Arquivo da Categoria: Valupi

Guerreiros do jornalismo canalha

O “Expresso Curto” é o resultado da hibridização do Expresso em consequência da crescente e irreversível digitalização da imprensa escrita. Ao ter uma edição digital, o que durante décadas foi apenas um jornal semanário passou também a ser um diário. Nesta secção matinal, os principais jornalistas da casa fazem um apanhado daqueles que considerem ser os principais artigos doutros órgãos de comunicação social e do próprio Expresso, apresentando-os de modo opinioso.

No dia 26 de Outubro, Pedro Santos Guerreiro usou o formato para sugerir a leitura de um artigo no Observador onde aparecia identificado o “alegado escritor-fantasma de José Sócrates”. Alegado por quem? O Pedro não se preocupou em explicar, se calhar porque não tinha tempo para continuar a teclar sobre o assunto, se calhar porque considera que a alegação vem de um coro cósmico à sua volta. O certo é que a prosa aonde vamos dar tem a seguinte passagem:

«Seguindo a mentalidade do próprio Sócrates, que divide o mundo entre os que estão com ele e os que estão contra, Domingos Farinho ficou do lado da equipa dos socráticos, contra os adversários que supostamente ‘odeiam’ o ex-primeiro-ministro. Dessa passagem por São Bento ficou, de facto, uma relação forte com Sócrates.

O maior exemplo disso mesmo ocorreu com Farinho fora do gabinete de Filipe Baptista, quando o semanário Sol começou a revelar em 2010 as suspeitas que o DIAP de Aveiro tinha recolhido contra Sócrates no processo Face Oculta. Dizem vários amigos que Farinho foi incapaz de criticar ou questionar o papel do ex-primeiro-ministro na tentativa de controlo da comunicação social. “Ficou ofuscado pela luz”, resume um ex-colega de curso. Outro amigo diz que preferiu, tal como Sócrates, ver uma “cabala” da Justiça” contra o primeiro-ministro que tinha começado o seu governo a lutar contra os privilégios dos magistrados. “Passou a ser impossível falar com ele sobre Sócrates, já que, tal como o chefe, tinha dificuldade em lidar com a crítica”, diz outro amigo.»

O autor é Luís Rosa, aparentemente alguém com carteira de jornalista e que reclama ter-se especializado em jornalismo de investigação. Eis o que ele consegue transmitir nestes dois parágrafos de um artigo que não aparece rotulado como sendo de opinião, antes pretendendo fazer uma exposição de factos:

– Que a “mentalidade” de Sócrates é matéria sobre a qual pode discursar como jornalista.

– Que a “mentalidade” de Sócrates é matéria sobre a qual tem certezas absolutas, embora não revele nem as fontes nem o método da sua investigação.

– Que a “mentalidade” de Sócrates tem como traço essencial uma divisão do “mundo entre os que estão com ele e os que estão contra”, embora não revele nada acerca da investigação que lhe permitiu chegar a essa descoberta.

– Que não é certo que existam adversários políticos de Sócrates que lhe tenham ódio, apesar dos milhares de exemplos à disposição precisamente desse sentimento contra Sócrates veiculado publicamente por figuras com responsabilidades políticas e mediáticas.

– Que o processo Face Oculta recolheu suspeitas legítimas contra Sócrates, apesar das ilegalidades na sua origem ao se ter escutado um primeiro-ministro sem a devida autorização e de Sócrates nem sequer ter sido constituído arguido.

– Que o processo Face Oculta revelou uma tentativa de controlo da comunicação social, apesar de nenhum acto concreto ter sido registado que possa ser objectivamente relacionado com tal suspeita.

– Que as acções e intenções de Domingos Farinho podem ser descritas por terceiros melhor do que pelo próprio, posto que a versão de alguns “amigos” escolhidos pelo autor fica sem contraditório.

– Que Domingos Farinho não tem direito a defender uma interpretação do processo Face Oculta e suas consequências públicas que difira da do autor e dos “amigos” citados. Caso insista nela, então é porque estará diminuído intelectual e/ou moralmente por influência maligna de Sócrates.

