Já fizeste 4 anos de idade? Então, vota PAF

Este artigo – Easy explanations for life’s inequities lead to support for the status quo [tradução minha: Explicações simplistas para as desigualdades na vida promovem a passividade política] – resume um estudo saído recentemente no Journal of Personality and Social Psychology intitulado An Early-Emerging Explanatory Heuristic Promotes Support for the Status Quo. O seu conteúdo liga-se na perfeição ao momento eleitoral que vivemos.

O estudo parte da constatação de que as desigualdades sociais, aqui referentes às diferenças na riqueza dos membros de um dado grupo humano, são vistas como sendo justas ao longo dos tempos e através de diferentes sociedades. A tese dos investigadores é a de que existem mecanismos cognitivos que produzem essa aceitação das diferenças através do modo como são explicadas pelos indivíduos. As explicações, logo a partir dos 4 anos de idade mas também para adultos, remetem para factores intrínsecos aos sujeitos em causa. Assim, o rico alcançou a sua riqueza por ser mais inteligente, ou mais trabalhador, e, consequentemente, o pobre não é rico, nem sequer remediado, porque é estúpido ou mandrião (e ainda “piegas”, embora o estudo não faça menção a esta categoria com sabor a laranja podre). A lógica cognitiva é a seguinte: quando precisamos de dar sentido a uma qualquer realidade com que nos confrontemos no imediato, dependemos de informação mental que esteja acessível rapidamente, e o que os estudos sobre a memória revelam é que esse tipo de informação “fácil” é relativa às coisas elas próprias, em si, na sua natureza percebida ou imaginada por cada um de nós. É a memória que selecciona essas características e as envia para a consciência perante um qualquer desafio cognitivo. Temos um preconceito a favor dos simplismos, daí a proliferação de tanto charlatanismo.

Estudos mostram como se sobrestima, magnifica, a facilidade com que se pode subir na vida, ou saltar de classe, ou mudar de estatuto social – em suma, enriquecer. Correlativamente, os estudos também mostram como se subestimam, reduzem ou apagam, as reais desigualdades existentes, dando-se como exemplo que em questionários públicos se acredita que os 20% no topo da sociedade norte-americana detêm 60% da riqueza total, quando na verdade possuem 84%. Igualmente se acredita que os 20% mais pobres possuem 5% da riqueza total, quando na verdade o valor anda à volta de 0,1%. Segundo os investigadores, estas distorções nascem de uma tendência para fugir ao confronto com a ideia de que se vive numa sociedade injusta, dessa forma livrando-se os respondentes de estados de incerteza, ansiedade e sofrimento que resultariam do choque com a realidade. Assim, parte-se para uma distorção sistemática das evidências, ou para a recusa em conhecê-las, tendo como prémio considerar que tudo está como deve estar. Os ricos na abastança, os remediados no consolo, os pobres na miséria.

Os resultados, por coincidência temporal, não podiam ter maior relevância para explicar o que as sondagens parecem estar a mostrar como resposta ao discurso da direita. Esta direita, até 2011, também discursava apelando ao simplismo: havia um homem diabólico, rodeado de ladrões, e bastava correr com ele para acabar com os sacrifícios. A eficácia desta narrativa dependia da repetição e da ubiquidade, pois era demasiado absurda até para os borregos do costume. Porém, conseguindo fazer o pleno na oposição, a qual gritava em coro estarmos perante um “mentiroso” (oh, a ironia do destino…), tendo um Presidente da República tão respeitador da Constituição que se permitia lançar golpadas mediáticas em cima de actos eleitorais, e existindo uma comunicação social onde as campanhas negras e a cultura do ódio correm livremente numa só direcção, o sucesso da operação era fatal. Na campanha eleitoral de 2011, o paroxismo do simplismo foi espalhado sobre as pobres gentes: vinha aí o corte de gorduras no Estado e a libertação dos pagadores de impostos esmagados pela opressão fiscal. Seguiu-se a tomada do poder e a instantânea mudança do disco. Agora, havia que castigar os mandriões e os estróinas. Ter vivido acima das nossas possibilidades não podia ficar sem castigo, e não ficou. Finalmente, após Vítor Gaspar ter ido tratar da vidinha deixando por escrito a confissão do fracasso do fanatismo, eis que um Governo que só chega ao fim da legislatura por protecção de Cavaco tem para apresentar nas eleições de 2015 mais e mais simplismos. Diz que a culpa de tudo o que fez doer foi dos outros, e que agora, agora sim, é que o leite e o mel estão prontos para correr. Para isso, diz esta gente habituada a lidar connosco, há que evitar que o PS vença. Porquê? Porque o PS tem um programa ultraliberal, onde se irá dar cabo da Segurança Social e do Estado social. E também porque o PS vai levar os comunistas para S. Bento, e isto, inclusive, contra a vontade dos mesmos, presume-se, pois já declararam que nem que Estaline ressuscitasse e os mandasse fazer tal eles aceitariam meter-se em tais companhias.

Um PS capaz de levar o PCP a governar a mielas com um programa ultraliberal parece, à partida, uma ideia com alguma complexidade conceptual, ainda antes de ponderarmos da sua exequibilidade prática. No entanto, tudo se torna simples quando nos recordamos que estes são os mesmo artistas que juraram irem livrar-nos do mal. E, de facto, o mal foi posto no chilindró. A capacidade da direita para simplificar a compreensão do que se passou e passa em Portugal ficou com esse triunfo bastamente comprovada. Pelo que não admirará estarmos a pressentir que quem nos enganou tanto ao longo de 7 ou 8 anos não tenha desaprendido de o fazer. Condições cognitivas para isso é o que há mais por aí à espera de quem lhes sirva a papinha, dizem os carolas.

