluta no dia 6 de Junho de 2011 era que as próximas eleições legislativas, ocorressem quando ocorressem, trariam de volta a acusação da “bancarrota” e o odioso pelas medidas do Memorando. Logo, a única estratégia condizente com esse cenário, ainda por cima a nascer de uma necessidade de fazer justiça perante a gravidade da traição ocorrida no chumbo do PEC, seria ir marcando o Governo implacavelmente em tudo o que fosse adesão ideológica e prática à austeridade como castigo e engenharia social. Incrivelmente, este Governo não só deu caudalosos exemplos onde se exibiu revanchista e alemão como tomou medidas que, factualmente, foram a concretização de um plano escondido para transferir riqueza do Estado, dos trabalhadores e dos cidadãos para a oligarquia. O aumento da pobreza e das desigualdades era o resultado intencionalmente procurado. Mas, paradoxalmente, chegamos a 2015 com a esquerda cúmplice da direita a fazer tiro ao PS e com a direita que afundou Portugal encoberta pela comunicação social e sem precisar de sequer ter programa. Resta um PS vítima de si próprio, pois, como Churchill poderia explicar a Costa, não há desafios e ameaças maiores do que a capacidade de uma liderança que esteja disposta a nunca se render.

É isto, Saraiva, que realmente interessa. Pelo menos, a quem se interesse por viver num país onde a pulhice não seja consentida, muito menos premiada.

A premissa do caluniador

A mim o que me espanta é que esta discussão parte da premissa - que a meu ver, essa sim, é completamente chocante e faz-me perder a esperança na Pátria - de que havia alternativa. Mas quando a Troika veio, a Troika veio porque não podia deixar de vir. A Troika veio porque o País estava à beira da bancarrota e não ia ter dinheiro para pagar salários e reformas na próxima semana e no próximo mês.


João Miguel TavaresGoverno Sombra – 20 de Setembro – minutos 33-37

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O caluniador pago pelo Público também recebe da TSF e da TVI (aqui pela versão televisiva do “Governo Sombra”, imagino). Especialmente por causa da presença do Ricardo Araújo Pereira, o programa com a moderação do Carlos Vaz Marques tem sido um sucesso desde o seu início em 2008. A sua influência crescente resulta da adesão da audiência a cada um dos protagonistas. E também por existir na TSF e, desde 2012, na TVI, assim se validando socialmente pela força dos meios de comunicação onde aparecem as opiniões políticas que lá vão sendo expressas. Nesse sentido, ele funciona principalmente como dinamizador da perseguição a Sócrates e ao PS, dadas as personalidades envolvidas e a “independência” do moderador que alinha nas agendas dos artistas.

Acontece-me acreditar que o caluniador pago pelo Público realmente esteja a pensar que alguém do PS, a começar em Costa, tenha estado a alegar que não foi o Governo socialista a entidade que em 2011 tratou institucionalmente de fazer o pedido de resgate. E que a discussão girava à volta dessa alucinação lançada por Passos e PSD por não terem mais nada a que se agarrar. Acredito plenamente. Se aconteceu ao Pedro Marques Lopes pensar o mesmo, por maioria absoluta de razão pode acontecer a um direitola talibã. Mas como explicar que o Pedro Mexia, sofisticado intelecto cujo sofisticado currículo até exibe uma tradução do sofisticado Bresson, repita a cassete do laranjal? Com base em que declarações, e de quem, é que se pode manter esta distorção do que está em causa?

O Ricardo não gastou uma caloria a defender a questão real e limitou-se ao disparate para despachar, assim apoiando os seus colegas de programa no servicinho. O Carlos, idem. E deste modo se fez mais um tempo de antena em período eleitoral. Ora, e voltando à premissa do caluniador, temos de lhe dar razão: quando um Governo sombra, composto de pós-reaças e pseudo-revolucionários, se junta para afundar Portugal a partir do Parlamento, é óbvio que deixa de haver alternativa. Isso acontece porque, apesar de tentar, nem o PS sozinho consegue aguentar o peso de tanto sectarismo e de tanta gana de ir ao pote.