Luís Rosa, num padrão típico dos caluniadores, está cheio da peçonha que atribui ao seu alvo. É ele o maniqueísta da peça, usando o seu estatuto de jornalista para se entreter a servir agendas políticas ou perseguições de estimação. Ora, é de presumir que PSG leu o texto na íntegra antes de recomendá-lo. Como responderia se fosse questionado acerca do género a que este deturpado exercício pertence? Será possível ser concebido como “jornalismo de investigação”? Será isto apenas um “artigo de opinião”? E, neste último caso, como catalogar uma opinião tão sectária, fanática e perversa como esta a respeito tanto de Sócrates como de Domingos Farinho? Claro, nunca ninguém apanhará o PSG a explicar a sua cumplicidade.

Não faço a mínima ideia acerca do real papel de Domingos Farinho na concepção e escrita do livro “A Confiança no Mundo”. Para mim, qualquer desfecho é possível, sendo que neste momento estamos perante alguém que reclama estar a ser vítima de difamações e calúnias, versão igual à que o autor do livro assume perante as mesmas acusações. É a versão deles que prefiro, até prova em contrário. Mas faço uma excelente ideia de quem utiliza suspeições para o atacar e, assim, conseguir atingir Sócrates e, finalmente, o PS. Aposto que o PSG também faz uma excelente ideia, embora por outras razões. E daí se ter prestado a servir de difusor e amplificador.

Que restaurante é este?

Kelly Speech after John John world tittle. By Gonçalo Lopes from Surftotal TV on Vimeo.

John John Florence ganhou o seu 1º título de campeão do mundo de surf na semana passada, na penúltima prova do circuito disputada em Peniche. Tal acontecimento despertou um maremoto de felicidade que começou no próprio (podendo ir para a última prova, literalmente em sua casa, sem qualquer ansiedade), passou para a organização e marcas ligadas à indústria do surf (JJF talvez seja o surfista mais valioso para o marketing da modalidade pelo seu estilo desportivo, aparência, história familiar e juventude), e chegou ao turismo de Portugal (a zona Oeste está a tornar-se num lugar de peregrinação mundial para surfistas, por causa de Peniche e Nazaré, fora todo o restante potencial turístico para outros segmentos do mercado internacional – por favor, não estraguem as maravilhas da região como fizeram no Algarve, suas bestas).

No vídeo manhoso acima, vemos Kelly Slater a fazer um brinde ao puto que ele viu crescer desde a infância e a quem ensinou a surfar. Terá sido no último jantar cá em Portugal, talvez no próprio dia em que acabou a prova. Ora, o que pretendo descobrir é simples: que restaurante é este?

Peço aos muitos milhões de utilizadores deste magnífico blogue para saírem de casa, ou faltarem ao trabalho no caso de trabalharem (coisa de que duvido), e se porem à procura do poiso onde estes bacanos fizeram a janta. Trata-se de um assunto da maior importância gastronómica.

Revolution through evolution

Teachers give lower ratings to girls’ math skills when girls and boys have similar achievement and behavior
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New evidence that politics, not economics, drives inequality – Study included data sensitive to rise of the ‘1 percent’
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Psychologist’s study suggests the reason many white Americans support Donald Trump in the 2016 presidential election
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White Supremacist Activity Spikes When Trump Talks Anti-Immigration: Vanderbilt Researcher
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Are The Lives Of The 1 Per Cent Less Lavish Than We Think?
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The universe is expanding at an accelerating rate, or is it?
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Baylor Author Discusses Art Of The Short Story, Recommends Five Scary Tales For Halloween

Da MTV para o YouTube – a convergência dos vídeos musicais

joao-pedro-da-costa-da-mtv-para-o-youtube-a-convergencia-dos-videos-musicais

O nosso João Pedro da Costa, um dos fundadores deste pardieiro e o blogger mais criativo que alguma vez conheci, lançou um livro. Que acontece não ser o primeiro. Um livro nascido do seu doutoramento e que o prolonga. Neste espaço – https://mtvu2b.com/ – é apresentada a obra e disponibilizado o precioso material videográfico de apoio à leitura.

