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Alegremo-nos, Trump há só um

Acompanhei as eleições americanas exclusivamente pela CNN. Tanto no dia como nas semanas e meses que antecederam o 8 de Novembro. Este ubíquo órgão de comunicação social não declarou o seu apoio a qualquer candidato. Porém, e sem a mínima surpresa, naquela casa a preferência generalizada era Hillary. Tal ficava óbvio nos programas de opinião, onde os jornalistas-apresentadores deixavam transparecer a sua inclinação e onde o número de comentadores a favor de Hillary – ou necessariamente contra Trump dadas as suas grotescas e aviltantes declarações – superava numa proporção de 3 para 1 os defensores de Trump.

Apesar deste desequilíbrio, será difícil apontar falhas deontológicas à estação e à sua prática de imprensa. A cobertura noticiosa seguia de forma isenta os acontecimentos, destacando o que era novo e relevante. Por exemplo, assim que o FBI lançou a bomba de existirem mais não sei quantos milhares de emails com interesse para a investigação a Hillary, a CNN passou a destacar e analisar esse conteúdo nos blocos noticiosos e de opinião. Não houve qualquer apagamento daquilo que só pelo mero facto de ser falado já causava danos à candidatura Democrata; pelo contrário, tentou-se explicar a situação até ao limite do possível, dando-lhe protagonismo editorial. O interesse pela verdade dos factos era o que guiava os jornalistas e os comentadores da CNN. Para além disso, em momento algum se viu serem diminuídos os representantes de Trump, os quais em constantes ocasiões executavam verdadeiros números circenses para defender o indefensável e até o abjecto.

A percepção de favoritismo a favor de Hillary agudizou-se pela excepcionalidade da candidatura de Trump. Ter um candidato que gera repulsa nas principais figuras do partido por que está a concorrer não é o melhor ambiente para gerar equilíbrios e harmonias. Tal nunca antes se viu em qualquer outro acto eleitoral passado nos EUA. E mais do que se justificava, pois Trump cavalgou intencionalmente os 4 cavalos do apocalipse da democracia: racismo, xenofobia, misoginia e fascismo. Não ter reagido aos mesmos com alarme e indignação, e continuar a não querer reagir alegando que não passou de uma palhaçada para enganar os broncos que lhe deram o voto, define não apenas o cidadão como a pessoa em cada um de nós. O fascínio da comunicação social com Trump não foi só um fenómeno de dinâmica estritamente mediática (ele deu o melhor espectáculo, e de longe), havia também um hipnotismo causado pela exibição do Mal preso a uma trela. Via-se e não se acreditava – pelo que se tinha de voltar a ver.

É por isso que o efeito Trump está condenado a ser efémero, ele que condensou num grau inaudito, e num modo escabroso, a retórica populista do tempo. A ressaca, que consistirá na sua conversão à sensatez convencional ou na sua perdição em desastres calamitosos, já começou a ser servida e ainda nem duas semanas passaram da maior estupidez que este século regista.

Revolution through evolution

Older First-Time Mothers Are Also More Likely To Live Longer
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FSU Researcher: Women Do Get Better With Age
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Teacher communication with parents consistent with racial stereotypes
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Consuming violent media linked to 13x surge in violent dreams
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Sunshine Matters A Lot To Mental Health; Temperature, Pollution, Rain Not So Much
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What So Many People Don’t Get About the U.S. Working Class
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8 Ways To Advance Social Justice After The U.S. Election

Não se faça Justiça, desta

O ignatz chamou a atenção para este vídeo, e estamos mesmo perante 4 minutos imperdíveis. Só lamento não estar disponibilizado o resto do debate (se alguém souber onde, mesmo que apenas em áudio, é avisar).

