A democracia não nasceu da estupidez, foi ao contrário

Quantas pessoas leram os artigos de Augusto Santos Silva, Filhos mais de Kant do que de Hegel, e João Galamba, Filhos de Kant, mas sobretudo de Hegel? E, das que leram, quantas tinham conhecimentos para perceber as referências filosóficas? E, das que conseguiam perceber minimamente as referências, quantas estariam em condições de criticar fundamentadamente as argumentações respectivas? Adorava conhecer esse número. Na sua ausência, vou ter de me contentar com o Paulo Tavares e o Porfírio Silva.

O segundo queixou-se do primeiro, Do horror ao debate ideológico., à pala das seguintes opiniões: Um congresso e uma não questão+O sermão de Costa aos delegados. Calma, vou resumir e poupar 15 minutos de leitura à malta. O Paulo expressou o seu enfado com as intelectualices de alguns socialistas, cuspindo na própria sopa que vende aos fregueses como bem apontou o Porfírio. Para o jornalista, os políticos que percam tempo a discutir o sexo dos anjos devem ser denunciados como inúteis pois o povo só liga ao materialismo quotidiano e caga d’alto nos teóricos nefelibatas. Para o político, que é também um investigador, os jornalistas que atacam com sarcasmos, caricaturas, cinismo e pessimismo a filiação da práxis política numa formação, vivência e reflexão de raiz académica e rigor intelectual estão a empobrecer a democracia. Quem é que tem razão? Ambos.

De modo análogo, Santos Silva e Galamba dividem o reino da racionalidade entre si. O primeiro, fez um texto didáctico onde fala para um leitor mediano a quem baste ter memória e interesse pela política nacional para descodificar as mensagens. O seu foco é o PS, não a filosofia. O segundo, fez um texto analítico onde fala para um leitor especialista em ciência política e que esteja motivado para validar a argumentação. O seu foco é a filosofia, não o PS. O primeiro usa Kant como ilustração, o segundo usa Hegel como ariete. Liberalismo infinito versus progresso absoluto. Sistemas abertos versus sistemas fechados (ou nem por isso, Hegel explica). Aqui a pergunta a fazer é: quem é que não tem razão? Nenhum.

O meu coração pende para o platonismo do Porfírio e para o aristotelismo do Augusto. Apesar de não saber quantos cidadãos leram interessadamente estes textos de intento ideológico (entre outros congéneres relacionados com o congresso do PS), sei que é preferível que existam. Sei que um jornal onde eles apareçam é um jornal que me faz falta. Sei que um partido com recursos humanos capazes de espingardarem em público a respeito de Kant e Hegel é não só um partido intelectualmente diverso como politicamente mais rico do que outros onde apenas se produza propaganda e chicana. É que há muito mais coisas no céu e na terra para além daquelas sonhadas pelo Horácio, pois sim, não vamos é por causa disso começar a estupidificar.

11 thoughts on “A democracia não nasceu da estupidez, foi ao contrário”

  1. Valupi, larga o vinho (e vai chamar estúpidos, olha!, ao Humberto Bernardo, ao São José e aos tipos da tua laia).

  2. sim , que a estupidez e mediocridade nasceram da democracia representativa ( com representantes sem princípios e sem berço ) disso ninguém tem dúvidas , eu, que sou filha de Bacon ( gosto especialmente do Novum Organum -:) ), constato-o todos dias.
    ninguém avisou o prof. silva que a ideologia morreu? o galamba não consigo ler , mas a poesia do prof. silva , sei lá , aquela parte da democracia ser travão da economia de mercado e do capitalismo é de ir às lágrimas.

  3. presente! :-)

    eu gostei de ler e pensar em todos. no entanto, muito resumidamente, a actualidade sugere-me que abraçar um pouco mais a ética na liberdade de Hayek é um bem absolutamente necessário.

  4. A expressao de duas tendecias que sempre existiram no PS embora não reconhecíveis através desta grelha analitica. Podemos ver Kant em Guterres com o seu envolvimento em questões humanistas universais mas também com a sua ligação a Deus.E embora não caiba na narrativa actual foi ele e não Socrates que aderiu à 3ª via.
    A resposta de Galamba foi mais uma reabilitaçao e uma reeleitura de Hegel que tem sido feita utimamente entre outros por Zizek e que será
    incontornável na nova esquerda. É esta dialectica que faz do PS um partido vivo, vital e, simultaneamente, de resistencia aos que querem apagar as luzes.

    A pobreza analitica do jornalista parece ser o resultado de uma impotência.

    Não sei se conheces mas já agora deixo aqui uma sugestão de leitura adequada ao teu dinheiro de bolso. Preço alvo +- 10€
    https://www.wook.pt/livro/a-expulsao-do-outro-byung-chul-han/21685526

  5. Joe Strummer, agradeço a sugestão. Só a partir da sinopse, tenho uma pergunta para te fazer (e parto do princípio que leste o livro): não será o turismo, uma das maiores actividades económicas no planeta, a prova da tese contrária – a de que a diferença do outro acabará por ser defendida e promovida precisamente pelo capitalismo para desfrutar dessa alteridade como consumo?

  6. Ola,

    Isto parece-me a classica e mais que batida querela entre, por um lado, uma visão formalista, idealista, que enche a boca com palavras sem procurar traduzi-las na realidade e, por outro, uma visão substancialista, pragmatica, exigente, que põe a tonica na efectividade dos principios (sem se opor quanto a eles, Hegel é filho de Kant, como é obvio).

    Não tenho a certeza que seja necessario convocar Kant e Hegel para explicar esta oposição, mas não vejo mal nenhum nisso. Em todo o caso, o Galamba (de quem não gosto, por sinal) é que tem razão neste caso, sem sombra de duvidas. O que diz o Santos Silva é muito bonito, muito respeitavel, mas não tem, nem pode ter, rigorosamente nada a ver com um posicionamneto à esquerda. Ora o PS reclama-se da esquerda…

    Boas

  7. Sim já fiz uma primeira leitura que estou a digerir mas tenho que voltar a ler com mais calma.

    Do que eu apreendi;
    No sistema neoliberal o turismo que, evocas e bem, é hoje uma viagem pelo identico, não existe nenhuma transformação nem dor que é necessária à alteridade. O que existe sim é a diversidade e autenticidade (comparação identificadora) já que a alteridade é aversa a qualquer aproveitamento economico. A sociedade de consumo aspira a a eliminar a alteridade em proveito das diferenças consumiveis.

    Acho que vale a pena leres este ou qualquer outro livro do Byung-Chul Han.Alias este livro tem inumeras citações e conceitos de outros filosofos como Kant que o autor aproveita para desenvolver e enquadrar nos suas proprias reflexões. Não sei o que é que tem o ar da Alemanha, mas lá pensa-se melhor:)

  8. Creio que a generalidade dos leitores dos artigos em causa, limitaram-se a extrair
    a conclusão de que existem diferentes interpretações ideológicas no PS o que, será
    salutar para o partido … sem aprofundar o tema por falta de bases para o fazer!
    Os eleitores são mais pragmáticos nas apreciações que, fazem das acções políticas
    dos partidos, para além da sua matriz ideológica o importante é sentir um efeito
    benéfico dessas políticas!!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.