Como feliz proprietário de um exemplar autografado pelo autor, falarei da minha experiência de aprendizagem quando terminar a leitura. Por agora, esta certeza: sendo um estudo erudito sobre os vídeos musicais, trata-se igualmente de uma viagem à história da cultura mediática dos últimos 40 anos (mais coisa, menos coisa, entre outras coisas).

Comprem o livro não porque o meu primo precise do dinheiro mas porque qualquer um de nós precisa de inteligência. E ela sai escandalosamente barata neste caso.

As coisas como elas é

Mauro Xavier, presidente da concelhia do PSD Lisboa, escreveu uma carta aberta a Fernando Medina a propósito de um blogue. A intenção da carta, ao mesmo tempo que recorda à população que nesta direita não há política para além da chicana, é a de denunciar a influência desse blogue na política nacional. Um blogue cujas parangonas invadiam os quiosques e cafés nacionais logo pela fresca, e cujos programas radiofónicos e televisivos com jornalistas de pistola em punho ocupavam as casinhas dos coitados dos portugueses vítimas dessa poderosa propaganda e sujeitos a uma opressão mediática que os cercava e lhes retirava o ar. O ar da liberdade. Esse blogue conseguiu, fruto de um pacto com o Diabo (mas não o de Setembro passado, estamos a falar de um Diabo mesmo diabólico), alterar os equilíbrios de poder no País e foi uma força decisiva em todos os actos eleitorais desde 2005 até 2015.

Faz bem o Mauro em perseguir essa malandragem. Porém, quando este valente descobrir que o Medina trabalha para a glória do Correio da Manhã ainda o veremos a lançar outra carta aberta a pedir a chave da cidade para o actual presidente da Câmara.

Revolution through evolution

Eureka! Gender affects how we judge competence, genius
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Older Men Cling to 1950’s, ’60’s Blueprint of Masculinity
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Debates: Linguistic Trick Boosts Poll Numbers
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Knowingly taking placebo pills eases pain, study finds
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The importance of the amount of physical activity on the risk of developing type 2 diabetes
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Fruit-Rich Mediterranean Diet With Antioxidants May Cut Age-Related Macular Degeneration Risk By More Than A Third – Study is first to show that caffeine could be protective against AMD
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Mortality And Cardiovascular Disease: You Don’t Have To Be An Olympic Athlete To Reduce The Many Risk Factors

Se a hipocrisia pagasse imposto

No Sol, faz-se capa com Sócrates outra vez. Outra vez, não sabemos se o que lá aparece é verdadeiro ou falso. Porém, como noutros casos relativos a notícias acerca de Sócrates, algumas informações nascidas de violações do segredo de justiça, ou obtidas numa qualquer modalidade de acesso aos processos judiciais ou a fontes díspares, acabam por ser validadas como factuais. Exemplo maior, Sócrates admitiu publicamente após ter sido detido e preso que usava dinheiro e património de Santos Silva na forma de empréstimos, quando antes o tinha ocultado e até negado. Talvez um dia venha também a admitir que pediu a Santos Silva para comprar exemplares do seu livro, para dar um outro exemplo legalmente irrelevante se o dinheiro for legitimamente de Santos Silva mas politicamente ponderoso mesmo que não haja crime algum.