Apanhamos o paleio com António Ventinhas a repetir a sua cassete alinhada com o populismo do tempo: os criminosos de colarinho branco (isto é, os ricos e os políticos – as “elites”, donde ele finge estar excluído) dominam a comunicação social e daí disferem contínuos ataques contra a Justiça com a finalidade de deslegitimar as decisões tomadas contra eles e influenciar os juízes. Como quase sempre com esta personagem (a excepção sendo a Operação Marquês), não há qualquer informação concreta que permita aferir do que e de quem está a falar. Na ausência de factos, a intenção do seu discurso só pode ser a de espalhar uma teoria da conspiração onde os maus cercam os bons. Os maus passam a ser todos aqueles que questionem os procedimentos e decisões da Justiça portuguesa e os bons são todos aqueles que possam exibir um cartão de funcionários de alguma instituição policial e judicial, está a dizer-nos o Ventinhas armado em sério. O mesmo Ventinhas que não se importa de sugerir que há juízes influenciáveis pelo que aparece na comunicação social – caso não o fossem, ou os criminosos nem perderiam tempo a fazerem o que supostamente fazem ou este marmanjão não perderia tempo a mostrar-se preocupado com isso. Contradições e suspeições cabeludas que parece não interessarem a ninguém neste país de branda cidadania.

O presidente do Sindicato dos Magistrados já nos brindou recentemente com obscenas (espantosas?) violações ao que é um módico respeito pelo Estado de direito, pelo que não nos pode surpreender o seu sectarismo corporativista. Mas que dizer do que este vídeo igualmente mostra, agora pela boca da bastonária da Ordem dos Advogados? Ela recorda que foi alvo de um inquérito pela Procuradoria-Geral da República simplesmente por ter afirmado publicamente que há magistrados a cometerem o crime de violação do segredo de Justiça. E mais detalha que nesse âmbito entregou 1500 documentos às autoridades, onde se incluía um auto judicial publicado na íntegra por um órgão da comunicação social quando ainda nem sequer havia advogados de Sócrates constituídos no processo da Operação Marquês. Esse inquérito foi arquivado em 10 dias, o interesse do Ministério Público para explicar e/ou investigar os factos documentados por Elina Fraga nenhum, conclui-se.

Se há agentes de Justiça, provavelmente também magistrados ou ainda mais provavelmente só magistrados, que cometem crimes de violação do segredo de Justiça em processos de máxima exposição mediática, gravíssima perturbação política e generalizado alarme social como este onde um ex-primeiro-ministro está constituído arguido por suspeitas de corrupção e em que já esteve preso preventivamente perto de um ano, decorre como corolário que não haverá qualquer limite para os crimes que os mesmos, ou outros, poderão cometer em processos que passam invisíveis aos olhos da imprensa e da opinião pública. Porque se há algo que já aprendemos com estas práticas criminosas é a de que elas estão blindadas ao ponto de até terem propagandistas que apelam ao abandono da sua investigação e punição. Sempre que alguém, como o nosso Ventinhas, aparece a culpar só os arguidos e advogados pelas violações ao segredo de Justiça, apagando os casos em que tal é pura e simplesmente impossível ou improvável e até ilógico, podemos ter a certeza de estarmos perante alguém assumidamente cúmplice dessa prática criminosa.

Se existe violação do segredo de Justiça por parte de agentes de Justiça, tenham eles o papel que tiverem nas instituições judiciais, então existem criminosos com acesso directo e secreto a processos judiciais e, quiçá, ao aparelho policial. Escusamos de perder uma caloria a descrever o perigo que tal configura e a factual falência do Estado de direito que daí decorre. Passemos para a pergunta seguinte: como explicar a passividade do sistema partidário, do Parlamento e da Presidência da República face aos crimes que são públicos e sistemáticos ano após ano? Encontrar uma explicação obriga-nos a falar da maior vítima do fenómeno, Sócrates. Do lado do PSD, CDS e Cavaco quando em Belém, constata-se o completo aproveitamento dos crimes para obter ganhos políticos. Como se consideram protegidos pelos criminosos, esta direita decadente não tem qualquer interesse em alterar o statu quo. Do lado do PCP e do BE constata-se uma situação análoga. Consideram-se protegidos, embora por outras razões, e igualmente obtêm um aproveitamento político de tudo o que prejudique o PS. Junta-se a este oportunismo larvar a cegueira ideológica onde não cabe uma paixão idealista, ou que fosse meramente cívica, pelo Estado de direito. O “patriotismo” e a defesa da “Constituição” que os comunistas agitam em bandeiras cheias de buracos convivem na perfeição com aqueles que degradam os pilares da comunidade desde que o alvo sejam socialistas. Resta o PS, o principal pilar político do regime.

