Os ogres também são vítimas

O caso de Morgan Freeman, agora acusado de assédio sexual por supostas vítimas, junta-se aos de Woody Allen, Kevin Spacey, Louis C. K. e Bill Cosby num aspecto que unifica as diferenças respectivas: todos eles desfrutavam de popularidade máxima em resultado de carreiras brilhantes, sendo marcas que despertavam afecto e admiração, quando foram alvo de suspeitas ou denúncias sobre o seu comportamento sexual. Só neste aspecto? Há mais um: todos são homens.

O exemplo do Freeman é espectacularmente cristalino do que está em causa. Tal como se retrata na investigação da CNN – Women accuse Morgan Freeman of inappropriate behavior, harassment -, investigação que o próprio parece validar ao assumir que os relatos são verídicos no essencial, a sua conduta nos bastidores das produções em que participava era pulsional. Ele não se controlava perante a presença laboralmente submissa e próxima de fêmeas jovens com estímulos eróticos ostensivos (bastando ser um decote ou camisola justa, qualquer coisa que lhe despertasse a reacção), começando a mandar bocas de carácter sexual e a tocar no corpo das mulheres. Na sua defesa, declara que nunca ultrapassou esse nível, garantindo não ter oferecido emprego ou promoções em troca de sexo. Ora, será que este amigo é incapaz de entender o ponto de vista das pessoas que fizeram as queixas? O mais provável é que ele o entenda tão bem ou melhor do que qualquer outro ser bípede e implume que se passeie na Terra. Só que tal, nem a ameaça de um escândalo, o fez ter controlo sobre um apetite que, também provavelmente, estará relacionado com as qualidades mesmas que lhe deram a fama.

O actual movimento de denúncias de abusos sexuais que tem apanhado estas figuras no topo da cadeia de poder na indústria do espectáculo, com obra pública consagrada pelas melhores razões, é historicamente relevante e devemos pugnar para que vá até às últimas consequências: alterar a cultura herdada do cristianismo agostiniano, a antropologia grotesca em que a mulher só podia ser santa ou puta. A condição feminina neste modelo milenar atingia um estatuto paradoxal pelo casamento, onde a mulher legitimada pela Igreja como esposa imitava simbolicamente a virgindade de Maria, aquela que concebeu sem pecado. Também as senhoras casadas se poderiam entregar à fornicação sem que tal fosse meio caminho andado para o Inferno, bastando que, tal como pedia “Santo Agostinho”, o sexo fosse praticado sem desejo. Esta doença civilizacional, típica do regime patriarcal e suas hierarquias e abusos de poder, gerou sucessivas gerações de homens obsessivamente limitados à fruição sexual como caçadores oportunistas. Esperemos que também chegue o dia em que os reconheçamos como vítimas – embora a actual urgência esteja no impedimento de que essas peculiares vítimas poderosas continuem a fazer novas vítimas entre os mais frágeis que encontram no espaço profissional e social.

24 thoughts on “Os ogres também são vítimas”

  1. onde metes os homens que o kevin assediou ? na categoria de esposas virgens? e os modelos masculinos que o outro tipo costureiro , não me alembra o nome , apalpava ? ai aiai

  2. O caso do Woody Allen não é a mesma coisa, tenho muitas dúvidas quanto às acusações e penso que nunca foi condenado nem acusado judicialmente de nada.
    Paralelamente, a esta onda de casos e não por causa deles, começa a existir uma cultura trial by the media em que a presunção de inocência desparece por completo. Passámos do inocente até provado culpado ao culpado até provado inocente e estamos em pleno culpado mesmo que provado inocente.

    “implumes”, porquê? estes gajos são autênticos pavões.

  3. yo, não percebo as tuas perguntas mas a resposta é a seguinte: Kevin Spacey foi denunciado por ter um suposto comportamento sexual predador.
    __

    Joe Strummer, sem dúvida, a situação de Woody Allen é completamente diferente em várias aspectos. Estou a incluí-lo na faceta em que se trata de uma celebridade adorada pelo público apreciador da sua obra, e cuja imagem parece antagónica com qualquer situação de comportamento sexual e até ético impróprio.