Ora, nesta notícia fala-se do blogue Câmara Corporativa e do blogger Miguel Abrantes, um nome que é pseudónimo. É dito que esse blogue e esse bloguista estiveram ao serviço de Sócrates e dos seus Governos através de um esquema de pagamentos mensais. Essa suspeita, na forma de calúnia, foi explorada pela direita decadente logo a partir de 2008, pelo menos. Na altura, e nos anos seguintes, não foi só esse blogue que se constituiu como alvo de ataques políticos ao mais alto nível. Qualquer blogue que ganhasse alguma notoriedade nas suas simpatias pelo Governo, PS ou Sócrates era de imediato carimbado como peça de uma sinistra aparelhagem partidária e governativa. O ridículo da questão, isso de se estar a falar de blogues que são mediática e demograficamente irrelevantes para qualquer desfecho político, não impedia a selvagem campanha de ódio que durou anos. Pelo contrário, eram a diversão perfeita para continuar a apostar tudo na baixa política – e ainda para este tipo de direita desmiolada poder diariamente mergulhar de cabeça na sua paixão funesta por Sócrates.

Até que os próprios o confirmem, ou que as provas de tal sejam tornadas públicas de forma legítima, não acreditarei que o Miguel Abrantes tivesse sido pago para criar e manter o Câmara Corporativa. Porém, caso venha a constatar que estou enganado, tal também não me irá chocar, apenas entristecer. Não me irá chocar porque será uma banalidade se vista historicamente. Que toda a luta política se resumisse a esse tipo de deslealdade cívica e a esse tipo de traição moral, este planeta seria um paraíso. Mas irá entristecer-me porque conspurca a cidade ao introduzir logro no espaço público. Nesse sentido, será o prolongamento da desgraça comunitária que já começou quando Sócrates admitiu não estar à altura do estadista que muitos acreditaram que fosse.

Escrevo sobre este assunto, principalmente, para deixar a seguinte constatação. Que desvairada boa sorte a minha não ter como destino ficar calado quando Cavaco, Passos e Santana recorrem ao pior da política para se agarrarem ao poder pelo poder, e ser cúmplice passivo ou activo de órgãos de comunicação social que fazem dos assassinatos de carácter uma agenda política e um negócio, e depois vir a correr ladrar para a rua porque consta que um fulano num blogue recebeu não sei o quê de não sei quem.

Revolution through evolution

Females React Differently Than Males To Social Isolation
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President Obama’s Vision To Send Americans To Mars Is Underfunded And Unsustainable
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Wild Chimpanzee Mothers Teach Young To Use Tools, Video Study Confirms
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In The Workplace, Incivility Begets Incivility, New Study Shows
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Cocoa compound linked to some cardiovascular biomarker improvements
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Got Mindfulness? Seven Key Steps For Purposeful Daily Living
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Creative staff lead to satisfied customers, says study

José Lello

Nunca falei com ele. Creio que nem sequer trocámos vogais e consoantes numa caixa de comentários, ao contrário do que aconteceu com João Pinto e Castro, falecido a 13 de Junho de 2013 com 62 anos, e Osvaldo de Castro, falecido a 20 de Junho de 2013 com 66 anos, duas pessoas com quem se estabeleceu, embora de diferente modo, um convívio blogosférico feito de simpatia, empatia e admiração.

A ligar as três personalidades nestas palavras está a morte prematura de quem viveu apaixonadamente a política, a cidade e a comunidade. É só isso que conheço deles na distância do nosso convívio. E seria facílimo destacar as diferenças de percurso biográfico, contributo intelectual e tipologia de intervenção cívica. Nada disso importa na comoção do mistério da sua finitude, a nossa.

José Lello deixou como última publicação no Twitter uma ligação para um texto que escrevi em Março deste ano. Isso, para além da mera coincidência, significa que ele não dava, ou já não dava, importância ao canal embora o continuasse a usar para dialogar com outros utilizadores. E significa também que isto de teclarmos sem qualquer preocupação outra que não seja o prazer de pensar e de falar, de pensar ao falar, de falar ao escrever, pode ter os resultados mais imprevistos.*

Adeus, José Lello

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* O ignatz alertou-me para o erro, nascido de um resultado num browser que não tem qualquer relação com o que aparece noutro computador. É um alívio descobrir ter sido enganado por algo cuja explicação, assim que a encontrar, publicarei.