Os socialistas estão desde 2002, com o processo Casa Pia, sob fogo constante da Justiça. Talvez porque o PS seja uma agremiação de criminosos, é hipótese a considerar. Ou talvez porque haja quem tente judicializar a política, tantos os ganhos que se obtêm recorrendo a essas difamações e calúnias qualificadas. O certo é que nesse partido não existe um discurso sobre a Justiça que aponte no caminho da sua democratização e responsabilização. Não sabemos sequer como avaliar o trabalho dos agentes de Justiça, estão intocáveis e soberbos na sua torre de marfim. Com explicar tamanha passividade, e passividade apesar dos quase 15 anos de ataques envolvendo magistrados? A resposta mais óbvia, porque mais fácil, é esta: medo. Os políticos terão medo da Justiça, precisamente por causa do que ela mostra ser capaz de fazer ao escutar não se sabe quem e ao passar a certos jornalistas (pelo menos a jornalistas, embora pelas mesmas razões, e até melhores, poderão dá-las ou vendê-las a políticos adversários) essas informações assim captadas. Medo também da abertura de investigações judiciais politicamente motivadas, como na tentativa em Aveiro de abrir um processo contra Sócrates sobre um suposto atentado ao Estado de direito que era pura invenção para tentar influenciar as eleições de 2009. Mas é também de supor que mesmo dentro do PS haja quem se aproveite da anomia na Justiça para tentar obter ganhos políticos internos. Por exemplo, Ana Gomes tem sugerido que o processo Casa Pia nasceu dentro do PS no âmbito de uma disputa de poder ao tempo (pista: Sócrates), assim absolvendo os magistrados envolvidos de quaisquer manchas processuais. Seguro, na sua campanha para secretário-geral do PS, estava muito entusiasmado com a perspectiva de ir limpar o partido da corrupção entranhada que ele conhecia de ginjeira (embora nunca tenha apresentado prova fosse do que fosse de ilegal) e que já era do domínio público graças às edições diárias do esgoto a céu aberto. E mesmo Costa pode ser visto como um líder interessado em ver Sócrates definitivamente enterrado, para assim anular um potencial foco de concorrência política, daí nada ter feito na sua defesa como inocente até prova em contrário e inclusive tendo-lhe martelado uns pregos no caixão. A terem estas considerações algum solo a que se agarrarem, poderíamos concluir admitindo que o problema da criminalidade na Justiça portuguesa começa pelo crime da falta de justiça nas lideranças partidárias.

Give Donald Trump a change

Todos sabemos o que estaria agora a fazer. Trump viria berrar que as eleições tinham sido viciadas, que os resultados não eram legítimos, que Hillary não merecia ser Presidente, que devia estar presa. Directa e indirectamente, apelaria a manifestações na rua e a distúrbios violentos. Depois lá faria uma encenação qualquer onde diria o mínimo possível para que fosse considerada uma concessão de derrota. E partiria para a consumação do seu plano original: usar a mais extraordinária operação de marketing alguma vez realizada na América para começar a facturar, eventualmente lançando uma estação de televisão especialista em populismo e calúnias, um esgoto a céu aberto com uma escala planetária. Isto ou algo parecido. Mas ganhou, para incrível surpresa até da sua equipa de campanha – e para sua indisfarçável consciência de que se meteu numa camisa-de-onze-varas.