    Seja como for, e à excepção dos casos que a Justiça ou os próprios estabeleçam como factos, estamos sempre a falar de suspeitas e não de factos.

  4. Valupi, bah… essa “conversa” não tem pés nem cabeça. Não será mais fácil apagares o nome do Woody do post? Ou tu és Deus, o patriarca sabichão que tudo sabe e para tudo arranja explicação? Tu és só grande, Be a man.

  5. Eheheh ..estás a tornar-te demasiado previsível. O “caso” Woody Allen nada tem a ver com os outros casos e não só pela falta de provas. É um caso que decorre da sua vida privada e não da sua profissão e aproveitamento da mesma para assedio.Alias a sua inclusão nesta lista poderia servir para contrastar as duas esferas e os diferentes tipo de poderes em cada uma.

  6. O Valupi quis legitimar a seguinte questão: que encadeamento particular de circunstâncias, os fanatizados (e educados) pelo zelo da religião desenvolvem ao longo da sua vida? Essa reflexão encontra-se no terceiro parágrafo do texto. Vocês [yo e Joe strummer] estão obstinados pela matéria da natureza do Correio da Manhã. É uma opção, embora pueril e fraca.

  7. Joe Strummer, o caso do Louis C. K. não tem nada a ver com o do Bill Cosby, o do Kevin Spacey não tem nada a ver com o do Morgan Freeman. Daí começar por reconhecer isso mesmo logo na primeira frase. Acaso sabes se o Woody Allen abusou sexualmente de alguém? Desconfio que não sabes, tal como é provável que não saibas nada mais a respeito de qualquer destas figuras para além do que lês.

    Ele, Woody Allen, tem acusações nesse âmbito por actos que permitem atribuir uma qualquer probabilidade às suspeitas. E isso liga-se com o facto de ser homem, o ponto que destaquei no texto como elemento unificador. Foi como homem que começou um relacionamento amoroso com Soon-Yi Previn num contexto de óbvia ambiguidade afectiva e moral.

  8. A minha pergunta deriva de aqui : “alterar a cultura herdada do cristianismo agostiniano, onde a mulher que não seja santa só pode ser puta. A condi…” Ora , como também são assediados homens , não estou a ver o que o “cultivo de santas” tem a ver com o caso .Os homens são predadores por natureza e ponto . Uns abusam da posição tornando mais difícil defender-nos ( o que fazemos bastante bem na maioria dos casos ).

  9. yo, que os homens são predadores por natureza, estamos de acordo. Acontece é que parte dessa natureza pertence à cultura, e é aí que entra o cristianismo agostiniano como um desastre civilizacional. Em vez de se abençoar a sexualidade, a Igreja perverteu a antropologia afectiva e relacional dos povos onde exerceu a sua influência cultural e sociológica. Isso também está relacionado com os homossexuais, embora no texto que escrevi o ponto de união é apenas a celebridade e o suposto comportamento pulsional.

  10. Eduardo R, essa reflexão é clarinha como a água, parte é de um mau exemplo. Obstinado é excessivo.

  11. Também concordo que a visão pecaminosa do corpo e do sexo é um disparate que pode até conduzir a problemas mentais e taras . Por outro lado é também a cultura que lima e trava a impulsividade masculina . Sem freio também não dá. Algures no meio , do pecado e do tudo ao molho , estará a virtude :)

  12. Mas há alguém que nunca tenha assediado ou que nunca tenha sido assediado? Independentemente do nível do assédio ou do nível cultural dos intervenientes.

  13. que ideias tão boas sobre abuso, condicionantes e respectivo direito – e dever – às consequências. se é cultural que entre santas e putas ninguém escapa – também é cultural querer acabar de vez com a cultura e aculturar a contra-cultura. e, depois, aferir a doença mental.