14 thoughts on “Já fizeste 4 anos de idade? Então, vota PAF”

  1. E o MST não se lembra de uma hipótese óbvia: os portugueses estão a gozar com a cara de quem anda a fazer as sondagens. Os eleitores perguntam-se “se no Porto resulta porque é que não há-de resultar no resto do país?”

  2. E já agora … não costumava ser proibido fazer sondagens na última semana antes das eleições ?
    Para não manipular o eleitorado, e coisa e tal … Aquelas preocupações que se costumavam ter pela “verdade desportiva” no tempo em que Portugal era uma Democracia, um Estado de Direito, e pelos vistos agora decididamente e assumidamente já não é.

  3. Que me recorde, só era proibido fazer sondagens no período de reflexão pós-campanha. Além disso, Jasmim, ouviu alguém das esquerdas queixar-se ? Se há alguma coisa em que toda a gente está de acordo é que a democracia funciona, a justiça funciona, a liberdade de expressão funciona. Asfixia democrática? Isso só com o PS no governo!

  4. aministra assunçao cristas,leva filha ao comicio,passos coelho mostra mulher na rua de cabeça rapada.falta paulo portas mostrar o seu filho aos portugueses.filho das muitas viagens que faz ao estrangeiro.só lhe falta ir a marte!

  5. Val,

    Parabens por este post, muito a propósito do momento que hoje se vive em Portugal (e em todo o Ocidente, em geral).

    Faço notar que os momentos revolucionários acontecem precisamente quando o quadro cognitivo que torna “justas” as diferenças de classe social entra em colapso. Dadas as contradições do momento presente, hoje (muito mais que antes da crise de 2008) acessíveis à cognição da maioria da população, e dada a obstinação e falta de compromisso das elites financeiras e neoliberais, a tendência será para a subida de tom dos conflitos sociais e para a génese de um momento de explosão social.

    A elite apoia-se hoje numa última barreira — o cartel mediático — que detém um poder sobre a percepção da realidade como nunca antes existira. Será preciso ler o 1984 de Orwell para encontrar uma descrição da forma como hoje se condiciona a cognição da população moderna. No entanto, o poder dos media é como um dique, cuja função é manter acima do nível do mar uma cidade que já há algum tempo afundou abaixo da cota zero. Dada a crescente falta de coerência e mesmo infantilidade dos conteúdos mediáticos, a quebra do poder do cartel mediático avizinha-se. Quanto mais se prolongar esta situação mais súbita será tal quebra, e maior será o seu potencial para provocar convulsões sociais.

    Na revolução francesa (para dar um exemplo que todos podemos analisar objectivamente) a alfabetização de mais de 30% da população — motivada a ascensão económica da classe média (então constituída pela burguesia) — pôs em causa a aceitação popular do conceito de direito natural.

    Para agravar a situação, a condução política da dinastia do rei sol tornara-se ruinosa, com o multiplicar de intervenções militares das quais a França não obteve nenhum benefício económico (apenas dívida). À visão cognitiva do “mainstream” popular — a ideologia do “direito natural”, que oferecia o monopólio da governação e da educação à elite nobre e clerical, considerando que essas classes sociais concentravam em si a virtude e a excelência necessárias para dirigir e educar — contrapunha-se a visão de quem realmente detinha as rédeas da produção da riqueza real, da economia de mercado nascente. Noto que essa economia estava, simultaneamente, a ser saqueada por impostos que apenas serviam a soberba, luxúria e o exercício brutal e injustificado (do ponto de vista económico) do poder militar das elites da nobreza. O conflito tornou-se impossível de evitar a partir do momento em que a nobreza e o clero recusaram qualquer tipo de compromisso com a classe média em ascensão.

    Hoje, o ataque à social democracia e ao PS — com uma intensidade nunca vista, antes de 2008 — significa a recusa da elite financeira actual em entrar em compromisso com a classe média actual.

  6. LOL. LOL. LOOL.

    E os que furtam e/ou roubam, em que grupo se incluem? Inteligentes, Ignorantes, Macacos…anyone, please…

  7. “E os que furtam e/ou roubam, em que grupo se incluem?”

    são os esquecidos e prescritos da empresa rosalex – fretes e branqueamentos judiciais, para mais informações telefonar ao lóreiro ou pedir esclarecimentos para o imei-le: portas@submarinos.

  8. IGNARALHO, não te preocupes que eu quando tenho DÚVIDAS coloco-as aos que me podem responder.

    E tu? Já colocaste as tuas dúvidas ao Sr. Dr. Carlos Alexandre e Rosário Teixeira, e pinto Albuquerque? Etc, etc, etc? É que tu FALAS muito aqui, mas quando te convidam a perguntar a quem te pode responder, CALAS-TE.

    Olha…acabei de ver que há um comentador que te manda cumprimentos fala em …cobardia e crueldade…o gajo só se enganou no destinatário…

  9. Ao ouvir o que disse o Cavaco na Onu sobre o Guterres e o que vexa diz percebe-se, aqueles estupidos que só votam na oposição porque são burros, lêm bem quem faz um discurso de ódio.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.