As diferenças no número de votos entre Trump e Hillary na Flórida, Pensilvânia e Wisconsin, correspondendo a 59 decisivos votos no Colégio Eleitoral, foram mínimas. Não é possível identificar as causas específicas para elas em cada Estado, pois ao limite a causalidade radica no indivíduo e poderá não ser tangível, comensurável ou racional. Para além disso, os números em si são apenas abstracções relativas, dado que espelham tanto os votos registados como a abstenção. No Wisconsin, em perto de 3 milhões de votos contados, a vitória de Trump foi por menos de 30 mil votos. Ora, enquanto Trump recebeu praticamente o mesmo número de votos do que Romney em 2012, Hillary recebeu perto de menos 300 mil votos do que Obama em 2008 e 2012. Neste caso, e obviamente, foi a abstenção que derrotou a candidata Democrata.

Dentre as várias explicações logo avançadas pelos comentadores, acusou-se Hillary de falhas na campanha; desde a ausência de uma mensagem clara, passando pela falta de uma agenda económica forte, e chegando ao desprezo estratégico e logístico pelos Estados que considerava imperdíveis. Estas e outras explicações poderão ter a sua parcela de razoabilidade e verosimilhança, vai sem discussão. Porém, todavia, contudo, qualquer interpretação dos resultados que se limite a apontar o dedo a Hillary não estará apenas a cometer uma injustiça ou a expressar o seu sectarismo, quiçá ódio. Muito mais do que isso, estará a ser activamente cúmplice da obscena golpada que marcou estas eleições presidenciais norte-americanas. Tanto a operação russa através do Wikileaks como a operação Republicana através do FBI criaram um opressivo manto de calúnias para o qual não havia defesa possível. Essas calúnias tinham em Trump um exímio artista de variedades para as transformar em espectacular material de campanha. Dado que a candidatura de Hillary, por ser a de uma mulher, iria partir inferiorizada e com o flanco exposto para investidas canalhas acerca do seu género, carácter e saúde, o efeito da repetição e legitimação das calúnias foi altamente eficaz, tanto para fazer regressar Republicanos que se tinham afastado de Trump como para afastar Democratas que não estavam apaixonados ou convencidos com Hillary. Neste particular, as duas cartas do FBI, acerca daquilo que não passou de uma encenação com emails que já tinham sido investigados, foram devastadoras. A primeira carta, a 12 dias da votação, altera por completo a paisagem mediática, colocando Hillary no centro de uma especulação desvairada onde a cada dia que passava estava a cair nas sondagens. E a segunda carta, a dois dias das eleições, volta a trazer o assunto para o palco no período crucial da decisão para mais de 10% do eleitorado ainda indeciso, um assunto que pelo simples facto de ser noticiado provocava danos na candidatura Democrata.

Trump brinca com os racistas e taralhoucos mais perigosos na América, como a nomeação de Steve Bannon exibe. É algo que obriga a uma definição por parte da cada um de nós, ou estamos a favor ou contra. Os mornos serão vomitados pelo espírito da democracia e do humanismo. Mas antes disso, à volta disso e por cima disso, é o uso das mentiras e calúnias como principal arma política que mais nos deve alarmar. Porque a sua dinâmica e eficácia são profundamente insidiosas, como vimos em Portugal com Passos, no Brexit e agora nas eleições presidenciais norte-americanas de 2016, para dar os exemplos mais próximos e mais graves. Perante isto, Trump não merece uma “chance”, merece é uma cultura onde haja tolerância zero para políticos que se servem da funcional estupidez de milhões para chegar ao poder.