** Está explicado o fenómeno: há dois perfis José Lello no Twitter, e aquele que vi primeiro, pensando que era o único, tem o meu artigo como última publicação. Este bizarro erro não teria acontecido se eu percebesse alguma coisa de como funciona o Twitter, mas não é o caso.

Ainda vamos acabar agradecidos ao Trump

A candidatura de Trump é tão grotesca que damos imediata razão a Mel Robbins, comentadora da CNN, quando escreve isto: “At this point, I believe that Donald Trump, as he has suggested, could actually shoot someone and it would not matter to the 40-45% of Americans who still appear to be voting for him” – The Trump tape doesn’t matter Acontece que estas palavras vieram a público antes do debate, antes de vermos Trump usar quatro mulheres social e mentalmente fragilizadas, tenham ou não tenham razão nas suas queixas nunca provadas contra Bill Clinton, como carne para o seu canhão populista e fascizante. Antes de vermos um candidato presidencial norte-americano, e num debate, a ameaçar de prisão a sua adversária na corrida presidencial caso consiga ser eleito e propondo-se manipular o sistema de Justiça para o efeito. Tal nunca antes tinha acontecido na História não só dos EUA mas da maioria, se não for mesmo a totalidade, das democracias onde esteja em vigor um Estado de direito respeitado pelo sistema político.

Porém, contudo, todavia, há várias facetas do que se está a passar do outro lado do Atlântico que são análogas ao que se passou e passa aqui no rectângulo. O mutatis mutandis é fácil de estabelecer:

– Em 2004 e 2005, o CDS e o PSD aceitaram e promoveram uma campanha de calúnias, apoiada por órgãos de imprensa, onde o secretário-geral socialista ao tempo foi carimbado como corrupto e homossexual.

– Em 2008 e 2009, o CDS, o PSD e o Presidente da República ao tempo alinharam a estratégia para a derrota do PS nas eleições de Setembro de 2009. Essa estratégia passou pelo regresso das calúnias, pelos assassinatos de carácter e pela espionagem de um primeiro-ministro em funções através de uma pessoa das suas relações pessoais com quem mantinha uma comunicação que permitia capturar conteúdos das áreas governativa, política, partidária, económica e pessoal. Tendo falhado por inexistência de provas o plano para constituir Sócrates como arguido numa caso de “atentado ao Estado de direito”, ou que fosse tão-só conseguir levá-lo a prestar declarações ao Ministério Público em cima da campanha eleitoral, foi lançada a “Inventona de Belém” a 5 semanas das eleições, uma réplica exacta, mas em versão cavacal, das “October surprises” americanas.

– De 2009 até hoje, a direita decadente – leia-se, a que não repudia a baixa política e golpadas dos que querem o poder pelo poder – repete a cassete de que Sócrates e o seu Governo foram protegidos pelos Procurador-Geral da República e Presidente do Supremo Tribunal de Justiça ao tempo. Apesar das violações do segredo de justiça e de os documentos do processo estarem agora ao dispor do público, nunca quem calunia e difama estas pessoas e instituições apresenta qualquer prova de ter havido qualquer ilegalidade no arquivamento. A argumentação a que se agarram é irracional, infantil e odiosa. Na sua distorção cognitiva, conseguem apagar o facto de todas as escutas a Sócrates, na sua versão integral, terem estado e continuarem a estar ao dispor das autoridades, dos jornalistas e dos adversários e inimigos de Sócrates e do PS.

– Directamente ligada com a acusação anterior, surgiu em 2011 o discurso de que bastaria mudar uma individualidade na Procuradoria-Geral da República para que tudo o resto mudasse – leia-se: para que Sócrates fosse finalmente engaiolado, juntamente com o seu bando. Essa individualidade dá pelo nome de Joana Marques Vidal e foi a escolha de uma ministra da Justiça que oficializou a nojeira ao comentar o envolvimento de ex-governantes socialistas em processos judiciais recorrendo à expressão “o tempo da impunidade acabou“. Isto é, a PGR estava finalmente descontaminada da corrupção que tinha impedido que esses criminosos fossem apanhados mais cedo.

