[destaque]
Numa Lisboa onde se sabe tudo, onde todos dizem tudo em privado, uma cidade onde não há segredos sobre as vidas dos políticos, nenhum dos envergonhados desconfiou sobre os hábitos de vida de Sócrates?
[parágrafo completo]
Numa Lisboa onde se sabe tudo, onde todos dizem tudo em privado, uma cidade onde não há segredos sobre as vidas dos políticos, nenhum dos envergonhados desconfiou sobre os hábitos de vida de Sócrates, nem se incomodaram com os ataques à liberdade de imprensa, os atropelos ao estado de direito e à partilha de negócios com a banca. Nada disto foi capaz de criar uma única dissidência no PS, uma única voz discordante. Pelo contrário, os “envergonhados” de hoje não pararam de atacar, e com uma violência nada própria de uma democracia, todos aqueles que investigaram Sócrates e que o criticaram e desmascararam. Fizeram esse serviço ao chefe, enquanto beneficiaram do poder que ele conquistou enquanto líder do partido.
João Marques de Almeida – Não foi só Sócrates, também foi o PS
* – *
Este Almeida saiu um porcalhão. A Lisboa que frequenta, da qual fala com embófia, é um antro de coscuvilheiros segundo as suas próprias palavras. Ele rebola-se e chafurda nessa promiscuidade com gosto e proveito. Não há, garante, “segredos sobre as vidas dos políticos” para quem participe no bacanal da tal Lisboa transparente onde a privacidade desapareceu. Logo, inevitavelmente, o Almeida porcalhão saberá tudo sobre a privacidade do Durão Barroso – e podemos concluir, dado ter sido seu assessor durante seis anos na Comissão Europeia, que o dinheiro do BES gasto com o ex-maoista não levantou qualquer suspeita do foro legal ou moral a quem tenta emporcalhar as individualidades que se podem associar relacionalmente com Sócrates. Ou será que o Almeida varreu para debaixo da sua consciência alguma desconfiança descoberta a olho nu só para fazer o servicinho ao chefe e beneficiar, indo para Bruxelas com ele, do poder que Barroso conquistou depois de ter traído o País?
Não demora muito a concluir que a táctica de apontar para as figuras e casos suspeitos do outro lado da barricada, ou do outro lado da cidade, só favorece o infractor. Espalhar um sentimento de derrota cívica, onde se aceita a calúnia como exercício normalizado do confronto político, beneficia aqueles que concebem a democracia apenas como o palco imundo e pérfido da luta sem quartel do poder pelo poder. Foi esse o erro que Daniel Oliveira cometeu no Expresso e no Eixo do Mal, aqui para a justa (embora fraterna) indignação do Pedro Marques Lopes. Posto que nada mais se consegue do que levantar e elencar dúvidas acerca disto e daquilo, deste e daquele, ir por aí adensa o nevoeiro de guerra e revela-se espectacularmente ineficaz, primeiro, e vexantemente indecente, por fim. Moralização porra nenhuma, Daniel, esse exercício é o protótipo da desmoralização comunitária, isso sim.
Porém, colhe usar o sofisma da culpa por associação para analisar a “Operação Marquês” precisamente a partir desse ponto de vista canalha em que se persegue qualquer um que tenha estado ao lado de Sócrates na governação, no partido e na esfera privada. A força desse ataque radica num automatismo cognitivo que emerge na avaliação moral, provavelmente por dinâmica inerente ao instinto de sobrevivência. Sendo a inteligência humana a capacidade de conceber e verbalizar paradigmas, faz sentido antropológico repudiarmos aqueles que estão, ou estiveram, ao lado de quem consideremos uma ameaça ou um alvo a abater. Não se trata só, neste fenómeno, de um comportamento prudente, há também nele um factor de projecção subjectiva em que se imagina ter o outro – inimigo, ou amigo de inimigos, ou apenas um estranho – os mesmos valores e sua vivência que nós temos. Donde, a fulminante e fatal conclusão: “Quem diz que não viu o que eu vi, quem diz que não vê o que eu vejo, só pode estar a mentir.”
Pois bem, aceitemos essa animalesca axiologia. Os mais próximos de Sócrates são responsáveis por não terem denunciado qualquer aspecto negativo que se venha a descobrir por causa da investigação judicial à sua diabólica pessoa. Pergunta seguinte: quem são os mais próximos de Sócrates? Para o pulha, próximos serão apenas aqueles que ele considerar activos e potenciais alvos das suas calúnias e perseguições. Aqueles que mantinham relações profissionais, de camaradagem política, de amizade e de laço familiar com Sócrates. Para o cidadão, do ponto de vista da República e do regime, os mais próximos de Sócrates são as instituições soberanas: Assembleia da República, Presidência da República, Justiça. O pulha não tem apenas pressa em castigar os alvos, ele participa activamente na sua condenação criando e/ou espalhando assassinatos de carácter irracionalizantes e tóxicos – não aceitando que as suas vítimas tenham direito a qualquer tipo de defesa. O cidadão sabe que uma Justiça que tem poder para investigar um primeiro-ministro em funções, que tem poder para o escutar ilegalmente, e que tem poder para fazer do espaço público um aliado de certos promotores e juízes através de crimes, é concomitantemente uma Justiça que provavelmente sabe muito mais acerca de José Sócrates do que a quase totalidade daqueles com quem ele convive. O cidadão sabe que quando a Justiça vaza para o espaço público as versões acusatórias sobre Sócrates que promovem as teses do Ministério Público, quiçá igualmente do juiz de instrução, então muito mais facilmente as faz chegar a actores políticos institucionais e partidários, se calhar muito antes de as fazer chegar à comunicação social, e se calhar com muito mais informações e detalhes a respeito da privacidade do objecto da devassa. Finalmente, o cidadão é obrigado a concluir, se pretender continuar a respeitar a sua inteligência, que a recusa do PSD, CDS e Cavaco Silva, de 2005 a 2011, em denunciarem institucionalmente os homéricos crimes que os pulhas repetem em 2018 terem então ocorrido por mando ou desmando de Sócrates faz com que Cavaco, CDS e PSD tenham de ser considerados cúmplices do Sr. Engenheiro.
Aliás, se Sócrates queria acabar com a liberdade de imprensa em Portugal e foi apanhado ao telefone a planear isso e coisas piores, e se foi Pinto Monteiro quem o protegeu na altura do que seria cana pela certa, então vermos Cavaco, em 2013, a condecorar um ex-procurador-geral da República socrático e criminoso “pela sua entrega à causa pública e ao serviço de Portugal, quantas vezes com prejuízo da sua vida pessoal, com grande dedicação e reconhecido mérito” diz tudo acerca do perfil corrupto desse ex-Presidente da República e chefe máximo da direita decadente nos últimos 30 anos. A autêntica moralização começa pela avaliação do que fizeram aqueles mais próximos dos maiores poderes concedidos pela Constituição.