Revolution through evolution

Male athletes are far more likely to choke under pressure than their female counterparts
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Trump’s Political Success Was A Triumph Of Style Over Substance
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Traumatic stress changes brains of boys, girls differently
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Even physicists are ‘afraid’ of mathematics
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Repeatedly Thinking About Work-Family Conflict Linked to Health Problems
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Increased smartphone screen-time associated with lower sleep quality
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Personality Tests for Fish Could Help Boost Reproduction Rates

Esta legitimação moral de Trump deve ter consequências políticas

“Nunca embarquei muito nesta ideia de que o novo Presidente norte-americano é tão mau, tão mau, tão mau, que representaria uma força do mal tão grande, que tinha de sair derrotada”, começa por afirmar Passos Coelho em entrevista à Renascença.

“Muitas pessoas defendem-se através de expressões mais nacionalistas, mais ditas populistas, mais centradas sobre si próprias, às vezes convencidas de que dessa maneira recuperam o seu passado, a sua soberania sobre as coisas e, infelizmente, isso já não é susceptível de acontecer”, analisa.

E Hillary Clinton também não se afastou muito desse registo, defende Passos. “Nós já não víamos, na disputa norte-americana, ninguém que defendesse um modelo de sociedade aberta, livre, global. Todos acusavam este toque [populista], que é mais exponenciado pelo senhor Trump mas que não estava ausente da senhora Clinton”.

Fonte

United Deplorables of America

Os EUA escolheram ser governados por quem se gaba de fugir aos impostos, ser trapaceiro nos negócios, prejudicar minorias, reduzir as mulheres à condição de fêmeas à disposição do macho e mentir sistematicamente. Podemos concluir com algum grau de certeza que a escolha não foi feita apesar destas características mas por causa delas. A explicação, como já disse o Eduardo Lourenço, está na televisão.

Tal como num outro país numa galáxia distante onde também uma super-vedeta da televisão foi escolhida como presidente principalmente por causa do seu poder mediático, o que a levou a manter esse estatuto quase até ao período eleitoral e a ter feito uma campanha despolitizada e despolitizante de forma a usar a sua fama para levar a luta eleitoral para o terreno da popularidade, assim nos EUA uma vedeta mediática de primeira grandeza entregou-se a um exercício donde sairia sempre vencedora, especialmente se perdesse as eleições ou nem sequer fosse nomeada candidata. O que tinha a fazer era só aparecer no circo da política a fazer o que já estava fartinha de fazer no circo do show business: dar espectáculo. Um tipo de espectáculo que há décadas, séculos e milénios tem ubíqua prática, e que podemos ver perto de nós na sua industrialização máxima com as seitas religiosas de bandeira cristã. O discurso dos pregadores obedece a esquemas testados com milhões de pessoas e apenas tem de ser adaptado a outro conteúdo caso se pretenda usar a fórmula para obter uma audiência no campo político. Foi isso que fez Trump, usando uma retórica maniqueísta e alucinada onde o ódio foi instrumental para o tipo de marketing em causa. A iliteracia e alienação cívica da plateia que se formou para assistir ao seu número alimenta-se de fantasias para consumo imediato, seja um mar que se abre para fugir aos egípcios ou um muro que se levanta para fugir dos mexicanos. Porém, ao contrário de Hitler e quejandos, em Trump não há um pingo de ideologia, antes tudo se limitando ao simulacro, oportunismo e fruição. Ou seja, tudo se oferecendo à descodificação pelos instrumentos cognitivos do seu público, um público que em vez de um político a quem responsabilizamos pelos seus actos e palavras estava mesmo interessado em continuar a ver um palhaço na TV que tem licença para brincar aos racistas, xenófobos, misóginos, tiranos e crápulas. Porque nele tudo é simples, divertido, de final feliz e com repetição garantida semana a semana.