  14. Manojas está certo.
    Esta campanha que só fala de homens assediadores é machista.
    Onde estão as denúncias das assediadoras femininas?
    Igualdade está na ordem do dia. Poder já é no feminino há bué. Direito a tentar a “sorte” também.
    Sem agressão e queixa factual no momento é manobra tardia e oportunista.
    Quem se deixou seduzir seguro que aproveitou do velho código homem/mulher : subida na horizontal.
    O código já é há muito mulher/homem : subida na horizontal.
    A industria que mais usou, abusou e divulgou clichés armada em moralista.
    Repugnante!

  15. “primaveraverão” tem toda a razão.
    Sim, porque também existem as assediadoras femininas, designadamente quando existem relações de hierarquia. E como elas fazem marcação!
    Estas denúncias tardias são oportunistas.
    Até percebo que Morgan Freeman tenha reconhecido alguma culpa, pois ele sabe que fica bem visto.
    À luz do olhar europeu parece claro que os americanos tem pancada.
    Essas campanhas na Europa cairiam no ridículo.
    Muitas mulheres fazem bastante para se exibirem sexualmente. São as formas, são os gestos, são os cheiros, são os toques, são as falas. O que pretendem não é resposta sexual por parte dos homens (ou de outras mulheres)? Ah, queriam respostas controladas tipo marionetas.
    Merecem reflexão os ditames do Islão sobre a exibição do corpo e a separação física homens/mulheres em certos actos do quotidiano, que é dominado pela religião, por oposição aos da cultura ocidental onde não se sente tanto o peso da religião.

  16. O comentario de “eu mesmo” (que passo a resumir : “umas cadelas”) esta bem ao nivel dos dois anteriores, apenas é mais explicito.

    Que eu saiba, o assédio define-se de forma abstrata e não ha nada que impeça que seja cometido por uma mulher, caso em que ela sera obviamente e justamente condenada. Portanto quem protesta contra o assédio sexual não esta de forma alguma a ser sexista ou a esquecer que os homens podem ser vitimas de assédio.

    Mas podemos tratar de clarificar isto num instante com a vossa ajuda. Encontrem-me uns exemplos de condenações de mulheres por assédio sexual, por favor, para juntarmos à lista…

    Boas

  17. “Encontrem-me uns exemplos de condenações de mulheres por assédio sexual, por favor, para juntarmos à lista…”
    Pois! Como nunca fiz queixa, seria complicado. Mas olha lá, aquele tipo do UHF , o Ribeiro, queixou-se duma e julgo que ela foi condenada. Acho que até escreveu livro sobre isso e até li algures que estaria um filme na calha. É aqui que está o problema: há os casos de assédio; e depois há as oportunidades que eles criam.

  18. OK, Alves, presumo que ninguém proibe o tal de Ribeiro de dizer “me too”. Quanto ao resto, não sei se percebi. Estas com medo que @s agressor@s ainda tenham a lata de tirar proveito da coisa vitimizando-se ? Se é isso, compreendo e simpatizo. Estes aproveitamentos cinicos tiram-me do sério. Ainda no outro dia estava a ler um post do Valupi que…

    Boas

  19. às tantas os homens gostam de ser assediados por mulheres e, por isso, são caçados por gosto. é interessante a ideia de que o assédio feito pelo feminino inunde de grandeza o ego – e a fruta – do masculino bem ao contrário do oposto. é o retrato da natureza dos géneros no seu melhor. viva a diferença! viva o assédio que engrandece! :-)

  20. ó linda “o assédio que engrandece!” com este símbolo “:-” à frente é no mínimo muito sugestivo, assério!
    No inicio foi a liberdade depois veio a Igualdade, paridade, e todas as …dades, tudo isto para atingir um fim que afinal é o que qualquer ser humano quer acima de tudo, SUPERIORIDADE. aguardo com muita expectativa pelos próximos capítulos dessa novela hollywoodesca para ver o que dizem elas quando começarem a aparecer os vídeos e audios com a disponibilidade delas a troco duma participação num qualquer filme que pague os seus luxos.

  21. Uma treta. Visão bipolar e redutora hollywoodesca das coisas onde as vitimas e os agressores estão desde logo identificados.

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