– Aquando da detenção de Sócrates, um deputado do PSD foi para o Facebook manifestar a sua alegria – “Aleluia!”. Ex-líder da JSD rejubila com detenção de Sócrates – vindo depois a apagar a peça. O que ele fez conseguiu ser, ao mesmo tempo, o achincalhamento moral de um concidadão e ex-governante, a negação do seu estatuto de inocente até prova em contrário, a celebração da judicialização da política, a manifestação de uma barbárie provinciana e o desprezo pelos valores religiosos onde foi buscar a exclamação. Acontece que ele não estava sozinho nos festejos, foi apenas mais estouvado do que muitos dos seus colegas de partido e de facção. Este melro há muito que procurava o supremo consolo de ver Sócrates nas mãos das autoridades policiais e judiciais. Explodiu de prazer com o espectáculo da sua captura.

– Também Passos, depois de ter chegado a presidente do PSD e no aquecimento para as presidenciais de 2011, avançou com a ideia de prender os seus adversários políticos. Foi em Novembro de 2010, e as suas lapidares palavras, à luz do que o seu futuro Governo viria a praticar, são estas: «Quem impõe tantos sacrifícios às pessoas e não cumpre, merece ou não merece ser responsabilizado civil e criminalmente pelos seus actos? Sempre que se falham os objectivos, sempre que a execução do Orçamento derrapa, sempre que arranjamos buracos financeiros onde devíamos estar a criar excedentes de poupança, aquilo que se passa é que há mais pessoas que vão para o desemprego e a economia afunda-se. Não se pode permitir que os responsáveis pelos maus resultados andem sempre de espinha direita, como se não fosse nada com eles.» Este mesmo fulano fez meses depois uma campanha em que prometia tornar Portugal grandioso outra vez, sem ser preciso cortar salários, cortar pensões e fazer despedimentos. Só tínhamos que cortar nas “gorduras do Estado” – ou, indo para o exacto paralelo com Trump, para resolver os problemas da América só é preciso cortar nos mexicanos, nos muçulmanos e, já agora, nos impostos dos mais ricos.

– Igualmente em campanha eleitoral para as eleições legislativas de 2011, foi possível ouvir a Carlos Moedas a sua certeza de que “com as reformas que o PSD vai implementar, eu digo-lhe que ainda vão subir o ‘rating’ de Poertugal, não sei se nos próximos 6 meses, se nos próximos 12 meses“. Esta promessa é de um simplismo mágico que compara ao milímetro com a promessa de Trump de levantar um muro na fronteira do México.

Seria fastidioso listar os restantes exemplos do mesmo propósito populista: usar uma crise económica e social gravíssima para atacar os políticos com responsabilidades governativas numa estratégia de ódio e acirramento da turbamulta. Nesta estratégia, a comunicação social foi decisiva para o clima de caça às bruxas que levou a várias tentativas para conseguir enfiar Sócrates e quem com ele esteve em actividade partidária e governativa numa situação de perseguição judicial. O que faz o Correio da Manhã por sistema, despejando calúnias atrás de calúnias que são criminosas no plano moral e legal, explorando a Lei para violar as leis da República e da comunidade, também em nada se distingue do que fez Trump ao explorar quatro mulheres vítimas não se sabe de que circunstâncias para atacar quem é, para todos os efeitos, inocente das suspeitas e acusações levantadas. E esta marca do desprezo pelo Estado de direito, pela mera decência e pelo valor da palavra, expelindo mentiras com a mesma facilidade com que se dá um aperto de mão, é uma característica em que Passos não está em nada distante de Trump.

Há uma esperança a formar-se, no entanto. A de que este espectáculo de degradação seja o remédio de que precisamos para criar os anticorpos que impeçam que tal se repita seja em que grau e forma for. Se tal acontecer, se sairmos desta desgraça mais fortes, ainda teremos de agradecer a Trump e a Passos por serem como políticos os javardos que são.