Estas eleições serão estudadas durante anos. Há tantos pontos de vista à disposição quantas as cabeças interessadas em explicar um fenómeno verdadeiramente maravilhoso. Algo equivalente a termos visto Roma invadida pelos bárbaros. Só que aqui a barbárie nasceu da civilização, da democracia, da liberdade, do voto. Essa a maravilha das maravilhas, pois a nação de Lincoln e de F. D. Roosevelt tem todo o direito a inscrever Trump na sua História como representante de um certo tempo e de um certo modo de conceber a comunidade. Trump não é menos legítimo do que Obama. E não é mais legítimo do que quem lhe suceder, quem sabe se já daqui por 4 anos ou menos.

Correu tudo ao contrário do que os Democratas esperaram: a sua celebrada máquina no terreno foi incrivelmente insuficiente, os afro-americanos não se preocuparam em garantir o legado de Obama, os hispânicos não se assustaram com Trump, e as mulheres americanas talvez gostem de tipos com a pinta e os modos dos patos-bravos. Para além disso, a operação russa através do Wikileaks e, em especial, a golpada do FBI mostram que foi preciso reunir este mundo e o outro para derrotar Hillary.

Não, passarão

Donald Trump é um político desqualificado no que diz respeito ao cargo de presidente dos EUA (pelo menos), e fez uma campanha que assumiu e agitou os piores instintos sociais e psicológicos do eleitorado. Nesse sentido, ele é um tangível e real perigo para os valores que associamos à democracia e ao humanismo. Todavia, esta figura não corresponde ao modelo do tirano, pois é evidente nela o enfado que o exercício do poder estatal lhe provoca. Trump não tem ideias válidas, sequer razoáveis ou aparentemente sensatas, para a comunidade porque ele nunca perdeu uma caloria a imaginar o esforço que teria de despender para as realizar.

Em vez disso, Trump tem fantasias. Essas fantasias são rápidas e fáceis de elaborar, tendo a vantagem de não implicarem quaisquer compromissos pois ele começa por acreditar que jamais estará numa posição de sequer poder começar a realizá-las. O que ele procura, portanto, não é um eleitorado mas uma audiência. E para lidar com essa audiência basta alimentar o seu pensamento mágico. Quão mais ignorante e alienada for a audiência, mais impacto e envolvimento geram o pensamento mágico, a fantasia, a pura irracionalidade e as monumentais mentiras.

Em Trump temos o típico pato-bravo com um apuradíssimo talento para a televisão de massas. Ele percebe de tijolos e cimento, fugas ao fisco e aldrabices nos negócios, corrupção moral e luxúria. Não percebe de propaganda, percebe de publicidade. Apenas precisou de criar uma marca sobre outra marca – no caso, é o bilionário que pode dizer qualquer coisa que lhe passe pelo bestunto, tal como faz quando está num estúdio a ser o protagonista desse conteúdo. Com essas competências fez um tremendo sucesso mediático como celebridade icónica que lhe facilitou os negócios da construção. E partiu para a corrida presidencial para se divertir e fazer um golpe de marketing. O caldo de cultura sectária e de instigação ao ódio que o partido Republicano alimenta há anos e anos – no que é um óbvio ciclo de decadência face às mudanças económicas, demográficas e sociais nos EUA – foi a colossal biomassa pronta a ser incendiada por uma retórica para estúpidos. Para muito estúpidos.

Não é com a estupidez que a maioria das pessoas quer ser governada e se quer governar. Este passarão, mesmo que ganhe (pois tudo é possível, até o altamente improvável neste momento), está condenado a desaparecer da cena política como figura relevante em pouco tempo. A invenção da democracia e o caminho feito na dignificação da condição humana mostram que é a inteligência da união no essencial que nos conduz da animalidade para a civilização.

Lá como cá, um pulha é um pulha é um pulha

A situação política nos EUA, à beirinha de umas eleições que estão a deixar meio Mundo atónito perante os números nas sondagens de um candidato absolutamente grotesco e insano como Trump, tem vários aspectos de espantosa similitude com o que se passa em Portugal desde 2008. Essas semelhanças atingiram o pináculo com o historicamente inusitado papel que o FBI assumiu a 12 dias da votação ao enviar, pelo seu director, uma carta ao Congresso onde anunciava que se tinha descoberto mais correio-electrónico relativo às irregularidades de Hillary Clinton nessa matéria. Foi uma bomba que causou gravíssimos danos na campanha Democrata, efeito destrutivo potenciado pelas notícias muito negativas a respeito do ObamaCare que saíram também por essa altura.

A carta de James Comey não explicou o que estava realmente em causa nessa nova informação adquirida pelo FBI, a qual poderá ser completamente irrelevante do ponto de vista legal, o que abriu de imediato espaço para as mais selvagens especulações. Trump e a sua campanha não perderam tempo a usar o espantoso bónus como munição para a continuação do festival de mentiras e calúnias. E as sondagens começaram a cair para o lado Democrata tanto a nível nacional como estadual. Só por isto, a actuação do director do FBI foi vista como uma óbvia judicialização da política dado que o efeito da sua intervenção não foi o de proteger a investigação ou o processo político, antes o de prejudicar um candidato e favorecer aquele que tinha apostado tudo nessa linha de ataque. Para cúmulo, o número circense foi lançado em cima da meta de forma a que nada se pudesse esclarecer até ao fim da corrida.

Nos últimos dias, recuperaram-se declarações onde Rudy Giuliani, um dos mais fervorosos apoiantes de Trump, aparece a gabar-se de saber o que Comey iria fazer dentro de pouco tempo. Mais declarações deste passarão se vierem juntar, anteriores e posteriores ao anúncio gabarola e encapotado da golpada, onde admite à boca cheia que há agentes do FBI a dar informações à campanha de Trump. Em consequência, a tese que agora começa a correr entre alguns comentadores norte-americanos é a de que Giuliani, ou alguém do lado de Trump, poderá ter sido um instigador das forças que dentro do FBI querem afundar Hillary num poço sem fundo de suspeições judiciais de forma a que seja derrotada nestas eleições. Nunca tal degradação do FBI se tinha visto na história das presidenciais americanas.

Qual o paralelo com o que se passa em Portugal desde 2008? É escolher. Ainda antes de o PS ter ganhado as eleições em 2005 que já PSD, CDS e sua máquina mediática apostaram em lançar campanhas negras onde se tentava assassinar o carácter de Sócrates a golpes de calúnias envolvendo a Justiça. O caso Freeport foi lançado em 2004 e explorado a fundo a partir de finais de 2008 e ao longo de 2009. Como sabiam que judicialmente não iriam conseguir apanhar Sócrates enterrado em Alcochete, lançou-se o processo Face Oculta, o qual teve como calendário produzir uma tentativa de envolvimento judicial de Sócrates em cima da pré-campanha eleitoral para as legislativas de 2009. Como tal igualmente esbarrou nas figuras que defenderam o Estado de direito, foi ainda lançada a “Inventona de Belém” em cima das eleições e apenas requerendo a cumplicidade de um jornal para o efeito. Finalmente, em 2014, a Operação Marquês consegue servir para tentar influenciar as eleições do PS para secretário-geral com o artigo da Sábado no final de Julho, pois Seguro e companhia agitavam a bandeira da pureza moral e da incorruptibilidade contra os diabólicos socráticos, e ainda para influenciar o início do ciclo de Costa, com a detenção de Sócrates em Outubro a ter sido preparada para ter impacto mediático máximo e para coincidir a uma semana de distância com o congresso do PS onde António Costa lançaria o ano eleitoral. Depois, e até às eleições de 2015, a Operação Marquês forneceu um caudal de informações e oportunidades para uma sistemática campanha de devassa, deturpação, crimes e estratégia politicamente desenhada pelos órgãos de comunicação social alinhados contra o PS, uns explicitamente e outros como canais de distribuição e amplificação. Como é que sabemos isto tudo? Recorrendo a alguns factos indeléveis e espampanantes, e ainda aos mesmíssimos instrumentos cognitivos e lógicos com que na Judiciária, no Ministério Público e nos tribunais se elaboram hipóteses para investigar e julgar crimes ou meras suspeitas de crimes: cui bono?

Nos EUA não existem pasquins que sejam os órgãos oficiosos de agentes da Justiça criminosos, como acontece em Portugal para gáudio e júbilo de uma direita decadente – posto que as violações ao segredo de Justiça existem e são tratadas pelos responsáveis judiciais e políticos como algo que é impossível evitar, sequer investigar. Para além disso, nos EUA, como se está a ver, também não há cagunfa de dizer o que há para dizer: que é inadmissível pactuar com órgãos policiais e judiciais que ambicionem interferir com a funcionalidade e legitimidade democráticas. Tirando essas diferenças, a pulsão de usar a Justiça para atacar adversários políticos é tão mais forte quão politicamente inanes e indecentes sejam os líderes partidários.

Valupi goes to Governo Sombra

No Governo Sombra do último sábado, e já com uns anos valentes de atraso, o nome “Valupi” entrou em cena. Por nove vezes, envolvendo os quatro participantes, esse famoso pseudónimo foi invocado no programa em clima de festa, rasando o transe báquico. Eis o que ficou verbalizado para a posteridade:

João Miguel Tavares

Valupi, um blogger do Aspirina B, que tem maior devoção a José Sócrates do que a irmã Lúcia a Nossa Senhora de Fátima. Um beijinho para Valupi, se nos estiver a ver lá em casa.

Pedro Mexia

[para o JMT] E um grande fã deste programa!

Carlos Vaz Marques

[para o RAP] O Valupi vai tratar-lhe da saúde...

Ricardo Araújo Pereira

Eu peço desculpa, quer a Max Weber, quer a Valupi, dois vultos da sociologia política.

É fácil detectar variegados graus de imprecisão nestas declarações, fruto da comoção do momento. Quero, todavia, fazer justiça ao sr. Araújo por ter sido o que mais se aproximou de uma afirmação puramente objectiva, factual. Também contou para este triunfo sobre os seus colegas o ter pedido desculpa. Tanto eu como o Max Weber, e talvez ainda mais o Max do que eu, sabemos que este senhor tem boas razões para tal contrição pública.

O sr. Araújo foi protagonista de outro momento que não posso deixar passar; seja no cumprimento da ética protestante, seja em respeito pelo espírito do capitalismo. Foi quando entrou decidido e confiante pelos mistérios cosmoteológicos adentro:

[…] Deus estava certamente a inventar uma constelação nova […]

Sendo cada constelação uma figura mental que junta através de linhas imaginárias algumas estrelas sem necessária proximidade espacial entre si, esta revelação araujiana de se ter apanhado Deus a fazer mais uma constelação tem vastas implicações. Poderá ser a prova definitiva para aceitarmos que Ele está mesmo no meio de nós, por um lado, e que não passa de um cabeça no ar, pelo outro. Quando tiver oportunidade, discutirei com o meu amigo Friedrich Wilhelm a natureza demasiado humana do fabricante de constelações.

Para além destas importantes problemáticas, o programa também exibiu um vídeo onde se podia ver um macaco com um microfone na mão a provocar e insultar um cidadão que já foi ministro, secretário-geral do PS e primeiro-ministro, sendo nesta altura mais falado por ser arguido num processo onde ainda nem sequer sabe se vai ser acusado de alguma coisa depois de já ter estado preso e de ver a sua privacidade devassada através de crimes sistemáticos. O pessoal do Governo Sombra achou muita graça à humilhação registada, equivalente a um linchamento moral, e resolveram dar destaque ao episódio.

Quem sabe, talvez num futuro de médio ou longo prazo ainda vejamos sociólogos, psicólogos e antropólogos a estudar uma sociedade e seus protagonistas mediáticos onde este tipo de violência é não só praticado como cultivado à risada.